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Aquecimento: porque a regra dos 19°C está desatualizada e o que os especialistas agora recomendam

Pessoa ajusta termostato enquanto segura chá em sala com mesa e plantas.

“Esqueça a obsessão por um número mágico”, diz um físico de edifícios com quem falei.

O termóstato na parede do corredor marca 19°C. A pequena luz laranja acende, a caldeira ronrona e, tecnicamente, a sua casa está “à temperatura certa”.
Ainda assim, tem os pés gelados, as mãos rígidas no teclado e está embrulhado numa manta que o faz parecer um burrito com prazos para cumprir.

Lá fora, os preços da energia continuam a morder, os alertas climáticos não param de passar nas redes sociais, e o seu contador inteligente brilha como um sinal de aviso.
Cá dentro, está dividido entre o conselho que sempre ouviu - “19°C chegam” - e o simples facto de o seu corpo discordar com força.

Então quem tem razão: a regra antiga, os seus ossos a tremer, ou a nova vaga de especialistas a repensar como aquecemos as casas?
A resposta tem menos a ver com um número… e mais com a forma como, de facto, vive.

Porque é que a velha regra dos 19°C já não encaixa nas nossas vidas

Durante anos, campanhas públicas repetiram o mesmo mantra: coloque o aquecimento a 19°C e vai poupar dinheiro e ajudar o planeta.
O número tornou-se uma espécie de medalha moral - a temperatura do “bom cidadão” - aquela que citava aos colegas quando se queixavam de frio.

Mas as casas reais não se comportam como caixas de laboratório perfeitamente isoladas.
Janelas antigas deixam entrar ar, as divisões viradas a norte ficam sombrias e frias o dia todo, e esses 19°C no corredor podem significar 16°C no sofá.

Os especialistas estão agora a dizer em voz alta aquilo que as pessoas murmuram há anos: a regra dos 19°C é demasiado grosseira, demasiado rígida, demasiado desligada da realidade.
Corpos humanos, casas imperfeitas e invernos em mudança simplesmente não combinam com aquele número arrumadinho.

Veja o que aconteceu desde que os preços da energia dispararam em 2022.
No Reino Unido, alguns inquéritos encontraram milhões de pessoas a viver em casas abaixo dos 18°C durante longos períodos, tentando alcançar esse ideal “eficiente” e, ainda assim, cortar na fatura.

Médicos começaram a alertar para mais infeções respiratórias e agravamento de problemas cardíacos em casas frias, sobretudo em idosos e crianças.
Instituições de saúde apontaram para orientações segundo as quais as áreas de estar para pessoas vulneráveis deveriam estar mais perto dos 20–21°C - não 19°C num corredor abstrato.

Nas redes sociais, pessoas partilharam imagens de câmaras térmicas das suas próprias divisões, mostrando uma diferença de 3–4°C entre um canto e outro.
Um alvo “certinho” começou a parecer menos uma regra e mais um slogan aproximado de outra década.

Então o que mudou, para além da nossa paciência para tremer?
Primeiro, as nossas casas e padrões de trabalho remodelaram as necessidades: passamos mais horas em casa, mais tempo sentados, mais tempo a olhar para ecrãs em vez de nos mexermos.

Segundo, os especialistas falam hoje menos de temperatura do ar “a seco” e mais de conforto térmico: o quão quente realmente se sente, com base na humidade, movimento do ar, temperaturas das superfícies e roupa.
Numa casa com correntes de ar e paredes frias, 19°C podem parecer um frigorífico; numa casa passiva muito estanque, 19°C podem ser surpreendentemente acolhedores.

Terceiro, a consciência climática evoluiu.
Em vez de culpabilizar toda a gente com um número baixo, investigadores defendem cada vez mais aquecimento inteligente e direcionado, melhor isolamento e temperaturas ajustadas a diferentes divisões e pessoas.

O que os especialistas realmente recomendam em 2025

O novo consenso é menos “sexy” do que uma regra única - e muito mais útil.
A maioria dos especialistas em edifícios e saúde sugere agora uma faixa de conforto em vez de um único valor: cerca de 20–22°C nas principais áreas de estar, afinado consoante quem lá está e o que está a fazer.

Para adultos saudáveis que se mexem um pouco, 20°C na sala pode funcionar bem, sobretudo com meias quentes e uma camisola.
Para idosos, crianças pequenas ou pessoas com problemas cardíacos ou respiratórios, 21–22°C na divisão principal costuma ser o intervalo mais seguro e recomendado.

Os quartos podem estar mais baixos, normalmente 17–19°C, desde que a roupa de cama seja adequada e a divisão não esteja húmida.
O que mais importa agora é a estabilidade: menos quedas grandes à noite, menos choques ao acordar, menos “ioiô” no termóstato.

