Ele achou que seria uma compra pequena e aborrecida. Um disco rígido externo de 2 TB encomendado entre dois e-mails, atirado para o carrinho online como todos fazemos. Aquele tipo de compra tecnológica de que nos esquecemos dois dias depois. Quando a encomenda chegou, a caixa parecia impecável, o plástico intacto, os autocolantes perfeitamente alinhados. Novo em folha - ou assim parecia. Ligou-o ao portátil enquanto o café arrefecia na secretária, já a planear copiar as suas fotos e alguns ficheiros de trabalho.
Depois, o dispositivo apareceu no ecrã. Já com 40% ocupado.
A janela do Explorador abriu-se. Pasta atrás de pasta. Centenas de gigabytes de vídeos, contratos, faturas, digitalizações de passaportes, documentos confidenciais. Dados que valiam vários milhares de euros, abandonados num disco “novo” comprado com desconto.
Um negócio que, de repente, parecia uma armadilha.
Quando um disco “novo” esconde a vida de outra pessoa
O comprador, um designer gráfico de 32 anos de Lyon, pensou primeiro que fosse um erro. Talvez o Windows estivesse a interpretar mal o espaço disponível. Atualizou. Desligou e voltou a ligar. O mesmo. Dos 2 TB anunciados, quase 800 GB já estavam ocupados por dezenas de pastas com nomes crípticos: “ARCHIVEFINAL”, “CLIENTS2022”, “PRIVATEDOCS”.
A curiosidade venceu. Clicou.
O que encontrou pareceu-lhe quase indecente: sete anos de ficheiros de contabilidade de uma pequena empresa, digitalizações de cartões de identificação, cartas médicas, documentos legais, ficheiros de projeto orçamentados em milhares de euros. Tudo ali, num disco vendido como novo, por menos de 70 €.
Todos já passámos por isso - aquele momento em que ligamos um gadget novo e algo parece ligeiramente estranho. Neste caso, a descoberta foi muito além de um simples erro de formatação. Os metadados mostravam que a última modificação datava de há vários meses, com nomes de utilizador que claramente não correspondiam ao comprador. Algumas pastas continham até palavras-passe sensíveis em texto simples, ao lado de contratos assinados e dados bancários.
O comprador fez uma pesquisa rápida online. Começaram a aparecer histórias semelhantes: discos “novos” revendidos após devoluções, recondicionados sem limpeza adequada, ou simplesmente reembalados com um novo autocolante. Um mercado de segunda mão discreto e invisível, a passar pelas mãos de clientes desprevenidos.
O que aconteceu é bastante simples: alguém, algures na cadeia, saltou um passo básico - mas absolutamente crucial. Antes de uma devolução ser revendida, o utilizador anterior nunca apagou os seus dados. Ou o processo de recondicionamento ficou pelo nível cosmético: limpar a caixa, trocar a embalagem, verificar se o disco arranca. Ninguém se deu ao trabalho de fazer um apagamento seguro.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
No entanto, esse gesto em falta transforma um produto tecnológico inofensivo numa pequena bomba-relógio digital, expondo tanto o antigo dono como o novo comprador a um cocktail de riscos legais, éticos e pessoais.
Como reagir se o seu disco “novo” já vem cheio de dados
Há uma regra de ouro se ligar um disco rígido novo e encontrar ficheiros de outra pessoa: não comece a vasculhar tudo por curiosidade. Um ou dois cliques para perceber o que está a ver - e depois pare. A partir daí, há três reflexos a adotar.
Primeiro, tire uma captura de ecrã que mostre o espaço utilizado e um ou dois nomes de pastas, como prova. Depois, desligue o disco em segurança.
Passo seguinte: contacte o vendedor ou a plataforma, explique com calma o que encontrou e peça reembolso ou substituição. Muitas lojas vão preferir trocar o produto discretamente do que arriscar um escândalo por fuga de dados.
Segundo reflexo, de que raramente se fala: pense na pessoa por trás daqueles ficheiros. Algures, um freelancer, uma pequena empresa, talvez até uma família, acabou de perder o controlo da sua vida digital. Isto não é abstrato. Pode ser o historial fiscal, faturas a clientes, fotos privadas, registos pessoais. De repente, está a segurar algo que não lhe pertence.
