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Segundo esta cabeleireira, a maioria das pessoas lava o cabelo da forma errada (ela partilha dicas).

Mulher lava o cabelo num lavatório, espumando shampoo, rodeada por toalhas e produtos de higiene.

A primeira coisa que ela faz é cheirar o teu cabelo. Não de forma assustadora - mais como um mecânico a ouvir um motor. São 8h30 num pequeno salão que cheira levemente a café e a amaciador de coco, e a cabeleireira Ana, 37 anos, já está a abanar a cabeça perante o couro cabeludo de uma nova cliente. A mulher na cadeira jura que lava o cabelo “sempre”. Três vezes por semana, champô caro, uma máscara aos domingos. Está convencida de que está a fazer tudo bem.

Ana levanta uma madeixa, deixa-a cair e depois aponta para as raízes. “Ali. Esse é o problema. Não é o que usas. É a forma como lavas.”

A mulher pestaneja para ela no espelho. Quase dá para ouvir o pânico silencioso.

Porque se até as “boas alunas” estão a lavar mal… o que é que isso diz sobre o resto de nós?

A maioria de nós aprendeu a lavar o cabelo… com anúncios de champô

Pergunta às pessoas quem lhes ensinou a lavar o cabelo e vais ouvir as mesmas respostas: “A minha mãe.” “Ninguém, eu só copiei a TV.” “Faço o que me parece certo.” É assim que hábitos nascidos numa casa de banho com vapor aos 11 anos acabam a ditar a saúde do teu cabelo aos 30, 40, 50.

A Ana diz que nove em cada dez novos clientes se sentam na cadeira dela com o mesmo padrão: couro cabeludo irritado nas raízes, pontas ressequidas, comprimentos sem brilho. “Chegam a dizer que o cabelo está ‘partido’”, ri-se ela, “mas o cabelo não está partido. A rotina é que está.”

Esfregamos com demasiada força, enxaguamos depressa demais, barramos amaciador em todo o lado e esperamos pelo melhor. E depois culpamos o cabelo, não as mãos.

Numa tarde de terça-feira, a Ana mostrou-me um exemplo perfeito. Um jovem de fato, com o cabelo cheio de gel, marcou uma consulta para “arranjar o meu cabelo”. Queixa: raízes oleosas 24 horas depois da lavagem, couro cabeludo a escamar, pontas como palha. “Já experimentei todos os champôs do supermercado”, suspirou. “Nada resulta.”

Ela pediu-lhe para imitar no ar a sua rotina de lavagem. Ele apertou uma garrafa invisível, despejou um “bocado” imaginário no topo da cabeça, esfregou como se estivesse a lixar madeira e depois enxaguou em três segundos. Amaciador? “Às vezes. Quando me lembro. Em todo o lado. Depois enxaguo logo.”

A Ana nem pareceu surpreendida. “Tu não és oleoso”, disse-lhe. “Estás a retirar gordura a mais e a enxaguar a menos.”

Depois de veres algumas destas rotinas encenadas ao espelho, há um padrão que salta à vista. A maioria das pessoas acha que o champô é para o cabelo, quando na verdade é para o couro cabeludo. Atacamos os comprimentos, que já são frágeis, e quase não tocamos na pele que precisa de ser limpa. Ou fazemos o contrário com o amaciador: sufocamos as raízes e depois perguntamo-nos porque é que tudo fica liso e pesado duas horas mais tarde.

Há também o ritmo. As pessoas apressam o enxaguamento, saltam a massagem, aumentam a água até quase a ferver porque “parece que fica mais limpo”. O calor elevado levanta as cutículas, a fricção agressiva torna-as ainda mais ásperas, e todos esses pequenos danos acumulam-se.

A verdade simples: não estamos a lavar cabelo sujo - estamos a stressar um tecido vivo. E isto antes sequer de falarmos da frequência com que ensaboamos.

A forma como os profissionais lavam o cabelo é quase o oposto do que fazemos em casa

Ver a Ana a lavar cabelo é estranhamente calmante. Nada de esfregar à pressa, nada de um “chapéu” enorme de espuma como nos anúncios. Ela começa antes mesmo da água: “O primeiro passo é sempre escovar”, diz. Desembaraça o cabelo seco das pontas para a raiz com uma escova macia, para soltar cabelos caídos e pó. Só depois molha o cabelo, com água morna, primeiro nas raízes, durante um bom minuto.

