O café estava demasiado barulhento. Pelo menos, era isso que o teu cérebro continuava a repetir enquanto a tua amiga despejava a pior semana do ano dela. As palavras dela batiam-te como ondas: a frustração, o embaraço, o pequeno tremor na voz quando fingia que “não era nada de especial”. Quando ela chegou à parte final da história, eras tu quem estava a engolir as lágrimas.
No caminho para casa, não conseguias sacudir o peso no peito. Não era o teu problema, o teu trabalho, a tua relação. E, no entanto, o teu corpo carregava aquilo como se fosse.
E dás por ti a pensar, não pela primeira vez: sou empata… ou apenas alguém que sente demasiado?
A resposta é mais precisa do que as redes sociais fazem parecer.
E se não fores “demasiado emocional”, apenas estiveres programado de forma diferente?
Desliza no TikTok cinco minutos e vais ver: “Choraste com um anúncio? És empata.”
Soa lisonjeiro, quase místico. Como um superpoder secreto que justifica porque ficas exausto depois de jantares de família ou de mexericos no escritório.
Mas, por trás das hashtags, há uma verdade mais silenciosa. Sentires-te inundado emocionalmente numa sala cheia não significa automaticamente que sejas empata.
Às vezes, significa que o teu sistema nervoso é altamente sensível - não que estejas a absorver os sentimentos de toda a gente como uma esponja emocional.
Imagina isto: dois colegas entram no mesmo escritório em open space, cheio de movimento. Telefones a tocar, notificações do Slack a saltar, um drama discreto junto à máquina de café.
A Pessoa A, o empata, começa a sentir um aperto no peito e tristeza… mas não consegue perceber se aquilo é dela. Repara que o Tom, ao fundo, parece “em baixo” e, em minutos, está a partilhar o humor dele sem uma palavra trocada.
A Pessoa B, a pessoa altamente sensível (PAS), nota o tremeluzir das luzes fluorescentes, a etiqueta a picar na camisola, a porta a abrir e fechar constantemente. O stress aumenta, mas é o ambiente que a está a esmagar - não a tempestade interior de outra pessoa.
Essa é a diferença crucial que os psicólogos sublinham. A empatia é sobre apanhar o que está dentro dos outros. A sensibilidade é sobre a intensidade com que o teu próprio sistema reage a estímulos.
Podes ser empata sem seres particularmente sensível a ruído ou multidões. Podes ser altamente sensível e, ainda assim, estar bem ancorado nas tuas emoções, mesmo quando os outros estão a desmoronar à tua volta.
Muita gente está algures na zona de sobreposição - por isso os rótulos ficam difusos e as frases “instagramáveis” parecem tão certeiras.
O perigo é quando cada onda emocional é etiquetada como “empata” e a verdadeira configuração do teu sistema nervoso é ignorada.
Como perceber se é empatia… ou sensibilidade disfarçada
Um método simples é aquilo a que alguns terapeutas chamam “verificação de propriedade emocional”. Da próxima vez que o teu humor mude de repente, pára e recua mentalmente os últimos dez minutos.
Pergunta-te: aconteceu-me mesmo alguma coisa? Uma mensagem, um pensamento, uma memória?
Se não, observa o teu ambiente. Acabaste de falar com alguém cuja energia mudou? Entraste numa sala com tensão silenciosa? Apanhaste uma microexpressão no rosto de alguém?
Se a emoção começou logo após o contacto com outra pessoa e não parece bem “tua”, isso aponta mais para traços de empata.
Se a reação surge por causa de ruído, luzes, cheiros, pressão de tempo ou pura intensidade, isso inclina mais para alta sensibilidade.
Outra pista está no teu corpo. As PAS descrevem muitas vezes sobrestimulação: dores de cabeça depois de centros comerciais, sensação de “curto-circuito” com a televisão alta e conversa fiada ao mesmo tempo, necessidade de mais tempo para recuperar de um fim de semana cheio.
Os empatas descrevem algo um pouco diferente: sentirem-se em baixo depois de confortar um amigo, ansiosos depois de verem histórias de guerra ou tragédia, drenados só por se sentarem ao lado de um desconhecido stressado no comboio.
Ambos são válidos. Ambos são extenuantes à sua maneira.
Onde muita gente tropeça é no julgamento: “Porque é que eu não consigo simplesmente ser mais rijo?” ou “O que se passa comigo que não consigo ver notícias como toda a gente?”
Há também dados por trás disto. Estudos sobre alta sensibilidade sugerem que cerca de 15–20% da população tem um sistema nervoso mais reativo. Não é uma perturbação - é um traço.
A empatia, por outro lado, é mais fluida: moldada pela personalidade, pela educação, pelo estilo de vinculação e, para alguns, pelo trauma. Crescer em casas imprevisíveis pode treinar-te a estar constantemente a “ler” os outros, quase como um meteorologista emocional.
Um traço tem a ver com input sensorial; o outro com rastreamento de sinais emocionais. Muitas vezes andam juntos - por isso os empatas altamente sensíveis sentem que estão permanentemente de prevenção para as emoções do mundo.
É aí que começa o verdadeiro burnout.
Proteger a tua energia sem anestesiares o teu coração
Um gesto prático que muda tudo: agenda “descompressão emocional” como outras pessoas agendam o ginásio. Dez minutos, num sítio silencioso, no fim de um bloco socialmente intenso.
Senta-te, respira e faz uma pergunta direta: “O que é que é mesmo meu hoje?”
Podes até listar rapidamente na cabeça: a minha preocupação com dinheiro; o meu entusiasmo por sexta-feira; a minha tensão com o meu chefe. Depois repara no que sobra e não te pertence: uma tristeza que apanhaste de um amigo; um medo que inalaste das notícias.
