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A psicologia mostra que quem cresceu nas décadas de 60 e 70 desenvolveu sete forças psicológicas hoje vistas como traumas, não resiliência.

Idoso sentado à mesa, olhando uma foto antiga com atenção, ao lado de um rádio, caderno, e copo com chá.

A mulher à minha frente tem 63 anos, cabelo prateado apanhado num coque solto, mãos cruzadas como se ainda estivesse à espera de permissão para falar. Ri-se quando descreve a infância: “Bebíamos água da mangueira, ficávamos na rua até anoitecer, ninguém sabia onde estávamos.” A gargalhada é leve, mas os ombros não.

Fala de tomar conta dos irmãos mais novos aos oito anos, de ir sozinha para a escola aos seis, de esconder as notas para o pai não explodir. Não chama trauma a nada disso. Chama-lhe “era assim que era”.

E, no entanto, quando começa terapia aos 60, a psicóloga dá a essas experiências um nome diferente.

É aí que a história fica desconfortável.

A geração que achava que dureza era vida normal

Se cresceste nos anos 60 ou 70, provavelmente cresceste com um regulamento silencioso: não te queixes, não chores e, sobretudo, não respondas. Os pais trabalhavam muitas horas, os divórcios dispararam, e as crianças aprenderam cedo que as emoções eram um luxo ou um problema.

Por fora, isto produziu uma geração dura e competente. Pessoas capazes de manter um emprego durante décadas, de “aguentar firme” na doença, de engolir a dor e ainda assim aparecer na segunda-feira de manhã. Isso parecia força.

A psicologia hoje diz: também era sobrevivência.

Imagina um rapaz de dez anos em 1974. O pai chega a casa bêbedo, bate com a porta, o volume da televisão sobe, e toda a gente “lê a sala” num instante. O rapaz pega na irmã mais nova: “Vamos brincar lá fora”, diz ele, com uma voz demasiado alegre. Ele não está a brincar. Está a observar caras, a medir o tom, a calcular perigo em milissegundos.

Trinta anos depois, esse rapaz é um gestor elogiado por ser “excecionalmente bom com pessoas”. Antecipava conflitos antes de acontecerem. Percebe quando alguém está em baixo mesmo que diga: “Estou bem.” Os colegas chamam-lhe inteligência emocional. O terapeuta chama-lhe hipervigilância aprendida na infância.

O mesmo comportamento. Uma origem completamente diferente.

Os psicólogos descrevem sete “forças” comuns em pessoas criadas nessas décadas: independência extrema, necessidade de agradar, adaptabilidade excessiva, entorpecimento emocional, alerta constante, responsabilidade excessiva e produtividade implacável.

Todas trouxeram vantagens reais num mundo duro. Ajudaram crianças a sobreviver em casas com pouca segurança emocional, escolas que puniam a vulnerabilidade e culturas que veneravam o estoicismo.

No entanto, estas forças muitas vezes formaram-se à volta de feridas não ditas. O que parece resiliência à superfície pode ser, por baixo, um mecanismo de coping altamente polido.

As sete “forças” que eram, na verdade, estratégias de sobrevivência

Comecemos pela independência radical. Muitas crianças dos anos 60 e 70 eram “crianças de chave ao pescoço”, a chegar a casa e a encontrá-la vazia, a aquecer o próprio jantar, a tomar conta dos irmãos. Aprenderam a não precisar de ninguém porque ninguém estava, de forma fiável, disponível.

Mais tarde, essa independência virou uma força numa entrevista de emprego: “Consigo tratar das coisas sozinho.” No papel, continua a soar impressionante.

Mas, por dentro, pode significar: apoiar-me nos outros parece perigoso. Pedir ajuda provoca vergonha. Deixar alguém cuidar de mim é quase fisicamente desconfortável, como vestir uma camisa que não assenta.

