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Adeus fritadeira, um novo aparelho de cozinha com nove funções vai além de fritar e gera debate entre especialistas sobre se destrói a verdadeira culinária.

Pessoa prepara salada colorida ao lado de uma fritadeira sem óleo numa cozinha bem iluminada.

Num chuvoso serão de terça-feira - daqueles em que fazer jantar parece uma tarefa penosa - a Emma carregou num botão e foi à sua vida. Sem cortar, sem mexer, sem ficar de olho numa frigideira. Vinte e oito minutos depois, o novo aparelho tudo‑em‑um apitou, orgulhoso: salmão, legumes assados e um acompanhamento de brócolos ao vapor, tudo de uma vez. A velha air fryer ficou amuada na bancada, já a ganhar pó.

Ela publicou o resultado no Instagram e as mensagens privadas explodiram. Alguns amigos imploravam pelo nome do modelo. Outros reviravam os olhos, a chamar-lhe “cozinha falsa” e “micro-ondas 2.0 para adultos”.

No meio desta pequena cena doméstica está uma pergunta maior que muitas casas estão, discretamente, a fazer a si próprias.
O que acontece à cozinha a sério quando uma máquina promete fazer tudo?

Da febre da air fryer à obsessão do nove‑em‑um

Basta percorrer qualquer feed e vai dar por ela: a máquina baixa e brilhante que parece a prima aplicada da air fryer. Assa, cozinha a vapor, faz cozedura lenta, cozinha sob pressão, frita com ar, salteia, coze no forno, desidrata, até faz iogurte. Uma caixa em cima da bancada, nove métodos de confeção e mil discussões.

A ideia é sedutora. Em vez de fazer malabarismos com tachos e frigideiras, toca num programa e afasta-se. O ecrã pisca pequenos ícones - um bife, um bolo, uma taça de arroz - como se já soubesse os seus desejos melhor do que você. Não promete apenas batatas estaladiças com menos óleo. Sugere um jantar inteiro, orquestrado por algoritmos.

As marcas estão numa corrida para baptizar esta nova categoria: “multicozinha inteligente”, “forno com air fryer”, “chef tudo‑em‑um”. Por trás do brilho do marketing há uma realidade simples: as pessoas estão cansadas. Cansadas de longos trajetos, da subida do preço das compras, da loiça a acumular, da pergunta interminável “O que é que há para jantar?”

Um retalhista do Reino Unido partilhou discretamente que as vendas destas máquinas de nove funções dispararam para valores de três dígitos logo após uma grande subida do preço da energia. Ao mesmo tempo, as pesquisas por air fryer começaram a estabilizar. As famílias já não procuravam apenas frango estaladiço. Queriam refeições completas, mais rápidas, mais baratas, com menos carga mental.

É aqui que o debate fica mais afiado. Especialistas em saúde aplaudem a redução do óleo de fritura, mas alguns preocupam-se, em surdina, com atalhos ultraprocessados a infiltrarem-se nestes aparelhos “saudáveis”. Chefs olham para os programas predefinidos e fazem uma careta. Carregar num botão para “risotto”? Para eles, isso é sacrilégio.

Por baixo da conversa tecnológica há um receio mais íntimo. Se a máquina escolhe o modo, define o tempo e até sugere a receita, o que sobra do nosso saber? Há uma linha entre automação útil e piloto automático culinário - e estes aparelhos nove‑em‑um dançam mesmo em cima dela.

Atalhos inteligentes ou o fim da cozinha a sério?

Ver alguém usar uma destas máquinas pela primeira vez parece quase um truque de magia. Deita cebola e cenoura, carrega em “saltear”, depois muda para “pressão” sem sujar um segundo tacho. Entra um frango inteiro cru e sai “assado”, com pele dourada e batatas macias por baixo. A mesma cuba, sem trocar tabuleiros, sem pré-aquecer o forno.

O método é sedutor pela simplicidade. Programa a proteína, escolhe um acompanhamento, coloca os legumes numa grelha quando dá, e deixa o aparelho alternar sozinho entre cozer a vapor, assar e estalar. A máquina faz a sequência de “pensamento” que a maioria de nós só domina depois de anos de jantares a meio da semana.

Claro que a promessa de nove métodos também pode correr mal. As pessoas atiram comida congelada lá para dentro, escolhem o modo errado e acabam com frango com textura de esponja ou peixe borrachudo. Depois culpam o aparelho. Todos já passámos por isso: aquele momento em que olha para uma refeição estragada e se pergunta porque é que se deu ao trabalho.

A armadilha emocional é real. Quando se depende totalmente dos programas, deixa-se de prestar atenção a sinais como cheiro, som e textura. Cozinha-se pelo apito, não pelo instinto. E quando falha, parece pessoal - como se tivesse perdido um jeito que talvez nunca tenha chegado a desenvolver.

É isto que preocupa muitos chefs e nutricionistas. Não a caixa de aço em si, mas a erosão lenta da atenção. A cozinha tradicional está cheia de pequenas decisões - juntar um pouco de água, baixar o lume, provar e ajustar. Esses micro-momentos são onde a competência se constrói e se transmite.

Quando uma máquina tranca a tampa, esconde a comida e lhe diz quando está “pronta”, perde-se esse ciclo de feedback. Não aprende porque é que o guisado fica tenro hoje e seco amanhã; só sabe que o botão A resultou e o botão B não. Para alguns profissionais, isso não é apenas preguiça. É uma reescrita silenciosa do que significa cozinhar.