Este pequeno hábito não resolve magicamente a sobrecarga. Mas começa a ensinar ao teu cérebro que existe uma fronteira entre ti e os outros.
Muitos empatas e PAS caem nas mesmas armadilhas: dizer “sim” a cada “posso desabafar?” porque dizer “não” parece cruel; ficar em grupos de chat que secretamente temem; manter notificações ligadas 24/7 como se estar sempre contactável fosse sinónimo de ser cuidadoso.
O custo acumula-se em silêncio: enxaquecas, insónia, ressentimento a ferver.
Tens permissão para silenciar pessoas de quem gostas. Tens permissão para dizer: “Quero ouvir-te, mas agora estou com a cabeça cheia - podemos falar amanhã?” Isso não é frieza; isso é sustentabilidade.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Nem os terapeutas. Eles têm supervisão, limites e dias de descanso por um motivo.
“Empatia sem limites é autodestruição em câmara lenta.”
Um modelo simples que ajuda alguns leitores é pensar em “anéis”:
- Anel interior: As tuas emoções e o teu estado físico hoje.
- Anel do meio: As 2–3 pessoas que consegues apoiar de forma realista neste momento.
- Anel exterior: A dor do resto do mundo, pela qual podes preocupar-te sem a carregar sozinho.
- Anel da ação: A pequena coisa que consegues realmente fazer, em vez de te afogares na impotência.
Quando uma história ou uma pessoa te atinge com força, coloca-a mentalmente num anel. Não te faz importar-te menos. Faz com que a tua preocupação seja suportável.
Quando sentir profundamente deixa de ser um fardo e passa a ser uma bússola
Há um ponto de viragem silencioso que muitos empatas e PAS descrevem. Normalmente não acontece em terapia nem num retiro grandioso, mas numa terça-feira qualquer em que finalmente dizem “não” e nada explode.
Ninguém sai a bater com a porta. A amizade não acaba. O mundo continua a girar.
Esse primeiro limite parece desajeitado e egoísta - e, ainda assim, o corpo respira um pouco melhor.
Começas a perceber que a tua sensibilidade não é o problema. O problema foi teres aprendido que tens de estar infinitamente disponível, infinitamente compreensivo, constantemente a absorver.
Quando essa crença estala, pode crescer algo mais suave. Reparas que a tua capacidade de ler uma sala te torna um anfitrião, um gestor, um parceiro, um amigo brilhante.
A tua sensibilidade ao som significa que és tu quem nota quando um colega está a ser esmagado pelo caos e, discretamente, muda a reunião para um canto mais calmo.
Num dia bom, a tua empatia não é uma esponja; é um radar. Ajuda-te a captar mudanças subtis, sinais de desconforto, pequenas alegrias que mais ninguém vê.
Num dia mau, lembras-te de que tens permissão para baixar o radar e ir para casa.
A linha entre “empata” e “altamente sensível” não é um teste que tens de passar. É mais como um mapa.
Uma forma de entender porque é que o teu corpo grita “demasiado” em situações que os outros atravessam sem esforço. Uma forma de dar nome ao motivo por que choras com histórias de desconhecidos e, ainda assim, consegues estar estranhamente calmo nas tuas próprias crises.
Todos já vivemos aquele momento em que entramos numa sala e sentimos a tensão antes de alguém falar. Algumas pessoas seguem em frente. Pessoas como tu carregam isso durante horas.
Dar nome ao que se passa não te prende. Dá-te escolhas: o que deixar entrar, o que deixar à porta, e que pequena parte da dor do mundo vais realmente transformar, em vez de apenas aguentar.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Empata vs PAS | Empatas absorvem as emoções dos outros; PAS reagem fortemente à intensidade sensorial e emocional. | Perceber com que perfil te pareces mais e porque ficas tão depressa esgotado. |
| Teste de “propriedade emocional” | Questionar de onde vem uma emoção súbita: de um acontecimento pessoal ou de contacto com alguém. | Identificar o que é verdadeiramente teu e o que estás a carregar pelos outros. |
| Anéis & limites | Visualizar círculos de prioridade para a tua energia emocional. | Aprender a pôr limites sem culpa nem te sentires “insensível”. |
FAQ
- Como sei se sou empata ou apenas altamente sensível? Repara no que te sobrecarrega mais. Se ficas sobretudo derrubado pelos humores e pelas histórias dos outros, inclinas para empata. Se luzes, ruído, caos e pressão de tempo te drenam primeiro, isso é mais PAS. Muitas pessoas são ambas.
- Uma pessoa pode deixar de ser empata? Normalmente não “deixas”, mas podes aprender limites. Com prática, sentes os outros sem assumires automaticamente a responsabilidade de os consertar - e isso torna o traço muito menos doloroso.
- Ser altamente sensível é um problema de saúde mental? Não. A investigação enquadra-o como um traço de personalidade e do sistema nervoso, não como uma perturbação. Pode aumentar o risco de stress ou ansiedade em ambientes duros e aumentar o potencial de florescer em ambientes de apoio.
- Porque é que os empatas atraem pessoas tóxicas ou narcisistas? Pessoas que anseiam atenção e validação muitas vezes percebem quem vai ouvir sem fim e ceder nos próprios limites. Se tens dificuldade em dizer “não”, tornas-te uma linha fácil de abastecimento emocional.
- Qual é uma pequena mudança que posso fazer esta semana? Escolhe um momento diário de “descompressão emocional”, mesmo que sejam cinco minutos, e pergunta: “O que é meu, o que não é?” Trata essa pausa como inegociável, como lavar os dentes.
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