O país aprovou discretamente, para utilização operacional este ano, uma vaga sem precedentes de novas armas produzidas internamente, sinalizando que a sua indústria de defesa já não está apenas a sobreviver à guerra com a Rússia, mas a tentar reescrever a forma como a combate.
Kyiv aprova 1.300 novos modelos de armas nacionais
A Ucrânia autorizou mais de 1.300 novos modelos de armas e equipamento militar de produção nacional para utilização operacional em 2025, segundo o ministro da Defesa, Denys Shmyhal.
O Ministério da Defesa da Ucrânia afirma que o número de sistemas recentemente aprovados aumentou cerca de 25% face ao ano anterior.
Este crescimento homólogo sugere que fábricas ucranianas, gabinetes de engenharia e pequenas oficinas privadas estão a aumentar a produção apesar de ataques com mísseis, cortes de energia rotativos e escassez de mão de obra. As autoridades descrevem a medida como parte de uma mudança deliberada para a autossuficiência, reduzindo a exposição a entregas imprevisíveis de armamento ocidental.
Drones dominam o novo arsenal
O número em destaque esconde um pormenor importante: esta nova vaga de equipamento é esmagadoramente não tripulada.
Mais de 550 dos sistemas aprovados são modelos de drones, uma categoria ampla que inclui quadricópteros de reconhecimento, plataformas de asa fixa de longo alcance, drones “kamikaze” FPV (first-person-view) e munições vagantes concebidas para circular sobre alvos antes de atacar.
A Ucrânia está, na prática, a transformar-se num “superutilizador” de drones, tratando os sistemas não tripulados como ferramentas centrais do campo de batalha, e não como complementos de nicho.
Na frente, os drones já detetam blindados russos, orientam a artilharia e atacam centros logísticos. Brigadas ucranianas recorrem rotineiramente a voluntários e pequenas empresas para plataformas personalizadas e munições improvisadas. A aprovação oficial de centenas de modelos sugere que o governo está agora a tentar normalizar e escalar o que era um ecossistema fragmentado.
O que mais consta da lista de 2025
Além dos drones, a agência de defesa ucraniana autorizou para serviço um conjunto de sistemas convencionais:
- Mais de 270 tipos de munições, provavelmente incluindo projéteis de artilharia, munições de morteiro, munições de carro de combate e bombas largadas por drones.
- Mais de 50 unidades automóveis, como camiões, veículos especializados e plataformas logísticas.
- 11 tipos de veículos blindados, incluindo variantes especializadas para funções como evacuação médica ou comando e controlo.
- 13 tipos de armas ligeiras, abrangendo espingardas, carabinas e, potencialmente, novas plataformas de metralhadoras ou de atirador furtivo.
Embora nenhuma destas categorias iguale os drones em volume, são importantes por uma razão simples: nenhuma frota de drones funciona sem munições, transporte e veículos protegidos para levar equipas e equipamento para perto da linha de contacto.
Financiamento estrangeiro sustenta o impulso da produção interna
As aprovações de armamento estão a ser acompanhadas por um impulso financeiro paralelo. Um relatório governamental separado mostra que a Ucrânia garantiu mais de 6 mil milhões de dólares em financiamento estrangeiro no ano passado, especificamente para apoiar o seu complexo industrial de defesa.
Esse dinheiro chega sob diferentes formas: programas internacionais, compras diretas por países parceiros e fundos direcionados para projetos de alta prioridade, como drones. O objetivo é passar de encomendas de emergência ad hoc para um fabrico sustentado em tempo de guerra.
As autoridades descrevem o financiamento como uma ponte entre as necessidades do campo de batalha de hoje e uma base industrial de mais longo prazo, capaz de funcionar mesmo que as entregas de armas estrangeiras diminuam ou abrandem.
Crucialmente, grande parte deste dinheiro não entra como ajuda clássica que Kyiv depois gasta no estrangeiro. Em vez disso, Estados parceiros estão a fazer encomendas diretamente a fabricantes ucranianos, subcontratando, na prática, parte do seu apoio às próprias fábricas da Ucrânia.
O modelo dinamarquês e os ativos russos congelados
Cerca de 1,8 mil milhões de dólares do total foram destinados ao que Kyiv chama o “Modelo Dinamarquês”, lançado em janeiro de 2025. A iniciativa foi desenhada para tornar a aquisição de armamento mais rápida e previsível.
Ao abrigo deste modelo, a Dinamarca coordena o financiamento - em parte através de doações e em parte através de ativos russos congelados - para comprar armas a produtores ucranianos para as forças armadas da Ucrânia. Esta configuração procura contornar procedimentos tradicionais de ajuda, muitas vezes lentos, e dá às empresas locais contratos mais claros e de maior duração.
A utilização de ativos russos congelados continua a ser politicamente sensível na Europa, mas para a Ucrânia abre um canal raro em que dinheiro de Moscovo é reaproveitado para alimentar o esforço de defesa contra a invasão.
Compras diretas e o projeto “Drone Line”
Além do enquadramento liderado pela Dinamarca, países parceiros usaram uma via mais direta: a aquisição direta. Kyiv afirma que cerca de 4,3 mil milhões de dólares dos 6 mil milhões totais resultaram destas compras diretas, por Estados estrangeiros, a fabricantes ucranianos.
