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Uma sepultura reescreve a história: aqui foi encontrado o primeiro ouro usado como joia por humanos.

Arqueólogo a desenterrar joias douradas e ossos num sítio arqueológico à beira-mar, com ferramentas ao redor.

Hidden beneath an industrial site near Varna, in eastern Bulgaria, archaeologists uncovered hundreds of graves packed with treasures. What they found did not just push back the date of the first gold jewellery. It forced researchers to rethink when power, status and social inequality truly began.

O cemitério do Mar Negro que não devia existir

No outono de 1972, trabalhadores da construção civil nos arredores de Varna depararam-se com algo duro ao bater com as pás. Não era um cano nem uma rocha, mas uma sepultura humana. As autoridades locais chamaram arqueólogos. A primeira vala de sondagem abriu para uma vasta necrópole pré-histórica, datada de cerca de 4600 a 4300 a.C.

Ao longo de cerca de 20 anos de escavações, os investigadores descobriram aproximadamente 300 sepulturas. Sessenta e duas continham objetos feitos de ouro. Colares, pulseiras, brincos, pendentes de contas e pequenos discos que outrora cintilavam no vestuário surgiam às dezenas. No total, mais de 3.000 artefactos foram retirados do solo.

No conjunto, o ouro da necrópole de Varna pesa mais de seis quilogramas, o que o torna o ouro trabalhado mais antigo conhecido na Terra.

Isto recua o ourivesaria deliberada em ouro para há cerca de 6.600 anos. Uma única conta de ouro encontrada noutro sítio búlgaro em 2016 pode ser ligeiramente mais antiga, mas a sua datação continua a ser debatida. O cemitério de Varna, pelo contrário, assenta num enquadramento cronológico sólido. A análise por radiocarbono de ossos humanos e de restos orgânicos fixa esta comunidade no final da Idade da Pedra, durante aquilo a que os arqueólogos chamam Idade do Cobre, ou Calcolítico.

Foi um momento em que, por toda a Eurásia, os humanos ainda usavam ferramentas de pedra, mas já começavam a experimentar metais. O cobre era martelado para fazer machados, sovelas e ornamentos. O ouro, demasiado macio para armas ou ferramentas, tornou-se outra coisa: um marcador visível de que uma pessoa importava mais do que os seus vizinhos.

Sepultura 43: um velho enterrado como um governante

Entre todos os enterramentos em Varna, há um que se destaca. Os arqueólogos referem-se a ele simplesmente como Sepultura 43, mas o seu ocupante ganhou um estatuto quase lendário nos estudos da Pré-História.

A sepultura continha o esqueleto de um homem que morreu com mais de 60 anos - já por si algo notável para um período tão antigo. À volta e sobre o seu corpo encontrava-se uma concentração impressionante de riqueza. Quase um terço de todo o ouro recuperado do cemitério veio apenas do seu túmulo.

Contas de ouro emolduravam-lhe a cabeça e o peito. Pulseiras adornavam-lhe os braços. Um machado cerimonial com o cabo revestido a ouro repousava junto dele. Espalhados à volta havia mais ornamentos e objetos simbólicos, muitos dos quais nunca foram feitos para uso prático.

Um objeto, acima de todos, fascinou os investigadores: uma bainha de ouro interpretada como um protetor peniano, uma expressão única de prestígio masculino.

Este objeto, sem paralelo conhecido na mesma época, sugere mais do que vaidade. Indica que o poder sexual e reprodutivo era exibido de forma consciente e ligado ao estatuto social. Em conjunto com o restante espólio funerário, traça o retrato de um homem que ocupava uma posição muito para além da de um ancião da aldeia.

Os conservadores do Museu Arqueológico de Varna defendem que apenas uma elite muito reduzida recebeu um tratamento tão sumptuoso na morte. A Sepultura 43 terá pertencido a um líder político, a um especialista religioso, a um mestre artesão - ou a uma combinação das três funções. O seu enterramento mostra que, por volta de 4600 a.C., já existiam linhas nítidas de hierarquia dentro desta comunidade costeira.

Porque é que o ouro apareceu tão cedo nos Balcãs

A pergunta óbvia paira sobre o sítio: porquê aqui, e porquê então? A maioria das pessoas associa as primeiras sociedades complexas aos faraós do Egito ou às cidades-estado da Mesopotâmia, ambas milhares de anos mais recentes do que o cemitério de Varna.

Os arqueólogos apontam três tendências sobrepostas que transformaram os Balcãs num berço de inovação precoce:

  • Ricos recursos minerais: as montanhas próximas continham depósitos de cobre e ouro que podiam ser recolhidos e trabalhados.
  • Avanços na mineração e na metalurgia: as comunidades estavam a aprender a extrair minérios, aquecê-los e moldar metais de forma mais eficiente.
  • Comércio de longa distância: a costa do Mar Negro funcionava como um corredor que ligava grupos agrícolas do interior a rotas marítimas.

Neste contexto, o ouro não era um material prático. Mancha-se pouco e brilha intensamente, mas dobra-se com demasiada facilidade para ferramentas do dia a dia. Isso tornou-o perfeito para um papel diferente. Tornou-se um símbolo.

Em Varna, o ouro parece funcionar como uma linguagem de estatuto: uma forma de mostrar poder, autoridade sagrada e ligações de longo alcance sem palavras.

A enorme quantidade de ouro em certas sepulturas, e a sua ausência noutras, revela uma desigualdade dramática. Alguns indivíduos foram enterrados quase nus, talvez com um simples recipiente cerâmico. Outros, como o homem da Sepultura 43, foram transformados em monumentos cintilantes.

Hierarquias iniciais e as primeiras sementes da desigualdade

A necrópole de Varna tornou-se um exemplo clássico de estratificação social precoce. A distribuição dos objetos e a sua colocação em torno dos corpos sugerem que papéis e classes começavam a cristalizar.

Pistas inscritas nas sepulturas

Os arqueólogos estudam pormenores como a postura do corpo, a profundidade da sepultura e a qualidade dos bens para reconstruir esta sociedade. Em Varna, alguns indicadores destacam-se:

Característica da sepultura O que sugere
Grande quantidade de ouro Estatuto elevado, possivelmente liderança ou autoridade ritual
Armas ou ferramentas de prestígio Controlo sobre a violência, o trabalho ou os ofícios
Itens simbólicos sem uso prático Funções religiosas ou cerimoniais
Enterramentos simples com poucos bens Membros comuns da comunidade ou estatuto inferior

Algumas sepulturas em Varna contêm até ofertas ricas mas sem esqueleto. Estes “cenotáfios” podem ter homenageado corpos ausentes ou antepassados, sugerindo crenças complexas sobre a morte e a memória.

Se esta interpretação for correta, a comunidade de Varna não era uma aldeia plana de agricultores iguais. Era uma sociedade estratificada com líderes, especialistas e talvez linhagens hereditárias de poder. Nesse sentido, o sítio parece um protótipo de civilizações posteriores, mais formais.

Terá Varna sido uma civilização precoce?

Rotular qualquer sítio como a “primeira civilização” é arriscado. Ainda assim, o cemitério de Varna exibe alguns traços normalmente associados aos primeiros estados: trabalho organizado, comércio de longa distância, especialização e desigualdade ostensiva.

As elites enterradas em ouro provavelmente geriam redes que se estendiam muito para além do seu assentamento costeiro. Materiais como pedras exóticas e conchas sugerem contactos longínquos. A metalurgia em si pode ter exigido expedições mineiras coordenadas e artesãos especializados a trabalhar a tempo inteiro.

As pessoas por trás das sepulturas de Varna não eram meros agricultores que gostavam de ornamentos; eram participantes de um sistema estruturado e politicamente carregado.

Alguns investigadores defendem agora que os Balcãs constituíram uma das primeiras “zonas civilizacionais” do continente europeu, milénios antes das culturas clássicas que dominam os manuais escolares. A necrópole de Varna funciona como um arquivo silencioso dessa experiência de complexidade.

O que o sítio nos diz sobre ouro, poder e crença

O ouro exerce uma atração estranha sobre as sociedades humanas. Em Varna, parece estar ligado tanto a ideias de sacralidade como de riqueza. Colocar um material tão raro com os mortos significa retirá-lo deliberadamente de circulação. A comunidade escolheu sacrificar valor económico em nome do ritual e do prestígio.

Nesse sentido, Varna antecipa padrões posteriores: túmulos faraónicos no Egito, máscaras de ouro na Grécia micénica e enterramentos reais na Ásia Central. Através de culturas diferentes, o metal brilhante torna-se uma ponte entre o estatuto terreno e mundos imaginados para além da morte.

Termos-chave que vale a pena esclarecer

Várias expressões técnicas surgem quando os arqueólogos discutem Varna:

  • Calcolítico (Idade do Cobre): período entre o Neolítico tardio (Idade da Pedra Nova) e a Idade do Bronze, marcado pelo primeiro uso de ferramentas de cobre a par das de pedra.
  • Necrópole: literalmente “cidade dos mortos”, um grande cemitério que serve uma comunidade ao longo de gerações.
  • Espólio funerário: objetos enterrados com os mortos, que podem refletir pertences pessoais, oferendas ou símbolos de estatuto e crença.
  • Cenotáfio: sepultura simbólica ou monumento sem corpo, frequentemente usado para pessoas cujos restos se encontram noutro local.

Compreender estes termos ajuda o leitor a perceber porque é que Varna importa. Não se trata apenas de objetos reluzentes, mas das mudanças sociais, técnicas e espirituais que os acompanharam.

Como isto muda a história que contamos sobre o passado

A necrópole de Varna desafia discretamente uma narrativa comum: a de que a hierarquia e a riqueza ostentatória começaram apenas com as grandes civilizações fluviais. Aqui, num canto do que é hoje a Bulgária, surge uma cronologia mais antiga. Metalurgistas, comerciantes e líderes já estavam a construir uma sociedade estratificada - e assinalaram essa mudança com ouro.

Para visitantes e estudantes de hoje, Varna oferece um estudo de caso concreto. Mostra como os arqueólogos podem passar de ossos e contas a perguntas maiores: quem detinha o poder? Como era justificado? Em que momento o adorno pessoal se transformou em desigualdade? O homem da Sepultura 43, enterrado com o seu machado revestido a ouro e a sua enigmática bainha, está nesse ponto de viragem em que a joalharia deixou de ser apenas decoração e passou a ser uma afirmação política gravada em metal.

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