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Fincantieri: “esperamos garantir cerca de 5 mil milhões de euros em encomendas de defesa”

Homens analisam uma maquete de navio e planos enquanto um grande navio está ancorado ao fundo.

Em Milão, numa apresentação do plano de negócios, a Fincantieri definiu metas financeiras arrojadas até 2030 e sinalizou uma viragem acentuada para contratos de defesa, incluindo uma vaga de encomendas esperada nos próximos meses.

A Fincantieri apresenta o seu plano de aceleração

A 12 de fevereiro de 2026, a Fincantieri revelou o seu plano de negócios 2026–2030, sob a marca “F4 – Fast Forward Further Future”. O momento é estratégico. O grupo enfrenta um mercado naval concorrido, tensões geopolíticas em alta e pressão para melhorar a rentabilidade após anos de investimento pesado.

Para 2025, o grupo italiano confirma receitas esperadas de cerca de 9 mil milhões de euros. Aponta para uma margem EBITDA de 7,4% e um lucro líquido de 110 milhões de euros. Não são números recorde, mas estabelecem um ponto de partida para uma subida ambiciosa nos anos seguintes.

A Fincantieri aponta a ganhos constantes e mensuráveis: mais receitas, margens mais fortes e um balanço mais limpo até 2030.

A carteira de encomendas da empresa já ronda os 60 mil milhões de euros. Na construção naval, onde os contratos são grandes e os programas se estendem por uma década ou mais, esse volume oferece uma visibilidade preciosa. Mas também cria pressão: uma má gestão de prazos ou custos pode corroer rapidamente as margens.

Metas para 2030: crescimento, margem e escala

O novo plano divide a década em pontos de controlo claros.

Ano Meta de receitas Meta de EBITDA Meta de lucro líquido
2026 9,2–9,3 mil milhões € 700 milhões € n/d (não especificado em detalhe)
2028 ~11 mil milhões € ~930 milhões € ~220 milhões €
2030 12,5 mil milhões € 1,25 mil milhões € ~500 milhões €

Até 2030, a Fincantieri quer receitas 40% acima das de 2025 e um EBITDA aproximadamente duplicado para 1,25 mil milhões de euros. O grupo procura uma margem EBITDA próxima de 10%, um nível que a alinharia mais com os operadores mais rentáveis no espaço da defesa e da construção naval.

Fontes do setor citadas em paralelo com o plano apontam para uma taxa média anual de crescimento das receitas de cerca de 8% entre 2026 e 2030. Esse ritmo assenta numa combinação de projetos comerciais e, cada vez mais, programas de defesa, que tendem a ser de mais longo prazo e mais sensíveis do ponto de vista político, mas também mais resilientes aos ciclos económicos.

Se a Fincantieri atingir os seus objetivos para 2030, o seu lucro operacional (core) será quase o dobro do nível de 2025, impulsionado em grande medida pela defesa e por projetos de maior valor acrescentado.

Dívida sob controlo, pelo menos no papel

A construção naval é intensiva em capital, e os níveis de dívida são acompanhados de perto por investidores e governos. A gestão da Fincantieri quis claramente enviar um sinal tranquilizador neste ponto.

O grupo espera que o rácio dívida líquida/EBITDA desça para 1,7x em 2028 e para cerca de 1,0x em 2030. Isso marcaria uma mudança para uma estrutura de capital muito mais confortável, dando à empresa mais margem para financiar programas futuros e amortecer qualquer quebra nas encomendas.

A melhoria deverá resultar de um mix de negócio mais rentável, de um controlo mais apertado do fundo de maneio e de um ritmo de produção mais regular nos estaleiros. Na prática, isto significa menos picos e vales de carga de trabalho e fluxos de caixa mais previsíveis.

Reduzir a alavancagem para cerca de 1x o EBITDA até 2030 colocaria a Fincantieri numa zona em que os custos de financiamento são mais fáceis de gerir e os riscos de refinanciamento são menores.

A defesa no centro da história de crescimento

A parte mais marcante da apresentação em Milão é o papel central da defesa. Embora a Fincantieri seja amplamente conhecida pelos navios de cruzeiro, a empresa está agora a apostar fortemente em programas militares como principal motor de crescimento.

5 mil milhões de euros em encomendas de defesa em seis meses

O CEO Pierroberto Folgiero disse aos investidores que o grupo espera uma aceleração de novos contratos no curto prazo. Nos próximos seis meses, a Fincantieri antecipa assegurar cerca de 5 mil milhões de euros em encomendas de defesa.

“Esperamos obter cerca de cinco mil milhões de euros em encomendas de defesa nos próximos seis meses”, indicou Folgiero, sinalizando uma forte subida do trabalho militar.

