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Sophie Adenot foi lançada ao espaço num foguetão da SpaceX.

Dois astronautas franceses dentro de uma nave espacial, escrevendo em cadernos, com a Terra visível pela janela.

On a luminosa manhã de fevereiro de 2026, a astronauta francesa Sophie Adenot deixou a Terra numa cápsula da SpaceX com destino à Estação Espacial Internacional, transformando anos de treino, vontade política e planeamento científico numa missão de nove meses com riscos e expectativas invulgarmente elevados para França e para a Europa.

Um salto preciso da Florida para a órbita

Na sexta‑feira, 13 de fevereiro de 2026, às 11:15 (hora de França), um foguetão Falcon 9 descolou finalmente de Cabo Canaveral, na Florida, com Sophie Adenot no interior da cápsula Dragon Freedom. Duas tentativas anteriores tinham sido adiadas devido a ventos em altitude e a verificações técnicas adicionais, sublinhando quão implacáveis continuam a ser os critérios de lançamento.

Desta vez, a contagem decrescente manteve‑se. Os nove motores Merlin acenderam, o foguetão afastou‑se da torre e um perfil de lançamento cuidadosamente ensaiado colocou a missão Crew‑12 em órbita baixa terrestre em poucos minutos. A partir daí, Adenot e os seus colegas iniciaram uma perseguição de cerca de 34 horas para alcançar a Estação Espacial Internacional (ISS), sincronizando gradualmente a sua órbita com a do posto avançado que dá a volta à Terra a cada 90 minutos.

O lançamento de Sophie Adenot assinala um raro voo tripulado francês e uma nova fase da dependência europeia de naves comerciais norte‑americanas.

Enquanto o foguetão subia, Adenot fez uma breve mensagem transmitida de volta à Terra: “Ousemos sonhar grande juntos.” Foi uma frase que circulou de imediato nas redes sociais e nos noticiários nacionais, enquadrando o voo não apenas como um feito técnico, mas como um projeto partilhado por cidadãos franceses e europeus que acompanhavam a missão a partir de salas de aula, escritórios e salas de estar.

Uma tripulação internacional e uma viagem comercial

A Crew‑12 é composta por quatro astronautas, reunidos no âmbito do programa Commercial Crew da NASA, que compra lugares em naves construídas por empresas privadas em vez de operar o seu próprio vaivém. A Dragon Freedom, no topo do Falcon 9, faz parte da frota crescente de cápsulas reutilizáveis da SpaceX, que hoje assegura uma parte significativa das viagens humanas para a ISS.

Adenot, em representação de França e da Agência Espacial Europeia (ESA), integra uma equipa internacional que combina experiência norte‑americana e europeia. O acordo evidencia uma realidade simples: no futuro previsível, a Europa depende de foguetões e cápsulas dos EUA para enviar astronautas para a órbita, mesmo quando contribui com laboratórios, ciência e financiamento para a parceria da ISS.

  • Veículo lançador: SpaceX Falcon 9
  • Veículo tripulado: cápsula Dragon Freedom
  • Nome da missão: Epsilon (designação francesa)
  • Enquadramento do programa: NASA Commercial Crew
  • Destino: Estação Espacial Internacional (órbita baixa terrestre)

Nove meses em órbita e mais de 200 experiências

A viagem de Adenot está longe de ser uma visita rápida. A sua missão Epsilon está prevista para durar cerca de nove meses, com regresso à Terra no outono de 2026, segundo a agência espacial francesa CNES. Durante este período, ajudará a realizar mais de 200 experiências científicas a bordo da ISS.

O portefólio de investigação é vasto e cuidadosamente selecionado. Equipas francesas e europeias passaram anos a conceber experiências que só podem ser executadas em microgravidade, onde o ambiente de queda livre constante elimina o efeito do peso e revela processos físicos e biológicos subtis.

A missão Epsilon transforma a ISS num laboratório prolongado para a ciência francesa, da fisiologia humana aos materiais avançados.

Como é a ciência a bordo

De acordo com dados oficiais franceses, as experiências distribuem‑se por várias categorias principais:

  • Fisiologia humana: monitorização de como os voos espaciais de longa duração afetam músculos, ossos, visão e o sistema cardiovascular.
  • Biologia: estudo do comportamento de células, bactérias e plantas sem gravidade, com potenciais implicações para a medicina e a agricultura.
  • Ciência dos materiais: testes a ligas, fluidos e crescimento de cristais em condições onde não há convecção nem sedimentação.
  • Investigação operacional: aperfeiçoamento de procedimentos, ferramentas e rotinas de exercício para preparar futuras missões lunares e marcianas.

Um projeto educativo de referência, o ChlorISS, envolve alunos de toda a França. Os estudantes acompanham experiências de crescimento de plantas e medições ambientais realizadas por Adenot na estação e replicam versões simples nas salas de aula. O objetivo é ligar o voo espacial, por vezes abstrato, a lições concretas de ciência e inspirar a próxima geração de engenheiros e investigadores.

Um momento histórico para as mulheres francesas no espaço

Para França, este voo tem um forte valor simbólico. Adenot é apenas a segunda mulher francesa a ir ao espaço, e passaram mais de 25 anos desde a última missão de uma astronauta francesa.