Viver com o nove‑em‑um: equilíbrio, não fé cega

Se falar com pessoas que adoram mesmo o seu aparelho de nove modos, raramente usam todas as funções todos os dias. Um pai muito ocupado em Berlim disse-me que roda três: cozinhar sob pressão à segunda-feira para feijões e cereais, vapor‑mais‑estaladiço a meio da semana para peixe e legumes, cozedura lenta ao domingo. O resto? Extras, para quando a vida descamba.

Há um método prático que se destaca: usar a máquina como “construtora de base” em vez de substituição total. Cozinhe lá os cereais, feijões ou proteínas e depois termine no fogão ou com um molho simples na frigideira. Deixe o aparelho tratar das partes demoradas e mantenha os últimos 15% - o tempero, a selagem, a prova final - firmemente em mãos humanas.

As pessoas caem muitas vezes na armadilha do tudo ou nada. Ou veneram a máquina e deitam fora as frigideiras, ou envergonham-se por “batota” e deixam-na ficar encostada sem uso. Ambos os extremos falham o essencial. Estes dispositivos são ferramentas, não testes morais culinários.

Uma regra simples e gentil é combinar cada receita predefinida com um pequeno gesto de cozinha a sério. Pique uma erva fresca em vez de usar seca. Torre algumas sementes numa frigideira para polvilhar no fim. Sele a carne rapidamente antes de a colocar lá dentro. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas mesmo uma ou duas vezes por semana mantém os sentidos envolvidos, em vez de terceirizar o seu jantar inteiro para um chip e uma resistência.

“Os gadgets não estragam a cozinha”, disse-me um chef baseado em Londres. “Os hábitos é que estragam. Quando se deixa de provar e mexer na comida, é aí que se perde a arte. Prefiro ver alguém usar bem um nove‑em‑um do que não cozinhar de todo.”

  • Atenção aos ingredientes - Um fogão de alta tecnologia não transforma nuggets processados numa refeição nutritiva. A qualidade do que entra continua a mandar no resultado.
  • Aprenda um modo de cada vez - Em vez de saltar entre os nove, domine primeiro a pressão, depois a fritura com ar, depois o vapor. A confiança cresce mais depressa assim.
  • Use cozinha “híbrida” - Deixe o aparelho fazer o trabalho longo e termine numa frigideira, na grelha ou com um molho fresco para profundidade real de sabor.
  • Não deite fora o básico - Uma boa faca, uma boa frigideira, uma tábua de corte e alguma curiosidade continuam a ganhar a qualquer menu predefinido.
  • Questione o “halo” de saúde - Menos óleo não significa automaticamente “saudável” se o resto do prato vier todo do corredor dos congelados.

Então, adeus air fryer… ou apenas olá a um novo tipo de cozinha?

A air fryer já pareceu o futuro: batatas estaladiças, quase sem óleo, menos culpa. Agora está a ser, discretamente, empurrada para o lado por máquinas que prometem refeições completas, texturas em camadas, tempos automatizados. Para uns, isso soa a libertação. Para outros, a morte lenta de uma competência que nos faz sentir humanos e capazes no fim de um dia longo.

A verdade nua e crua é que um gadget nove‑em‑um não vai “estragar” a cozinha por si só. O que pode mudar é a nossa relação com esforço, tempo e sabor. O jantar passa a ser mais um serviço invisível, como o streaming ou chamar um transporte? Ou o tempo poupado dá-nos finalmente espaço para sentar, conversar e talvez ensinar uma criança como cheira o alho quando toca em óleo quente?

Estas novas máquinas vieram para ficar. A verdadeira questão é como escolhemos viver com elas: como muleta, como parceira, ou como substituto silencioso de competências que, no fundo, ainda queremos ter.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Novo gadget vs. air fryer Nove métodos de confeção num só aparelho, da pressão ao “ar estaladiço” Ajuda a decidir se faz sentido trocar uma air fryer básica por uma solução mais completa
Impacto na cozinha “a sério” A automação pode enfraquecer as competências sensoriais se for usada às cegas Incentiva a manter alguns passos manuais para preservar a confiança na cozinha
Estratégia de uso equilibrado Usar o aparelho para cozeduras-base e terminar os pratos manualmente Combina conveniência com sabor, sem abdicar do controlo

FAQ:

  • Pergunta 1 O fogão nove‑em‑um substitui completamente a minha air fryer?
    Para a maioria das pessoas, sim, porque normalmente inclui um modo de “ar estaladiço”/fritura com ar - mas pode continuar a preferir o cesto mais pequeno e rápido de uma air fryer dedicada para snacks rápidos.
  • Pergunta 2 As refeições destes aparelhos são mesmo mais saudáveis?
    Podem ser, porque usa menos óleo e consegue cozinhar mais alimentos inteiros; ainda assim, o impacto na saúde depende sobretudo dos ingredientes, não da máquina.
  • Pergunta 3 Vou esquecer-me de cozinhar se depender dos predefinidos?
    Pode ficar “enferrujado” se nunca provar, ajustar ou improvisar - por isso, combinar programas com pequenos passos manuais mantém as competências vivas.
  • Pergunta 4 Vale o espaço na bancada e o preço?
    Em cozinhas pequenas ou para quem raramente usa o forno, um aparelho multifunções pode substituir vários eletrodomésticos e compensar em poupança de energia e tempo.
  • Pergunta 5 Qual é a melhor forma de começar a usar um?
    Escolha um ou dois pratos simples que já conhece bem, faça-os no aparelho e compare; essa familiaridade torna mais fácil avaliar tempo e sabor.

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