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Psicólogos afirmam que acenar discretamente para os elevadores, esperando que cheguem mais rápido, está ligado a certos traços de personalidade.

Mulher pensativa a usar telemóvel em frente a botões de elevador numa parede branca.

O jovem de fato cinzento está há trinta segundos inteiros a carregar no botão de chamada.

Tem o maxilar contraído, a mala do portátil enterra-se-lhe no ombro e os números por cima da porta do elevador parecem congelados no tempo. Ao lado dele, uma mulher de ténis levanta a mão e faz ao elevador um aceno pequeno, quase tímido. Não ao botão. Às próprias portas. Como se cumprimentasse um velho amigo atrasado.

Ele repara, muda o peso do corpo, esboça meio sorriso quando as portas se abrem com um ding suave. Por um instante estranho, olha para ela como se ela pudesse controlar o edifício em segredo. Ela entra, imperturbável, como se o seu pequeno ritual tivesse funcionado mais uma vez. Ele segue-a com um “obrigado” resmungado, não completamente a brincar.

Esse aceno minúsculo parece ridículo, sem sentido, pura superstição. No entanto, os psicólogos dizem, discretamente, que ele revela muito mais sobre a personalidade de alguém do que gostaríamos de admitir.

O que o seu aceno ao elevador revela, discretamente, sobre si

O aceno em si é pequeno. Um movimento dos dedos, uma meia elevação da mão, um gesto dirigido a uma máquina que não o consegue ver. A maioria das pessoas ri-se disso, se sequer reparar. Ainda assim, quando começa a estar atento, deixa de conseguir “desver” a frequência com que aparece em escritórios, hotéis, hospitais, parques de estacionamento subterrâneos.

Olhe com atenção e os “acenes” partilham muitas vezes a mesma aura. Flutuam entre a impaciência e a brincadeira. Odeiam sentir-se presos. Gostam de sentir que estão a empurrar o mundo para a frente, mesmo de formas parvas. Os psicólogos chamam-lhe um “comportamento de micro-controlo”: um ato minúsculo e simbólico que dá ao cérebro uma sensação de influência onde ela não existe.

Num espaço de cowork em Londres, uma investigadora de comportamento com quem falei fez uma contagem informal durante três semanas. Registou 312 esperas por elevador nas horas de ponta. Cerca de uma em cada seis pessoas, concluiu, fazia algum tipo de gesto sem função para o elevador: acenar, chamar com a mão, bater no aro da porta, falar com ele em voz baixa. O que a surpreendeu não foi só quantas pessoas o faziam, mas quem.

Aqueles cujos trabalhos dependiam de respostas rápidas - comerciais, profissionais de emergência, alguns jornalistas - acenavam ou gesticulavam mais frequentemente. Viviam em ambientes onde os segundos contam, os e-mails apitam e os prazos se acumulam como dominós. Aquele aceno tornou-se um eco físico do ritmo interior. Um paramédico disse-lhe: “Eu sei que não funciona, mas o meu corpo não sabe. Mexe-se.” O cérebro sabia a lógica. Os dedos não receberam o memorando.

Os psicólogos ligam estes rituais a três traços principais: uma necessidade de controlo acima da média, uma veia brincalhona e aquilo a que chamam “pensamento mágico sob stress”. A primeira parte é óbvia: pessoas que não gostam de passividade procuram pequenas alavancas. Mesmo imaginárias. A parte brincalhona aparece no sorriso de canto, na vénia em tom de gozo às portas, no “vá lá, amigo” sussurrado como se o elevador fosse um amigo teimoso.

E depois há o terceiro traço, aquele que raramente assumimos em voz alta. Sob pressão, até adultos racionais deslizam para comportamentos que, no papel, não fazem sentido. Carregar duas vezes no botão do semáforo. Soprar nos dados num casino. Acenar a uma caixa de metal. O ato acalma o sistema nervoso, ancora o momento e parece que estamos a fazer alguma coisa. Numa ressonância cerebral, essa sensação de “fazer” pesa mais no alívio do stress do que o resultado real.