Se o vendedor for reputado, mencione explicitamente que o disco contém dados sensíveis e que deve ser tratado em conformidade. Não é obrigado a fazer de detetive para encontrar o dono original, mas também não tem de agir como um pirata.
Entre a confiança ingénua e o cinismo total, há um meio-termo normal e humano.
Por fim, antes de usar qualquer disco trocado ou reembolsado, reserve tempo para fazer o que os outros não fizeram: apagá-lo você mesmo. Mesmo que o vendedor jure que é novo. Mesmo que a caixa pareça intocada.
Por vezes, o hábito mais seguro é aquele que ninguém vê. Um especialista em segurança com quem falei resumiu-o numa frase: “Trate todos os dispositivos de armazenamento como se já tivessem vivido outra vida - e não estará longe da verdade.”
- Inicie uma formatação completa, não uma rápida, a partir do seu sistema operativo.
- Para usos sensíveis, utilize ferramentas dedicadas (como DiskPart, VeraCrypt ou utilitários do fabricante) para sobrescrever o disco.
- Registe a data em que o apagou, para saber em que estado está cada disco na sua configuração.
- Se um dia revender um disco, repita o processo antes de o enviar.
- E se estiver cansado ou com pressa, desligue-o e espere: o seu “eu” do futuro vai agradecer.
O valor escondido dos nossos dados esquecidos
O que esta história revela, para lá da anedota, é o quão levianamente tratamos dados que nos poderiam arruinar se caíssem nas mãos erradas. Aquelas pastas que valiam “vários milhares de euros” não são apenas ficheiros. São horas de trabalho, segredos de negócio, histórias pessoais. O tipo de conteúdo que um concorrente, um ladrão de identidade ou um simples oportunista poderia explorar - sem precisar de competências de hacking dignas de Hollywood.
Na maioria das vezes, não acontece nada. O comprador devolve o disco, ou apaga-o. E a vida segue, em silêncio.
Ainda assim, cada um destes “pequenos incidentes” mostra um ponto cego nos nossos hábitos digitais e na forma como o mercado tecnológico recicla, reembala e redistribui constantemente hardware que muitas vezes transporta um pedaço da vida de alguém.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Verificar discos “novos” | Observe o espaço utilizado e a estrutura de pastas na primeira ligação | Evitar guardar os seus dados num dispositivo que já contém conteúdo sensível |
| Reagir de forma ética | Contacte o vendedor e evite explorar ficheiros privados por curiosidade | Proteger-se legalmente enquanto respeita a privacidade do proprietário anterior |
| Apagar antes de usar ou revender | Faça uma formatação completa ou um apagamento seguro em todos os discos que mudam de mãos | Reduzir o risco de fugas de dados e roubo de identidade, para si e para outros |
FAQ:
- O que devo fazer primeiro se o meu disco rígido “novo” já tiver dados? Pare de explorar os ficheiros, tire uma captura de ecrã que mostre o espaço utilizado, desligue o disco em segurança e depois contacte o vendedor ou a plataforma para reportar o problema.
- É ilegal ver os ficheiros que encontro num disco destes? As leis variam de país para país, mas navegar e usar dados obviamente privados pode expô-lo a problemas legais e éticos. A abordagem mais segura é evitar abrir mais do que o estritamente necessário para identificar o problema.
- Como apago corretamente um disco rígido antes de o usar ou revender? Use uma formatação completa, não uma rápida, e, se os dados forem sensíveis, aplique uma ferramenta de apagamento seguro que sobrescreva o disco. Muitos fabricantes disponibilizam utilitários gratuitos nos seus sites.
- Uma “formatação rápida” recupera a minha privacidade se eu vender um disco? Não. Uma formatação rápida normalmente apenas repõe os apontadores do sistema de ficheiros; os dados brutos podem muitas vezes ser recuperados com software básico. Um apagamento adequado com sobrescrita é muito mais fiável.
- Discos recondicionados ou devolvidos são sempre arriscados? Nem sempre. Muitos recondicionadores sérios apagam os dispositivos corretamente. Mas isso não se vê por fora, por isso adotar o hábito de apagar sistematicamente qualquer disco novo para si dá-lhe uma margem de segurança real.
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