Saltar para o conteúdo

Adeus smartphones: movimento inesperado para abandonar a conectividade constante divide famílias, amizades e a nossa noção de vida normal. “Sinto-me mais vivo sem telemóvel.”

Grupo de jovens a estudar em torno de mesa de madeira, cada um com um smartphone ou livro.

Num cinzento manhã de terça-feira em Londres, a fila num café movimentado congelou de repente. O barista chamou o nome seguinte, mas a mulher ao balcão não se mexeu. Estava a olhar em frente, sem telemóvel na mão, sem auriculares, sem um relógio a vibrar no pulso. Só silêncio. As pessoas atrás dela remexeram-se, meio irritadas, meio curiosas. Depois ela riu-se, envergonhada, e disse: “Desculpem, eu estava só… a olhar.” Afastou-se com o café, sentou-se e fez a coisa mais suspeita que se pode fazer em 2026: nada, absolutamente nada. Sem fazer scroll, sem verificar, sem publicar. Só a ver as pessoas a passarem a correr.
Para ela, isto não é um desafio. É uma vida nova.
Para a família, é quase uma traição.
Está a acontecer algo estranho.

Quando não ter um smartphone se torna um ato radical

As pessoas que estão a virar costas aos smartphones não são todas eremitas fora da rede a viver em cabanas. Muitas são pais e mães jovens, designers gráficos, estudantes, até engenheiros de software. Continuam a viver em cidades, a andar de metro e a pagar renda. Só não carregam o deus retangular que organiza o dia de toda a gente. Descrevem a mesma sensação com palavras ligeiramente diferentes: “mais leve”, “mais calmo”, “mais desperto”, “sinto-me mais vivo sem telemóvel”.
Para os amigos, este novo silêncio parece um ataque pessoal.
Quebra uma regra não dita da vida moderna: estar contactável, sempre.

Veja-se Léa, 29 anos, que vive em Lyon. Depois de um ano de esgotamento e ataques de pânico, trocou o smartphone por um telemóvel de tampa básico, com o ecrã rachado e uma bateria que parece nunca acabar. Avisou toda a gente: nada de WhatsApp, nada de Instagram, nada de notas de voz de última hora à meia-noite. No início, os amigos reagiram como se ela tivesse entrado numa seita. Os grupos ficaram silenciosos com a sua saída. Fazer planos tornou-se confuso. Um amigo deixou de a convidar porque “és impossível de contactar”.
A mãe chamou-lhe “egoísta” e “perigoso”.
Três meses depois, a Léa volta a dormir.

Os investigadores têm observado esta mudança em câmara lenta. Um inquérito de 2023 da Deloitte concluiu que quase um em cada cinco jovens adultos, nalguns países europeus, já tinha experimentado um período sem smartphone ou sem apps sociais. Não apenas “fins de semana de detox digital”, mas pausas a sério de um mês ou mais. Muitos descrevem uma fase de abstinência: vibrações fantasma, a mão a ir ao bolso que já não existe, a vontade de “só ver uma coisa”. Depois acontece algo surpreendente. O tempo estica. As conversas aprofundam-se. O tédio regressa e, com ele, os devaneios.
A troca é brutal: recuperar a mente, perder alguma conveniência social.
É aqui que começa a divisão.

Como as pessoas estão a abandonar a conectividade constante sem desaparecer

As pessoas que conseguem ficar sem telemóvel mais de uma semana raramente o fazem a frio. Constroem uma pequena rede de segurança. O movimento mais comum é manter um dispositivo “estático” em casa: um tablet barato, um portátil antigo, por vezes um computador de família partilhado. As mensagens continuam a chegar, mas num horário. Verificam uma vez de manhã, uma vez à noite. Sem vibrações no bolso enquanto andam ou conversam.
Na rua, levam ou nada ou um telemóvel básico.
Ainda podem chamar um táxi. Só não podem fazer scroll no caminho.

O primeiro atrito real surge com as expectativas dos outros. Todos já estivemos lá: aquele momento em que alguém não responde durante duas horas e o cérebro escreve três cenários de desastre. Agora imagine ser a pessoa que deliberadamente não responde. Os amigos dizem: “Manda mensagem quando chegares”, e você responde: “Não posso, já não tenho smartphone.” Começam os revirar de olhos. Começam as lições. Sejamos honestos: ninguém lê realmente todas as mensagens de grupo, mas o medo de ser a pessoa que não consegue responder a pedido é profundo.
Por isso, os “sem telemóvel” muitas vezes comunicam mais - de outra forma.
Telefonam mais. Planeiam mais cedo.

A reação emocional pode ser dura. Um pai de 42 anos, de Madrid, contou-me que a filha adolescente rebentou em lágrimas quando ele anunciou que ia voltar a um telemóvel básico. Ela achou que isso significava que ele não veria os TikToks dela, não reagiria aos memes, não “faria parte do mundo dela”. Os pais dele, já nos setenta, recearam não o conseguir contactar numa emergência. Colegas fizeram piadas a dizer que ele estava a “reformar-se da vida”.
Ele descreveu isso como um exílio social suave ao início.

“Quando digo que me sinto mais vivo sem telemóvel, as pessoas ouvem: ‘Sou melhor do que vocês.’ Não sou. Estou só cansado. Quero o meu cérebro de volta.”