A sua seleção já tinha marcado um ponto de viragem. Em 2022, a ESA apresentou uma nova turma de astronautas, com forte ênfase na diversidade e inclusão. Adenot, piloto de ensaios de helicópteros e engenheira de formação, destacou‑se como um dos rostos mais visíveis dessa seleção. Agora, torna‑se a primeira astronauta profissional da turma de 2022 a chegar efetivamente à órbita.

A missão de Adenot indica que França não se contenta em ser espectadora do voo espacial tripulado; quer um lugar no cockpit.

Isto importa tanto politicamente como culturalmente. Num panorama espacial cada vez mais concorrido - com os Estados Unidos, a China, empresas privadas e novas potências emergentes a moldarem o futuro da órbita - a capacidade de treinar, qualificar e enviar astronautas continua a ser um indicador de ambição e de capacidade tecnológica.

Porque é que esta missão importa estrategicamente

De Paris a Bruxelas, os responsáveis veem a Epsilon como mais do que um momento de promoção mediática. É uma demonstração pública de que França continua a ser um contributo central para o voo espacial tripulado, numa altura em que a Europa enfrenta dúvidas sobre a sua independência em lançadores após contratempos no programa Ariane 6.

Ao voar num foguetão da SpaceX sob gestão da NASA, França e a ESA aceitam um grau de interdependência tecnológica com os Estados Unidos. Em troca, garantem acesso regular à órbita para os seus astronautas e experiências, mantendo ao mesmo tempo uma participação nos retornos científicos e industriais da ISS.

Aspeto Interesse francês / europeu
Presença humana em órbita Mantém o prestígio nacional e o know‑how operacional
Ciência e tecnologia Gera dados para a medicina, os materiais e a investigação climática
Indústria e emprego Sustenta cadeias de fornecimento aeroespaciais e emprego de alta tecnologia
Geopolítica Mantém a Europa na mesa nas negociações sobre futuras estações espaciais

Vida a bordo: uma rotina exigente

Assim que a Dragon Freedom acoplar e as escotilhas se abrirem, Adenot integrará o calendário apertado da estação. As tripulações trabalham, em geral, com uma agenda preenchida de manutenção, experiências, exercício físico e divulgação pública, tudo isto enquanto orbitam a Terra aproximadamente a cada hora e meia.

A ausência de gravidade traz desafios físicos constantes. Sem exercício direcionado, os músculos atrofiem e os ossos perdem densidade. Os astronautas têm de dedicar cerca de duas horas por dia a passadeiras, máquinas de resistência e bicicletas concebidas para microgravidade. Os dados médicos de Adenot alimentarão estudos de longo prazo sobre a forma como os seres humanos lidam com meses ou anos longe da Terra.

A pressão psicológica também faz parte do quadro. Uma missão de nove meses implica viver num habitat metálico confinado, com privacidade limitada, horários rígidos e contacto com a família condicionado. As agências tratam hoje o apoio à saúde mental, a coesão da tripulação e a gestão de conflitos como componentes centrais do planeamento de cada voo.

Conceitos‑chave por detrás da missão

Algumas ideias associadas à missão de Adenot merecem uma breve explicação, pois moldam cada vez mais o debate sobre o futuro do voo espacial.

  • Microgravidade: muitas vezes chamada “ausência de peso”, é o ambiente de queda livre constante em órbita, no qual astronautas e objetos parecem flutuar. A gravidade continua a existir, mas tudo cai em torno da Terra em conjunto.
  • Tripulação comercial (commercial crew): o modelo da NASA que paga a empresas como a SpaceX para fornecerem transporte humano para o espaço como um serviço, em vez de a agência deter e operar todo o hardware. A Europa participa sobretudo comprando lugares e contribuindo com ciência.
  • Interdependência: nenhum parceiro opera a ISS sozinho. A estação depende de propulsão russa, carga norte‑americana e comercial, laboratórios europeus e contributos japoneses e canadianos. O voo de Adenot insere‑se nesta rede complexa.

O que vem a seguir para a Europa no voo espacial tripulado

Os meses de Adenot em órbita alimentarão debates mais amplos sobre o que a Europa pretende do voo espacial tripulado após a era da ISS. Entre as opções em discussão estão a participação em futuras estações comerciais, um envolvimento mais profundo no projeto lunar Gateway da NASA e, a mais longo prazo, um veículo tripulado europeu.

A sua missão também levanta questões práticas para os jovens europeus que acompanham à distância: que carreiras se ligam ao voo espacial para além de ser astronauta? A resposta vai da robótica e cibersegurança à medicina, agricultura e direito. Muitos dos estudantes que seguem as atividades do ChlorISS nunca vestirãoum fato espacial, mas podem vir a desenhar sistemas de suporte de vida, redigir regras de tráfego espacial ou gerir redes de satélites que mantêm as economias modernas a funcionar.

Por agora, no entanto, a atenção mantém‑se no ponto luminoso da ISS a cruzar o céu noturno. Algures a bordo, uma piloto de ensaios francesa transformada em astronauta está a realizar experiências, a fazer exercício numa passadeira flutuante e a olhar de volta para um planeta onde o seu voo redefiniu, discretamente, as expectativas sobre o que França e a Europa conseguem fazer em órbita.

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