Aqui está a reviravolta: o conselho moderno tenta proteger tanto a sua saúde como a sua carteira mudando onde e como o calor é usado.
Aquecimento por zonas é a palavra-chave que surge repetidamente nas entrevistas com especialistas.

Em vez de aquecer a casa inteira a 21°C o dia todo, aqueça as áreas onde realmente passa tempo: a sala ao fim da tarde, o escritório durante o dia, a casa de banho em períodos curtos.
Corredores e arrecadações mais frescos são aceitáveis, desde que os canos estejam protegidos e a humidade não se instale.

Muitos especialistas sugerem agora usar termóstatos programáveis ou válvulas termostáticas inteligentes (TRVs) nos radiadores para criar um ritmo diário: mais quente no espaço principal quando está ativo, mais baixo quando sai ou dorme, sem descer para níveis quase gelados.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias na perfeição, mas mesmo um horário aproximado ajuda.

Há também um foco crescente em ferramentas de conforto pessoal em vez de simplesmente “puxar” pela caldeira.
Mantas aquecidas, painéis infravermelhos por cima da secretária, chinelos quentes, cortinas mais grossas e vedação de correntes de ar podem permitir-lhe sentir-se confortável a 20°C onde antes precisava de 23°C.

Os especialistas sublinham que estes ajustes são mais importantes em casas antigas e pouco estanques, onde paredes e pavimentos “irradiam” frio.
Uma pequena ventoinha para empurrar o ar quente do teto, um tapete sobre um chão nu, ou uma cortina forrada numa janela de vidro simples podem mudar a forma como o seu corpo “lê” a divisão.

“Pense em camadas: camadas de roupa, camadas de tecido em paredes e pavimentos, camadas de temperatura entre divisões. O conforto vive nas camadas.”

Para tornar isto menos abstrato, eis como uma estratégia moderna de aquecimento costuma ser na vida real:

  • Sala: 20–21°C quando está ocupada, com meias grossas e uma manta.
  • Escritório em casa: fonte de calor direcionada (aquecedor ou painel), 19–20°C de temperatura do ar.
  • Quarto: 17–19°C com bom edredão, evitando humidade e condensação.
  • Casa de banho: impulso rápido para 22–23°C durante o uso, depois voltar a baixar.
  • Casa toda: prioridade a travar correntes de ar e superfícies frias.

Como repensar a sua própria “temperatura certa” em casa

Uma forma prática de ir além da regra dos 19°C é fazer uma “auditoria de conforto” durante uma semana em casa.
Compre um termómetro digital barato e, se puder, um higrómetro básico para a humidade.

Durante sete dias, anote a temperatura e como realmente se sente em três locais: sala, quarto, espaço de trabalho.
Registe a hora, o que está a vestir e se está sentado ou em movimento.

No fim da semana, surgem padrões: talvez esteja sempre com frio à secretária a 19°C, mas perfeitamente bem a 20,5°C com um casaco de malha.
Talvez o quarto esteja a 18°C, mas se sinta húmido ou abafado, o que indica que a qualidade do ar e a ventilação precisam de atenção tanto quanto o termóstato.

Quando vir esses padrões, pode começar a ajustar.
Suba a sala ou o escritório apenas 0,5–1°C na parte mais fria do dia e observe a reação do seu corpo durante alguns dias.

Ao mesmo tempo, ataque os “ladrões invisíveis” do calor.
Tape frestas por baixo das portas, coloque uma cortina de porta se o corredor for gelado, afaste ligeiramente o mobiliário de paredes exteriores frias para evitar esse frio radiante na pele.

Os especialistas dizem muitas vezes que uma casa com menos correntes de ar e superfícies mais quentes pode ser confortável com uma temperatura do ar 1–2°C mais baixa.
Essa é a vitória silenciosa: reduzir a fatura não dizendo a toda a gente para ser estoica a 19°C, mas fazendo com que 20°C se sinta verdadeiramente aconchegante.

Uma armadilha comum é comparar a sua casa com a de um amigo ou com uma publicação nas redes sociais do tipo “a minha casa está a 17°C e eu estou bem”.
Os corpos variam, as casas variam, as condições de saúde variam.

Em vez de copiar o número de outra pessoa, pense em três círculos: a sua saúde, o seu edifício, o seu orçamento.
Se tem asma, problemas circulatórios, um bebé em casa ou pais idosos a viver consigo, o seu mínimo seguro de conforto é mais alto do que o de um jovem de 25 anos super em forma que corre à chuva.

Outro erro frequente é fazer ciclos de temperatura extremos para “poupar”: desligar o aquecimento metade do dia, deixar a casa descer para 14–15°C e depois ligar tudo no máximo.
Isso pode significar mais condensação, mais esforço para o sistema e mais desconforto do que manter uma temperatura estável e moderada.