A seguir vem o champô, mas muito menos do que as pessoas imaginam - mais ou menos do tamanho de uma avelã para cabelo médio. Esfrega-o entre as palmas antes de tocar na cabeça, para o emulsionar. Depois aplica-o apenas no couro cabeludo, por secções, com as pontas dos dedos firmes atrás das orelhas e avançando para o topo e para a nuca. Os comprimentos limitam-se a apanhar a espuma à medida que ela escorre.

A massagem não é um festival de arranhadelas ao acaso. As pontas dos dedos fazem círculos lentos, levantando ligeiramente a pele, sem nunca arrastar as unhas. Ela passa mais tempo nas zonas onde as pessoas falham: a nuca, atrás das orelhas, o topo da cabeça. “É aqui que o produto e o sebo se acumulam”, sussurra, como se estivesse a revelar uma receita secreta.

O enxaguamento demora o dobro do tempo da lavagem. “Enxaguar até chiar” é um mito que ela detesta. Ela quer um cabelo que se sinta limpo, sim, mas ainda flexível, não como uma corda molhada. O amaciador é um ritual diferente: primeiro ela espreme o excesso de água com as mãos e só depois aplica do meio do comprimento até às pontas, madeixa a madeixa, desembaraçando suavemente com os dedos. Deixa atuar dois ou três minutos enquanto limpa as ferramentas ou prepara uma toalha. Sem pressas.

Depois vêm as correções - as pequenas coisas que ela repete o dia todo aos clientes. Nada de duches a ferver: “Pensa em pele de bebé, não em lava-loiça.” Nada de amontoar o cabelo no topo da cabeça num nó de espuma, que embaraça tudo e estraga a cutícula. Nada de amaciador nas raízes “para dar volume”, que faz exatamente o contrário.

Ela também fala de ritmo. Champô diário para toda a gente não é uma regra, é um reflexo moderno. Cabelo fino e oleoso muitas vezes precisa de lavagens frequentes, mas suaves. Cabelo grosso, encaracolado ou muito crespo muitas vezes precisa de menos lavagens, mas de hidratação mais focada. O que importa é o que o teu couro cabeludo te está a dizer, não o que uma rotina antiga dita.

Sejamos honestos: ninguém faz isto na perfeição todos os dias. E é exatamente por isso que pequenas mudanças, feitas com consistência, têm um retorno tão grande.

A checklist da cabeleireira: dicas inegociáveis para lavar “da forma certa”

A Ana reduziu os seus conselhos a uma sequência simples que repete como um mantra: desembaraçar, ensopar, limpar, enxaguar, condicionar, enxaguar outra vez, secar com suavidade. Cada passo tem as suas armadilhas. O desembaraçar é sempre com o cabelo seco, não molhado - sobretudo em texturas frágeis ou encaracoladas, que estão mais vulneráveis quando saturadas de água.

Ela quer o cabelo verdadeiramente ensopado antes de qualquer champô lhe tocar. “Pelo menos um minuto inteiro”, diz. A própria água começa a dissolver suor e produto, por isso não precisas de exagerar na lavagem. Quanto ao champô, ela defende duas limpezas leves em vez de uma esfrega agressiva. A primeira solta a sujidade, a segunda limpa de facto. Ambas focadas apenas no couro cabeludo, sem esfregar os comprimentos como se fosse roupa.

A secagem é onde muita gente sabota uma boa lavagem. Nada de torcer o cabelo num turbante apertado, nada de esfregar para a frente e para trás como se estivesses a tentar acender uma fogueira. Ela prefere uma T-shirt de algodão macia ou uma toalha de microfibra, usadas para absorver, não para esfregar. Pressionar, apertar suavemente, deixar os caracóis ou comprimentos na sua direção natural.

As ferramentas de calor ficam para o fim, e ela implora aos clientes que usem uma temperatura mais baixa do que acham que precisam. “Se as tuas orelhas estão a arder enquanto secas, está demasiado quente”, diz. Aquela sensação de couro cabeludo a arder depois de uma toalha agressiva e uma rajada de ar a escaldar? Isso não é “limpo”. É irritado. Uma boa lavagem deve deixar-te com um couro cabeludo calmo, não vermelho.

Depois há os erros que a Ana vê tantas vezes que quase os consegue prever à porta. Saltar o enxaguamento na nuca porque estás com pressa. Sobrepor produtos sem enxaguamento (leave-in) num cabelo que nunca foi bem limpo. Escolher champô pelo perfume em vez de pelo tipo de couro cabeludo.

