Sam mexeu-se na cadeira pela quinquagésima vez nessa manhã, a tentar encontrar uma posição em que as ancas não parecessem de betão. A lista de tarefas gritava por atenção, mas tudo o que conseguia pensar era naquele beliscão surdo e insistente na parte da frente das ancas sempre que se levantava. Ao caminhar até à máquina de café, o passo parecia normal, mas por dentro tudo se sentia apertado e mais velho do que devia.
Mais tarde, no espelho do elevador, reparou em como o corpo se tinha adaptado em silêncio: bacia inclinada para a frente, zona lombar arqueada, ombros arredondados - como se a cadeira ainda estivesse à volta dele. Tinha apenas 34 anos, mas as ancas mexiam-se como se fossem de alguém vinte anos mais velho. O mais estranho? Não tinha “feito” nada para se magoar. Só se sentou. Muito.
Essa é a armadilha silenciosa.
O dano escondido de se sentar sobre as ancas
A maioria das pessoas acha que a rigidez dos flexores da anca é coisa de corredores e viciados no ginásio. Na verdade, pertence a qualquer pessoa que passe o dia dobrada numa cadeira. Os flexores da anca são os músculos que elevam os joelhos e permitem dobrar a anca; quando se está sentado, ficam encurtados, hora após hora, como um elástico preso a meio esticado. Levanta-se depois de uma reunião longa e sente aquele puxão subtil na frente da bacia? São eles, a queixarem-se.
O corpo adapta-se ao que faz mais vezes. Se “o que faz mais vezes” é estar sentado com as ancas a 90 graus, os flexores decidem discretamente que essa é a nova normalidade. O resultado é essa mistura estranha de rigidez, beliscão e dor lombar que aparece ao fim de um dia ao computador ou de um voo longo.
Um fisioterapeuta com quem falámos em Londres descreveu a sala de espera às 17h num dia de semana. “Parece a hora de ponta num espaço de co-working”, riu-se. “Jovens profissionais com hoodies de tecnologia, gestores de marketing com portáteis ainda nas mochilas, todos a entrarem a coxear com dores ‘misteriosas’ na anca e nas costas.” Um inquérito de 2022 da Chartered Society of Physiotherapy, no Reino Unido, estimou que os adultos passam agora, em média, 9 horas por dia sentados, sem contar com o sono. Nove horas com as ancas presas na mesma posição flectida, cinco dias por semana, durante anos.
Pense numa viagem longa de carro. Ao fim de duas horas na autoestrada, sai e as pernas estão rígidas, o passo encurtado. Agora imagine isso, mas em câmara lenta, estendido ao longo de uma década de vida de escritório e noites de Netflix. É isto que está a acontecer aos seus flexores da anca - discretamente, em segundo plano.
Eis a lógica que o seu corpo segue: músculos constantemente encurtados começam a perder comprimento. O seu cérebro aprende que “apertado” é seguro e que “totalmente estendido” é arriscado. Por isso, quando se levanta ou tenta fazer um afundo, as ancas resistem. A bacia inclina-se para a frente, a zona lombar arqueia em compensação e, de repente, a coluna está a fazer o trabalho que as ancas deviam fazer. É por isso que a rigidez dos flexores da anca não se sente apenas como desconforto na parte da frente das ancas. Muitas vezes surge como aquela dor persistente e teimosa na lombar que não desaparece com alongamentos aleatórios.
Quando a postura muda, cada passo torna-se uma negociação entre ancas apertadas, glúteos cansados e uma coluna sobrecarregada. A boa notícia é que a mesma lógica de “adaptação” que criou o problema também pode ser usada a seu favor.
A rotina de 10 minutos que destrava os seus flexores da anca
A rotina que melhor combate estar sentado não é sofisticada. É aborrecida como escovar os dentes: simples, repetível, silenciosamente poderosa. Pense em 10 minutos, três movimentos, todos os dias em que se senta mais de quatro horas. Comece com um alongamento suave dos flexores da anca em afundo: um joelho no chão, o outro pé à frente, formando um ângulo de 90 graus. Em vez de se inclinar agressivamente para a frente, mantenha o tronco alto e, devagar, faça uma retroversão da bacia, como se estivesse a fechar umas calças demasiado apertadas.
Vai sentir o alongamento na parte da frente da anca da perna que está com o joelho no chão. Mantenha 30–40 segundos, a respirar devagar, e depois troque de lado. A seguir, passe para um “couch stretch” baixo, com a canela de trás encostada a um sofá ou parede para aprofundar a abertura. Termine com um alongamento em “quatro” deitado (figure-four) de costas, para que os glúteos e a parte externa das ancas também entrem na conversa. É um pequeno ritual que diz ao seu corpo: calma, não vamos ficar presos ao modo sentado para sempre.
Numa terça-feira chuvosa em Manchester, vi uma designer de produto chamada Leah fazer exatamente esta rotina na pequena sala de ioga do escritório partilhado. Tinha começado depois de um momento assustador nas escadas, quando a anca bloqueou a meio de um passo. “Tenho 29, não 79”, brincou - mas via-se a preocupação por trás. Criou um lembrete recorrente no calendário às 15h30 chamado “Destravar as ancas” e convidou a equipa para haver compromisso.
Na primeira semana, admitiu que falhou dois dias por causa de “reuniões”. Na segunda semana, o manager juntou-se. Na quarta semana, já havia três pessoas no chão a fazer alongamentos de afundo meio desajeitados entre goles de café. A mudança mensurável? A Leah passou de fazer caretas ao levantar-se depois de longas revisões de design para sair do escritório sem aquele primeiro passo rígido, tipo robô. Sem milagres. Apenas 10 minutos silenciosos por dia em que, finalmente, as ancas conseguiam endireitar por completo.
Do ponto de vista fisiológico, esta rotina funciona porque atua tanto nos músculos como no sistema nervoso. Manter alongamentos longos e relaxados de 30–60 segundos ajuda a convencer o cérebro de que é seguro permitir mais comprimento nos flexores da anca. Aquela retroversão da bacia no afundo? Coloca a bacia numa posição mais neutra, atingindo músculos profundos como o psoas e o reto femoral, em vez de estar apenas a “puxar” a parte da frente da coxa.
Também importa combinar o alongamento do flexor com um alongamento do glúteo. Estar sentado não encurta só a frente das ancas; também coloca os seus músculos “potência” - os glúteos - em modo de espera. Quando abre a frente e depois acorda a parte de trás, restaura o equilíbrio à volta da articulação da anca. Com o tempo, isto significa que as ancas se movem mais livremente, a lombar não está sempre a entrar como plano B, e movimentos simples como subir escadas ou levantar-se do sofá deixam de parecer pequenas negociações.
Como fazer a rotina funcionar na vida real
A parte mais subestimada desta rotina não são os ângulos - é o contexto. Fazê-la logo a seguir ao seu maior bloco de tempo sentado no dia dá ao corpo um sinal claro de “reset”. Se trabalha ao computador, isso pode ser a meio da tarde, quando tudo começa a pesar e a concentração escorrega. Transforme esses 10 minutos numa mini-pausa: levante-se, afaste-se do ecrã e vá para um canto, uma sala de reuniões, até para o corredor ao lado das casas de banho.
Comece com uma ronda: afundo à esquerda e à direita, couch stretch à esquerda e à direita, figure-four à esquerda e à direita. Foque-se em expirações lentas, relaxando o maxilar e os ombros para o alongamento não virar uma luta. Ao longo de algumas semanas, pode aumentar suavemente cada posição para 60 segundos. Aqui, a consistência vence a intensidade. Os seus flexores da anca não ficaram rígidos num dia; também não vão destravar numa sessão heroica de alongamentos.
A maioria das pessoas tropeça nos mesmos erros. Inclinam-se agressivamente no afundo, sentem “mais alongamento”, mas na verdade estão a colapsar a lombar. Esquecem-se de manter as costelas alinhadas sobre as ancas, e o alongamento vai para o sítio errado. Ou só fazem a rotina nos “dias maus”, quando a dor já está alta, e depois desistem porque o problema volta sempre.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A vida acontece, chamadas de Zoom prolongam-se, as crianças acordam cedo e o tapete fica enrolado no canto. Está tudo bem. Aponte para uma promessa realista consigo: quatro dias em sete. Dois minutos são melhores do que zero. Faça a rotina ser flexível o suficiente para sobreviver à vida real, em vez de existir apenas numa fantasia perfeita de bem-estar.
“As suas ancas lembram-se do que faz mais vezes, não do que faz de vez em quando”, diz o fisioterapeuta desportivo Daniel Rees. “Se se senta oito horas e alonga oito minutos, pode não parecer muito, mas ao longo de meses o seu corpo vai mudar discretamente na direção daquilo que repete.”
