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Aprendi aos 60: poucos sabem a diferença entre ovos brancos e castanhos.

Mãos a quebrar um ovo numa tigela de vidro, com cartela de ovos e balança na mesa de madeira.

Eu tinha 60 anos no dia em que me vi paralisado em frente à secção dos ovos, a semicerrar os olhos como se estivesse a escolher um carro novo em vez do pequeno-almoço. À esquerda, ovos brancos impecáveis numa caixa de plástico. À direita, ovos castanhos com aspeto mais rústico, que pareciam mais saudáveis só por parecerem mais próximos da natureza.

Durante anos, eu pegava nos castanhos, convencido de que eram melhores. “Mais naturais”, dizia eu, como se realmente soubesse. Naquele dia, uma jovem caixa riu-se com suavidade quando me viu hesitar e disse-me algo que me fez sentir, ao mesmo tempo, parvo e estranhamente aliviado.

Desde então, não consigo deixar de ver o pormenor que ignorei a vida inteira.
A cor da casca esconde um pequeno segredo.

Então, o que é que realmente separa um ovo branco de um ovo castanho?

À primeira vista, a diferença parece óbvia: um parece feito para um anúncio, o outro para uma cesta de quinta. Os ovos castanhos parecem mais quentes, mais “reais”. Os brancos parecem industriais, quase estéreis.

Sem nos darmos conta, construímos histórias à volta destas cores. Castanho deve ser biológico, branco deve ser barato. Castanho deve vir de galinhas felizes, branco de grandes pavilhões sombrios. Não lemos os rótulos; confiamos nos olhos. É assim que o marketing ganha.

No entanto, por trás dessa primeira impressão, esconde-se algo muito mais trivial do que a maioria de nós imagina.

Alguns dias depois da minha revelação no supermercado, perguntei a um pequeno produtor no mercado. Ele sorriu, pegou num ovo branco e num ovo castanho da mesma caixa e colocou-os na minha mão. “Mesma ração, mesmo terreno, mesma vida”, disse. “Galinhas diferentes, é só isso.”

Depois apontou para uma galinha a debicar perto da vedação. Penas claras, lóbulos brancos de lado na cabeça: punha ovos brancos. A vizinha, mais avermelhada, com penas mais escuras e lóbulos avermelhados, punha ovos castanhos. Mesmo galinheiro, o mesmo pó, o mesmo sol. Casca diferente.

Nada de místico. Nenhum superalimento secreto. Apenas genética disposta numa cesta.

Esta é a verdade simples: a cor da casca vem, na maior parte dos casos, da raça da galinha. Galinhas de penas brancas com lóbulos claros costumam pôr ovos brancos. Galinhas de penas vermelhas ou castanhas com lóbulos mais escuros tendem a pôr ovos castanhos.

O pigmento que tinge a casca é depositado no fim do processo de formação do ovo. Não atravessa a casca. Não fortalece a gema. Não aumenta vitaminas. Por dentro, quando os partimos, ovos brancos e castanhos são nutricionalmente quase idênticos se as galinhas comeram a mesma ração e viveram nas mesmas condições.

Compramos uma cor, imaginamos uma história, pagamos por uma sensação.

Como escolher realmente os ovos (sem cair na armadilha da cor)

Se deixarmos de perseguir a cor “certa”, de repente outra coisa fica em foco: os pequenos códigos e palavras impressos na embalagem. É aí que a verdadeira diferença se esconde.

O primeiro número no carimbo do ovo diz como vivia a galinha: 0 para biológico, 1 para ar livre (com acesso ao exterior), 2 para criação em solo (pavilhão), 3 para gaiola. Depois vêm letras e números para o país e para a exploração. Este código é muito menos fotogénico do que uma casca castanha, mas diz muito mais sobre o que estamos realmente a comprar.

A cor seduz. Aquele carimbo minúsculo conta a história.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que o orçamento está apertado e pegamos no tabuleiro mais barato sem pensar demasiado. Sem julgamento - é a vida. Às vezes, a diferença de alguns cêntimos decide mais do que qualquer princípio.

