Algumas pessoas acordam cansadas porque se deitaram tarde.
Os overthinkers acordam cansados porque, na verdade, nunca deixaram o dia para trás. O despertador toca, o quarto está calmo, o corpo - teoricamente - descansou… e, no entanto, a mente sente-se como se tivesse corrido uma maratona às 3 da manhã.
Os e-mails que não enviaste, a mensagem que não devias ter enviado, a reunião da próxima quinta-feira, aquela coisa que disseste em 2017 - está tudo lá. A rodar. A repetir. A reescrever. Quando finalmente sais da cama, já viveste três versões da tua manhã na tua cabeça.
Um psicólogo com quem falei chamou-lhe “estar permanentemente ligado”. O teu cérebro nunca chega a desligar; apenas passa de um ecrã brilhante para um ecrã menos brilhante. E é aí que começa o cansaço escondido.
A parte estranha? Muitos overthinkers dormem sete ou oito horas por noite.
Porque é que os overthinkers se sentem exaustos mesmo depois de uma noite inteira de sono
No papel, os overthinkers fazem tudo “bem”: uma hora de deitar decente, nada de noites loucas, uma vida razoavelmente saudável. Ainda assim, mal se sentam na cama, aparece aquele peso familiar atrás dos olhos, aquela apreensão silenciosa no peito. Não é sonolência clássica; é mais parecido com jet lag mental.
Os psicólogos descrevem o overthinking como “hiperativação cognitiva”. O teu cérebro continua a varrer, a confirmar, a rever - como se o perigo pudesse estar escondido num lembrete do calendário ou numa notificação do WhatsApp. O corpo está na cama, mas o sistema nervoso ainda está numa reunião, num conflito, num palco. Por isso, a noite não te restaura - apenas pausa a ansiedade por um bocado.
Numa terça-feira cinzenta em Londres, a Hannah, de 31 anos, achava que era simplesmente “má de manhã”. Deitava-se às 23h, acordava por volta das 7h e, mesmo assim, precisava de dois cafés só para se sentir humana. O médico de família excluiu deficiência de ferro e problemas na tiroide. As análises estavam bem, o Fitbit mostrava sono sólido.
O que o tracker não mostrava era a conferência silenciosa das 2h da manhã na cabeça dela. A rever o tom de um colega numa reunião. A reescrever um rascunho de e-mail três vezes sem tocar no teclado. A imaginar a reação do chefe se um projeto escorregasse no prazo. Ela não se revirava na cama, por isso ninguém via um problema.
No entanto, diz a psicóloga clínica Dra. Emma Lacey, o cérebro da Hannah ficou preso em “modo de resolução de problemas” muito depois de apagar as luzes. “É como deixar 20 separadores abertos e esperar que a bateria do portátil esteja fresca de manhã”, diz ela. “O ecrã pode estar desligado, mas o sistema continua a gastar energia.”
Por baixo do cansaço há um mecanismo simples. Quando ruminas, o teu cérebro ativa os mesmos circuitos de stress como se algo mau estivesse mesmo a acontecer. A hormona do stress, o cortisol, sobe devagar. O ritmo cardíaco aumenta ligeiramente. Os músculos ficam um pouco tensos. Adormeces nesse estado - ou acordas brevemente nele - repetidas vezes.
Os cientistas do sono falam mais de “qualidade do sono” do que de horas. Os overthinkers muitas vezes têm um descanso superficial e fragmentado, que não desce às fases profundas onde a recuperação real acontece. O resultado é aquele cansaço até aos ossos que não se resolve com alongamentos nem com cafeína.
O cérebro, preso em modo de revisão, nunca confia totalmente que pode largar. Por isso, não larga.
Como interromper o loop mental e dar ao cérebro um descanso a sério
Os psicólogos são surpreendentemente práticos em relação ao overthinking. O primeiro passo não é “para de te preocupar”; é “muda a preocupação de lugar”. Um método usado em terapia chama-se “tempo de preocupação agendado”. Escolhes uma janela de 15–20 minutos ao fim da tarde, sentas-te com um caderno e escreves deliberadamente tudo o que te está a roer.
Listas os medos, os “e se…”, as pequenas memórias cortantes. Depois, organizas em duas colunas: “coisas sobre as quais posso agir” e “coisas que não posso controlar”. Para o primeiro grupo, anotas um passo seguinte minúsculo. Para o segundo, limitas-te a etiquetar: “não está no meu controlo, por agora”. Parece quase simples demais. Mas dar à ansiedade uma morada fixa no dia ensina o teu cérebro que a noite não é a hora de pensar pesado.
É aqui que muita gente tropeça. Ouvem falar de journaling, exercícios de respiração, limites para ecrãs… e sentem culpa por não conseguirem transformar o cérebro num templo Zen até às 22h. Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias. O objetivo não é a perfeição; é um cérebro 10% mais suave, na maioria das noites.
Uma armadilha comum é usar a hora antes de dormir para “pôr tudo em dia”: mensagens não lidas, contas bancárias, compras online, mais um scroll num feed de notícias caótico. Para uma mente que overthinka, isso é como beber três cafés expresso. Uma alternativa mais suave é o que os terapeutas chamam um “ritual de desaceleração”: as mesmas três ou quatro pequenas ações, pela mesma ordem, todas as noites - talvez um duche quente, alongamentos e dez minutos com um livro reconfortante, não intenso.
A psicóloga clínica Dra. Lacey coloca assim:
“Os overthinkers não precisam de uma rotina matinal perfeita. Precisam de um interruptor consistente à noite. Estás a treinar o teu sistema nervoso para acreditar: ‘Nada de vital vai ser resolvido à meia-noite.’”
Não estás a tentar apagar pensamentos; estás a tentar mudar a tua relação com eles. Um truque útil é visual: imagina cada pensamento como um carro a passar numa estrada. O teu trabalho não é perseguir todos os veículos; é sentar-te no passeio e vê-los passar. Essa pequena distância importa.
- Dá aos teus medos uma “consulta” diária no papel, não às 3 da manhã na tua cabeça.
- Troca o scroll tardio por um hábito simples e repetível de desaceleração.
- Quando o loop começar, repara, identifica (“isto é overthinking”) e volta ao corpo: à respiração, aos pés no chão.
Aprender a descansar como um ser humano, não como uma máquina
Há uma revolução silenciosa escondida nisto tudo: descansar não é apenas a ausência de trabalho - é uma competência. Pessoas que overthinkam muitas vezes tratam o cérebro como um processador ilimitado. Cada pausa torna-se uma oportunidade para correr mais uma simulação: como é que aquele encontro pode correr, como é que aquela entrevista pode descambar, como é que o Natal vai saber daqui a três meses.
Os psicólogos falam em criar “micro-descanso” ao longo do dia, sobretudo se tens tendência para loops mentais. Sessenta segundos a olhar pela janela sem pegar no telemóvel. Três respirações lentas antes de abrir a caixa de entrada. Uma caminhada de cinco minutos depois de uma conversa pesada, só a sentir os pés a tocar no chão. Parece trivial. Para uma mente hiperativa, é uma pequena reeducação: nem todos os espaços precisam de ser preenchidos.
A camada emocional é muitas vezes a mais difícil de nomear. Overthinking raramente é só “ser organizado” ou “importar-se demasiado”. Por baixo dos loops encontras muitas vezes perfeccionismo, medo de conflito, ou a crença aprendida de que “se eu ensaiar todos os cenários, vou estar seguro”. Essa crença é poderosa. E também exaustiva.
Por vezes, os terapeutas convidam os overthinkers a fazer uma pergunta direta: “Quanto disto está mesmo a ajudar-me?” Não de forma vaga, mas num caderno, linha a linha. Que pensamentos levam a ações úteis e quais apenas giram? Que previsões alguma vez foram certeiras? As respostas costumam ser sóbrias e, estranhamente, libertadoras.