Estas encomendas tendem a concentrar-se em sistemas que as empresas ucranianas conseguem fornecer rapidamente: drones, munições de artilharia, veículos terrestres, equipamento de guerra eletrónica e material de campanha.
Dentro desse montante, quase 900 milhões de dólares foram dedicados ao projeto “Drone Line”, uma iniciativa promovida pelo presidente Volodymyr Zelensky. O projeto pretende industrializar a produção de drones, passando de oficinas dispersas para linhas de montagem capazes de produzir grandes volumes de modelos normalizados.
A Drone Line incorpora a aposta da Ucrânia de que sistemas não tripulados em massa, relativamente baratos, podem compensar a vantagem numérica da Rússia em artilharia, blindados e aeronaves.
Como a mudança para armas locais altera o campo de batalha
Para as forças armadas ucranianas, equipar unidades com sistemas nacionais traz vários benefícios práticos. As cadeias de abastecimento são mais curtas, as peças sobresselentes podem ser obtidas dentro do país e os engenheiros podem falar diretamente com unidades na linha da frente sobre ajustes e melhorias.
Uma unidade ucraniana de drones, por exemplo, pode reportar que um determinado modelo FPV perde sinal em terreno específico. Engenheiros nas proximidades podem ajustar a colocação da antena ou o software e enviar um lote melhorado em poucas semanas. Com sistemas importados, essas alterações implicam frequentemente certificações demoradas e negociações prolongadas.
A produção local também reduz o risco político. Governos ocidentais enfrentaram debates internos sobre o envio de mísseis de longo alcance ou de certos veículos blindados. Ao fabricar mais equipamento próprio, a Ucrânia espera amortecer o impacto de futuras mudanças de política externa ou de resultados eleitorais no estrangeiro.
Desafios por trás dos títulos
O aumento de equipamento aprovado não elimina obstáculos sérios. Ataques russos com mísseis e drones atingem rotineiramente zonas industriais e infraestruturas energéticas, obrigando fábricas a relocalizar-se, a trabalhar sob condições de apagão ou a deslocar-se para instalações subterrâneas.
A mão de obra é outra limitação. Muitos trabalhadores qualificados estão na frente, e os que permanecem na indústria vivem sob stress constante. Garantir matérias-primas - de explosivos a metais especializados - exige também linhas de importação estáveis que a Rússia procura interromper.
A normalização de tantos novos modelos dentro das forças armadas é uma dor de cabeça adicional. Os comandantes precisam de materiais de treino, procedimentos de manutenção e cadeias logísticas. Um armazém com dezenas de baterias de drones ligeiramente diferentes, por exemplo, torna-se rapidamente um pesadelo em combate ativo.
Termos-chave e o que significam no terreno
Vários dos conceitos associados aos planos de 2025 da Ucrânia podem parecer abstratos. Na frente, traduzem-se em realidades muito concretas do dia a dia.
Munições vagantes: Por vezes são chamadas “drones kamikaze”. Ao contrário da artilharia clássica, que dispara um tiro numa trajetória fixa, uma munição vagante pode manter-se no ar sobre uma área suspeita de alvos. Os operadores podem ver uma transmissão de vídeo em direto, escolher o momento certo e depois lançar o drone em mergulho sobre um veículo, uma posição de armas ou uma ponte.
Autossuficiência: Em contexto militar, isto não significa cortar relações com parceiros estrangeiros. Significa conseguir continuar a combater mesmo que alguma ajuda abrande. Uma brigada que depende de drones e projéteis fabricados localmente tem menos probabilidade de interromper operações quando um carregamento do estrangeiro é atrasado por política ou logística.
Aquisição simplificada: O “Modelo Dinamarquês” tenta encurtar o tempo entre uma unidade dizer “precisamos disto” e uma fábrica entregá-lo. Em tempo de guerra, reduzir semanas nesse ciclo pode significar a diferença entre manter uma linha de trincheiras e perdê-la.
O que isto poderá parecer no final de 2025
Se a Ucrânia conseguir manter as fábricas a funcionar e o financiamento estrangeiro estável, o panorama no terreno poderá mudar ainda mais nos próximos 12 a 18 meses.
Brigadas na linha da frente poderão operar sobretudo com drones nacionais, tanto para ataque como para reconhecimento, mantendo sistemas ocidentais importados em reserva para missões especializadas. Munições produzidas na Ucrânia poderão cobrir uma fatia maior das necessidades diárias de artilharia, permitindo que projéteis estrangeiros sejam armazenados para grandes ofensivas.
Veículos blindados montados ou modernizados localmente poderão colmatar lacunas deixadas por equipamento mais antigo da era soviética retirado de serviço. Continuariam a existir frotas mistas, mas a manutenção e a reparação poderiam depender mais de oficinas ucranianas que conhecem os sistemas desde a fase de conceção.
O risco é a Rússia continuar a atacar precisamente estas capacidades, usando mísseis de longo alcance e sabotagem para atingir fábricas, centros logísticos e centrais energéticas. Autoridades ucranianas já falam em dispersar a produção, deslocando linhas para locais mais pequenos e difíceis de atingir, e em recorrer a instalações subterrâneas.
Por agora, a aprovação de mais de 1.300 novos modelos de armas envia um sinal claro: a Ucrânia espera uma guerra longa e pretende combatê-la com um arsenal cada vez mais fabricado na Ucrânia, financiado em grande parte por parceiros, mas concebido e produzido em casa.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário