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Terapeutas alertam que este padrão de pensamento “inofensivo” é mais prejudicial para a motivação do que a falta de sono.

Mulher escrevendo num caderno em mesa de madeira com uma chávena de café, telemóvel e plantas ao fundo.

A sala estava cheia e em silêncio, tirando o zumbido baixo dos portáteis e o ocasional gole de café frio. Um workshop de produtividade numa manhã de terça-feira, daqueles a que as pessoas vão meio esperançosas, meio exaustas. No slide atrás da terapeuta, surgiu uma única frase em letras pretas enormes: “Vou começar quando me sentir mais preparado(a).”
Algumas pessoas riram. Outras mexeram-se nas cadeiras. Uma mulher na primeira fila pareceu, de repente, prestes a chorar.
A terapeuta sorriu, sem maldade, e disse: “Este é o pensamento que, em silêncio, lhe está a roubar a vida.”
Depois disso, ninguém voltou a pegar no telemóvel.

O pensamento “inofensivo” que esvazia a sua bateria

A maioria de nós acha que a motivação se escoa porque nos deitamos tarde, trabalhamos demais, ou passamos tempo a mais a fazer scroll. Mas os terapeutas estão a observar algo mais estranho: um hábito mental que parece suave, quase razoável, mas que deixa as pessoas a atravessar os dias como se a bateria interna estivesse presa nos 9%.
Esse hábito tem uma banda sonora simples: “Vou começar quando me sentir mais preparado(a).”
Disfarça-se de autocuidado, de paciência, de gentileza consigo próprio(a). No entanto, sessão após sessão, os clínicos dizem que esta frase pequena e silenciosa aparece mesmo antes de as pessoas bloquearem, adiarem e entrarem em espiral.
O pensamento soa a descanso. Comporta-se como areia movediça.

Uma terapeuta de TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental) em Londres a quem falei chama-lhe procrastinação por permissão emocional. Espera-se por um certo “clima interno” antes de agir: mais confiança, mais clareza, menos medo.
Veja-se o Aaron, 34 anos, gestor de marketing, que chegou à terapia a insistir que o seu problema era “puro esgotamento”. Dormia oito horas na maioria das noites. As análises vieram normais. O consumo de café era razoável.
O que ele fazia, constantemente, era parar. Antes de enviar e-mails, esperava “sentir-se por cima do assunto”. Antes de ir ao ginásio, ficava no sofá até “a motivação aparecer”.
No fim da semana, não tinha trabalhado mais nem menos. Apenas se tinha drenado à espera.

Os psicólogos explicam assim: o cérebro aprende com aquilo que associamos repetidamente. Se a ação só acontece quando nos “sentimos prontos”, o cérebro conclui que a prontidão é combustível indispensável.
Então, nos dias em que nos sentimos inseguros, aborrecidos ou pouco confiantes - ou seja, na maioria dos dias humanos - a mente acende uma luz vermelha: “Ainda não é seguro começar.” Essa luz vermelha consome energia sempre que aparece.
Não está apenas a enfrentar a tarefa. Está a lutar com o seu próprio sistema interno de “permissão”, como tentar conduzir com o travão de mão meio puxado.
O resultado é um desgaste duplo: nada avança e a autoconfiança desfaz-se. Deixa de acreditar que consegue agir a partir de um estado neutro ou com pouca energia.

De “vou começar quando me sentir pronto(a)” para “vou começar e depois logo vejo”

Os terapeutas não tentam apagar este pensamento. Ensinam as pessoas a passar por ele. Um método simples que usam parece quase demasiado básico: ação primeiro, sentimento depois.
Em vez de esperar para se sentir pronto(a), escolhe-se o que eles chamam uma “ação de arranque” que demora menos de dois minutos. Abrir o documento, calçar os sapatos, rascunhar um e-mail de três linhas.
A mudança crucial é esta frase: “Tenho permissão para começar mesmo sem me sentir preparado(a).”
Não se trata de se forçar a uma disciplina heroica. É fazer uma experiência pequena e gentil. E repeti-la vezes suficientes para o cérebro perceber: a prontidão pode vir depois da ação - não tem de vir sempre antes.

Muitos clientes esperam que isto se sinta empoderador. Quase nunca é assim no início. Sente-se estranho, até um pouco falso, como falar uma língua de que só se lembra pela metade.
Por isso, os terapeutas recomendam apontar para a “motivação mínima viável” - só o suficiente para mexer os dedos, não a alma. Em manhãs de pouca energia, isso pode significar trabalhar cinco minutos e depois decidir se continua.
Um grande erro, dizem, é transformar isto num teste de perfeição: se não fizer o treino inteiro ou o relatório completo, rotula-se de falhanço e volta a cair na espera-pela-prontidão.
Ao nível humano, essa mentalidade de tudo-ou-nada magoa mais do que qualquer prazo falhado. Numa semana má, pode convencê-lo(a) de que “está estragado(a)”.

Uma terapeuta colocou assim:

“O seu cérebro não precisa que se sinta poderoso(a). Só precisa de provas de que consegue mexer-se mesmo quando se sente instável.”

Esse é o ponto de viragem emocional. Em vez de tratar o mau humor ou a dúvida como um sinal de stop, trata-os como ruído de fundo. Continuam lá, só que já não mandam.
Para que isto não fique apenas teórico, muitos clínicos pedem aos clientes que criem uma lista simples de “ações sem prontidão” que conseguem fazer em piloto automático:

  • Abrir o portátil e fechar todos os separadores que não sejam de trabalho
  • Ir até à porta de casa com as sapatilhas na mão
  • Escrever uma frase feia no topo da página
  • Enviar um e-mail “imperfeito mas enviado” em vez de um “perfeito por isso não enviado”

Porque este pensamento parece gentil - e bate mais forte do que a falta de sono

Os especialistas do sono raramente o dizem em voz alta, mas a falta de sono nem sempre mata a motivação de forma tão dramática como imaginamos. Muita gente aguenta seis horas e continua a fazer coisas, pelo menos durante algum tempo.
O que destrói a vontade de começar não é só o cansaço. É a mensagem diária e silenciosa: “Não podes confiar em ti a menos que primeiro te sintas perfeito(a).”
No papel, “vou esperar até me sentir pronto(a)” soa cuidadoso, como dar tempo a si mesmo(a). Por baixo, reforça a crença de que o seu estado atual - ansioso(a), confuso(a), inseguro(a) - é inaceitável.
Assim, o cérebro começa a tratar o desconforto normal como perigo. E evitar perigo é um trabalho exaustivo.

Todos já tivemos aquela noite em que ficamos no sofá, telemóvel na mão, a dizer a nós próprios que nos levantamos “daqui a cinco minutos, quando recuperar um bocado”. Vinte reels depois, sente-se pior, não melhor.
A investigação sobre humor e esforço confirma isto: quando as pessoas atribuem tarefas a “precisar do humor certo”, o desempenho e a persistência caem, mesmo quando os níveis reais de energia são razoáveis.
Os terapeutas veem isto em casais também. Um parceiro espera “sentir-se mais amoroso” antes de iniciar uma conversa difícil, a tensão vai fervendo e ambos começam a duvidar da relação.
O atraso ensina, silenciosamente, que sentimentos difíceis e ação com significado não podem coexistir. Essa crença pesa muito mais do que uma noite curta de sono.

Há ainda um ângulo de estatuto, sorrateiro. Muitos “high achievers” acreditam em segredo que a motivação “a sério” devia chegar como uma onda de clareza e impulso. Quando não chega, sentem vergonha e recuam.
Como me disse uma psicóloga clínica, as pessoas que mais sofrem com este padrão raramente são preguiçosas. Muitas vezes importam-se profundamente e têm padrões elevados.
Por isso, o fosso entre como acham que uma pessoa motivada deveria sentir-se e como realmente se sentem torna-se uma fonte de auto-crítica crónica. Esse comentário interno - e não a carga de trabalho - é o que as esgota.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Dar a si próprio(a) um tipo diferente de permissão

Hoje, os terapeutas falam mais de “permissão para ser mediano em movimento”. Parece pouco glamoroso. Funciona.
Dá-se a si próprio(a) permissão explícita para aparecer a 40% e deixar os primeiros passos serem desajeitados. Em vez de tentar sentir motivação, tenta criar “arranques de baixo atrito” em todo o lado onde for possível.
Isto pode significar guardar o trabalho em partes ridiculamente pequenas, para reentrar com facilidade. Ou decidir que qualquer treino acima de cinco minutos “conta”, ponto final.
Com o tempo, a sua identidade muda ligeiramente, quase sem se notar: de alguém que espera pela prontidão para alguém que consegue agir estando indeciso(a), cansado(a) ou moderadamente miserável.

