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Recorde do Guinness: um robô humanoide caminhou mais de 100 km sem parar.

Robô humanoide a caminhar numa estrada ao lado de um homem com mochila e portátil, num ambiente de parque.

Não pesado, não metálico. Apenas este toque suave e repetitivo no chão polido do laboratório da Universidade de Tóquio, como um corredor que nunca se cansa. Os técnicos observavam os ecrãs, com os olhos a saltarem entre níveis de bateria, temperaturas das articulações e um único contador hipnótico: metros percorridos. Lá fora, o céu passava do azul ao preto e voltava a clarear. As chávenas de café acumulavam-se. As pessoas trocavam de turno. O robô não.

Quando a equipa do Guinness World Records validou a distância - mais de 100 quilómetros, sem uma única pausa - a sala ficou estranhamente silenciosa. Nada de música dramática. Nada de fogo de artifício. Apenas uma máquina humanoide a continuar a andar, calmamente, como se o mundo não tivesse inclinado um pouco. Depois alguém disse o que todos estavam a pensar: “Se consegue andar assim… o que vem a seguir?” O robô continuou.

Um robô que simplesmente… não pára

Imagine uma pista de corrida a fazer um circuito dentro de um pavilhão, iluminada por luzes néon frias, às três da manhã. A maioria das pessoas estaria a dormir. Em vez disso, uma equipa de roboticistas está a filmar um robô humanoide a dar passo após passo, volta após volta. Sem cadeira. Sem pausa. Sem aquela oscilação humana quando o corpo implora descanso.

Foi assim que nasceu o recorde do Guinness: um robô humanoide a caminhar mais de 100 km sem parar, transformando um movimento simples em algo quase inquietante. Uma maratona tem 42,195 km. Esta máquina fez mais de duas maratonas e meia de uma vez. Sem joelhos doridos. Sem bolhas. Sem negociar consigo própria para chegar ao próximo poste de luz. Apenas um movimento implacável para a frente, supervisionado por humanos cansados que pareciam muito mais frágeis do que a sua criação.

No papel, o recorde soa técnico: distância percorrida, velocidade média, eficiência energética. Na sala, parecia estranhamente íntimo. A marcha do robô foi desenhada para copiar a nossa: ligeiro balanço dos braços, contacto controlado do calcanhar, rolar cuidadoso do pé. Ao fim de algumas horas, a ilusão começa a enganar o cérebro. Não está apenas a ver uma máquina. Está a ver uma espécie de substituto incansável de si próprio, a fazer aquilo que o seu corpo nunca aguentaria. E é aí que a pergunta começa a incomodar: de quem é que estamos, afinal, a medir os limites?

Os números são brutais. Mais de 100 km. Dezenas de milhares de passos. Uma sessão de caminhada mais longa do que muitas pessoas ficam acordadas num dia. O humanoide usou menos energia por quilómetro do que muitas trotinetes elétricas. Sensores corrigiam constantemente o mais pequeno desequilíbrio, como um fisioterapeuta invisível a fazer microajustes em tempo real.

Um engenheiro descreveu o momento aos 70 km, quando os humanos estariam em modo de sobrevivência. Músculos a arder. Ombros descaídos. Névoa mental. O robô, porém, manteve o mesmo ritmo, a mesma postura, a mesma calma mecânica. Nunca negociou consigo próprio. Nunca abrandou por estar aborrecido. Nunca se perguntou porque estava a andar em círculos sob luz fluorescente em vez de numa praia qualquer.

A equipa do Guinness não se limitou a contar quilómetros. Verificou que não foi usado qualquer apoio externo, que o robô não se encostou, que ninguém “afinou” resultados fora de câmara. Tinha de ser uma caminhada legítima e contínua. Quando o contador passou a marca dos 100 km, um dos supervisores quase não deu por isso. Estava concentrado numa pequena falha de dados, não no ponto “histórico”. Diz muito sobre esta nova era: o extraordinário esconde-se em folhas de cálculo e registos, não em fogo de artifício.

Há um lado frio e lógico neste feito. Cada passo é o resultado de algoritmos que prevêem equilíbrio, fricção, inércia. Andar sobre duas pernas é uma queda controlada permanente. Os humanos aprendem isso em bebés e depois esquecem o quão complexo é. Para um robô humanoide, é um pesadelo de engenharia transformado em forma de arte.

Para andar 100 km sem pausa, a equipa teve de resolver muito mais do que “não cair”. As articulações precisavam de evitar sobreaquecimento. As baterias tinham de gerir picos de energia sem quedas súbitas. O software tinha de lidar com pequenas irregularidades no chão - uma saliência mínima, um cabo ligeiramente fora do sítio - que, após horas de repetição, poderiam ser desastrosas. Um passo em falso ao quilómetro 93 e toda a tentativa de recorde ia por água abaixo.

