A primeira coisa que se nota é o silêncio.
Nada do crepitar suave do fogão a lenha no canto, nem uma pluma preguiçosa de fumo a escapar da chaminé para a noite fria. Apenas o zumbido surdo de um radiador e o brilho azul de um contador inteligente na parede. Por todo o Reino Unido, milhares de famílias estão esta semana a olhar para as suas lareiras e a perguntar a mesma coisa: será que o meu querido recuperador a lenha está prestes a tornar-se ilegal?
As regras sobre combustão doméstica mudaram outra vez e, desta vez, a mensagem é direta. Uma nova vaga de restrições está a apontar aos equipamentos mais antigos e fumegantes e à forma como queimamos lenha em casa. Pessoas que antes viam o recuperador como um refúgio acolhedor face ao aumento das contas estão agora a ler cartas da câmara, orientações do governo e discussões inflamadas no Facebook. Entre conversas sobre partículas PM2.5 e “aparelhos isentos”, fica a pairar no ar uma pergunta muito simples.
O que é que, exatamente, está a ser proibido?
O que está realmente a mudar para os recuperadores a lenha no Reino Unido?
Numa terça-feira chuvosa numa rua de casas geminadas em Leeds, um limpa-chaminés abre a carrinha e abana a cabeça. “Metade destes aparelhos vai ter de ser arrancada em breve”, resmunga, apontando para a fila de casas vitorianas. Não está a exagerar. Em Inglaterra, País de Gales e Escócia, as autarquias estão discretamente a apertar o cerco a aparelhos mais fumegantes, à medida que a fase mais recente das regras de ar limpo passa da teoria para as salas de estar.
No centro desta mudança está um novo aperto sobre as emissões da combustão doméstica. Recuperadores antigos, não aprovados, e lareiras abertas estão sob pressão nas Zonas de Controlo de Fumo (Smoke Control Areas), onde chegam novos poderes de fiscalização a departamentos municipais já sobrecarregados por orçamentos curtos e queixas. As coimas podem agora chegar às 300 £, e os reincidentes estão na mira. Os dias em que “um pouco de fumo” na chaminé fazia parte da paisagem estão rapidamente a desaparecer.
A “proibição” de que as pessoas falam não é uma ilegalização total de todos os recuperadores a lenha no Reino Unido. É mais complicada - e mais inquietante - do que isso.
Uma rua no sul de Londres dá uma ideia do que aí vem. Numa noite gelada do inverno passado, um vizinho tirou uma fotografia a um fumo cinzento espesso a sair de uma chaminé e enviou-a para a câmara local. Em poucas semanas, o agregado recebeu uma carta de aviso a citar a Clean Air Act, os limites de emissões na sua Smoke Control Area e a expectativa de que atualizassem para um aparelho aprovado ou deixassem de queimar. Não foram caso único. As queixas sobre fumo de vizinhos têm aumentado ano após ano, e as autarquias têm agora mais instrumentos legais para atuar.
Em Inglaterra, a venda de carvão doméstico tradicional e de lenha húmida para queima em casa já foi eliminada de forma faseada. Os retalhistas passaram a vender lenha certificada “ready to burn” e combustíveis sólidos manufaturados com limites mais apertados de enxofre e humidade. A Escócia está a implementar as suas próprias restrições, e o País de Gales está a avançar com planos de qualidade do ar que apontam o fumo de lenha como uma grande fonte de partículas finas. O fio comum: os queimadores domésticos já não ficam fora de escrutínio só por serem “acolhedores”.
Nos bastidores, os recuperadores “ecodesign” aprovados pela DEFRA estão a tornar-se o padrão aceite, com fabricantes a referirem-se abertamente a modelos mais antigos como equipamento “legado”. A caixa de ferro fundido no canto começa a parecer um carro a gasóleo estacionado debaixo de uma câmara da ULEZ.
Então o que foi realmente proibido - e o que foi apenas empurrado para a extinção? A linguagem legal foca-se mais em emissões e combustível do que no romantismo da lareira. Lareiras abertas e recuperadores antigos que não cumprem estão a ser mais pressionados nas Smoke Control Areas urbanas, onde acender um fogo com o combustível errado pode agora desencadear ação de fiscalização. As autarquias estão a testar patrulhas de chaminés, recorrendo a queixas, imagens de drones e até fotografia de plumas de fumo como prova.