A nova linha dos especialistas é quase aborrecida na sua clareza: um calor estável e moderado vence oscilações dramáticas.
O seu corpo gosta dessa previsibilidade - e a sua caldeira também.

“Há um heroísmo falso em estar sentado no frio”, disse-me um médico de família. “Já estamos a ver o custo em saúde disso. Para muitas pessoas, o calor não é um luxo - é uma condição básica para se manterem bem.”

Ao recalibrar a sua casa, estes pequenos lembretes podem ajudar a orientar as escolhas:

  • Pergunte: “Eu estaria confortável sentado aqui, sem me mexer, durante uma hora?” - e não apenas a passar a correr.
  • Proteja primeiro as pessoas vulneráveis: o conforto delas define a base.
  • Use roupa e tecidos como primeira camada de eficiência; tecnologia como segunda.
  • Ajuste em passos de meio grau; o seu corpo nota mais do que pensa.
  • Lembre-se: poupanças por isolamento e vedação de fugas de ar costumam bater cortes brutais no termóstato.

Uma nova forma de falar sobre o calor em casa

Ao caminhar pelas cidades em noites de inverno, por vezes vê-se aquele brilho azul da televisão numa sala onde alguém está encolhido sob duas mantas, tentando não tocar no termóstato.
Transformámos um pequeno botão de plástico num símbolo de culpa, virtude, medo e estatuto - tudo ao mesmo tempo.

A regra dos 19°C pertenceu a um tempo em que a energia era mais barata, menos pessoas trabalhavam em casa e o debate climático era contado em slogans simples.
Hoje, a crise climática é mais urgente, mas também o são as crises de saúde e sociais ligadas a habitação fria e húmida.

Os especialistas estão, lentamente, a mudar a conversa para algo mais honesto e complexo: a sua casa merece uma temperatura que combine com a sua vida, não com um cartaz de campanha.
Mais quente nem sempre é desperdício se evita doença ou humidade; mais frio nem sempre é virtuoso se prejudica silenciosamente quem é mais frágil.

Todos conhecemos aquele momento em que visitamos alguém e sentimos logo a diferença - a sala acolhedora de onde não apetece sair, ou o apartamento elegante mas gelado onde toda a gente mantém o casaco vestido.
Por trás dessa sensação há mais do que um número no termóstato: há isolamento, layout, hábitos e centenas de pequenas escolhas sobre para onde vai o calor.

Por isso, da próxima vez que der por si a fixar os 19°C, faça outra pergunta.
Não “Estou a ser bom?”, mas “Esta temperatura faz sentido para o meu corpo, a minha casa, as minhas pessoas, agora?”.

O novo conselho dos especialistas não cabe num slogan limpo. Vive nos ajustes do dia a dia: naquele grau extra quando as articulações doem, naquele temporizador que programa para a cozinha não estar gelada ao pequeno-almoço.
E talvez, ao partilharmos como realmente aquecemos as nossas casas - os truques, os compromissos, as preocupações discretas - consigamos uma conversa mais verdadeira e mais humana sobre o calor.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Fim do dogma dos 19°C Os especialistas privilegiam agora uma faixa de conforto de 20–22°C consoante o perfil Ajustar melhor o aquecimento sem culpa e sem seguir um número rígido
Conforto global, não apenas o ar Correntes de ar, superfícies frias, humidade e roupa alteram a sensação de calor Identificar as alavancas reais para se sentir bem com uma temperatura mais baixa
Estratégia divisão a divisão Sala mais quente, quartos mais frescos, aquecimento direcionado no escritório Reduzir a fatura e melhorar o conforto real no dia a dia

FAQ

  • 19°C ainda é considerado seguro para toda a gente? Não exatamente. Para adultos saudáveis e ativos pode ser aceitável, mas crianças, idosos e quem tem problemas cardíacos ou pulmonares costuma precisar de 20–22°C nas principais áreas de estar.
  • Aumentar o termóstato vai sempre fazer disparar a fatura de energia? Um aumento de 1°C custa mais, mas bom isolamento, vedação de correntes de ar e aquecimento por zonas podem compensar - por vezes de forma significativa.
  • Qual é a melhor temperatura para dormir? A maioria dos especialistas sugere 17–19°C com roupa de cama adequada, mas o conforto e as condições de saúde devem orientar a sua escolha.
  • É melhor manter o aquecimento baixo o dia todo ou ligar e desligar? Em muitas casas, um aquecimento estável e moderado com horários programados é mais eficiente e confortável do que grandes oscilações de temperatura.
  • Como posso sentir-me mais quente sem subir o termóstato? Vista-se por camadas, use tapetes e cortinas, vede correntes de ar, adicione mantas e considere fontes de calor pequenas e direcionadas, como mantas aquecidas ou aquecedores de secretária.

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