A operação, com o nome de código “Orion 26”, não é um conflito real, mas sim um vasto ensaio, concebido para testar como a França e os seus parceiros lidariam com uma grande crise às portas da Europa. Por detrás dos tanques e dos caças, os planeadores trabalham discretamente sobre uma questão arrepiante: o que acontece se amanhã rebentar uma guerra em grande escala?
Orion 26: a França ensaia o pior cenário possível
De 8 de fevereiro a 30 de abril, a Orion 26 mobilizará as Forças Armadas Francesas e 24 países parceiros num dos maiores exercícios alguma vez realizados em solo francês. Os treinos são dirigidos pelo vice-almirante Xavier de Véricourt e enquadrados como um teste “particularmente exigente” às estruturas de comando sob pressão extrema.
O cenário é fictício, mas o risco não. A Orion 26 assume uma crise que evolui para um conflito de alta intensidade, envolvendo os domínios aéreo, terrestre, marítimo, ciber e espacial. As autoridades francesas veem-no como um sinal de prontidão e liderança numa altura em que a segurança europeia parece cada vez mais frágil.
A Orion 26 assenta numa única pergunta: será que a França e os seus aliados conseguem sustentar uma guerra rápida, de alta tecnologia, em território europeu?
Três meses de manobras em escalada
O exercício está dividido em várias fases, cada uma a pressionar diferentes componentes das forças armadas e do aparelho do Estado.
Datas e fases principais
- 8 de fevereiro – 1 de março: Desdobramento inicial a partir da costa atlântica francesa, incluindo operações anfíbias e aerotransportadas.
- 7 de abril – 30 de abril: Fase final nas áreas de treino de Champagne, no leste de França, centrada no combate terrestre em grande escala e em operações conjuntas.
As primeiras semanas focam-se em operações de “entrada primeiro”: desembarcar tropas a partir do mar, lançar forças por via aérea, assegurar uma cabeça de praia e estabelecer controlo dos céus e das águas circundantes. São movimentos do tipo necessário caso a NATO tivesse de reforçar rapidamente um aliado sob ameaça.
As fases posteriores passam para combate sustentado em terra. Unidades blindadas, artilharia, helicópteros de ataque e caças simulam um desgaste de manobra, contra-ataques e pressão logística. Os comandantes treinam a deslocação de quartéis-generais, a gestão de perdas e a manutenção de comunicações enquanto são alvo de guerra eletrónica e ciberataques.
Os campos de tiro de Champagne transformam-se num laboratório da guerra moderna, onde cada movimento, mensagem de rádio e voo de drone é rastreado e avaliado.
Uma força enorme: tropas, navios, aeronaves e drones
Para lá das manchetes, a Orion 26 é, acima de tudo, um jogo de números. O exercício reúne uma combinação invulgarmente densa de unidades e tecnologias:
| Capacidade | Escala na Orion 26 |
|---|---|
| Tropas francesas | 12 500 militares |
| Navios de guerra | 25 embarcações, incluindo o porta-aviões Charles de Gaulle |
| Aeronaves e helicópteros | Cerca de 140 plataformas |
| Drones | Aproximadamente 1 200 sistemas não tripulados |
| Ministérios do Governo | 12 ministérios envolvidos direta ou indiretamente |
No mar, o grupo aeronaval centrado no Charles de Gaulle fornece defesa aérea e capacidade de ataque de longo alcance. Fragatas, navios de apoio e submarinos acrescentam guerra antissubmarina e proteção das linhas de comunicação marítimas.
No ar, caças, aeronaves de transporte, aviões-tanque de reabastecimento e helicópteros simulam céus contestados. Alguns desempenharão o papel de forças adversárias, testando defesas aéreas e obrigando pilotos franceses e aliados a reagir em tempo real.
Em terra, infantaria, engenheiros e unidades logísticas têm de acompanhar as formações blindadas, enquanto lidam com vigilância por drones, ataques de mísseis simulados e perturbação eletrónica constante.
Drones, IA e “meteorologia espectral”: testar a tecnologia da guerra futura
Uma das características mais marcantes da Orion 26 é o uso intensivo de drones e ferramentas digitais. Participam cerca de 1 200 sistemas não tripulados, desde pequenos quadricópteros a reconhecer trincheiras até plataformas maiores que simulam missões de vigilância de longa duração.
Ferramentas de inteligência artificial apoiam o planeamento e a tomada de decisão. Estes sistemas processam dados de sensores, satélites e fontes abertas, ajudando os comandantes a mapear ameaças e antecipar movimentos inimigos mais depressa do que equipas humanas, por si só, conseguiriam.
Oficiais franceses destacam também o trabalho em “meteorologia espectral” - não uma previsão do clima, mas uma forma de descrever condições ao longo do espectro eletromagnético. Isso inclui ruído de radar, receção de GPS, intensidade de interferências (jamming) e congestionamento do tráfego rádio.
Em vez de apenas verificar se amanhã chove, as equipas analisam agora se o “céu eletromagnético” permitirá sinais seguros, GPS fiável e interferência eficaz.
Ao combinar IA, drones e análise espectral, os planeadores procuram simular um campo de batalha onde qualquer emissão pode denunciar uma posição e qualquer drone pode tornar-se um sensor - ou uma arma.
