Em início de dezembro, navios de guerra britânicos, americanos e japoneses formaram uma formação invulgarmente compacta no Mar das Filipinas, encenando um exercício naval e aéreo complexo concebido para enviar uma mensagem tanto técnica como política em todo o Indo‑Pacífico.
Uma cena rara num oceano disputado
O Mar das Filipinas, a leste de Taiwan e a norte de Palau, já viu grandes frotas antes, desde a Segunda Guerra Mundial até à Guerra Fria. Desta vez, porém, a imagem foi diferente: quatro porta‑aviões de três nações aliadas, acompanhados por forças australianas, a manobrar lado a lado numa demonstração cuidadosamente coreografada.
Pela primeira vez desde o fim da Guerra do Pacífico, tantos porta‑aviões de diferentes nações treinaram juntos nesta parte do mundo.
O exercício desenrolou‑se à medida que o grupo‑tarefa britânico da “Operação Highmast” se aproximava do Japão, acrescentando um porta‑aviões britânico a uma área normalmente dominada pelo tráfego naval dos EUA e do Japão. O cenário esteve longe de ser aleatório. O Mar das Filipinas constitui um nó essencial entre o Mar do Sul da China, o Estreito de Taiwan e o Pacífico mais amplo, e é atravessado por cabos submarinos e rotas de navegação vitais.
Os aliados treinam aqui com frequência, mas raramente com esta escala. A mensagem destinava‑se a ser lida não só por parceiros como a Coreia do Sul e as Filipinas, mas também por potências regionais que disputam o espaço marítimo, em particular a China.
Quatro porta‑aviões, três bandeiras, uma formação
A formação parecia um catálogo do poder marítimo aliado moderno. No centro da contribuição britânica estava o HMS Prince of Wales, o mais recente porta‑aviões da Royal Navy, destacado numa digressão global para mostrar a aviação naval do Reino Unido e a sua capacidade de integração com parceiros.
A Marinha dos EUA enviou dois pesos‑pesados com perfis diferentes:
- USS *George Washington* – um porta‑aviões nuclear da classe Nimitz, capaz de operar cerca de 70 aeronaves
- USS *America* – um navio de assalto anfíbio que opera como um “porta‑aviões ligeiro” para jactos F‑35B e helicópteros
O Japão enviou o JS *Kaga*, um destróier porta‑helicópteros convertido que agora pode operar jactos F‑35B de descolagem curta e aterragem vertical. Nas redes sociais, a Força Marítima de Autodefesa do Japão exibiu com orgulho imagens dos quatro grandes conveses quase em paralelo, rodeados por navios de escolta e embarcações de apoio.
Visto do ar, o conjunto parecia um aeródromo multinacional em movimento que se estendia sobre água azul.
As forças de defesa australianas acrescentaram aeronaves e pessoal, sublinhando que o exercício não era apenas sobre as três nações com porta‑aviões, mas sobre uma rede indo‑pacífica mais ampla assente na interoperabilidade e na confiança política.
Acima das ondas: um céu ocupado de jactos e rotores
A superfície do mar era apenas metade da história. O verdadeiro trabalho aconteceu acima dela. Dezenas de aeronaves de combate rodavam entre os conveses, testando quão rapidamente cada frota conseguia lançar, recuperar e rearmar jactos num quadro operacional partilhado.
Caças britânicos F‑35B Lightning II do célebre 617 Squadron - os “Dambusters” - voaram ao lado de aeronaves americanas e japonesas. Helicópteros especializados em guerra anti‑submarina e busca e salvamento deslocavam‑se entre navios, enquanto aviões de radar e drones interligavam os sensores das frotas.
Os comandantes definiram vários objectivos claros:
- Reforçar as parcerias políticas e militares entre as nações participantes
- Aperfeiçoar a coordenação entre as alas aéreas e navios de diferentes marinhas
- Treinar a defesa de rotas de navegação críticas e de infra‑estruturas submarinas
- Sinalizar apoio ao que o Japão denomina um “Indo‑Pacífico livre e aberto”
Apesar das fotografias de impacto, grande parte do esforço centrou‑se em rotinas: exercícios de convés de voo, verificações de comunicações, reabastecimento no mar e regras partilhadas para emergências complexas.
Sob a superfície: submarinos em mente
Os porta‑aviões não navegaram sozinhos. Guardiões silenciosos, provavelmente incluindo submarinos, acompanharam a formação e simularam ataques. A guerra anti‑submarina foi um tema central.
Navios e helicópteros praticaram a detecção de submarinos hostis usando sonares de imersão, arrays rebocados e sonobóias. Os dados fluíam para centros de comando a bordo dos porta‑aviões, onde equipas mistas de especialistas britânicos, americanos, japoneses e australianos tinham de reagir quase em tempo real.
A capacidade de defender um grupo de porta‑aviões contra submarinos continua a ser uma das tarefas mais difíceis na guerra naval moderna.
Os exercícios incluíram também ataques simulados com mísseis e cenários de guerra electrónica, testando até que ponto sensores de diferentes nações podem fundir‑se numa única imagem coerente do espaço de batalha.
Da guerra ao apoio humanitário
O guião não se limitou a conflito de alta intensidade. Partes do exercício focaram‑se em assistência humanitária e ajuda em catástrofes, uma missão que frequentemente recai sobre as marinhas no Pacífico sujeito a tufões.
Os navios praticaram a movimentação de abastecimentos entre conveses, o lançamento de helicópteros para evacuação médica e a coordenação com autoridades locais fictícias após uma catástrofe natural. Para muitos países do Indo‑Pacífico, este tipo de ajuda é um dos benefícios mais tangíveis de ter grandes navios aliados por perto.
| Foco do exercício | Actividades principais |
|---|---|
| Operações aéreas de porta‑aviões | Ciclos de lançamento e recuperação, missões conjuntas, gestão do espaço aéreo |
| Guerra anti‑submarina | Pesquisas por sonar, exercícios de seguimento, ataques simulados com torpedos |
| Segurança marítima | Protecção de comboios, patrulhas de liberdade de navegação |
| Resposta humanitária | Transporte por helicóptero, apoio médico, logística no mar |
Porque é que o Mar das Filipinas é tão importante
O Mar das Filipinas situa‑se ao longo da chamada “primeira cadeia de ilhas”, uma sequência de massas terrestres que se estende do Japão, passando por Taiwan e pelas Filipinas, até Bornéu. Esta linha molda, na prática, o acesso entre o Pacífico aberto e o continente asiático.
Para o Reino Unido, enviar o HMS Prince of Wales tão longe de casa mostra que Londres quer ter uma voz regular nos debates de segurança do Indo‑Pacífico. Para os EUA, reforça a mensagem de que a sua presença de porta‑aviões na Ásia não está a diminuir. Para o Japão e a Austrália, sustenta o impulso de trabalharem mais estreitamente com parceiros à medida que as tensões regionais aumentam.
O treino sinaliza que, numa crise, estas marinhas esperam operar em conjunto, e não em compartimentos nacionais isolados.
Termos‑chave que enquadram o exercício
O que “liberdade de navegação” significa na prática
A expressão “liberdade de navegação” surgiu repetidamente em declarações sobre o exercício. Na prática, refere‑se ao princípio de que navios mercantes e navios de guerra devem poder transitar por águas internacionais sem serem bloqueados ou assediados, desde que respeitem o direito internacional.
Quando marinhas aliadas navegam por áreas disputadas, estão, na prática, a afirmar que não aceitam reivindicações marítimas unilaterais que ultrapassem limites reconhecidos internacionalmente.
De “grupo de ataque de porta‑aviões” a “grupo anfíbio pronto”
Dois conceitos ajudam a enquadrar o que foi visível no Mar das Filipinas:
- Grupo de ataque de porta‑aviões – um porta‑aviões rodeado por contratorpedeiros, fragatas, submarinos e navios de apoio, focado no poder aéreo e no controlo do mar
- Grupo anfíbio pronto – uma formação centrada num navio de assalto como o USS America, pensada para desembarcar fuzileiros e apoiar operações em terra
Reunir ambos os tipos num único pacote multinacional de grande dimensão cria um conjunto flexível de capacidades que pode passar da dissuasão para evacuação ou ajuda em catástrofes em poucas horas.
Riscos, sinais e cenários
Manobras massivas acarretam riscos. Formações apertadas em águas movimentadas podem levar a acidentes, enquanto intenções mal interpretadas podem desencadear respostas agressivas de aeronaves ou navios de Estados rivais. Os comandantes mitigam isso recorrendo a canais de comunicação estabelecidos e a zonas de exercício cuidadosamente anunciadas.
Os estrategas que observam este treino imaginam vários cenários. Um envolve uma crise súbita em torno de Taiwan ou no Mar do Sul da China, em que uma coligação deste tipo poderia ser incumbida de garantir o espaço aéreo e manter o tráfego mercante a fluir. Outro centra‑se num grande sismo ou tsunami a atingir uma costa do Pacífico, em que o mesmo grupo entrega helicópteros, hospitais e unidades de engenharia em vez de mísseis.
Para as populações costeiras, a visão de quatro porta‑aviões aliados no horizonte pode significar coisas muito diferentes: um aviso a potenciais agressores, uma rede de segurança em emergências, ou simplesmente um lembrete de que a política de poder global muitas vezes se desenrola logo para lá da linha onde o mar encontra o céu.
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