Um medo comum é que isto faça com que se force em tudo e ignore o corpo. Os terapeutas são diretos: o descanso não é o inimigo. A vida adiada é.
Por isso, muitas vezes pedem aos clientes que programem descanso planeado, em vez de se deixarem cair num descanso acidental enquanto esperam “ter vontade”. Dez minutos a cair na cama com o telemóvel, sem culpa, pode ser mais energizante do que uma hora de meio-descanso, meio-preocupação.
Quando as pessoas começam a separar “depleção genuína” de “ainda não me sinto bem”, fazem escolhas mais certeiras. Deitam-se cedo quando precisam. Fazem ações minúsculas quando não precisam.
A culpa começa a largar as garras.

Como me disse uma especialista em trauma num pequeno escritório por cima de uma rua comercial barulhenta:

“Os nossos sistemas nervosos foram feitos para se moverem mesmo com medo, tristeza ou incerteza. Isso é o que a coragem é - não um sentimento, mas um padrão de comportamento.”

Ela vê esta mudança como uma rebelião silenciosa contra as mentiras da cultura do hustle, mas também contra as promessas da cultura do bem-estar de que o “mindset certo” vai aparecer por magia.
Para manter essa rebelião prática, eis o tipo de micro-kit que os terapeutas desenham com os seus pacientes:

  • Escolher uma “ação sem prontidão” de manhã e repeti-la diariamente durante uma semana
  • Usar uma frase-gatilho como “posso começar de forma imperfeita” mesmo antes de agir
  • Agendar blocos de descanso, não intervalos vagos do tipo “descanso quando estiver de rastos”
  • Escrever três coisas que fez mesmo sem se sentir preparado(a), para reeducar a autoimagem

O conforto silencioso e perigoso de esperar

Quando começa a reparar, nota este pensamento em todo o lado. Em mudanças de carreira adiadas durante anos. Em livros meio escritos. Em amizades que desvanecem porque ninguém “está no estado de espírito certo” para responder.
Os terapeutas não o demonizam; sabem que muitas vezes cresce a partir de experiências passadas em que forçar demais era genuinamente prejudicial. Proteger-se parecia sobrevivência.
Mas, a certa altura, a mente esquece-se de atualizar a regra. O que antes era autoproteção torna-se auto-adiamento. O custo aparece como uma tristeza baça de fundo - uma sensação de que a vida está a acontecer ligeiramente ao seu lado.
A motivação não desaparece num colapso dramático. Evapora-se, um começo adiado de cada vez.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O padrão “espero até estar pronto(a)” Um pensamento aparentemente benevolente que condiciona a ação a um estado interior perfeito Dá nome a um bloqueio discreto mas frequente
Ação antes de sensação Introduzir “ações sem prontidão” com menos de dois minutos Oferece um método concreto para sair da espera
Permissão para ser mediano em movimento Reduzir padrões para conseguir começar na mesma Alivia a pressão e restaura a confiança em si

FAQ

  • Como sei se estou realmente demasiado cansado(a) ou apenas à espera de me sentir pronto(a)? Se funções básicas parecem difíceis (manter-se acordado(a), formar frases), isso é fadiga real. Se consegue fazer scroll, ruminar e preocupar-se, mas “não consegue começar”, provavelmente está preso(a) no ciclo da prontidão.
  • Agir sem motivação vai piorar a minha saúde mental? Se for feito com gentileza e em passos muito pequenos, normalmente ajuda, porque constrói autoconfiança. Se estiver muito deprimido(a) ou se não se sentir em segurança, fale com um profissional antes de se pressionar.
  • E se o meu trabalho exigir muita qualidade e não “ação imperfeita”? A qualidade continua a importar. O truque é usar arranques imperfeitos para ganhar movimento e depois refinar quando já está em andamento, em vez de esperar pelo humor perfeito para entrar.
  • Este padrão de pensamento também pode afetar relações? Sim. Esperar para “estar totalmente calmo(a) ou amoroso(a)” antes de falar, pedir desculpa ou definir limites faz com que muitas conversas nunca aconteçam.
  • Quanto tempo demora a mudar este hábito? Muitas pessoas notam uma mudança em duas semanas se praticarem diariamente ações pequenas. A reconfiguração total demora mais, mas cada “ação sem prontidão” é um voto num futuro diferente.

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