Silent, baratos e difíceis de localizar, os drones estão agora a obrigar a repensar estratégias.
De centrais nucleares a aeroportos internacionais, a França está discretamente a montar um novo escudo contra aeronaves não tripuladas. Ecrãs de radar, espingardas de interferência e empresas tecnológicas privadas estão a ser reunidos numa defesa em camadas, à medida que a Europa se mostra cada vez mais nervosa com drones misteriosos que se aproximam das suas fronteiras.
Da guerra na Ucrânia ao espaço aéreo francês: porque é que os drones são agora uma preocupação nacional
Os recentes sobrevoos de drones na Polónia, Roménia e Dinamarca levantaram uma questão incómoda em Paris: o que aconteceria se uma aeronave semelhante se dirigisse para o espaço aéreo francês?
As forças armadas francesas veem os drones não como uma ameaça futura, mas como uma ameaça presente. Modelos militares podem transportar armas ou equipamento de espionagem. Quadricópteros comerciais podem ser transformados em ferramentas de sabotagem ou vigilância com pouco esforço.
A França trata qualquer drone não identificado perto de locais-chave quase como uma aeronave suspeita: detetar depressa, classificar depressa, agir depressa.
A resposta começa muito antes de um sistema hostil aparecer no radar. Ao longo da última década, a França modernizou toda a sua rede de comando e controlo aeroespacial, com o objetivo de ligar a vigilância do espaço aéreo, os mísseis terrestres e os caças numa única estrutura reativa.
O SCCOA: o sistema nervoso digital da França para os céus
No centro desta estratégia está o SCCOA, o sistema de comando e controlo das operações aéreas. Pense nele como o sistema nervoso digital da defesa aérea francesa.
Liga três elementos principais:
- Radares - fixos e móveis, cobrindo alcances médios e longos
- Centros de operações - onde as trajetórias no espaço aéreo são analisadas e as decisões são tomadas
- Redes de comunicações - que alimentam unidades em todo o país e aliados da NATO com dados
Estes radares conseguem monitorizar centenas de alvos ao mesmo tempo, varrendo 360 graus e alcançando aproximadamente 350–400 km. Isso dá à França tempo de aviso caso um grande drone militar ou uma aeronave não identificada se dirija às suas fronteiras.
Os radares de defesa aérea franceses conseguem seguir enxames de trajetórias em simultâneo, de aviões comerciais a drones, numa única imagem integrada.
Os dados também são partilhados com parceiros da NATO, o que significa que a França pode ser alertada por um aliado ainda antes de os seus próprios sensores detetarem uma ameaça. Para drones que entrem pelo leste ou sobre o Mediterrâneo, esse aviso antecipado pode ser crucial.
Neutralizar um drone hostil: de mísseis a caças Rafale
Detetar é apenas o primeiro passo. Assim que um drone é identificado como ameaça, as forças armadas francesas têm de o neutralizar rapidamente.
As opções de resposta dependem do tamanho, altitude e velocidade da aeronave:
| Tipo de drone | Resposta francesa provável |
|---|---|
| Grande drone militar (MALE, armado ou de vigilância) | Mísseis terra-ar de médio alcance ou caças Rafale com mísseis ar-ar |
| Alvo de deslocação rápida perto de áreas sensíveis | Baterias de defesa aérea terrestres coordenadas pelo comando nacional do ar |
| Pequeno quadricóptero perto de aeroportos ou locais nucleares | Espingardas de interferência, equipas locais da polícia ou gendarmaria e sistemas de deteção especializados |
Na extremidade superior da escala, a França mantém unidades móveis de mísseis terra-ar e pode fazer descolar caças Rafale armados com mísseis ar-ar. Tecnicamente, esses jatos podem intercetar um drone da mesma forma que atacariam um caça ou um míssil de cruzeiro.
Todo este portefólio é coordenado pelo Comando de Defesa Aérea e de Operações Aéreas (CDAOA), sediado no complexo fortificado de Lyon–Mont Verdun. A partir daí, oficiais acompanham incidentes, atribuem missões de interceção e articulam com a NATO quando um drone pode atravessar várias fronteiras nacionais.
Para além do campo de batalha: drones sobre infraestruturas críticas
A França não está preocupada apenas com atores estatais e drones militares. Sistemas pequenos e não armados podem, ainda assim, causar danos sérios. Um quadricóptero pode filmar esquemas de segurança, largar contrabando ou transportar uma pequena carga explosiva.
Locais que merecem atenção particular incluem:
- Centrais nucleares e instalações de combustível
- Grandes unidades industriais que lidam com químicos ou energia
- Aeroportos e grandes nós de transportes
Nos últimos anos, drones já foram avistados sobre várias destas localizações, muitas vezes sem que os pilotos fossem identificados. Esse padrão levou as autoridades a reforçar primeiro a segurança em torno dos aeroportos, onde um drone a cruzar a trajetória de aproximação de uma pista pode desencadear o caos.
Aeroportos como campos de teste para tecnologia anti-drones
Os aeroportos franceses estão a transformar-se em laboratórios reais para sistemas de combate a drones. A Direction des Services de la Navigation Aérienne (DSNA), que supervisiona o controlo de tráfego aéreo, subcontratou a deteção de drones em oito aeroportos à Drone XTR, uma empresa sediada em Le Havre.