Depois há a arte refinada de agradar aos outros. Na altura, muitas crianças descobriram que ser “boa”, calada e prestável era o papel mais seguro numa casa instável. Liams os humores dos pais como relatórios meteorológicos. Uma sobrancelha levantada significava arruma o quarto. Um suspiro pesado significava desaparece.

Avançando no tempo: isto transforma-se no colega que nunca diz que não, no parceiro que suaviza sempre os conflitos, no amigo que se lembra de todos os aniversários mas nunca fala da própria dor. Toda a gente elogia a sua bondade. Poucos veem o medo por baixo.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem pagar um preço algures.

Uma terceira força: adaptabilidade excessiva. As crianças dessa era adaptaram-se a mudanças por causa do trabalho, a novos padrastos/madrastas, a trocas de escola, a professores rígidos, a mudanças súbitas de regras em casa. Tornaram-se camaleões, ajustando o comportamento a cada divisão.

A psicologia chama a isto resposta de apaziguamento (fawn response): em vez de lutar ou fugir, tu misturas-te, agradas, ajustas-te. Em adultos, estas pessoas encaixam em qualquer equipa, qualquer grupo social. Orgulham-se de ser “descomplicadas”.

Mas quando lhes perguntam o que realmente querem, muitas bloqueiam. O músculo que sentia as próprias necessidades atrofiou há décadas. A adaptabilidade virou autoapagamento.

Como honrar as tuas competências de sobrevivência sem ficares preso a elas

Um método suave que muitos terapeutas usam com esta geração é separar a “competência” da “história”. Não deitas fora a tua independência, por exemplo. Ficas com ela, mas atualizas a descrição da função.

Podes literalmente escrever duas colunas: numa, a força (“Sou extremamente autónomo”). Na outra, o custo (“Sinto-me sozinho, não confio em ninguém para me apoiar”). Esse exercício simples pode ser chocante. E também abre uma porta.

A partir daí, podes fazer uma pergunta nova: onde é que esta força ainda me serve, e onde é que me está, silenciosamente, a prejudicar?

Uma armadilha comum é ir diretamente para a autoculpa. Pessoas criadas nos anos 60 e 70 dizem frequentemente: “Outros tiveram pior”, ou “Os meus pais fizeram o melhor que podiam”, e depois fecham a conversa. Ambas podem ser verdade, e ainda assim o teu sistema nervoso registou o que registou.

O objetivo não é levar os teus pais a tribunal. É finalmente colocar o teu eu mais novo em ata. Dar nome ao trauma não apaga a resiliência. Dá contexto.

Se isto trouxer raiva ou tristeza, não estás a “exagerar”. Estás a reagir a tempo - só com algumas décadas de atraso.

“O trauma não é apenas o que te aconteceu. É também o que teve de se desligar dentro de ti para conseguires continuar”, diz uma terapeuta familiar que trabalha sobretudo com pessoas nascidas entre 1955 e 1980.

  • Independência extrema – Experimenta pedidos pequenos: uma boleia, um favor, alguém que te ouça.
  • Necessidade de agradar – Começa por desiludir alguém de forma mínima e tolera o desconforto.
  • Responsabilidade excessiva – Repara quando dizes “Eu trato disso” automaticamente e faz uma pausa de três respirações.
  • Entorpecimento emocional – Pratica nomear apenas uma emoção por dia, mesmo que seja vaga ou desajeitada.
  • Alerta constante – Agenda descanso verdadeiro como uma consulta, não como uma recompensa.
  • Produtividade implacável – Tenta fazer uma coisa “só porque sim”, sem objetivo associado.
  • Adaptabilidade excessiva – Uma vez por semana, responde com honestidade: “O que é que eu quero mesmo agora?”

Re-ler o teu passado com uma lente psicológica mais gentil

Muitas pessoas criadas nos anos 60 e 70 descobrem isto tarde. Muitas vezes após burnout, um susto de saúde, um divórcio, ou quando os próprios filhos perguntam: “Porque é que estás sempre em tensão?” Essa pergunta dói. E também pode ser o início de um novo capítulo.

Reinterpretar essas forças aprendidas como respostas ao trauma não anula o orgulho que possas sentir por teres sobrevivido. Tu sobreviveste. Construíste carreiras, famílias, vidas a partir de materiais muito frágeis.

O que muda é o tom da tua voz interior. Menos: “Eu sou simplesmente duro.” Mais: “Claro que sou assim. Foi assim que aprendi a manter-me seguro.”

Para alguns, o próximo passo é terapia. Para outros, é leitura à noite, escrita de diário, ou conversas calmas com irmãos que se lembram das mesmas portas a bater. Algumas perguntas simples podem deslocar o chão debaixo dos teus pés.

O que é que eu tive de ser, para ser aceite na minha família?
O que é que nunca foi seguro mostrar?

E talvez a mais ousada de todas: que força é que eu finalmente posso pousar, pelo menos um pouco?

Isto não é reescrever a história como tragédia. Muitas crianças dos anos 60 e 70 também tiveram liberdade, aventura, jogos de rua, música e um sentido de possibilidade que a era digital raramente oferece. As duas coisas podem ser verdade: o riso e o medo, a resiliência e as feridas.

A verdadeira mudança é dar a ti próprio permissão para deixares de chamar a tudo isto “não foi nada”. Parte do que viveste moldou-te de forma bonita. Parte abriu buracos que ainda doem quando a sala fica em silêncio.

Podes manter as partes da tua força que te parecem verdadeiras e reformar, com delicadeza, as partes que eram sobretudo armadura. A pergunta que fica no ar agora é simples e inquietante: se já não estivesses ocupado a sobreviver, quem é que poderias ser?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
As forças podem ter base no trauma Independência, necessidade de agradar e adaptabilidade excessiva começaram muitas vezes como estratégias de sobrevivência Ajuda a reformular hábitos sem vergonha e a ver padrões escondidos
O contexto do passado importa Normas parentais dos anos 60–70 recompensavam dureza e silêncio sobre emoções Oferece contexto geracional que reduz autoculpa e confusão
A mudança começa com consciência Práticas simples como nomear custos, pedir pequenos favores e notar respostas em piloto automático Dá primeiros passos concretos para transformar coping antigo em resiliência mais saudável

FAQ:

  • Como sei se as minhas “forças” vêm de trauma? Podes perguntar a ti próprio: este comportamento começou como uma forma de evitar conflito, rejeição ou perigo quando eu era criança? Se a resposta for sim e o hábito parecer rígido ou automático, há uma boa probabilidade de ter começado como estratégia de sobrevivência, e não como escolha livre.
  • Posso continuar orgulhoso da minha resiliência se ela veio de trauma? Sim. Reconhecer o trauma não apaga o teu esforço nem o teu carácter. Apenas reconhece as condições a que estavas a responder, para que possas manter a resiliência e suavizar o auto-sacrifício.
  • A minha infância “não foi assim tão má”. Isto ainda se aplica a mim? O trauma não é só eventos dramáticos. Negligência emocional, crítica crónica ou nunca seres consolado também moldam o sistema nervoso. Não precisas de uma história dramática para que as tuas reações sejam válidas.
  • É tarde demais para mudar se estou nos 50 ou 60? Não. O cérebro mantém plasticidade ao longo da vida. Muitas pessoas nascidas nos anos 60 e 70 começam este trabalho mais tarde e ainda assim vivem mudanças profundas nas relações, nos limites e na auto-bondade.
  • Por onde começo se a terapia me parece esmagadora ou cara? Podes começar com passos pequenos: escrever num diário sobre as regras da infância, ler sobre respostas ao trauma, falar com cuidado com amigos de confiança da tua geração, ou experimentar um limite novo e minúsculo no dia a dia.

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