Uma vaga deste tipo não só reforçaria a carteira de encomendas como também exigiria uma rápida expansão de capacidade. Segundo comentários reportados em Itália, a carga de trabalho esperada tornaria necessário duplicar a capacidade de produção militar nos estaleiros italianos.

Isto implica novas contratações, investimentos em infraestruturas e uma coordenação mais estreita com o Governo italiano e marinhas aliadas. Também sublinha até que ponto o futuro da Fincantieri está agora ligado à trajetória do gasto europeu em defesa.

Itália como base, exportação como alavanca

A Fincantieri planeia usar Itália como a sua principal base industrial, enquanto continua a perseguir contratos de exportação como alavanca de crescimento. O grupo já fornece navios de guerra e embarcações de apoio a vários países, frequentemente em parceria com outras empresas de defesa.

No plano 2026–2030, a gestão fala de mais de 50 mil milhões de euros em novas encomendas esperadas em todos os segmentos ao longo do período, além do backlog existente de 60 mil milhões. Os programas de defesa deverão representar uma parte significativa desse valor, quer diretamente quer através de joint ventures e projetos transfronteiriços na Europa.

  • Os estaleiros italianos mantêm-se como os principais polos de produção de navios militares.
  • Campanhas de exportação visam marinhas na Europa, Médio Oriente e Ásia.
  • Parcerias com grandes contratantes de defesa apoiam propostas complexas.
  • Serviços de suporte e manutenção acrescentam receitas de longo prazo.

Dividendos novamente no horizonte

Para os acionistas, há uma mensagem que se destaca. A Fincantieri está a considerar reintroduzir um dividendo “a partir de 2028”, com base nas contas de 2027. Isso assinalaria uma transição de uma fase centrada sobretudo no investimento e na reparação do balanço para outra em que voltar dinheiro aos investidores se torna novamente realista.

O sinal do dividendo sugere que a gestão confia que o plano pode entregar ganhos sustentáveis, e não apenas um pico temporário impulsionado por alguns grandes contratos.

O que as encomendas de defesa significam, na prática, para a Fincantieri

Quando um construtor naval anuncia milhares de milhões em contratos de defesa, o dinheiro não entra de um dia para o outro. Estes programas normalmente estendem-se por anos, com pagamentos ligados a marcos como conclusão do projeto, assentamento da quilha, testes no mar e entrega final.

Para a Fincantieri, a vaga esperada de 5 mil milhões de euros em encomendas pode traduzir-se numa linha de trabalho que se prolonga bem pela década de 2030. Isso dá estabilidade, mas também prende a empresa a compromissos de longo prazo em que derrapagens de custos podem prejudicar as margens.

Os navios militares também exigem cumprimento rigoroso de regras de segurança, controlos de exportação e normas técnicas. Qualquer atraso ligado a regulação ou a decisões políticas pode alterar calendários e fluxos de caixa.

Termos-chave que vale a pena clarificar

Vários conceitos financeiros e industriais moldam a leitura deste plano:

  • EBITDA: Resultados antes de juros, impostos, depreciações e amortizações. É uma medida comum de desempenho operacional, sobretudo em setores intensivos em capital.
  • Backlog (carteira de encomendas): Valor total de contratos já assinados mas ainda não executados. Na construção naval, pode cobrir muitos anos de trabalho.
  • Rácio dívida líquida/EBITDA: Indicador de alavancagem que mostra quantos anos do EBITDA atual seriam necessários para pagar a dívida líquida. Quanto mais baixo, em geral, mais seguro.

Riscos e cenários para a próxima década

O plano assume uma procura forte e sustentada tanto para navios de cruzeiro como para navios de defesa. Uma quebra prolongada no turismo, uma mudança de prioridades em defesa ou orçamentos públicos mais apertados podem afetar esta trajetória.

Existem também riscos industriais. Duplicar a capacidade militar vai testar a capacidade da Fincantieri para encontrar trabalhadores qualificados, manter a qualidade e gerir cadeias de abastecimento complexas. Qualquer estrangulamento em componentes-chave, como sistemas de propulsão ou eletrónica de combate, pode ter efeitos em cascata nos programas.

Por outro lado, se as tensões geopolíticas se mantiverem elevadas e os Estados europeus continuarem a aumentar a despesa em defesa, a Fincantieri pode encontrar-se numa posição favorável. Com um backlog grande, margens em melhoria e menor alavancagem, a empresa teria espaço para investir em novas tecnologias, como embarcações não tripuladas, estaleiros digitais e sistemas de propulsão mais “verdes”.

Para investidores e governos, os próximos anos mostrarão se o plano “F4” é um roteiro realista ou uma aposta otimista num mercado de defesa cada vez mais concorrido. Os 5 mil milhões de euros em encomendas de defesa no curto prazo serão o primeiro teste real dessa narrativa.

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