Ainda assim, quando aprendes a decifrar esses rótulos, algo muda. Podes alternar: em algumas semanas, biológico ou ar livre; noutras, criação em solo mas de um produtor local. Também podes reparar que alguns ovos castanhos “com ar premium” vêm, afinal, de galinhas criadas no interior, enquanto alguns ovos brancos discretos vêm de explorações que realmente respeitam o bem-estar animal.

Depois de veres isto, já não consegues deixar de ver o fosso entre imagem e realidade.

“As pessoas acham que os ovos castanhos são mais saudáveis”, disse-me o produtor, limpando as mãos nas calças. “Eu podia pintar as cascas de azul e por dentro continuavam a ser os mesmos ovos. O que muda o ovo é a vida da galinha, não a maquilhagem.”

  • Olha para o primeiro número do carimbo
    0 e 1 significam que as galinhas têm acesso ao exterior; 2 e 3 significam que ficam dentro.
  • Verifica as palavras na embalagem
    “Biológico”, “ar livre”, “solo”, “gaiola” dizem mais do que a cor da casca alguma vez dirá.
  • Repara na gema, não na casca
    Uma gema mais amarela intensa ou alaranjada costuma refletir a alimentação da galinha, não o facto de o ovo ser castanho ou branco.
  • Confia nos teus sentidos em casa
    O cheiro, a textura depois de cozinhado, como a clara se mantém na frigideira: estes são indícios reais.
  • Aceita que o preço às vezes manda
    Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mesmo escolhas pequenas e ocasionais contam com o tempo.

O que eu gostava que alguém me tivesse dito sobre ovos há 40 anos

No dia em que finalmente aprendi a diferença entre ovos brancos e castanhos, senti-me um pouco como alguém que descobre aos 60 que o Pai Natal nunca existiu. Fiquei ligeiramente desiludido e, ao mesmo tempo, estranhamente libertado. Percebi como uma cor, uma imagem rústica numa caixa, ou uma palavra como “caseiro” podem guiar as nossas escolhas durante décadas.

Também me fez olhar de forma diferente para outros corredores. O pão mais escuro que não é verdadeiramente integral. Os produtos “light” que não são realmente mais leves. Os rótulos “tradicionais” colados em alimentos ultraprocessados. Depois de passares por isto com algo tão simples como um ovo, começas a detetar o mesmo padrão em todo o lado.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Cor da casca = genética Branco vs. castanho depende da raça da galinha e dos pigmentos na casca Evita desperdiçar energia ou dinheiro à procura de uma cor “mais saudável”
O rótulo vence a aparência Código 0–3 e termos (“biológico”, “ar livre”, “solo”, “gaiola”) contam a verdadeira história Ajuda a escolher ovos alinhados com o teu orçamento e valores
O interior é o que mais importa Alimentação, condições de vida e frescura mudam o sabor e a nutrição, não a cor da casca Permite focar no que realmente melhora a qualidade no prato

FAQ:

  • Pergunta 1 Os ovos castanhos são mais saudáveis do que os ovos brancos?
  • Resposta 1 Não. Se as galinhas forem criadas da mesma forma e comerem a mesma ração, ovos castanhos e brancos são nutricionalmente muito semelhantes. A cor vem sobretudo da raça da galinha.
  • Pergunta 2 Porque é que os ovos castanhos costumam ser mais caros?
  • Resposta 2 As raças que põem ovos castanhos podem ser ligeiramente maiores e consumir mais ração, e as marcas exploram a imagem “rústica” para os posicionar num patamar superior. A diferença de preço não significa automaticamente melhor qualidade.
  • Pergunta 3 A cor da casca afeta o sabor?
  • Resposta 3 O sabor vem principalmente da alimentação da galinha, da frescura e de como cozinhas o ovo. Só a casca castanha não garante um sabor mais rico.
  • Pergunta 4 Como posso escolher rapidamente ovos melhores no supermercado?
  • Resposta 4 Olha primeiro para o código 0–3, depois para palavras como “biológico” ou “ar livre”, e depois para a data-limite de consumo. A cor deve ser o último critério - se for critério.
  • Pergunta 5 Existem outras cores de ovos para além do branco e do castanho?
  • Resposta 5 Sim. Algumas raças põem ovos azuis, verdes ou malhados. A cor especial continua a vir de pigmentos na casca e não os transforma em “super-ovos” do ponto de vista nutricional.

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