A arte subtil de falar com máquinas (e o que isso faz à sua mente)

O ritual de acenar ao elevador costuma começar sem reflexão. Está atrasado, o elevador está a arrastar-se, os números dos andares avançam a um ritmo geológico. A mão sobe quase sozinha, os dedos desenham um pequeno gesto de “anda cá”, como chamar um cão. O corpo sinaliza urgência antes mesmo de as palavras se formarem.

Os psicólogos dizem que a chave não é o aceno em si, mas o que o rodeia. O micro-suspiro. O revirar de olhos para o teto. O murmúrio que escapa: “Vá lá, despacha-te.” São válvulas de pressão. Externalizam a frustração para um objeto que não pode ser magoado. Nesse sentido, acenar a um elevador tem menos a ver com ele andar mais depressa e mais com os seus pensamentos abrandarem um pouco.

Uma psicóloga organizacional contou-me que usa deliberadamente estes mini-rituais com clientes em burnout. Sugere que escolham um momento diário inofensivo - esperar pela chaleira, pela impressora, pelo elevador - e lhe associem um gesto rápido de enraizamento. Um aceno, um tamborilar de dedos, uma frase dita baixinho. Despido de superstição, torna-se um lembrete: “Estás aqui, a respirar, não apenas a correr.” Ironicamente, quando as pessoas assumem o ritual, a compulsão diminui. O aceno deixa de parecer desesperado e começa a parecer brincalhão.

Há um risco, porém, quando o gesto endurece e vira regra. Quando o cérebro murmura: “Se eu não acenar, vai demorar mais” ou “Se eu não tocar três vezes, vai correr mal lá em cima.” É aí que o pensamento mágico do quotidiano se mistura com a obsessão. A maioria das pessoas não vai tão longe. Acena, ri-se de si própria e segue. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, a sério. Mas a linha existe, e os terapeutas observam-na de perto quando a ansiedade sobe.

“Subestimamos muitas vezes a forma como estes pequenos gestos nos mantêm humanos”, diz a Dra. Emma Carter, psicóloga clínica que estuda rituais do dia a dia em profissões de alta pressão.

“Quando alguém acena a um elevador, eu não vejo uma superstição parva. Vejo uma pessoa a tentar manter um sentido de agência num mundo que, na maior parte do tempo, ignora o seu horário.”

Ela sublinha que os mesmos traços ligados ao aceno ao elevador - iniciativa, imaginação, sensibilidade ao tempo - são também os que levam as pessoas a começar projetos, tomar decisões depressa ou proteger os outros. O lado negativo é que esses traços, sob stress, podem virar impaciência, irritabilidade e auto-culpa quando as coisas não avançam rápido o suficiente.

Há formas de trabalhar com isso, em vez de lutar contra isso. A Dra. Carter sugere três mudanças simples:

  • Repare no aceno em vez de o fazer em piloto automático. Esse segundo de consciência abranda tudo.
  • Dê um nome, em silêncio, ao que está por trás: “Odeio esperar” ou “Estou ansioso por causa daquela reunião”. Nomear suaviza.
  • Troque a superstição por uma pequena escolha concreta logo a seguir: enviar uma mensagem, expirar totalmente uma vez, aliviar a força com que agarra a mala.

Essas micro-decisões não fazem o elevador andar mais depressa. Mas, estranhamente, fazem a pessoa à frente dele sentir-se um pouco menos encurralada.

Porque é que este pequeno hábito vai muito além do átrio do elevador

Numa manhã de segunda-feira cheia, observe a dança. Os que martelam o botão. As estátuas estoicas a olhar para o telemóvel. A pessoa que partilha um sorriso cúmplice com as portas fechadas e faz aquele aceno tímido. Todos já vivemos o momento em que o tempo parece estar a gozar connosco, e esta pequena coreografia diz muito sobre quem nos tornamos sob pressão.