Para se protegerem, muitos destes “desligados” adotam discretamente um guião simples. Repetem alguma versão de:

  • “Continuo contactável, só não instantaneamente.”
  • “Se for urgente, liga-me ou telefona para o fixo.”
  • “Estou a fazer isto pela minha saúde mental, não contra ti.”
  • “Vamos combinar hora e local, à moda antiga.”
  • “Se isto não funcionar para ti, eu percebo.”

Estas frases não convertem toda a gente.
Apenas desenham uma linha mais suave e mais clara num mundo onde antes não havia linha nenhuma.

A revolta silenciosa que nos obriga a repensar a vida “normal”

Se olharmos de perto, este movimento não é propriamente sobre telemóveis. É sobre quem define o ritmo do dia. Durante anos, as notificações ditaram micro-momentos: olhar, deslizar, responder, repetir. As pessoas que abandonam esse ciclo falam de redescobrir a lentidão como se fosse um sentido perdido. Esperar numa fila volta a ser tempo para observar rostos. As viagens de comboio tornam-se janelas para pensar, não para consumir conteúdo. Alguns dizem que, ao início, se sentem desajeitados - quase nus - e depois, de repente, estranhamente humanos.
A escolha deles funciona como um espelho.
Expõe o quão ligados estamos todos os outros.

As famílias estão a aprender novas regras em tempo real. Pais e mães que largam os smartphones têm de negociar com adolescentes que vivem metade da vida online. Casais discutem sobre segurança: “E se o carro avariar?” Filhos adultos sentem culpa quando os pais sem smartphone falham um alerta médico no chat da família. Amizades dobram ou partem dependendo de uma pergunta simples: estar instantaneamente contactável é um sinal de amor, ou apenas um hábito que nunca questionámos?
Não há uma única resposta certa - apenas tensões para gerir.
A verdade nua e crua é: algumas relações não vão sobreviver a esta mudança sem se alterarem.

A pergunta mais profunda está ali, silenciosa, por baixo: o que significa agora “estar presente”? Para uns, presença é responder depressa, enviar fotos em direto, partilhar localização. Para outros, presença é contacto visual ao jantar e nenhuma vibração em cima da mesa. Quando uma pessoa sai da conectividade constante, o choque é inevitável. Não é só a tecnologia que está a ser desafiada; é uma definição partilhada de cuidado e atenção. Quem se afasta dos smartphones diz que não está a rejeitar pessoas. Está a rejeitar a política de porta sempre aberta para dentro da própria mente.
Estão a pedir portões e chaves outra vez.
Se o resto de nós aceita isso pode moldar a próxima década da vida quotidiana.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Porque é que algumas pessoas largam os smartphones Esgotamento, ansiedade, desejo de foco e presença no mundo real Ajuda os leitores a reconhecerem o próprio desconforto com a conectividade constante
Como se mantêm contactáveis Uso de telemóveis básicos, dispositivos em casa, planeamento e comunicação mais claros Dá ideias práticas para reduzir o uso do telemóvel sem desaparecer socialmente
Impacto nas relações Conflitos, mal-entendidos, mas também conversas mais profundas sobre atenção Prepara os leitores para consequências emocionais e sociais se mudarem hábitos

FAQ:

  • Pergunta 1: É possível viver sem smartphone e ainda assim ter um emprego normal?
    Resposta 1: Sim, mas depende do trabalho e do empregador. Algumas pessoas usam um telemóvel básico para chamadas e mantêm as apps de trabalho apenas no computador. Outras negociam horários claros para e-mail. Normalmente exige explicar a escolha e aceitar que algumas carreiras estão construídas em torno de estar sempre online.
  • Pergunta 2: Abandonar smartphones não é apenas um privilégio de quem tem uma vida estável?
    Resposta 2: Há, de facto, um lado de privilégio: se tiver trabalho flexível, transportes seguros e apoio por perto, é mais fácil. Muitos que não conseguem ou não querem abandonar por completo experimentam limites rígidos: sem telemóvel no quarto, sem apps sociais no ecrã principal, sem notificações.
  • Pergunta 3: Como é que as pessoas fazem navegação, bilhetes e pagamentos sem telemóvel?
    Resposta 3: Imprimem bilhetes, usam cartões físicos, pedem indicações ou descarregam mapas num dispositivo em casa antes de sair. É menos conveniente e mais lento. Alguns aceitam uma solução híbrida: um smartphone com os dados desligados a maior parte do tempo, usado só para mapas ou emergências.
  • Pergunta 4: E a segurança em caso de emergência?
    Resposta 4: A maioria mantém pelo menos um telemóvel simples para chamadas e SMS. Partilham o número de trabalho ou o telefone fixo de casa com contactos próximos. O risco parece real, mas muitos argumentam que a distração constante é, por si só, um problema de segurança - sobretudo ao conduzir ou a andar na rua.
  • Pergunta 5: Como posso começar a reduzir o uso do smartphone sem abandonar totalmente?
    Resposta 5: Comece com regras pequenas, mas firmes: sem telemóvel às refeições, sem telemóvel na cama, defina temporizadores para apps, apague as apps mais viciantes durante uma semana. Diga a uma pessoa de confiança o que está a tentar fazer. Repare no que aparece nos espaços vazios. É aí que começa a experiência a sério.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário