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Rafale: relatório dos EUA aponta a China por desinformação

Homem analisa informações sobre jato militar através de tablet e notas enquanto a aeronave está no exterior.

Enquanto as forças indianas e paquistanesas se enfrentavam nos céus, um novo relatório dos EUA afirma que redes ligadas à China difundiram online um fluxo constante de conteúdos falsos, visando em particular uma aeronave: o Rafale francês. O objetivo não era apenas propaganda, mas influenciar futuros negócios de armamento.

Rafale na mira de um novo tipo de guerra

O mais recente relatório da US-China Economic and Security Review Commission centra-se numa crise breve mas intensa entre a Índia e o Paquistão, de 7 a 10 de maio de 2025. Os combates começaram após um ataque insurgente mortal em Jammu e Caxemira e escalaram rapidamente para ataques aéreos e de mísseis.

A Índia lançou a “Operação Sindoor”, uma série de ataques profundos contra alvos no Paquistão. Islamabad respondeu com a sua rede de defesa aérea, fortemente fornecida e moldada pela China nos últimos anos. Os caças Rafale de fabrico francês, adquiridos pela Índia como dissuasor de alto nível, integraram parte da resposta de Nova Deli.

A avaliação da comissão vai além do quadro tático. Defende que Pequim usou a crise como um laboratório em condições reais, tanto para novas armas como para operações de informação destinadas a desacreditar sistemas de origem ocidental aos olhos de compradores globais.

Segundo o relatório norte-americano, o Rafale não era apenas uma aeronave em combate; era um alvo de comunicações estratégicas.

China, Paquistão e um equilíbrio de armamento em rápida mudança

O relatório sublinha o quão estreitamente a postura de defesa do Paquistão se tornou dependente do apoio chinês. Entre 2019 e 2023, estima-se que a China tenha fornecido cerca de 82% do armamento importado pelo Paquistão, prendendo Islamabad a uma dependência profunda da tecnologia de Pequim e do seu respaldo político.

Durante os confrontos de maio de 2025, várias plataformas chinesas terão sido usadas em combate pela primeira vez:

  • HQ-9: sistemas de mísseis terra-ar de longo alcance, formando a espinha dorsal da defesa aérea paquistanesa
  • PL-15: mísseis ar-ar para além do alcance visual, concebidos para desafiar equivalentes ocidentais
  • J-10: caças, variantes modernizadas adaptadas ao Paquistão

No pós-crise, diz-se que a China avançou rapidamente para aprofundar esta cooperação. Pequim terá oferecido ao Paquistão um pacote que inclui 40 caças furtivos J-35, aeronaves de alerta antecipado KJ-500 e sistemas avançados de defesa antimíssil. O Paquistão, apesar de fortes limitações orçamentais e económicas, respondeu aumentando a despesa em defesa em cerca de 20%, sinalizando que está disposto a pagar pelo que considera ser a sua sobrevivência estratégica.

Porque o J-35 e o Rafale estão a ser apresentados como rivais

O J-35, um caça furtivo bimotor ainda em fases iniciais de promoção para exportação, surge como a resposta de Pequim a aviões de topo ocidentais e russos. O Rafale, testado em combate e amplamente exportado, é um dos seus principais concorrentes na Ásia, da Índia à Indonésia.

A comissão argumenta que a estratégia informacional da China procura posicionar o J-35 como o vencedor “limpo” nas narrativas, mesmo quando faltam dados concretos do campo de batalha.

Nesta disputa, as métricas de desempenho já não são a única moeda. A perceção, a fiabilidade e as narrativas mediáticas contam quase tanto como o empuxo, o alcance e a potência do radar.

Destrezos falsos e “abates” de videojogos: como funcionou a desinformação

A parte mais sensível do relatório dos EUA, sobretudo para a França, trata do que aconteceu online enquanto os mísseis voavam. Segundo a comissão, contas pró-China e ligadas ao Paquistão impulsionaram uma vaga orquestrada de conteúdos enganadores com o objetivo de minar a reputação do Rafale.

As táticas descritas incluem:

  • Perfis falsos nas redes sociais a fazer-se passar por testemunhas locais ou “insiders” militares
  • Imagens retiradas de videojogos de combate, reembaladas como “abatimentos reais” de Rafale
  • Imagens geradas por IA de destroços em chamas com marcações francesas
  • Excerto(s) áudio fabricado(s) alegadamente de comunicações interceptadas de pilotos indianos

Estes conteúdos circularam em plataformas generalistas e apps de mensagens, muitas vezes em línguas locais, e foram amplificados por redes de bots. Mais tarde, verificadores de factos desmentiram várias destas “provas”, mas nessa altura algumas já tinham sido amplamente difundidas.

O objetivo, diz o relatório, era impor a ideia de que Rafale tinham sido abatidos em número, apesar de não existir qualquer evidência credível que sustentasse essa alegação.

Para potenciais compradores a observar de Jacarta ou Abu Dhabi, a mera possibilidade de tais perdas pode gerar dúvidas. Numa competição por caças de milhares de milhões, só essa hesitação já pode ser prejudicial.

França e Índia repensam o que significa exportar um caça

Responsáveis franceses e executivos da indústria de defesa suspeitam há muito que o Rafale se tornou um alvo específico de campanhas de influência rivais. O relatório dos EUA valida, na prática, essa leitura, ligando incidentes isolados num padrão coerente.

Para Paris e Nova Deli, a conclusão é clara: as exportações modernas de armamento já não se limitam a treino, manutenção e peças sobresselentes. Exigem uma capacidade associada para defender a narrativa em torno do sistema com a mesma determinação com que o sistema defende o espaço aéreo.

Pacote de exportação tradicional Pacote de exportação emergente
Entrega da aeronave Aeronave + estratégia de comunicação digital
Treino de pilotos e tripulações Formação em media e comunicação de crise
Manutenção e modernizações Monitorização dedicada de narrativas online
Integração de armamento Apoio em ciberdefesa e defesa informacional

Fontes da indústria francesa já deixaram antever uma coordenação mais estreita com governos nestes temas, incluindo equipas de resposta rápida capazes de desmontar alegações falsas e divulgar imagens verificadas quando aeronaves aliadas são alvo de ataques informacionais.

Guerra de informação como componente integrada dos conflitos futuros

O caso do Rafale oferece um vislumbre de uma mudança mais ampla. Campanhas aéreas são agora acompanhadas por campanhas digitais, em que cada alegado abate, cada pista de radar e cada foto de destroços disputa atenção.

Estados que pretendem vender sistemas complexos têm agora de responder a novas perguntas dos compradores: quem defenderá a reputação da aeronave? Quão depressa se consegue contrariar informação falsa? O fornecedor consegue ajudar a gerir a opinião pública interna se rebentar uma crise?

Para países como a Indonésia, que ponderam propostas francesas, norte-americanas, russas e chinesas, a resiliência informacional torna-se parte do cálculo de valor, a par do custo, da transferência de tecnologia e das ligações políticas.

Termos-chave por detrás das manchetes

Vários conceitos técnicos e políticos moldam esta história:

  • Operações de informação: uso coordenado de media, redes sociais e ferramentas digitais para influenciar a forma como os acontecimentos são percecionados.
  • Imagens do tipo deepfake: visuais gerados por IA ou fortemente editados, usados para criar “provas” convincentes mas falsas.
  • Defesa aérea integrada: rede que liga radares, mísseis e centros de comando, como o sistema do Paquistão apoiado por baterias chinesas HQ-9.
  • Concorrência na exportação: disputa política e económica entre estados fornecedores para garantir contratos de defesa de longo prazo, muitas vezes de dezenas de milhares de milhões.

Um cenário prático ajuda a sublinhar o que está em causa. Se um único Rafale se despenhasse numa operação futura, quer por falha mecânica quer por combate, redes adversárias poderiam inundar instantaneamente as redes sociais com dezenas de cenas falsas de queda. Algumas mostrariam múltiplos aviões; outras alegariam “prova” de um design francês “inferior”. Mesmo que investigações oficiais viessem mais tarde a atribuir a culpa ao tempo ou a erro humano, a primeira vaga de publicações virais moldaria a opinião pública e os debates parlamentares.

Neste ambiente, o silêncio torna-se arriscado; governos que esperam dias para responder podem perder o controlo da narrativa antes de os factos serem conhecidos.

Riscos e respostas para forças aéreas e fabricantes

As forças aéreas enfrentam agora um risco duplo: perder uma aeronave em batalha e perder credibilidade online. Um pequeno incidente pode ser amplificado até se tornar um símbolo de fraqueza nacional. Em democracias, onde a despesa em defesa é intensamente escrutinada, isso pode traduzir-se rapidamente em cortes orçamentais ou em bloqueios a negócios de exportação.

Fabricantes como a Dassault Aviation, em conjunto com parceiros governamentais, estão a adaptar-se gradualmente. Entre as medidas já em discussão incluem-se células permanentes de ligação com plataformas sociais, planos de comunicação pré-aprovados para acidentes e equipas dedicadas a analisar tendências em espaços online de línguas estrangeiras, onde os rumores tendem a começar.

A experiência do Rafale, tal como descrita no relatório dos EUA, sugere que isto deixou de ser um extra opcional. Para qualquer Estado que opere aeronaves de combate de topo, o controlo da narrativa tornou-se mais um domínio contestado, a par de terra, mar, ar, espaço e ciberespaço.

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