Começas a ver que o teu cérebro não é um inimigo terrível. Apenas foi demasiado treinado numa direção: proteger-te através de análise constante. Com prática, podes treinar um segundo reflexo - parar, afastar o zoom e dizer: Não tenho de resolver isto tudo agora.
Num dia bom, essa única frase chega para deixar o corpo descansar, um pouco mais profundamente.
Todos conhecemos a versão Instagram do autocuidado: velas, banhos, cadernos perfeitos ao pixel. Os overthinkers não precisam de mais pressão para viver como um anúncio de bem-estar. O que realmente muda o jogo são atos pequenos, imperfeitos e repetíveis: escrever três linhas preocupadas num autocarro, escolher deixar uma mensagem sem resposta até amanhã, permitir-te dar uma resposta “suficientemente boa” numa reunião em vez de ensaiar a perfeita na cabeça durante toda a tarde.
Quando começas a fazer isso, algo muda. As manhãs parecem um pouco menos como acordar debaixo de água. O primeiro café passa a ser uma escolha, não uma bóia de salvação. Lembras-te de como é ter um pensamento… e depois deixá-lo passar.
Não há um fim arrumado para o overthinking, nem um interruptor que ligas uma vez e fica assim para sempre. Em alguns dias, o loop volta em força e repete aquela conversa embaraçosa vinte vezes antes do pequeno-almoço. Mas saber o que está a acontecer - que o teu cansaço não é preguiça, mas um cérebro preso numa mudança alta - já muda a história.
E histórias é aquilo em que os overthinkers são brilhantes. O trabalho agora é contar uma nova: uma em que descansar não é algo que tens de ganhar por te preocupares o suficiente, mas algo a que tens direito porque és humano.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| O overthinking drena energia à noite | A ruminação mantém o cérebro em modo de stress, reduzindo o sono profundo e reparador | Ajuda a explicar porque te sentes exausto mesmo com 7–8 horas na cama |
| Tempo de preocupação agendado | 15–20 minutos diários para escrever e separar preocupações em “acionáveis” e “fora do meu controlo” | Oferece uma forma concreta de tirar a ansiedade da noite e colocá-la no papel |
| Micro-descanso e rituais de desaceleração | Pausas curtas e consistentes e hábitos ao fim do dia que dizem ao sistema nervoso que é seguro desligar | Dá ferramentas simples para reduzir loops mentais e acordar mais claro |
FAQ:
- O overthinking é o mesmo que ansiedade? Sobrepõem-se, mas não são idênticos. Overthinking é um padrão de pensamento (repetir, analisar, antecipar), enquanto a ansiedade é a resposta emocional e física. Podes ter um sem o outro, embora muitas vezes andem juntos.
- O overthinking pode mesmo prejudicar a minha saúde? A ruminação crónica pode aumentar hormonas de stress, perturbar o sono e contribuir para burnout, dores de cabeça e tensão. Não é “só da tua cabeça” - o teu corpo paga a conta em silêncio.
- A meditação vai parar o meu overthinking? A meditação pode ajudar, mas não é uma borracha mágica. Muitos overthinkers acham frustrante no início. Práticas curtas e guiadas e professores compassivos costumam funcionar melhor do que forçar-te a estar sentado em silêncio 20 minutos desde o primeiro dia.
- Quanto tempo demora a quebrar o hábito? Não há um prazo fixo. Algumas pessoas notam mudanças no sono e na energia após algumas semanas de práticas consistentes como o tempo de preocupação agendado e melhores rotinas de desaceleração. Outras precisam de mais tempo, sobretudo se o overthinking estiver ligado a trauma mais profundo ou perfeccionismo.
- Quando devo procurar ajuda profissional? Se o overthinking está a interferir com o teu trabalho, relações, sono, ou te sentes preso em pensamentos repetitivos e angustiantes que não consegues largar, vale a pena falar com o médico de família ou um terapeuta. Desesperança persistente, ataques de pânico ou pensamentos de autoagressão são sinais de alarme claros para procurar ajuda rapidamente.
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