O que faz este momento parecer um ponto de viragem não é a distância, por si só. É a combinação: forma semelhante à humana, marcha semelhante à humana, resistência não humana. Estamos a ver um objeto que se parece vagamente connosco, se move como nós, e nos supera numa área que julgávamos pertencer aos nossos músculos frágeis. É nesse intervalo entre semelhança e superioridade que assentam tanto o fascínio como o desconforto.

O que isto significa para o nosso dia a dia (mais cedo do que pensa)

Tire as luzes do laboratório e o logótipo do Guinness, e a história torna-se estranhamente prática. Um robô que consegue andar 100 km sem parar não é um truque de festa. É uma prova de conceito para futuros trabalhadores, cuidadores e ajudantes que não vão precisar de dormir, de café, ou de um “dia de saúde mental”.

Imagine um robô humanoide a fazer rondas noturnas num hospital, a caminhar corredores durante 10 horas a verificar quartos. Ou a inspecionar linhas ferroviárias, um pé à frente do outro, onde as rodas não chegam. Ou a seguir bombeiros para dentro de edifícios instáveis, com as pernas a ajustarem-se a cada azulejo partido. O recorde mostra que um robô consegue manter esse movimento durante mais tempo do que qualquer um de nós, sem o custo escondido da fadiga que tantas vezes arruína as nossas melhores intenções.

Num plano mais banal, este tipo de resistência pode mudar a forma como pensamos logística e serviços. Um robô estafeta a fazer os últimos quilómetros onde carrinhas não entram. Um assistente de loja de pé o dia inteiro, sem aquele abatimento silencioso do fim de turno. Conhecemos a frase que costuma seguir-se: “Vão tirar-nos os empregos.” Ainda assim, a realidade no terreno tende a ser mais confusa, mais híbrida, mais aborrecidamente humana.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

A maioria de nós não vai interagir com robôs que caminham 100 km já este ano. O que veremos, isso sim, são passos menores e menos glamorosos: robôs que aguentam mais algumas horas com segurança, ou sobem mais um lanço de escadas, ou patrulham um armazém maior sem precisarem de uma sesta de carregamento a cada 20 minutos. O recorde é a manchete; a verdadeira mudança é incremental, escondida em atualizações técnicas que quase ninguém lê.

Ao nível humano, a reação emocional divide-se. Há o fator “uau” - a criança dentro de nós a ver um filme de ficção científica ganhar vida. E há um sentimento mais quieto e privado: se as máquinas continuam a estender aquilo de que os corpos são capazes, onde ficam os nossos limites? Num dia em que só chegar às 8.000 passadas no relógio de fitness já parece uma conquista, ver um robô ultrapassar 100 km de uma vez pode soar a um murro nas costelas.

Todos já tivemos esse momento em que um dispositivo ou aplicação inteligente nos supera, casualmente, em algo que achávamos “nosso” - memória, resistência, foco. Este recorde de caminhada é essa sensação, embrulhada em metal e plástico. Leva-nos a perguntar não apenas “o que podem os robôs fazer?”, mas “o que é que ainda queremos fazer nós próprios, mesmo que sejamos piores nisso?”

Como os engenheiros ensinaram um robô a caminhar mais do que nós

Por trás da manchete, o método é quase obsessivamente meticuloso. Os engenheiros não carregaram apenas em “start” e esperaram que o robô não caísse de cara. Afinaram a marcha como um treinador de corrida refina a passada de um atleta: mudanças minúsculas no comprimento do passo, no ângulo do pé, no balanço dos braços.

Um truque-chave é a reciclagem de energia. Cada vez que o calcanhar do robô toca no chão, uma parte desse impacto pode ser absorvida e reutilizada por articulações e motores desenhados de forma inteligente. Menos energia desperdiçada significa menos calor, caminhadas mais longas e menos risco de uma paragem dramática ao quilómetro 83 porque um motor do joelho desistiu. Mantiveram também uma velocidade modesta, mais próxima de uma caminhada constante do que de uma marcha rápida. Isto não é preguiça; é estratégia. Um ritmo conservador vence longas distâncias.

O software é onde a magia de “andar sem cair” acontece a sério. O robô prevê constantemente onde estará o seu centro de massa uma fração de segundo depois. Se algo parece fora do normal - uma zona ligeiramente escorregadia, uma inclinação mínima - ajusta o passo seguinte em milissegundos. Para humanos, isto é instinto. Para robôs, é matemática a funcionar no máximo.

Havia muitas formas de falhar. Articulações a sobreaquecer após horas de movimento repetitivo. Baterias a descarregar mais depressa do que o previsto porque a fricção do piso foi ligeiramente subestimada. Uma falha de sensor a fazer o robô “acreditar” que o chão estava mais baixo ou mais alto do que na realidade. Os engenheiros falam disto não como momentos dramáticos de cinema, mas como stress constante em pano de fundo durante dezenas de horas.