Ela resume a sua filosofia numa frase simples:

“O teu couro cabeludo é pele, não é um detalhe - se não farias isso ao teu rosto, não o faças à tua cabeça.”

A lista do “faz e não faças” dela é simples o suficiente para colar dentro de um armário da casa de banho:

  • Desembaraça antes do duche; nunca de forma agressiva em nós com o cabelo encharcado.
  • Lava com champô o couro cabeludo, não os comprimentos; deixa a espuma descer.
  • Usa água morna para lavar e água mais fresca no enxaguamento final.
  • Aplica amaciador apenas do meio do comprimento até às pontas e dá-lhe um minuto.
  • Seca a absorver (não a esfregar) e mantém as ferramentas de calor numa temperatura razoável.

Repensar esse hábito “normal” do duche

Depois de veres como um profissional trata o cabelo no lavatório, é difícil voltar à tua rotina antiga de três minutos no duche sem sentires uma pequena picada de culpa. O engraçado é que a Ana não procura perfeição. Ela sabe que a vida é caótica: crianças a gritar do lado de fora da porta, despertadores a tocar cedo, noites que se estendem. Ela só quer que as pessoas deixem de lutar contra o próprio cabelo com a mesma coisa que devia cuidar dele.

Uma pequena mudança de cada vez, diz ela. Talvez comeces por baixar a temperatura da água esta semana. Na próxima, reduzes a quantidade de champô para metade e focas-te no couro cabeludo. Depois dás ao amaciador 90 segundos reais para atuar, em vez de enxaguares a correr.

Os resultados não são tão dramáticos como um corte novo, mas são estranhamente satisfatórios. Um couro cabeludo que não comichona às 15h. Cabelo que ainda se mexe no segundo dia. Caracóis que se juntam em madeixas em vez de ganhar frizz. Aquela sensação silenciosa quando tocas nas raízes e elas estão… equilibradas. Nem escorregadias, nem a chiar, simplesmente certas.

Podes reparar que precisas de menos produtos, ou que os teus “dias de cabelo mau” se tornam menos frequentes. Ou simplesmente aprecias mais a própria lavagem, porque parece cuidado, não como esfregar uma panela. Algumas rotinas não precisam de mais um produto milagroso; só precisam de um par de mãos mais suave.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Lavagem com foco no couro cabeludo O champô é para o couro cabeludo; os comprimentos apanham a espuma Reduz oleosidade, comichão e raízes sem brilho
Técnica suave e lenta Água morna, massagem com as pontas dos dedos, enxaguamento longo Protege a fibra capilar e acalma couros cabeludos sensíveis
Condicionamento direcionado Apenas do meio do comprimento às pontas, pouco tempo de pausa, sem esfregar com a toalha Evita raízes pesadas e pontas espigadas, melhora o brilho

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Com que frequência devo mesmo lavar o cabelo? Não há um número mágico. Cabelo fino ou oleoso pode precisar de lavagem a cada 1–2 dias, enquanto cabelo grosso, encaracolado ou muito crespo muitas vezes aguenta 4–7 dias. Observa o couro cabeludo: se estiver desconfortável ou visivelmente oleoso, está na altura.
  • Preciso mesmo de lavar com champô duas vezes? Para a maioria das pessoas que usa produtos de styling ou vive em cidades, duas lavagens leves são melhores do que uma esfrega agressiva. Se tens o cabelo muito curto ou lavas diariamente, uma lavagem suave pode chegar.
  • A água quente pode danificar o cabelo? Água muito quente levanta a cutícula e pode agravar a secura e o desvanecimento da cor. Aponta para uma temperatura confortavelmente morna na lavagem e um jato mais fresco no fim para ajudar a cutícula a assentar.
  • Devo aplicar amaciador no couro cabeludo? Em geral, não - sobretudo se as raízes ficam oleosas ou pesadas. O amaciador é pensado para a fibra, não para o couro cabeludo. Mantém-no do meio do comprimento às pontas, a menos que tenhas um produto específico de tratamento do couro cabeludo.
  • Secar ao ar é sempre melhor do que secar com secador? Nem sempre. Cabelo muito comprido ou muito denso, deixado molhado durante horas, pode inchar e enfraquecer. Uma secagem suave com secador em calor baixo a médio, com protetor térmico, muitas vezes é mais saudável do que ir dormir com o cabelo encharcado.

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