A primeira coisa que se nota é o silêncio.
Sem panelas a borbulhar, sem o chiar da frigideira, sem portas de forno a bater. Apenas um bip digital suave, uma ventoinha a zumbir e um ecrã tátil iluminado a prometer “Assado Crocante”, “Cozedura Lenta”, “Vapor”, “Grelhar”, “Assar”, “Reaquecer”, “Desidratar”, “Iogurte”, “Arroz”.
Ao fundo da bancada, a velha air fryer foi empurrada para o lado como um jogador reformado. Ao centro, um novo gadget de cozinha nove‑em‑um domina o espaço, a exibir programas predefinidos e o brilho do aço inoxidável.
No TikTok, é um milagre. No Instagram, é estética. No almoço de domingo, é guerra.
Porque, por trás das receitas e dos reels, está a ferver qualquer coisa mais profunda.
De gadget milagroso a campo de batalha na cozinha
Entre numa grande superfície hoje e vai vê-lo: uma parede reluzente de multicookers e fornos “inteligentes” nove‑em‑um, todos a prometerem uma forma mais simples, mais saudável e mais barata de comer. A air fryer - antes a miúda rebelde da turma - de repente parece desajeitada e antiquada ao lado destas máquinas tudo‑em‑um.
As famílias ficam em frente ao expositor como se estivessem a escolher um carro, não um eletrodoméstico. Tocam nas etiquetas, abrem tampas, percorrem menus predefinidos com nomes como “Air Fry”, “Assar”, “Vapor‑Assar”. Uns parecem entusiasmados. Outros parecem discretamente assustados.
Porque aquele preço de 399 € não cheira a jantar. Cheira a pressão.
Veja-se os Martins, uma família reconstituída de cinco pessoas a partilhar um pequeno apartamento na cidade e uma única extensão já sobrecarregada.
Quando a air fryer antiga avariou, a Chloe, de 15 anos, fez campanha a sério pela elegante nove‑em‑um que tinha visto no YouTube. “Faz tudo, mãe, não vamos precisar do forno, poupamos dinheiro”, disse ela, abanando uma análise de custo por porção de um criador como se fosse um manifesto.
O padrasto, Tom, queria a substituição básica. Menos de 80 €, o mesmo cesto, as mesmas batatas fritas. A discussão que se seguiu não tinha nada a ver com frango estaladiço. Era sobre dívidas, contas de energia e o medo não dito de que a família não consiga acompanhar esta nova norma do “gadget saudável” que toda a gente parece estar a publicar.
Por baixo do marketing brilhante, a febre do nove‑em‑um está a tocar em nervos porque vive exatamente onde dinheiro, saúde e identidade colidem.
De um lado: a narrativa de que uma única máquina vai salvar a sua carteira, a sua cintura e a sua sanidade durante a semana. Do outro: o ressentimento silencioso de quem não pode - ou não quer - gastar um terço da renda numa caixa que promete arrumar toda a vida alimentar.
A air fryer parecia uma pequena rebelião contra o takeaway frito. O nove‑em‑um parece um referendo à forma como alimenta a sua família. E ninguém quer que a lasanha seja uma declaração moral.
Quando “saudável” se torna mais uma fonte de stress
Se observar mesmo as pessoas a usar estes gadgets, o mais saudável raramente é a receita. É o tempo que devolvem. Atira-se legumes, uma proteína, carrega-se em “vapor‑crocante” e vai-se à vida. Para um pai ou mãe exausto(a), esse botão pode ser a diferença entre um jantar caseiro e mais uma app de entregas.
O problema começa quando a promessa de “mais saudável, sem óleo, baixo teor de gordura, baixo teor de tudo” se transforma numa espécie de vigilância silenciosa na cozinha. De repente, há um placar: quem usa air fryer, quem frita em óleo, quem ainda põe manteiga na frigideira.
Esse placar transborda para as redes sociais, para os grupos de WhatsApp da família, para o prato no Natal.
Vê-se isto nos encontros. Um primo aparece com “asas de couve-flor na air fryer” feitas no novo nove‑em‑um, anunciando orgulhosamente menos 40% de gordura. Outro chega com um tabuleiro de porco estufado lentamente, horas a fio num velho tacho de esmalte, e quase se ouve o julgamento a ricochetear.
Ninguém diz “a tua comida está errada” em voz alta. Em vez disso, ouve-se: “Ah, ainda cozinhas no fogão?” ou “Uau, ainda não tens um tudo‑em‑um?”, dito naquele tom cuidadoso que é meio inveja, meio acusação.
Nesse espaço, “saudável” transforma-se discretamente de ferramenta em régua, e as pessoas começam a usar eletrodomésticos para medir o próprio valor.
É aqui que se infiltra a ideia da “morte da comida a sério”. Não porque um gadget seja mau, mas porque começamos a delegar não só cozinhar, mas pensar, num programa predefinido.
Se cada refeição se torna um programa a executar em vez de um processo para sentir e provar, perdemos algo invisível mas real: as microdecisões que nos ensinam como os ingredientes se comportam. O cheiro que avisa que a cebola está a pegar. O instinto de baixar o lume, ou de acrescentar um gole de vinho.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Mas quando a única pergunta passa a ser “Que função?” em vez de “O que é esta comida, de onde vem, como a quero sentir?”, o prato pode estar cheio e os sentidos estranhamente vazios.
Encontrar o equilíbrio entre gadget e instinto
Há um meio-termo, e costuma começar por baixar o volume do marketing e aumentar o volume da sua própria cozinha. Antes de comprar, as pessoas que acabam realmente satisfeitas com estas máquinas nove‑em‑um fazem muitas vezes uma coisa simples: escrevem uma semana do que cozinham de facto. Não refeições aspiracionais - as reais.
Depois perguntam: “Quais destas coisas seriam genuinamente mais fáceis ou mais baratas com este gadget, e quais já funcionam bem?” Esse pequeno exercício de honestidade pode poupar centenas de euros. E pode mudar o tom de “objeto de estatuto” para “ferramenta que eu uso mesmo”.
Às vezes, a escolha mais corajosa é não fazer upgrade. Às vezes, é manter a frigideira riscada que ainda faz a melhor omelete da sua vida.
Se já comprou o nove‑em‑um e se sente um pouco preso(a), não está sozinho(a). Muitos compradores admitem, em privado, que usam apenas duas das nove funções e sentem culpa cada vez que passam por ele.
O melhor não é julgar-se, mas tratá-lo como um membro da equipa, não como o capitão. Use-o naquilo em que é excelente - assar depressa, reaquecer sobras sem as secar, cozinhar legumes em quantidade - e deixe o lume a sério ou um forno básico tratar das refeições em que quer mais sabor e controlo.
Todos já passámos por aquele momento em que um gadget novo nos faz sentir que os velhos hábitos ficaram subitamente errados. A verdade é que a melhor cozinha raramente é a mais high-tech. É aquela em que não tem medo de fazer asneira.
Às vezes, a coisa mais radical que pode fazer num mundo hiper‑otimizado e obcecado por gadgets é ficar ao pé de um tacho, mexer devagar e aceitar que o jantar estará pronto quando estiver pronto.
Deixe o gadget fazer os trabalhos aborrecidos
Cozinhe grão-de-bico em lote, asse tabuleiros de legumes congelados, reaqueça a massa de ontem para não ficar borrachuda. Use a automação onde o seu coração não está realmente investido.Reserve a “cozinha a sério” para momentos que importam
Um risotto de encontro, um ensopado de domingo, o bolo da sua avó. Mantenha esses no fogão ou no forno, onde pode provar, ajustar e passar algo adiante.Fale de dinheiro e saúde em voz alta
Em vez de se julgarem em silêncio por causa dos eletrodomésticos, diga: “Este ano não fazemos upgrade, a nossa air fryer antiga funciona”, ou “Comprámos em segunda mão”. Normalize a imperfeição na cozinha.
A pergunta silenciosa por trás do hype do nove‑em‑um
Por baixo de todas as definições e do inox brilhante, esta tendência de gadgets está a colocar uma pergunta desconfortável: que tipo de relação queremos ter com a comida, com o tempo, uns com os outros? Uma máquina que cozinha a vapor, grelha, faz air fry e assa numa só caixa pode ser brilhante, sobretudo se aliviar mesmo a carga e o afastar de atalhos ultra-processados.
Mas o desconforto que muita gente sente - as discussões sobre o custo, a ansiedade por ser “saudável o suficiente”, a nostalgia da comida “a sério” cozinhada devagar - é um sinal de que não comemos apenas por combustível. Comemos para sentir controlo, para cuidar, para lembrar de onde vimos.
A revolução do nove‑em‑um não é apenas dizer adeus à air fryer. É decidir quais partes de cozinhar estamos dispostos a automatizar e quais queremos manter gloriosamente humanas, com toda a confusão, os cheiros e as beiras queimadas que às vezes vêm com isso.
Talvez a verdadeira polémica nem seja o gadget. Talvez seja o facto de que uma caixa na bancada consegue agora agitar os nossos medos mais profundos sobre dinheiro, saúde e pertença.
E talvez valha a pena falar disso, ali mesmo na cozinha, com a ventoinha a zumbir, o forno a aquecer e algo imperfeito mas honesto a caminho.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O custo é emocional, não apenas numérico | Gadgets caros disparam preocupações com dívida, estatuto e “boa parentalidade” muito para além das poupanças de energia | Ajuda a compreender tensões familiares em torno de comprar ou recusar estes aparelhos |
| Os gadgets podem ajudar e, ao mesmo tempo, esvaziar a “cozinha a sério” | A automação liberta tempo para quem cozinha cansado(a), mas a dependência excessiva corrói competências, instintos e rituais partilhados | Incentiva decisões mais conscientes sobre quando usar tecnologia e quando cozinhar “a olho” |
| Há poder numa cozinha mista e imperfeita | Combinar ferramentas antigas e máquinas novas com base em necessidades reais, não em hype, reduz culpa e pressão | Dá permissão para desenhar uma cozinha adequada à sua vida, não às redes sociais |
FAQ:
Um nove‑em‑um poupa mesmo dinheiro em comparação com uma air fryer?
Em termos estritos de energia, pode ser mais eficiente do que ligar um forno grande, sobretudo para porções pequenas. Mas o custo inicial é muito mais alto, por isso as poupanças só aparecem se usar várias funções com regularidade, substituindo outros aparelhos.A comida feita nestes gadgets é realmente mais saudável?
Podem reduzir gorduras adicionadas e incentivar a cozinhar em casa em vez de pedir comida, o que é positivo. O impacto na saúde depende sobretudo do que lá põe: ingredientes frescos vs opções congeladas ultra‑processadas.Estamos mesmo a assistir à “morte da comida a sério”?
Não exatamente, mas há um desvio lento para uma cozinha guiada por predefinições. O risco é perder contacto com competências básicas e com a atenção sensorial, não que o gadget, por si só, mate a autenticidade.E se a minha família estiver dividida sobre comprar um?
Traga dinheiro, tempo e expectativas para a conversa. Falem sobre o que cozinham realmente, o que podem pagar e que problemas querem que o gadget resolva. Uma conversa clara é mais saudável do que ressentimento silencioso.Como posso usar um nove‑em‑um sem me sentir culpado(a)?
Veja-o como um ajudante, não como um upgrade de estilo de vida. Use-o onde de facto facilita a vida e mantenha, com orgulho, as suas frigideiras, tachos e forno antigo para refeições em que sabor, memória e toque importam mais do que predefinições.
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