Para facilitar essa mudança, trate os alongamentos como uma pequena marcação diária com o seu eu do futuro. Crie pistas simples à volta disso, para não depender da motivação todas as vezes.
- Ligue a rotina a um hábito que já tem: depois do primeiro café, depois do almoço, ou antes do duche ao fim do dia.
- Mantenha um tapete de ioga ou uma toalha dobrada visível perto da secretária, em vez de escondido num armário.
- Use um temporizador recorrente no telemóvel com um nome que o faça sorrir, como “Voltar a andar como um ser humano”.
- Alongue com roupa normal; calças de trabalho ou leggings costumam servir.
- Se falhar um dia, recomece no seguinte - sem culpa, sem histórias de “agora estraguei tudo”.
Deixe as suas ancas reescreverem o seu dia
Quando começa a prestar atenção, os flexores da anca rígidos aparecem em todo o lado. Na forma como sobe escadas ligeiramente virado para fora. Na hesitação subtil antes de se levantar do sofá. Na maneira como viagens longas de carro o deixam a arrastar os pés quando finalmente pára na estação de serviço. Quando a rotina faz o seu trabalho lento, são estes pequenos momentos que começam a mudar primeiro.
Pode não acordar uma manhã com “ancas perfeitas”. O que nota, em vez disso, é que os primeiros passos ao sair da cama parecem menos dobradiças a ranger e mais um deslizar fácil. Reuniões longas castigam menos. Caminhar até à paragem de autocarro deixa de parecer uma obrigação e começa a parecer um reset. É a magia estranha de trabalhar uma parte do corpo em que quase nunca pensamos até ela gritar.
Num nível mais profundo, soltar as ancas tem uma forma de transbordar para o resto da vida. Um corpo que se move livremente tende a pedir mais movimento. Pode dar por si a escolher o caminho mais longo para casa, a dizer que sim a uma caminhada improvisada, ou a alongar enquanto a chaleira ferve em vez de fazer scroll. É pequeno, mas muda a narrativa de “o meu trabalho está a destruir o meu corpo” para “o meu corpo e o meu trabalho estão em conversa”.
Todos já tivemos aquele momento em que nos levantamos ao fim de um dia longo, sentimos aquele golpe de rigidez e pensamos: “Isto é só envelhecer?” Não tem de ser o seu padrão. Uma rotina simples, imperfeita, quase aborrecida de 10 minutos pode ser um pequeno ato de rebelião contra uma cultura que pede às suas ancas que fiquem dobradas durante a maior parte do tempo em que está acordado. E isso é algo que vale a pena partilhar com as pessoas que se sentam ao seu lado, dia após dia.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Rotina em 10 minutos | 3 exercícios simples para fazer em sequência após os seus períodos mais longos sentado | Solução realista para integrar num dia cheio |
| Postura da bacia | Retroversão ligeira da bacia e tronco direito para atingir os verdadeiros flexores da anca | Evita agravar a zona lombar e maximiza a eficácia do alongamento |
| Regularidade em vez de intensidade | Objetivo de 4 dias em 7, com posições de 30–60 segundos por lado | Cria uma mudança duradoura sem pressão nem perfeccionismo |
FAQ
- Com que frequência devo fazer esta rotina de flexores da anca para sentir diferença? A maioria das pessoas nota mudanças ao fim de 2–3 semanas a fazê-la pelo menos 4 vezes por semana, especialmente se passa várias horas por dia sentada.
- É normal sentir o alongamento na coxa em vez de mais fundo na anca? Sim; isso normalmente significa que os quadríceps também estão rígidos. Foque-se em manter o tronco direito e em fazer uma retroversão suave da bacia para “subir” o alongamento.
- Esta rotina pode substituir o ginásio ou caminhar? Não. É mais manutenção: ajuda as ancas a mexerem-se melhor para que caminhar, treinar e as atividades diárias sejam mais fáceis e seguras.
- E se sentir dor aguda enquanto alongo? Reduza imediatamente, diminua a amplitude da posição e, se a dor persistir, fale com um fisioterapeuta ou profissional de saúde antes de continuar.
- Preciso de equipamento ou roupa especial? Só precisa de um pouco de espaço no chão e de algo macio debaixo do joelho (por exemplo, uma toalha); roupa confortável do dia a dia costuma ser suficiente.
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