Para além do militar: 12 ministérios em modo de crise
A Orion 26 não se limita a uniformes e camuflagem. Doze ministérios franceses estão integrados no exercício, diretamente ou através de cenários de crise simulados. Inclui pastas como administração interna, saúde, negócios estrangeiros, transportes e área digital.
O objetivo é testar como o Governo absorve choques que se espalham muito para além da linha da frente: ciberataques contra hospitais, desinformação a circular nas redes sociais, interrupções no abastecimento de combustível, fluxos de refugiados ou pressão sobre infraestruturas críticas.
As autoridades têm de coordenar com as forças armadas, priorizar recursos e emitir mensagens claras sob stress. Estas dimensões civis refletem a viragem para as “ameaças híbridas”, em que um Estado hostil combina pressão militar com ataques políticos, económicos e informacionais.
Um ensaio internacional para a guerra aliada
A Orion 26 é também uma demonstração multinacional de força. Participam militares de 24 outros países, com forte presença europeia, a par de contingentes dos EUA, do Canadá e dos Emirados Árabes Unidos.
Isto importa menos pelo simbolismo e mais pela prática. O exercício força a interoperabilidade - a capacidade de forças diferentes trabalharem efetivamente juntas no terreno.
Pôr os aliados a trabalhar na mesma rede
A interoperabilidade abrange várias camadas:
- Técnica: rádios que se ligam entre si, ligações de dados que partilham feeds de radar e drones, munições e combustíveis compatíveis.
- Processual: regras de empenhamento partilhadas, métodos de controlo do espaço aéreo, normas de evacuação médica.
- Comando: estados-maiores mistos em que oficiais de diferentes nações conseguem decidir rapidamente com base numa imagem operacional comum.
Na Orion 26, uma brigada francesa pode ser apoiada por baterias de artilharia estrangeiras, reabastecida por um avião-tanque aliado e protegida por uma unidade de defesa aérea não francesa. Tudo isto tem de funcionar sob pressão temporal e em condições deliberadamente caóticas.
Para as forças da NATO, a interoperabilidade já não é um tema de debate; é um teste real, com aeronaves e navios a partilhar o mesmo espaço aéreo e marítimo saturado.
Porque é que este tipo de exercício importa agora
Os Estados europeus estão, discretamente, a transitar de uma mentalidade pós-11 de setembro, centrada em pequenas operações no exterior, para a perspetiva de um conflito de alta intensidade mais perto de casa. Manobras de grande envergadura como a Orion 26 fazem parte dessa mudança.
Ajudam a responder a perguntas desconfortáveis. Conseguem as cadeias de abastecimento manter unidades blindadas com combustível e munições durante semanas? Conseguem os hospitais de campanha absorver vítimas em massa? Os enlaces satelitais e os postos de comando aguentam sob pressão cibernética sustentada?
Para além da prontidão, a Orion 26 envia um sinal político. A França usa o exercício para sublinhar o seu papel como ator militar central na Europa, com um grupo aeronaval, forças nucleares e grandes unidades terrestres que permanecem credíveis do ponto de vista operacional.
Termos e conceitos-chave por detrás da Orion 26
Vários conceitos sustentam o exercício e são cada vez mais centrais no planeamento de defesa moderno:
- Conflito de alta intensidade: guerra envolvendo grandes formações, elevado poder de fogo, manobra rápida e desgaste significativo, em contraste com operações limitadas de contrainsurgência.
- Ameaças híbridas: adversários que usam uma combinação de forças convencionais, ciberataques, pressão económica, sabotagem e campanhas de informação para enfraquecer um oponente.
- Grupo aeronaval (carrier strike group): conjunto de navios centrado num porta-aviões, incluindo escoltas e navios de apoio, oferecendo controlo aéreo e marítimo de longo alcance.
- Resiliência: capacidade de uma sociedade e de um Estado absorverem choques - militares, cibernéticos, económicos - e continuarem a funcionar.
Exercícios como a Orion 26 transformam estas ideias, muitas vezes teóricas, em treinos práticos. Revelam fragilidades que raramente surgem em treino rotineiro, desde canais de comunicação sobrecarregados até falhas de coordenação entre autoridades locais e forças armadas.
Cenários futuros e riscos em teste
Embora o cenário detalhado seja classificado, analistas de defesa conseguem delinear linhas prováveis: uma potência regional hostil a desencadear uma crise fronteiriça, ciberataques massivos contra infraestruturas europeias, campanhas de desinformação a inflamar tensões internas e uma rápida concentração de forças estrangeiras junto de território aliado.
Dentro desse enquadramento, os planeadores simulam escolhas que os governos poderiam enfrentar: quando mobilizar reservistas, até que ponto empenhar forças aéreas e navais, e como tranquilizar populações evitando a escalada. Alguns cenários incluem evacuações de civis sob contestação, serviços satelitais interrompidos e ataques contra portos ou bases aéreas.
Para os residentes nas zonas de treino, a Orion 26 pode parecer apenas comboios militares, jatos a baixa altitude e perturbações temporárias. Para os planeadores de defesa europeus, é outra coisa: um ensaio para uma crise que esperam nunca ver, mas que já não sentem poder ignorar.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário