Saltar para o conteúdo

A Safran vai industrializar a bomba A2SM HAMMER na Índia.

Dois técnicos numa fábrica, manuseando equipamento em bancadas, com robôs ao fundo. Ambos usam trajes de proteção.

Behind a recent deal on air‑to‑ground munitions lies a deeper shift: France is handing over part of its cutting‑edge strike capability to India’s rapidly growing defence industry, aiming to lock in a long-term partnership that goes well beyond export contracts.

O kit HAMMER de França ruma às linhas de montagem indianas

A Safran Electronics & Defence assinou um acordo de joint venture com a Bharat Electronics Limited (BEL), empresa estatal indiana, para industrializar a bomba guiada HAMMER na Índia. O acordo foi formalizado em Nova Deli e surge na sequência de um protocolo anunciado no salão aeronáutico Aero India no início deste ano.

O HAMMER, abreviatura de Highly Agile Modular Munition Extended Range, é um kit francês de orientação de precisão derivado da família A2SM (Armement Air‑Sol Modulaire). Converte bombas convencionais “burras” em armas de longo alcance e elevada precisão ao acrescentar eletrónica de guiamento na frente e um impulsionador a foguete na traseira.

A joint venture será detida em 50/50 pela Safran e pela BEL e constituída como uma empresa privada sediada na Índia, com o mandato de produzir, adaptar e apoiar munições HAMMER para a Força Aérea Indiana e para a Marinha Indiana.

Ao abrigo do acordo, a nova entidade começará pela montagem e aumentará gradualmente o conteúdo de fabrico local até cerca de 60%. Essa subida do valor acrescentado local é crucial: alinha-se na perfeição com as políticas indianas Make in India e Atmanirbhar Bharat (Índia autossuficiente).

Como vai funcionar a joint venture

A divisão industrial é clara. A BEL ficará responsável pela montagem final, testes e garantia da qualidade em território indiano. A Safran fornecerá os blocos mais sensíveis: sistemas de navegação, eletrónica de guiamento e a arquitetura global da arma.

Em vez de uma simples unidade de “aparafusar”, os parceiros estão a planear um ecossistema mais amplo.

Um novo centro de excelência

A joint venture será o pilar de um novo “centro de excelência” na Índia, focado em armas aéreas avançadas e sistemas associados. Segundo o desenho do projeto, este polo deverá abranger:

  • Fabrico de kits HAMMER e de sub-sistemas selecionados
  • Engenharia e adaptação a aeronaves e missões indianas
  • Manutenção, reparação e revisão (MRO) das munições em serviço
  • Suporte a equipamentos de optrónica e navegação para além do próprio HAMMER

Este modelo foi concebido para atrair uma vasta rede de fornecedores indianos, incluindo pequenas e médias empresas, para uma cadeia de fornecimento de alta tecnologia.

O projeto pretende semear competências de fabrico avançado numa rede local de contratantes, dando à Índia não apenas armas acabadas, mas a capacidade de as sustentar e evoluir.

O que o HAMMER traz ao poder aéreo indiano

Para a Força Aérea Indiana, o HAMMER não é apenas mais uma “bomba inteligente”. É um kit flexível que pode ser instalado em diferentes corpos de bomba, permitindo uma gama de tamanhos de ogiva e efeitos. O módulo de guiamento frontal combina navegação inercial e GPS, com opções de buscadores laser ou infravermelhos, enquanto o foguete montado na traseira proporciona maior alcance.

A munição já foi qualificada no Rafale francês e no Light Combat Aircraft Tejas, concebido na Índia, reduzindo os riscos de integração. Já foi utilizada operacionalmente em ambientes exigentes, incluindo espaços aéreos contestados onde a interferência no GPS e a guerra eletrónica são comuns.

Característica Capacidade do HAMMER
Tipo Kit de bomba guiada ar‑solo
Origem Desenvolvido pela Safran em França (família A2SM)
Guiamento Guiamento modular com elevada precisão, mesmo em ambientes com interferência
Alcance Alcance alargado face a bombas não guiadas, graças ao impulsionador traseiro
Plataformas Rafale, Tejas e, potencialmente, outras aeronaves de combate indianas

Ao fabricar o sistema localmente, a Índia procura garantir o abastecimento destas munições de precisão durante crises, quando os canais de importação podem ser lentos ou politicamente sensíveis.

Objetivos estratégicos de ambos os lados

Índia: de cliente a polo regional

Nova Deli tem dois objetivos claros neste acordo:

  • Reduzir a dependência de armas guiadas importadas, sobretudo em períodos de elevada tensão.
  • Transformar a Índia num polo regional de produção de “armas inteligentes” avançadas, com capacidade para apoiar nações amigas.

A joint venture encaixa num padrão mais amplo: a Índia quer uma participação industrial mais profunda em cada grande aquisição de defesa, desde caças a submarinos. Produzir munições de precisão no país dá confiança aos decisores de que os stocks podem ser reabastecidos rapidamente num conflito prolongado, em vez de depender de voos de carga a partir da Europa ou dos EUA.

França: consolidar o mercado indiano

Para a França e para a Safran, isto é mais do que uma única linha de produto. O mercado indiano é um dos poucos com apetite político e orçamento para aeronaves de combate e sistemas de armas de topo. Ainda assim, ganhar contratos exige cada vez mais transferência de tecnologia e criação de emprego local.

Ao integrar parte da sua cadeia de armas ar‑solo na Índia, a França assegura uma presença duradoura num mercado ferozmente competitivo, ao mesmo tempo que sinaliza que a parceria vai além de vendas de curto prazo.

O acordo também sublinha uma mudança no poder militar: a tecnologia e a capacidade industrial são hoje tão decisivas como o próprio equipamento. Estados que partilham conhecimento de fabrico ganham influência, mas também aceitam um certo grau de interdependência estratégica.

De Montluçon a Nova Deli: um emblema francês torna-se global

A história do HAMMER começou em Montluçon, no centro de França, onde a Safran transformou a arma modular A2SM num produto de exportação de referência. O kit foi concebido como uma forma custo-eficaz de dar precisão e alcance stand‑off a stocks de bombas existentes, evitando a necessidade de criar mísseis totalmente novos para cada perfil de missão.

Com o tempo, o sistema evoluiu com melhores buscadores, maior resistência a interferências e opções adaptadas a operações navais e a alvos em ambiente urbano. A sua utilização em conflitos recentes, incluindo em espaços aéreos contestados e em missões anti‑drone no mar, deu à arma uma reputação sólida de fiabilidade.

Instalar parte dessa cadeia de produção na Índia marca um novo capítulo. A unidade francesa original mantém a engenharia de topo e o know‑how crítico, enquanto a instalação indiana trata de volume, adaptação e suporte ao longo do ciclo de vida.

O que isto significa para os conflitos futuros

Este tipo de joint venture dá pistas sobre como poderão ser as campanhas aéreas no Sul da Ásia na próxima década. Num cenário de alta intensidade, esquadrões indianos de Rafale e Tejas poderão recorrer a stocks de munições HAMMER com manutenção local, reduzindo as preocupações com controlos de exportação estrangeiros no pior momento possível.

Os arsenais também poderão ser ajustados com mais facilidade às necessidades regionais: ogivas mais pesadas para bunkers fortificados, mais pequenas para operações urbanas, ou pacotes específicos de sensores para contrariar ameaças emergentes como enxames de drones.

Há também riscos. Tecnologias partilhadas levantam sempre preocupações quanto a fugas de propriedade intelectual e reexportação não autorizada. A França quererá manter um controlo apertado sobre os componentes mais sensíveis, mesmo ao transferir grandes partes da cadeia de produção.

Termos e conceitos-chave por detrás do acordo

O acordo situa-se no cruzamento de várias tendências da indústria de defesa. Alguns conceitos ajudam a enquadrar o que está a acontecer:

  • Make in India – Estratégia nacional para impulsionar o fabrico doméstico, incluindo na defesa, incentivando empresas estrangeiras e locais a investir, transferir conhecimento e criar empregos na Índia.
  • Atmanirbhar Bharat – Literalmente “Índia autossuficiente”; na defesa, significa deter capacidade de produção crítica no país para que a pressão externa não consiga interromper facilmente o abastecimento em tempo de guerra.
  • Munições modulares – Armas construídas a partir de peças intercambiáveis: kits de guiamento, ogivas e unidades de propulsão. Esta abordagem reduz custos e permite uma adaptação rápida a novas missões.

Para as forças aéreas, essa modularidade traz benefícios evidentes. Em vez de gerir dezenas de tipos de mísseis completamente diferentes, as equipas de logística lidam com um conjunto mais pequeno de componentes comuns. Numa crise, as fábricas podem mudar mais rapidamente de uma configuração para outra, orientadas pela procura real no campo de batalha.

Para os planeadores de defesa da Índia, a joint venture do HAMMER é um caso de teste. Se funcionar, o mesmo modelo poderá estender-se a outros sistemas: mísseis antinavio, armas planadoras stand‑off, e até futuras munições lançadas por drones. Em conjunto, estes projetos reforçariam gradualmente a espinha dorsal industrial por detrás do poder aéreo indiano, ao mesmo tempo que dariam a parceiros externos como a França uma participação mais profunda na sua trajetória de segurança de longo prazo.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário