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Maus ventos para o plano da UE de abandonar o gás russo: Polónia abre nova mina de carvão para proteger empregos – traição ao clima ou afirmação de soberania?

Trabalhador de construção com capacete e colete laranja em mina a céu aberto, com turbinas eólicas ao fundo.

A primeira coisa que se nota é o fumo.
Não vem da mina em si, mas das chaminés das casas próximas, a enrolar-se no céu cinzento da Silésia, enquanto trabalhadores de coletes laranja se arrastam em direção aos portões pouco depois do amanhecer. O ar cheira vagamente a pó de carvão e a café. Alguém brinca que a mina vai sobreviver a todos eles; outro resmunga que a Europa não faz ideia de como as pessoas realmente vivem aqui.

Poucas horas depois, em Varsóvia e em Bruxelas, a mesma decisão veste-se com palavras diferentes: segurança energética, autonomia estratégica, traição climática, paz social.

No terreno, parece apenas um novo poço de carvão e uma promessa de trabalho numa pequena cidade que ficou sem promessas.

E, de repente, o grande plano da UE para cortar com o gás russo parece muito menos linear.

A aposta polaca no carvão em plena viragem verde da Europa

A nova mina está a erguer-se num canto da Polónia onde as estradas são ladeadas por faixas mineiras desbotadas e cachecóis de futebol pendurados nos espelhos retrovisores. Para muitas famílias, um emprego no subsolo continua a ser um bilhete para uma vida estável - mesmo que essa vida venha com pó nos pulmões e sirenes que toda a gente, em silêncio, reza para nunca ouvir.

Quando o governo anunciou a abertura de mais um projeto de carvão “para proteger empregos”, os aplausos nas regiões mineiras foram reais, não encenados. Os políticos falaram de soberania, de nunca mais serem chantageados por um gasoduto do Kremlin. Na rádio local, a linguagem foi mais simples: trabalho, salários, dignidade.

O timing é brutal. Bruxelas está a pressionar os Estados-membros a reduzir combustíveis fósseis, acelerar a eólica e a solar e transformar o gás russo numa má memória. Ainda assim, a Polónia - já um dos países da UE mais dependentes do carvão - está a redobrar a aposta com um investimento que se estende por décadas.

As autoridades insistem que a mina vai substituir importações e amortecer o choque do divórcio do gás russo. Investigadores do clima dizem que isto fixa novas emissões precisamente quando a Europa precisa de descer a pique. Um estudo de um think tank sediado em Varsóvia estima que a mina poderá emitir dezenas de milhões de toneladas de CO₂ ao longo da sua vida útil - um número que colide de frente com a legislação climática da UE.

É aqui que a história deixa de ser abstrata. Os planos de transição energética da UE foram construídos sobre uma fuga rápida ao gás russo, renováveis em massa e uma redução gradual do carvão. No papel, parecia limpo. Nas ruas das cidades mineiras polacas, parece cortes de emprego, raiva social e um medo muito real de ficar para trás.

Varsóvia argumenta que, sem carvão doméstico, o país arrisca trocar uma dependência por outra: substituir os gasodutos da Gazprom por painéis solares feitos na China ou por importações de eletricidade alemã. Os críticos veem outra coisa: um governo a usar os mineiros como escudo político para adiar reformas profundas.

Uma decisão, duas narrativas. E ambas carregam uma parte da verdade.

Entre Bruxelas e Bełchatów: como o choque realmente se manifesta

Se pedirem a responsáveis polacos que justifiquem a nova mina, começam por um método simples: seguir o dinheiro e a fatura do gás. Quando a Rússia fechou as torneiras e os preços dispararam, a Polónia foi apontada como modelo por ter cortado rapidamente o gás russo, virando-se para terminais de GNL e gasodutos bálticos. Essa viragem teve um custo. As famílias viram as suas faturas de energia subir. Pequenas fábricas fizeram as contas - e algumas fecharam simplesmente.

A mina, dizem, é um amortecedor. Uma forma de manter centrais elétricas a funcionar enquanto os parques eólicos offshore crescem no Báltico e os painéis solares se espalham pelos telhados. Na sua narrativa, o carvão torna-se uma ponte, não um destino.

O erro que muitos comentadores na Europa Ocidental cometem é falar do carvão como se fosse uma linha numa folha de cálculo, e não uma história de família. Em regiões como a Silésia, “fechar a mina” não é uma linha num plano climático; é o teu tio a perder a reforma e o teu vizinho a vender o carro.

Todos já passámos por isso: o momento em que alguém distante desenha um plano limpo e racional para a tua vida, ignorando a confusão em cima da tua mesa da cozinha. Bruxelas fala de Fundos para uma Transição Justa. No terreno, as pessoas lembram-se de siderurgias que fecharam de um dia para o outro nos anos 1990 e de promessas que nunca chegaram. Sejamos honestos: ninguém acredita realmente que todos e cada um dos mineiros serão reconvertidos sem sobressaltos em engenheiros de turbinas eólicas.

Para defensores do clima, a sensação é próxima da traição. Isto não é apenas sobre a Polónia: se uma das maiores economias da UE se afunda ainda mais no carvão, que mensagem envia isso a países que estão a ser repreendidos por abandonar combustíveis fósseis?

“Chamar a isto ‘proteção de empregos’ enquanto se aprova uma nova mina de carvão em 2026 é como instalar um telefone fixo no ano em que o iPhone foi lançado”, disse-me, sob anonimato, um negociador climático da UE, visivelmente frustrado. “Pode dar alguns anos de conforto. Depois a conta chega - nas emissões e na credibilidade.”

Ao mesmo tempo, muitos polacos ouvem outro tipo de traição: uma Europa que elogia a coragem polaca na Ucrânia e, depois, repreende a Polónia por usar os recursos que de facto tem.

  • Da perspetiva de Bruxelas – A mina ameaça as metas climáticas da UE, enfraquece a narrativa do abandono do gás russo e arrisca preços de carbono mais elevados para todos.
  • Da perspetiva de Varsóvia – A mina é um escudo contra choques de preços, apagões e mais uma vaga de agitação social em regiões já frágeis.
  • Para as famílias comuns – É uma troca entre ar respirável para os filhos e um emprego que paga a renda do próximo mês - e não é uma escolha que alguém inveje.

Traição climática ou afirmação soberana - ou algo mais confuso?

O que torna esta decisão tão dolorosa é o quanto ela expõe o fosso entre promessas climáticas grandiosas e realidades confusas. A Polónia não está sozinha a agarrar-se a boias fósseis enquanto fala de verde em conferências. A Alemanha voltou apressadamente ao carvão quando o gás russo desapareceu. A França continua a apoiar-se no nuclear enquanto discute renováveis. A Espanha aposta na eólica e na solar e, ainda assim, mantém centrais a gás de prevenção, como pais ansiosos.

A Polónia apenas o fez de forma mais ruidosa, com uma nova mina que parece um gesto insolente perante os gráficos climáticos de Bruxelas. Isso não torna as emissões menores, mas torna a conversa mais honesta.

Para o plano da UE de cortar com o gás russo sem rebentar o orçamento climático, o caso polaco é um sinal de alerta. Pode-se despejar milhares de milhões em subsídios verdes e interligações transfronteiriças, mas se as pessoas nas regiões mineiras só virem faturas a subir e fábricas a fechar, votarão em quem prometer manter as luzes - e as minas - ligadas.

Essa é a corda bamba: pressionar demais alimenta uma reação que abranda a ação climática. Avançar devagar demais fixa novo carvão e novo gás que continuarão a arder muito depois de expirarem as metas de 2030. A nova mina não é apenas um buraco no chão; é uma fissura no consenso político da UE.

É por isso que a pergunta “traição climática ou afirmação soberana?” parece demasiado arrumada. De um lado, há uma raiva real de jovens polacos que marcham em protestos climáticos e veem o seu país a virar as costas ao seu futuro. Do outro, há uma geração que se lembra de prateleiras vazias, cartões de racionamento e do aperto de Moscovo - e recusa trocar uma vulnerabilidade por outra.

Quer vivas em Varsóvia, Berlim ou numa pequena cidade a acompanhar de longe as manchetes da energia, a mesma ideia inquieta persiste: e se a transição verde, vendida como um ganha-ganha, for na verdade feita de dezenas de trocas difíceis e com sensação de injustiça como esta? A mina polaca não responde a essa pergunta. Obriga o resto da Europa a parar de fingir que ela não existe.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A nova mina de carvão da Polónia colide com as metas climáticas da UE O projeto prolonga o uso do carvão por décadas enquanto a UE tenta eliminar o gás russo e reduzir emissões Ajuda-te a perceber por que razão a transição energética está a bater em limites políticos e sociais
Empregos vs. clima não é um debate teórico As comunidades mineiras ouvem “encerramento” como perda pessoal, enquanto os defensores do clima veem o novo carvão como uma linha vermelha Mostra como medos locais podem reformular escolhas de política nacional e europeia
Soberania é a nova linguagem das decisões sobre combustíveis fósseis Varsóvia enquadra o carvão como proteção contra dependência da Rússia ou de tecnologia estrangeira Dá contexto a argumentos semelhantes que estão a emergir pela Europa e além

FAQ:

  • A Polónia está legalmente autorizada a abrir uma nova mina de carvão ao abrigo das regras da UE? Sim, mas o projeto encaixa de forma desconfortável com a legislação climática da UE e com as metas de emissões, o que pode traduzir-se em custos de carbono mais altos e negociações mais duras com Bruxelas.
  • Isto significa que o plano da UE para cortar com o gás russo está a falhar? Não exatamente, mas mostra que substituir o gás russo não significa automaticamente um corte limpo com todos os combustíveis fósseis, sobretudo em países muito dependentes do carvão.
  • Esta nova mina vai mesmo baixar os preços da energia na Polónia? Pode aliviar a pressão em regiões dependentes do carvão no curto prazo, mas os preços a longo prazo também serão determinados pelos custos de carbono, pela implementação de renováveis e por melhorias na rede.
  • Os polacos são contra a ação climática? Inquéritos mostram forte apoio ao ar limpo e às renováveis, mas também profunda desconfiança em relação a encerramentos súbitos de minas sem alternativas credíveis e bem pagas.
  • Poderiam ser usados fundos da UE em vez de uma nova mina de carvão? Sim, existem fundos de Transição Justa e de recuperação destinados a reconverter trabalhadores e a construir indústrias verdes, mas o acesso, a confiança e a capacidade local ficam muitas vezes aquém dos anúncios.

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