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Porque o cérebro tem mais dificuldade com pensamentos inacabados durante o inverno.

Pessoa escreve num bloco de notas com chá, telemóvel e janela de inverno ao fundo.

Às 16h17 de uma terça-feira de janeiro, dei por mim de pé na cozinha, a olhar para a chaleira como se ela me pudesse lembrar do que eu estava a pensar há segundos. Lá fora, o céu já tinha virado aquele cinzento-azulado chapado que parece mais noite cerrada do que fim de tarde. Eu sabia que havia algo que tencionava fazer - enviar uma mensagem, verificar um formulário, apontar uma ideia - mas o pensamento escorregara, deixando apenas uma comichão inquieta no peito. A água estava a ferver, o telemóvel estava na minha mão, os distintivos de notificações brilhavam a vermelho e, mesmo assim… nada. Só aquela estranha estática mental que nos faz sentir ligeiramente avariados.

Se isto lhe soa familiar, não está sozinho. Muita gente relata em silêncio que, no inverno, a mente se sente “inacabada” - como um navegador com demasiados separadores abertos, todos a carregar, nenhum a fechar. Os pensamentos começam mas não assentam. Os planos arrancam mas ficam ali, meio construídos, a insistir em segundo plano. E o mais estranho é que parece acontecer mais quando os dias encurtam, a luz desaparece e o frio se instala. Porque é que o inverno faz com que o nosso cérebro se agarre a pensamentos por acabar como aquele e-mail a que prometeu responder “mais tarde”?

A névoa mental de inverno que não larga

Todas as estações têm os seus clichés: o verão tem o “cérebro de férias”, a primavera tem as alergias, o outono tem tudo com sabor a abóbora. O inverno fica com um título menos apelativo - névoa mental. Não aquela versão dramática, incapacitante, de que se lê em fóruns médicos, mas uma bruma mais suave e familiar. Entra numa divisão e esquece-se do motivo. Abre as mensagens e cansa-se só de as ver. Começa uma frase e depois perde-lhe o fim algures perto do cabide.

Há, no entanto, algo específico no inverno que não nos faz apenas esquecer; faz com que os pensamentos inacabados persistam. Sabe que estão lá. Quase os sente a pairar, como aquele livro meio lido na mesa de cabeceira. Vai mentalmente buscá-los e volta a perdê-los, o que é uma espécie de tortura de baixa intensidade. O cérebro não diz apenas: “Enfim, paciência.” Diz: “Espera, havia qualquer coisa…” e repete o loop, uma e outra vez.

Todos já tivemos aquele momento em que estamos na cama às 23h49, a rever o dia e a pensar: o que é que me esqueci? A mente faz uma varredura rápida ao trabalho, à família, às contas, às mensagens, àquele comentário aleatório de um colega, e mesmo assim não consegue agarrar o fio em falta. Sente-se cansado, mas estranhamente inquieto. Não é simplesmente stress. É a sensação de uma frase inacabada que devia completar, sem a mínima ideia de qual era a última palavra.

Porque é que a escuridão puxa pelos seus pensamentos

O inverno é um ladrão de luz. No Reino Unido, há dias inteiros em que o céu nunca chega verdadeiramente a clarear; fica apenas ali, num “um bocadinho menos escuro”. Essa perda de luz não mexe só com o humor. Interfere com o relógio do corpo - o ritmo circadiano - que, por sua vez, se infiltra na forma como pensamos. Hormonas como a melatonina (sono) e a serotonina (estável, focada, vagamente okay com a vida) mudam com a estação, e o cérebro reescreve discretamente as próprias regras.

Quando o seu relógio interno fica desalinhado do mundo lá fora, o seu “timing” mental também sai um pouco do sítio. Começar um pensamento e terminá-lo é um jogo de tempo. Precisa de alerta suficiente para manter a ideia na cabeça e de calma suficiente para a levar até ao fim. O inverno, muitas vezes, tira-lhe as duas coisas ao mesmo tempo. Sente-se exausto e acelerado, cansado mas estranhamente irrequieto. Os pensamentos acendem-se e depois apagam-se, deixando para trás um eco mental a que o cérebro volta, tentando completar o processo.

Os cientistas falam de como a pouca luz e os dias mais curtos estão associados a quebras sazonais na função executiva - o painel de controlo do cérebro para planear, organizar e manter o foco. É o mesmo “equipamento” que usa para terminar uma tarefa ou concluir um pensamento. Quando esse sistema está em modo de baixa potência, as ideias não fixam bem. Formam-se a meio, ficam à porta e nunca entram totalmente na sala. O resultado: uma sensação mais forte de “eu estava mesmo agora a pensar numa coisa” sem a satisfação de se lembrar do quê.

O efeito Zeigarnik: porque é que o cérebro detesta pontas soltas

O cérebro tem uma particularidade que fascina psicólogos há quase um século. Chama-se efeito Zeigarnik, em homenagem à psicóloga lituana Bluma Zeigarnik, que reparou que os empregados de café se lembravam melhor de pedidos ainda não pagos do que daqueles que já estavam resolvidos. Assim que uma tarefa ficava concluída, a memória desvanecia-se. Enquanto estava por acabar, o cérebro agarrava-se a ela como um cão a um osso. Afinal, as nossas mentes estão “programadas” para dar atenção extra ao que fica por resolver.

Você já conhece esta sensação. Aquele e-mail a que ainda não respondeu. O projeto que ia começar. A mensagem que começou a escrever e deixou a meio porque não sabia bem o que dizer. As coisas inacabadas ocupam mais espaço mental do que as concluídas, e continuam a bater à porta da sua atenção. É por isso que se lembra mais vivamente do emprego a que não se candidatou do que dos dez a que se candidatou.

O inverno amplifica isto de forma sorrateira. Quando está com pouca energia, é mais provável deixar coisas a meio: cozinhas meio arrumadas, mensagens meio escritas, decisões meio formadas. Cada uma destas pontas soltas envia um sinal ao cérebro: “Ainda aberto. Ainda pendente.” Quanto mais o ambiente o empurra para a hesitação e o cansaço, mais ciclos abertos cria. O resultado é uma mente cheia de fios soltos que nunca se atam - e por isso ficam apenas… a zumbir ao fundo.

Inverno, preocupação e a “comichão” mental dos pensamentos por acabar

Há diferença entre esquecer algo e não ser autorizado a esquecê-lo. Os pensamentos inacabados vivem nesse meio-termo desconfortável. Não se lembra dos detalhes, mas também não os consegue largar. Esse intervalo entre “eu sei que havia qualquer coisa” e “não consigo lembrar-me do que era” é onde a ansiedade de baixa intensidade gosta de se instalar e desfazer as malas.

Os dias curtos e as noites longas dão mais espaço a essa ansiedade. Quando já está escuro às 16h, o dia parece encurtado, o que pode desencadear uma sensação furtiva de “não fiz o suficiente”. E isso não se aplica apenas à sua lista de tarefas, mas ao seu próprio pensamento. Não resolveu aquela conversa. Não decidiu o que fazer em relação àquela coisa no trabalho. Não escolheu datas de férias nem respondeu àquele amigo. O cérebro começa a tratar pensamentos como tarefas por fazer, o que significa que ficam etiquetados como “urgentes” mesmo quando não são.

Eis a verdade desconfortável: o inverno dá-nos mais tempo para ruminar e menos energia para resolver. Sai do escritório, atravessa o ar frio, sente aquele leve misto de asfalto molhado e fumos de autocarro e, em vez de se sentir livre, a mente começa a rever todos os separadores inacabados. Não com clareza, mas com uma dor surda. Sabe que algo precisa de atenção, mas tudo parece exigir esforço a mais, e por isso carrega o peso de pensamentos por resolver sem o alívio de agir.

Quando o mundo lá fora encolhe, o de dentro fica mais alto

Nos meses mais claros, os pensamentos inacabados são muitas vezes abafados pelo ruído: planos sociais, noites longas, caminhadas de regresso a casa ainda com luz do dia. O inverno tira muito disso. O mundo fica mais pequeno. Passa mais tempo dentro de casa, na própria cabeça, rodeado pelas mesmas quatro paredes e pelo sussurro lento dos radiadores. A vida torna-se mais próxima, mais estreita, um pouco mais ecoante.

Quando o nosso mundo físico encolhe, o mundo mental tende a expandir-se. Repara mais no monólogo interior. Repete conversas antigas no duche. Ensaia discussões futuras enquanto mexe uma panela de sopa. Aquela ideia incompleta da manhã volta a aparecer quando lava a cara à noite, fora de alcance mas muito presente. É como viver com um rádio ligeiramente fora da estação: o sinal está lá, mas a estática nunca desaparece por completo.

Sejamos honestos: ninguém faz realmente aquela rotina calma e diária de “vou sentar-me e processar os meus pensamentos como um monge sereno” que os guias de bem-estar recomendam. A maioria de nós empurra os pensamentos para o lado até eles exigirem atenção - normalmente tarde da noite ou no segundo em que o telemóvel fica sem bateria no comboio. O inverno apenas remove mais distrações que nos ajudam a evitar esse acumular interno. Pode não estar a lembrar-se de mais pensamentos por acabar; pode simplesmente estar a ouvi-los com mais nitidez no silêncio.

O papel do cansaço, da tecnologia e desse “logo” interminável

O cansaço de inverno é uma categoria à parte. Pode dormir oito horas seguidas e ainda assim acordar a sentir que lhe trocaram o sangue por papas de aveia. Essa pesadez importa, porque terminar um pensamento exige só um pouco mais de esforço mental do que iniciá-lo. Decidir, enviar, comprometer-se - tudo isso vive no fim de um pensamento. Quando está cansado, é muito mais fácil ficar a pairar no começo.

Junte-se a tecnologia e tem a tempestade perfeita. Abre o Instagram para enviar uma mensagem e, três Reels depois, já não se lembra para que pegou no telemóvel. Abre o portátil para escrever um relatório e uma notificação puxa-o a meio da frase. Cada interrupção cria mais um ciclo aberto na sua cabeça: um pensamento por acabar, uma ideia meio processada. O inverno não inventa isto, mas deita-lhe gasolina. Dias mais curtos significam, muitas vezes, enfiar mais tarefas em menos tempo - mais interrupções, mais coisas meio feitas, mais desordem mental.

Há também a mentira silenciosa que muitos de nós contamos mais frequentemente nos meses frios: “Faço isso mais tarde, quando tiver mais energia.” O “mais tarde” torna-se uma espécie de aterro mental para todos os pensamentos adiados. Empurra-os para lá para resolver “um dia”, mas o cérebro não acredita em si. Lá no fundo, sabe que “mais tarde” é código para “na verdade, não”. Por isso mantém esses pensamentos em circulação - pendentes, incompletos, a picar-lhe no autocarro de regresso a casa sob um candeeiro a piscar.

O peso emocional das pequenas coisas inacabadas

É tentador tratar os pensamentos inacabados como pequenas chatices, como migalhas na bancada da cozinha. Mas, no inverno, podem parecer inesperadamente pesados. A mensagem não enviada a um amigo. A decisão que continua a evitar. A ideia criativa que esboçou a meio e abandonou porque tudo parecia um pouco inútil e cinzento. Cada uma destas coisas traz uma pequena carga emocional: culpa, arrependimento, saudade, tédio, incerteza. Num dia luminoso e ocupado, essas cargas mal se notam. Em janeiro, sozinho no sofá às 21h, soam mais alto.

Há também aquela melancolia subtil de inverno, a que nem sempre admitimos. Não é depressão em grande escala; é mais uma corrente de ar emocional que entra pelas bordas. Talvez tenha acabado o ano com grandes planos. Talvez tenha prometido “pôr a vida em ordem” em janeiro. Depois, a realidade das manhãs frias e da escuridão cedo embota-lhe o brilho. Os pensamentos inacabados tornam-se pequenos lembretes da distância entre a vida que imaginou e a vida que está realmente a viver. Não de forma dramática - apenas com aquele suspiro pequeno e pesado que solta quando fecha o frigorífico e percebe que ainda não fez uma compra de comida a sério.

Uma das coisas mais estranhas do inverno é que consegue fazer até pequenas falhas cognitivas parecerem defeitos de carácter. Esquece-se do que ia dizer e pensa: “Porque é que eu sou assim?” Perde o fio da sua própria ideia e, de repente, duvida das suas capacidades, do seu foco, do seu potencial. A verdade é que o seu cérebro está a tentar fazer o melhor possível em condições que simplesmente não são ideais para clareza ou fecho. Não é uma falha moral. É biologia, luz, humor e vida a chocarem entre si.

Dar aos pensamentos de inverno um sítio onde aterrar

Externalizar o que está por acabar

Os nossos cérebros não foram feitos para armazenar um número interminável de pensamentos meio concluídos. Foram feitos para notar, decidir, agir e seguir em frente. Uma forma simples de aliviar o “acumular” do inverno é dar a esses pensamentos um lugar fora da sua cabeça onde possam ficar. Uma app de notas sem cerimónia, um caderno barato, o verso de um envelope ao lado da chaleira - não importa muito. O ato de capturar um pensamento inacabado em palavras, mesmo de forma rudimentar, costuma dar ao cérebro permissão para relaxar um pouco.

Não precisa de um sistema perfeito. Precisa apenas de uma porta. Em vez de “tenho de me lembrar disto mais tarde”, experimente uma linha rápida: “Mensagem ao Sam sobre sábado”, “Perguntar ao chefe sobre datas de férias”, “Pesquisar curso de fotografia de inverno”. O pensamento continua inacabado, sim, mas agora está estacionado. O cérebro tende a tratar tarefas escritas como mais “contidas” do que a insistência vaga interna. Parte da comichão mental alivia porque reconheceu o pensamento em vez de o deixar a rodopiar.

Pequenos fechos numa estação de ciclos abertos

O outro antídoto gentil é o micro-fecho. O inverno muitas vezes mata-nos o apetite por tarefas grandes e ambiciosas, mas pode ser surpreendentemente simpático para as pequenas. Responda a uma mensagem, não a todas. Termine um parágrafo, não o relatório inteiro. Lave dois pratos, não o lava-loiça todo. Cada coisa micro-terminada sussurra ao cérebro: “Vês? Conseguimos acabar coisas.” Esse pequeno sentido de competência baixa o volume da consciência constante de tudo o que ainda está pendente.

Há uma bondade silenciosa em aceitar que o inverno não é a estação do seu cérebro mais afiado e claro. É a estação de um foco mais suave, de uma memória mais lenta, de pensamentos que parecem mais nevoeiro do que feixes de laser. Dentro disso, ainda pode criar pequenas ilhas de conclusão - decisões minúsculas, ações simples, conversas curtas realmente terminadas. Esses momentos funcionam como âncoras, impedindo a mente de se afastar demasiado para o mar do “eu estava a pensar numa coisa…” sem nunca encontrar a margem.

O estranho conforto de saber que não é só consigo

Talvez a parte mais aliviadora de tudo isto seja perceber que a sua mente de inverno não está avariada. Essa consciência estranha e tremida de pensamentos que não consegue bem agarrar tem raízes na forma como os cérebros humanos estão construídos e como reagem aos meses escuros e frios. Níveis de luz, relógios biológicos, hormonas, preocupação, ambiente - tudo puxa pelos fios do seu pensamento. O resultado parece confuso e pessoal, mas é, na verdade, profundamente partilhado.

Da próxima vez que se der por si na cozinha, com a chaleira a assobiar, a olhar para o nada e a saber que perdeu um pensamento algures, talvez se sinta um pouco menos sozinho. Algures, um desconhecido noutro pequeno apartamento húmido do Reino Unido está a fazer o mesmo, a semicerrar os olhos para o telemóvel, a tentar lembrar-se de porque é que o pegou. Os pensamentos inacabados vão continuar a aparecer, especialmente no inverno. Mas perceber porque se agarram, porque zumbem mais alto nesta altura do ano, dá-lhes um contorno um pouco mais suave.

Não está a falhar por o seu cérebro ter dificuldade em acabar as frases em janeiro. Está a viver com uma mente que detesta pontas soltas, numa estação que cria mais delas do que o habitual. E, quando vê isso, tudo parece menos um defeito pessoal e mais aquilo que é: um emaranhado temporário e sazonal que se vai desatando, silenciosamente, um pequeno pensamento concluído de cada vez, à medida que a luz volta devagar.

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