Nice e Marselha já foram equipados; Bordéus e Toulouse são os próximos na lista. O sistema usa uma antena e sensores para detetar drones multirrotores num raio de até 20 km.
Quando um drone voa onde um avião comercial poderia estar, o sistema emite um alerta em segundos, desencadeando uma chamada telefónica para a torre de controlo.
Se um drone aparecer num corredor ou numa faixa de altitude reservada a aeronaves, um alerta segue automaticamente para a Seris Security, um prestador privado de segurança, que depois contacta diretamente os controladores de tráfego aéreo. Estes podem abrandar chegadas, pausar descolagens ou mudar a pista em uso, enquanto as forças de segurança localizam o operador.
No terreno: equipas da gendarmaria com espingardas de interferência
A tecnologia, por si só, não trava um drone. Nos aeroportos, a Gendarmerie des Transports Aériens (GTA) destaca equipas equipadas com espingardas anti-drones dedicadas.
Estas espingardas emitem um feixe focado de ondas de rádio que perturba a ligação de dados e a navegação do drone. A algumas centenas de metros, conseguem forçar a aeronave a perder controlo e a descer de forma controlada, em vez de simplesmente cair do céu.
No início deste ano, em Toulouse–Blagnac, um voo ilegal de drone perto do aeroporto levou à detenção do operador e à apreensão do drone. Incidentes deste tipo são agora tratados com pouca tolerância, em parte para estabelecer um precedente claro à medida que o uso de drones se dissemina entre amadores e profissionais.
Como a França escolhe entre diferentes ferramentas anti-drones
As autoridades francesas não dispõem de uma única ferramenta milagrosa para todos os drones. Em vez disso, combinam três abordagens amplas:
- Deteção e identificação - radares, sensores de radiofrequência, câmaras e sistemas acústicos
- Contramedidas eletrónicas - espingardas de interferência, perturbação de sinal, spoofing de GPS
- Ação cinética - mísseis, armas de fogo ou interceção por outra aeronave
Em áreas urbanas densas ou em torno de aeroportos, abater um drone com uma arma convencional é, normalmente, demasiado arriscado. Interferir ou forçar o drone a aterrar torna-se a via preferida. Para intrusões a grande altitude, mísseis ou caças continuam a ser o último recurso.
Termos-chave que moldam o debate francês
Várias expressões técnicas surgem repetidamente nas discussões sobre estes sistemas:
- Drone MALE: significa “média altitude, longa duração”, descrevendo drones militares que voam alto e permanecem no ar durante muitas horas.
- CDAOA: o comando nacional de defesa aérea e operações, responsável por todas as operações no espaço aéreo francês e policiamento aéreo.
- SCCOA: o sistema integrado que funde radar, centros de comando e comunicações para monitorizar e defender os céus franceses.
Compreender estas siglas ajuda a perceber como os mundos civil e militar se estão a fundir. Um drone sobre um aeroporto pode desencadear uma cadeia de resposta que vai de uma empresa de segurança privada, para a GTA, e até ao comando nacional do ar se o incidente parecer coordenado ou hostil.
Cenários futuros: de enxames a sinais GPS falsificados
Os sistemas atuais estão, em grande medida, construídos para lidar com drones individuais. No entanto, os planeadores de defesa em Paris já estão a simular cenários mais exigentes. Um cenário é um enxame de dezenas de pequenos drones, voados em simultâneo na direção de um local como uma refinaria ou uma base naval. Outro é um drone que usa ligações encriptadas que resistem à interferência padrão.
Os planeadores franceses veem os drones menos como brinquedos para afugentar e mais como ferramentas baratas e adaptáveis que qualquer ator hostil pode utilizar.
Simulações realizadas pela NATO e por forças nacionais incluem agora frequentemente elementos com drones: um enxame a distrair operadores de radar enquanto outra plataforma passa despercebida; ou um drone usado como sensor, transmitindo dados para armas a grande distância. Estes exercícios influenciam discretamente quantos radares a França compra, com que frequência os caças estão em alerta e onde kits anti-drones são pré-posicionados.
Implicações práticas para viajantes e residentes
Para a maioria das pessoas, esta nova camada de segurança será quase invisível. Passageiros em aeroportos poderão apenas reparar em mais antenas, caixas estranhas nos telhados, ou agentes uniformizados a transportar “espingardas” volumosas que não parecem armas de fogo.
Já os entusiastas de drones enfrentam regras mais rígidas e fiscalização mais intensa. Voar perto de pistas, centrais nucleares ou zonas governamentais urbanas pode agora levar a intervenção rápida, apreensão de equipamento e consequências legais. A distância entre o voo recreativo casual e o potencial uso criminoso diminuiu, tornando as autoridades mais céleres a agir.
À medida que a França se adapta a estes intrusos aéreos, o país está, na prática, a redesenhar a fronteira entre os céus civis e a defesa militar. A linha entre um drone com câmara e uma arma pode ser ténue; a resposta agora procura ser tudo menos isso.
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