Descobriram que pequenas quebras de atenção humana criavam as janelas mais arriscadas. Não para o robô, mas para as pessoas que o supervisionavam. Um número mal lido, uma reação atrasada a uma luz de aviso, e poderiam ter interrompido o teste mais cedo do que era necessário - ou, pior, não ter visto um sinal de falha grave. O robô não se cansou; as pessoas, sim. Há uma ironia estranha nisso, quase poética.

Um dos investigadores resumiu tudo numa frase que podia ter saído de um romance.

“Não construímos este robô para fazer os humanos sentirem-se fracos. Construímo-lo para carregar o peso daquilo que mais nos esgota.”

Eles sabem, claro, que nem toda a gente ouve isto dessa forma. Uns veem uma nova ferramenta; outros veem um futuro concorrente. A mesma caminhada pode parecer libertação ou ameaça, dependendo de quem observa e de onde.

  • Robôs a lidar com caminhadas perigosas e repetitivas podem libertar humanos de tarefas monótonas ou arriscadas.
  • A resistência de longa distância abre caminho para missões de busca e salvamento a pé.
  • A sociedade vai precisar de regras claras sobre onde os humanoides pertencem - e onde não pertencem.

O que estes 100 km dizem sobre nós, não apenas sobre robôs

A imagem que fica não é o certificado do Guinness. É aquela cena estranhamente banal de um robô a andar em círculos enquanto pessoas à volta bocejam, se espreguiçam, olham para o telemóvel, vão para casa, voltam. A constância da máquina põe a nossa fragilidade em evidência - e, curiosamente, é isso que torna a história humana.

Construímos robôs para fazer aquilo que não conseguimos, ou não queremos, ou não devemos fazer. Patrulhas longas e exaustivas. Inspeções perigosas. Um caminhar interminável por corredores que cheiram a desinfetante ou a pó. E, no entanto, cada passo desses 100 km foi programado, testado, alimentado até existir por pessoas que se cansam, duvidam, precisam de café, pausas e sono. O recorde é do robô, mas o esforço é profundamente nosso.

Este tipo de feito obriga a uma conversa tranquila e adulta. Não sobre robôs assassinos ou apocalipses de Hollywood, mas sobre o que realmente queremos delegar. Entregamos o aborrecido e o perigoso, e guardamos para nós as partes confusas, criativas, relacionais? Ou deixamos lentamente as máquinas entrar em espaços onde a presença e a imperfeição importam mesmo?

Ver um humanoide andar mais de 100 quilómetros sem uma única pausa pode deixá-lo impressionado, ansioso, inspirado - ou apenas estranhamente triste. Talvez o leve a olhar para as suas “maratonas” diárias: as deslocações, os cuidados, as tarefas intermináveis. Talvez acenda um debate ao jantar sobre onde aceitaria um robô companheiro e onde traçaria uma linha intransponível. Seja como for, este recorde tem menos a ver com distância do que com fronteiras. E essas, por agora, ainda são nossas para desenhar.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Um robô humanoide caminhou mais de 100 km sem pausa Recorde homologado pelo Guinness World Records, em pista interior, caminhada contínua Perceber porque não é um simples feito de laboratório, mas um verdadeiro ponto de viragem
Resistência não humana, marcha humana Movimento próximo da caminhada humana, sem fadiga, dores ou quebra de vigilância Medir o fosso que se abre entre os nossos limites físicos e os das máquinas
Aplicações concretas a caminho Vigilância, logística, salvamento, trabalho noturno, ambientes hostis Imaginar um quotidiano em que estes robôs possam cruzar o seu caminho

FAQ:

  • Quem construiu o robô humanoide que bateu o recorde dos 100 km? O recorde foi alcançado por uma equipa de investigação que trabalhou com um humanoide bípede num ambiente laboratorial controlado, sob supervisão de responsáveis do Guinness World Records.
  • Quanto tempo demorou o robô a caminhar mais de 100 km? Foram necessárias muitas horas de caminhada contínua, a um ritmo constante e energeticamente eficiente, aproximadamente comparável a um dia muito longo de caminhada lenta, sem quaisquer pausas.
  • O robô recebeu alguma ajuda durante a tentativa? Não foi permitida qualquer assistência física. Os humanos monitorizaram dados e segurança, mas o robô caminhou sem apoio para cumprir as regras do Guinness.
  • Um humano conseguiria bater um recorde deste tipo a pé? Ultra-maratonistas conseguem percorrer mais de 100 km, mas precisam de descanso, comida e recuperação. A diferença aqui é a ausência total de pausas ou sinais de fadiga.
  • Quando veremos robôs assim em espaços públicos no dia a dia? Algumas versões iniciais já existem em projetos-piloto e testes. A utilização ampla e rotineira dependerá de regulamentação, custos e aceitação pública ao longo da próxima década.

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