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Se alguém usa esta frase num argumento, psicólogos dizem que é um grande sinal de narcisismo.

Mulher escreve em caderno enquanto olha para o telemóvel à mesa, com chá e notas presentes.

It usually starts as something small.

Uma mensagem tardia, um comentário estranho ao jantar, a sensação de que a conversa, de alguma forma, se virou contra si mesmo(a) mesmo que só estivesse a tentar explicar como se sentia. O peito aperta, as palavras ficam presas na garganta e, de repente, é você quem pede desculpa por soar “sensível demais”. A outra pessoa recosta-se, de braços cruzados, e larga uma frase que lhe faz o estômago cair - uma expressão que vira a realidade do avesso e o(a) deixa a duvidar da sua própria mente.

Mais tarde, nessa noite, fica deitado(a) na cama a repetir a discussão. Pergunta-se se reagiu em excesso, se é você a pessoa dramática, se realmente “inventou tudo na sua cabeça”. A parte estranha é que, à superfície, nada do que a outra pessoa disse soa obviamente cruel. Até parece quase razoável. Mas há qualquer coisa naquela frase que continua a meter-se debaixo da pele.

Os psicólogos dizem que, se alguém usa esta frase consigo num momento mais acalorado, não deve simplesmente deixar passar - porque pode ser um sinal de alerta claro e bem visível de narcisismo.

A Frase Que Distorce a Realidade

A frase é enganadoramente simples. A meio de uma discussão, quando está a tentar explicar como o comportamento da outra pessoa o(a) magoou, ela diz:

“Isso nunca aconteceu - estás a imaginar coisas.”

Às vezes soa mais suave, como “Estás a lembrar-te mal” ou “Estás a pensar demais, não foi isso que eu disse.” As palavras em si podem soar calmas, quase racionais, mas o efeito é discretamente brutal.

O que realmente se passa é uma tática psicológica chamada gaslighting. Em vez de lidar com o que você viveu, a outra pessoa apaga isso completamente. A sua realidade não é apenas desvalorizada; é reescrita. Num minuto está a descrever algo que foi duro e real; no minuto seguinte está a perguntar-se se a sua própria memória é fiável.

Todos já saímos de uma conversa a pensar: “Espera… estarei a enlouquecer?” Essa é muitas vezes a sensação que o gaslighting deixa. E quando alguém faz isto com frequência - especialmente com cara séria e zero curiosidade pelo seu lado da história - isso aproxima-se perigosamente de um comportamento narcisista.

Porque É Que os Narcisistas Adoram Esta Frase

Personalidades narcisistas desejam controlo. Não apenas controlo sobre planos ou decisões, mas controlo sobre a narrativa do que está a acontecer. Quando as coisas correm mal, não pode ser culpa deles. Quando você está magoado(a), não pode ser por algo que eles fizeram. Então recorrem a uma frase que apaga por completo a sua versão dos acontecimentos: “Isso nunca aconteceu - estás a imaginar coisas.”

Os psicólogos dizem que esta frase é poderosa porque ataca a base de qualquer relação saudável: a realidade partilhada. Em desacordos normais, duas pessoas podem ver as coisas de forma diferente, mas ainda assim aceitam que algo aconteceu e partem daí. Com um narcisista, admitir a sua realidade significaria aceitar nem que fosse um bocadinho de responsabilidade - e esse é um preço que raramente pagam de livre vontade.

Em vez de se aproximarem para compreender, afastam-se e negam. Podem até parecer ofendidos(as) ou divertidos(as), como se você lhes tivesse dito que o céu ficou roxo. Esta encenação não é aleatória. Vai ensinando, devagar, que a sua memória, os seus instintos, as suas emoções não são de confiar. E isso torna-o(a) mais fácil de gerir da próxima vez.

O Tom Calmo Que o(a) Faz Duvidar de Si Próprio(a)

Há outra camada que torna esta frase especialmente arrepiante: a forma como é dita. Muitas pessoas com traços narcisistas marcados não gritam. Dizem-na com leveza, quase entediadas. “Isso nunca aconteceu, estás a imaginar coisas.” Sem elevar a voz, sem bater portas. Só um encolher de ombros frio e talvez um pequeno suspiro, como se fosse você a fazer drama desnecessário.

Essa calma pode fazê-lo(a) questionar-se ainda mais. Ouve a sua própria voz a ficar mais tensa, o coração a bater mais forte, e pensa: “Se calhar estou mesmo a exagerar, se eles estão tão tranquilos.” Mas a calma deles não prova a verdade; apenas mascara a manipulação. É como se estivessem a reescrever o guião em tempo real enquanto você ainda está na cena anterior.

Como Esta Frase Se Insinua em Discussões do Dia a Dia

Este tipo de negação normalmente não começa em grande. Entra aos poucos em momentos comuns. Você pode dizer: “Prometeste que me ligavas quando lá chegasses, e não ligaste.” E eles respondem: “Eu nunca disse isso, estás a imaginar.” Ou você fala de uma piada que fizeram e que magoou, e eles dizem: “Eu nunca disse isso, estás a inventar.” Cenas pequenas, frases rápidas - mas cada uma vai minando a sua confiança.

No início, pode resistir. Procura mensagens antigas, confirma a memória, pergunta a um amigo: “Eu contei-te aquilo?” Está a tentar manter-se ancorado(a). Mas se isto acontece repetidamente, chega um dia em que deixa de discutir e começa a duvidar. O seu cérebro, silenciosamente, arquiva as coisas em “Talvez eu tenha entendido mal” só para manter a paz.

Sejamos honestos: ninguém sai destas trocas a sentir-se ouvido(a). Sai a sentir-se menor, um pouco tonto(a), talvez envergonhado(a) por se ter emocionado tanto. Eles saem com a versão deles confirmada, com o ego intacto e a história sem contestação. Esse desequilíbrio é precisamente o que faz os psicólogos levantar uma sobrancelha quando ouvem esta frase ser usada com frequência.

Gaslighting vs. Um Simples Desacordo

Nem todo o “Eu não me lembro assim” é narcisismo em força total. As pessoas lembram-se mal das coisas. Esquecemo-nos de compromissos, confundimos datas, recordamos conversas de forma diferente. Isso é humano. A diferença está no que acontece a seguir, quando surge a divergência sobre a memória.

Uma pessoa não narcisista pode dizer: “Sinceramente não me lembro de ter dito isso, mas se disse, lamento que te tenha magoado.” Ou: “É claro que nos lembramos disto de forma diferente - conta-me mais sobre como te sentiste.” Pode continuar confusa, ou até defensiva, mas os seus sentimentos continuam em cima da mesa. A realidade é algo que ambos estão a tentar reconstruir, não algo que a outra pessoa possui por completo.

O Padrão de Sinal Vermelho

O sinal de alerta está no padrão. Se alguém diz muitas vezes “Isso nunca aconteceu - estás a imaginar coisas”, e diz precisamente quando está a ser responsabilizado(a), isso é um aviso. Especialmente se notar outros comportamentos ao lado disso: transferência constante de culpa, uma sensação grandiosa de ter sempre razão, uma estranha falta de remorso genuíno.

Os psicólogos olham menos para uma discussão e mais para o clima emocional ao longo do tempo. Sente-se mais confuso(a) do que antes? Pede mais desculpa? Sente que anda em “bicos de pés” à volta da versão deles sobre “o que realmente aconteceu”? Quando a frase vira hábito, deixa de ser sobre discordância e passa a ser sobre controlo.

O Sabor Emocional Que Fica: Dúvida, Vergonha, Silêncio

Pense em como se sente logo a seguir a alguém lhe dizer: “Isso nunca aconteceu - estás a imaginar coisas.” Não apenas irritado(a), mas um pouco instável. A mente corre por imagens e fragmentos de tempo: a mensagem que se lembra de ler, o olhar que a outra pessoa lhe lançou na cozinha, o tom de voz que doeu. Segura essas memórias como fotografias, a verificar se parecem falsas.

Muitas vezes vem uma vergonha rastejante a seguir. Começa a preocupar-se que o problema seja você - sensível demais, emocional demais, “dramático(a)”. Diz a si próprio(a) para deixar passar, para não ser tão intenso(a), para “escolher as batalhas”. É um tipo silencioso de auto-silenciamento, e não acontece de um dia para o outro. Acontece a cada pequena negação, cada vez que a sua realidade é varrida como pó de uma mesa.

Ao longo de meses ou anos, essa vergonha pode endurecer em algo mais pesado: isolamento. Deixa de trazer assuntos à conversa porque já sabe como vai acabar. Começa a autocensurar-se antecipadamente. Nessa altura, a frase já nem precisa de ser dita em voz alta - você aprendeu a dizê-la a si mesmo(a).

Porque Dói Tanto Quando Vem de Alguém Que Ama

Se um estranho lhe dissesse que está a imaginar coisas, provavelmente encolhia os ombros e seguia em frente. Quando vem de um(a) parceiro(a), pai/mãe, amigo(a) próximo(a) ou chefe em quem confia, corta mais fundo. São as pessoas em quem nos apoiamos para dar sentido à vida. Quando olham nos seus olhos e lhe dizem que a sua experiência não aconteceu, o chão treme um pouco.

Há também uma traição escondida dentro dessa frase. À superfície, soa como uma divergência sobre memória. Por baixo, é uma recusa em entrar no seu mundo por um momento e sentir o que você sentiu. Essa falta de empatia - essa recusa em sequer tentar - é o que liga esta frase de forma tão forte a traços narcisistas. Diz, em alto e bom som: “A minha versão dos acontecimentos importa. A tua não.”

Para algumas pessoas, isto é a infância toda outra vez. Talvez tenham crescido com um pai ou mãe que dizia sempre: “Deixa de imaginar coisas, não foi isso que aconteceu”, sempre que choravam ou se queixavam. Ouvir a mesma frase agora, em adulto, pode reabrir feridas antigas - a mesma sensação pequena e apertada no estômago, a mesma vontade de ficar calado(a).

Como É Uma Resposta Mais Saudável

Então, como é que soa uma discussão mais saudável, especialmente em torno de memórias complicadas e sentimentos feridos? Muitas vezes começa com curiosidade em vez de certeza. Alguém pode dizer: “Eu realmente não me lembro de ter dito isso, mas vejo que estás magoado(a). Podemos falar sobre isso?” A sua experiência não é apagada; é convidada a entrar, mesmo que a outra pessoa sinceramente não se recorde do momento exato.

Isto não significa que a outra pessoa tenha de concordar com tudo o que você diz. Significa apenas que respeita que o seu mundo interior é real, mesmo quando colide com o dela. Pode perguntar: “Quando é que eu disse isso?” ou “Como é que te sentiste quando eu fiz isso?” Em vez de fechar a porta à sua realidade, abre uma janela.

Relações fortes não evitam sempre discussões; atravessam-nas sem queimar o mapa partilhado do que realmente aconteceu. E, às vezes, as palavras mais corajosas que vai ouvir são: “Não me lembro exatamente, mas acredito em ti.”

Se Ouve Esta Frase Muitas Vezes, O Que Pode Fazer?

Se reconhece esta frase na sua vida e sente o peito a apertar um pouco enquanto lê, não está sozinho(a). Muitas pessoas vivem durante anos em relações onde esta frase é tão comum que se torna ruído de fundo. O primeiro passo é simplesmente reparar nela e dar a si próprio(a) permissão para a levar a sério.

Quando voltar a acontecer, pode tentar responder com firmeza e calma: “Pode não parecer importante para ti, mas é assim que eu me lembro, e a minha experiência importa.” A reação pode ser reveladora. Alguém que se importa consigo pode parar, repensar, fazer perguntas. Alguém preso em padrões narcisistas pode insistir, revirar os olhos, ou virar a conversa contra si com um “Lá estás tu outra vez.”

O seu trabalho não é provar a sua realidade para lá de qualquer dúvida. O seu trabalho é honrar o que sente e o que sabe, mesmo que a outra pessoa se recuse a entrar nesse espaço consigo. Às vezes isso significa procurar apoio junto de um(a) amigo(a), terapeuta, ou até simplesmente escrever o que aconteceu num caderno para voltar a ver os seus próprios pensamentos com clareza.

Aprender a Voltar a Confiar na Sua Própria Mente

Uma das tragédias silenciosas do gaslighting repetido é que ele rouba a confiança em si próprio(a). Por isso, a cura muitas vezes começa em gestos pequenos, quase banais: escrever as coisas à medida que acontecem. Notar padrões. Dizer a si próprio(a): “Eu sei o que senti quando isto aconteceu, mesmo que eles neguem.” Pequenas âncoras para se manter firme em águas agitadas.

Pode dar por si a repetir discussões, a tentar perceber se calhar eles tinham razão, se calhar você imaginou. Essa dúvida não desaparece de um dia para o outro. Mas cada vez que escolhe ficar do lado da sua memória, do seu instinto, tapa mais uma fuga no barco. Lembra-se de que não está “louco(a)” por querer que a sua versão dos acontecimentos conte.

Nenhum amor saudável precisa que apague a sua realidade para sobreviver. Discussões, sim. Mal-entendidos, claro. Mas não um fluxo constante de “isso nunca aconteceu - estás a imaginar coisas” sempre que a dor aparece. Quanto mais reconhecer esse sinal vermelho, menos poder ele tem para, em silêncio, controlar a sua vida a partir das sombras.

E talvez, da próxima vez que alguém largar essa frase numa conversa, sinta aquela picada familiar - e depois uma voz nova, mais firme, dentro de si a dizer: Eu estive lá. Eu lembro-me. Eu posso acreditar em mim.

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