Ao mesmo tempo, novas instalações têm de cumprir normas rígidas de ecodesign quanto a emissões de partículas, e os instaladores estão cada vez mais relutantes em montar algo que possa ficar do lado errado de regras futuras. Na prática, a “proibição” tem este aspeto: está a tornar-se muito difícil usar legalmente um aparelho antigo e fumegante numa vila ou cidade - e não vai ficar mais fácil. Agregados em zonas rurais, com recuperadores modernos de combustão limpa e lenha seca, estão numa posição melhor, mas a direção é clara. A lareira já não está fora do debate sobre ar limpo.
Como manter o seu fogo - e cumprir as regras
Para quem olha para o recuperador com um nó no estômago, existe um caminho do meio. O passo mais poderoso é brutalmente simples: mudar o que queima e como queima. Lenha certificada “ready to burn” tem teor de humidade abaixo de 20%, o que reduz drasticamente fumo, fuligem e emissões de partículas. Madeiras duras secas em estufa (como freixo ou faia) ardem mais quente e mais limpo do que madeiras baratas e húmidas, que sibilam e ficam a fumegar.
Se tiver espaço de arrumação, um medidor de humidade básico e um abrigo coberto para lenha podem transformar o seu sistema. Compre em quantidade, empilhe a lenha fora do chão, deixe o ar circular e teste antes de queimar. Se a leitura for acima de 20%, o tronco fica na pilha. Esse pequeno aparelho aborrecido pode ser a diferença entre uma pluma quase invisível e uma chaminé que parece uma fogueira. As regras não querem saber da estética da sua decoração; querem saber o que anda a flutuar no ar que os seus vizinhos respiram.
Há também a pergunta que muitos tentam evitar: será que o próprio aparelho é parte do problema? Um modelo anterior a 2000, sem tecnologia moderna de combustão limpa, pode emitir até cinco vezes mais partículas finas do que uma unidade ecodesign nova. Não é propaganda da indústria - é suportado por testes laboratoriais e monitorização no mundo real. Algumas famílias optam por engolir o custo e substituir aparelhos antigos por modelos isentos pela DEFRA e certificados ecodesign, que produzem muito menos fumo. Não é barato, mas também não são baratas as coimas, os incêndios na chaminé ou uma campanha liderada por vizinhos no grupo de WhatsApp da rua.
Sejamos honestos: ninguém faz isto tudo todos os dias. Muito poucas pessoas limpam o vidro do recuperador, varrem a conduta, verificam vedantes e se preocupam com o armazenamento do combustível como num manual. A vida real é caótica. A lenha chega húmida, a gaveta de cinzas transborda e alguém mete um pedaço pintado “só desta vez”. É exatamente aí que começam os problemas. As autarquias não vão atrás de uma tarde ocasionalmente mais fumegante; respondem a poluição contínua e óbvia.
Uma pequena mudança de hábitos pode, na prática, proteger o seu direito a continuar a queimar. Acenda o fogo por cima, não por baixo, para que a chama desça através das achas e da lenha em vez de lutar para subir por uma pilha fumegante. Mantenha as entradas de ar bem abertas nos primeiros 10–15 minutos para obter uma combustão quente e limpa. Evite deixar o recuperador “a dormitar” durante a noite em áreas urbanas - essas queimas longas, baixas e a fumegar são precisamente o que produz o fumo mais espesso e sujo. O seu contador inteligente pode adorar; os pulmões dos seus vizinhos não.
A um nível humano, a ligação emocional a um recuperador é real. Aquele canto da sala onde as crianças secam as meias, onde os casais se sentam com um copo de tinto ao fim de uma semana longa, onde as contas parecem menos assustadoras porque o calor é seu, não do fornecedor de energia. Quando isso é ameaçado por novas regras, as pessoas sentem-se atacadas. Um leitor de Manchester disse-o de forma crua num email para esta redação:
“Falam de ‘combustão doméstica’ como se estivéssemos a operar mini centrais elétricas na sala. É só um fogo. É calor. Mas também não quero o meu filho a respirar fumo sempre que alguém ali na estrada acende um tronco molhado.”
Algures entre estas duas frases é que será decidido o futuro da queima de lenha.
- Verifique no site da sua autarquia se vive numa Smoke Control Area antes de acender o próximo fogo.
- Use apenas combustível certificado “ready to burn” e evite tratar a lareira como caixote do lixo.
- Se o seu aparelho tiver mais de 15–20 anos, fale com um instalador sobre modelos ecodesign e custos a longo prazo.
O que este novo capítulo significa para as nossas casas - e para os nossos hábitos
As novas restrições aos recuperadores a lenha chegam numa altura em que tantas outras coisas parecem estar a apertar. Contas de energia a subir, noites de inverno a alongar, e agora a única fonte de calor que parecia quase desafiante passa de repente a trazer risco de coimas ou conflitos com vizinhos. Numa noite fria de janeiro, isso pode parecer mais do que um ajuste de política; parece alguém a reescrever o guião de como deve ser um inverno britânico.
Para alguns, a resposta será desistir por completo. Lareiras tapadas, chaminés vedadas, recuperadores arrancados e substituídos por bombas de calor ou radiadores eficientes. Para outros, a chama vai sobreviver, mas de forma mais cuidadosa e mais técnica: aparelho moderno, lenha certificada, rotinas rigorosas, talvez até um monitor de qualidade do ar na prateleira. E haverá um terceiro grupo, a fazer finca-pé, agarrado teimosamente aos aparelhos antigos até as cartas se transformarem em coimas. Numa rua húmida em Birmingham ou Bristol, pode ver as três opções numa única fila de portas.
Todos já tivemos aquele momento em que o primeiro fogo da estação parece uma pequena cerimónia, um anúncio privado de “estamos prontos para o inverno”. A questão agora é quantas dessas cerimónias podem continuar em vilas e cidades sem sufocar o ar entre as casas. É disso que trata a nova “proibição”, as regras mais apertadas, o foco na contagem de partículas. Não é punir o calor - é decidir de quem é o conforto que traz o maior custo.
À medida que as regras evoluem, também a cultura em torno da lareira mudará. Talvez futuros jantares incluam um olhar discreto para a chaminé, da mesma forma que os convidados hoje reparam nos ecopontos ou nos carregadores de veículos elétricos. Talvez o novo símbolo de estatuto não seja o maior recuperador, mas o mais limpo. Ou talvez, daqui a uma década, a ideia de um fogo a lenha ruidoso numa sala urbana pareça tão distante como fumar num pub. Por agora, a questão viva paira sobre tantas ruas: baixamos o fogo, afinamo-lo - ou vemos a chama apagar-se?
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Novos limites ao fumo | Reforço das regras nas Smoke Control Areas, com coimas até 300 £ | Compreender o risco real de sanções se a sua chaminé deitar demasiado fumo |
| Transição para recuperadores ecodesign | Os recuperadores antigos poluem até 5 vezes mais do que modelos recentes certificados | Saber se compensa adaptar a instalação ou ponderar a substituição |
| Escolha do combustível | Lenha certificada “ready to burn” (<20% de humidade) e armazenamento correto reduzem muito as partículas | Manter o fogo cumprindo as novas regras e reduzindo tensões com a vizinhança |
FAQ:
- O meu recuperador a lenha atual passou a ser ilegal?
Não automaticamente. Recuperadores antigos, não ecodesign, ainda podem ser usados em muitas zonas, mas nas Smoke Control Areas deve usar apenas combustível autorizado e evitar fumo visível - caso contrário arrisca coimas e ações de fiscalização.- Ainda posso usar uma lareira aberta?
Em muitas Smoke Control Areas urbanas, usar uma lareira aberta para queimar lenha está, na prática, a ser eliminado, a menos que seja com combustível autorizado sem fumo. Mesmo onde é permitido, as lareiras abertas são as maiores emissoras de partículas nocivas.- Como sei se vivo numa Smoke Control Area?
A maioria das autarquias tem um mapa online ou um verificador por código postal no site. Se vive numa grande vila ou cidade no Reino Unido, é bastante provável que a sua rua esteja abrangida.- Tenho mesmo de comprar lenha seca em estufa ou “ready to burn”?
Sim, se se preocupa tanto com a lei como com os pulmões dos seus vizinhos. Lenha húmida cria fumo pesado e alcatrão, o que gera queixas, entope chaminés e aproxima-o de infringir regras de emissões.- Vale a pena atualizar já para um recuperador ecodesign?
Se o seu recuperador tiver mais de 15–20 anos, a atualização pode reduzir muito as emissões e dar-lhe uma base mais sólida à medida que as regras apertam. O custo inicial é elevado, mas pode poupar aborrecimentos, combustível e potenciais coimas a longo prazo.
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