Quem acena a elevadores tende a repetir o mesmo padrão noutros contextos. São os que atualizam páginas de rastreio de encomendas, falam com máquinas de café, carregam no botão de “fechar portas” mesmo sabendo que é placebo. Não porque acreditem que estão a dobrar as leis da física, mas porque não fazer nada sabe a rendição. O cérebro prefere histórias em que tem pelo menos um papel de figurante, e não apenas um lugar na plateia.

Isso não os torna irracionais. Em muitas áreas da vida - carreiras, relações, trabalho criativo - essa recusa em ficar passivo compensa. São mais propensos a insistir por uma resposta, a enviar um e-mail de seguimento, a testar um caminho novo quando o habitual engarrafa. O aceno ao elevador é apenas o primo ligeiramente embaraçoso e de baixo risco dessas atitudes maiores.

O que muda tudo é o grau de consciência com que a pessoa o assume. Quando se ri do próprio ritual, ele perde parte do poder. Quando o esconde, ou sente uma compulsão estranha para o repetir vezes sem conta, começa a ser o ritual a possuí-la. A linha entre “peculiar” e “movido pela ansiedade” pode ser fina nestes pequenos comportamentos. É por isso que alguns terapeutas escutam com atenção quando os clientes mencionam “pequenos hábitos” ligados a máquinas ou a esperas.

Se se reconhece em quem acena, talvez também reconheça o reverso: dificuldade em descansar, culpa quando não está a ser produtivo, irritação quando os outros se movem devagar. O mesmo motor que o leva a acenar a um elevador alimenta essas reações. Não é bom nem mau por defeito. É apenas energia que precisa de direção. Um pouco como eletricidade: útil quando bem ligada, perigosa quando faz arco no sítio errado.

Há algo estranhamente reconfortante em saber que tanta personalidade pode escapar num átrio de elevador. O gesto que pensava ser apenas a sua esquisitice privada afinal faz parte de um padrão humano mais vasto. Sugere algo sobre a sua relação com o tempo, com o controlo, com a tecnologia, até com o seu próprio sistema nervoso. E, quando o vê assim, o próximo ding das portas a abrir pode parecer um pouco menos aleatório - e o seu papel silencioso nessa espera, muito mais revelador.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Microgestos reveladores O aceno ao elevador reflete necessidade de controlo, humor e stress oculto. Compreender o que os seus pequenos gestos dizem sobre si.
Rituais e apaziguamento Estes hábitos não mudam a realidade, mas acalmam o sistema nervoso. Identificar os seus próprios “truques” para gerir melhor a espera e a ansiedade.
Transformar o reflexo Tomar consciência do gesto, nomeá-lo e depois escolher uma ação útil. Passar de um automatismo um pouco mágico para uma ferramenta psicológica consciente.

FAQ

  • Acenar a um elevador é sinal de que sou supersticioso? Não necessariamente. Os psicólogos veem-no mais como um ritual de descarga de stress e uma forma de se sentir menos passivo do que como uma crença real em magia.
  • Pessoas inteligentes ou racionais também fazem isto? Sim. Muitas pessoas muito analíticas têm pequenos hábitos irracionais sob pressão. A inteligência não elimina os nervos humanos.
  • Este tipo de comportamento pode tornar-se um problema? Pode, se sentir que tem de o repetir, se ficar ansioso quando não o faz, ou se começar a criar “regras” pessoais rígidas à volta disso.
  • O que diz sobre a minha personalidade se eu nunca o fizer? Pode tolerar melhor a espera, inclinar-se mais para a aceitação, ou simplesmente expressar a impaciência de outras formas.
  • Há uma alternativa mais saudável a estes pequenos rituais? Pode manter o gesto, mas juntá-lo à consciência: repare no impulso, respire uma vez de forma consciente e depois escolha uma pequena ação concreta que realmente importe.

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