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Força Espacial vai pedir propostas para protótipos de interceptores de mísseis espaciais em curso médio.

Pessoa analisando modelo de foguete em laboratório, com globo terrestre e computador ao fundo.

A Força Espacial dos EUA está prestes a pedir às empresas de defesa novas ideias sobre como abater mísseis a partir da órbita, sinalizando uma nova fase na corrida para construir armas capazes de intercetar ameaças enquanto estas viajam pelo espaço, em vez de o fazerem através da atmosfera.

Força Espacial marca dezembro para novo impulso aos intercetores

O Space Systems Command (SSC), a organização da Força Espacial que compra e gere equipamento, anunciou planos para emitir um pedido formal à indústria a 7 de dezembro. O aviso refere-se a protótipos de intercetores baseados no espaço de energia cinética, frequentemente abreviados como SBIs, concebidos para atacar mísseis na sua fase de meio curso (midcourse).

O meio curso é a parte do voo de um míssil balístico intercontinental (ICBM) em que este já saiu da atmosfera e está a viajar pelo espaço, tipicamente num arco previsível. Visar mísseis nesta fase é tecnicamente exigente, mas oferece mais tempo para os seguir e tentar a interceção do que na fase de lançamento, ou “impulso” (boost).

A Força Espacial quer intercetores hit-to-kill estacionados em órbita, e não lasers ou outras armas de energia dirigida, para atingir mísseis no espaço.

O próximo pedido à indústria surge após um programa de protótipos lançado em setembro, centrado em SBIs para a fase de impulso. Esse esforço anterior analisou a possibilidade de atingir mísseis pouco depois do lançamento, quando ainda sobem através da atmosfera e brilham intensamente.

Contratos de protótipos e competições ao estilo de prémios

De acordo com o aviso de pré-solicitação, o SSC espera utilizar “múltiplos Other Transaction Agreements de preço fixo” para o novo esforço de meio curso. Na prática, isto significa que o Pentágono deverá atribuir vários contratos mais pequenos e flexíveis, em vez de uma única adjudicação gigantesca.

Esses acordos são uma ferramenta popular em programas de inovação de defesa dos EUA. Permitem experimentação mais rápida, menos obstáculos de contratação tradicionais e podem atrair fornecedores não tradicionais, como pequenas start-ups espaciais ou empresas tecnológicas que normalmente não trabalham em sistemas de armas.

O aviso também indica que a Força Espacial “pode incorporar Competições com Prémios”. Isso sugere que as empresas poderão competir por prémios monetários com base em marcos de desempenho, demonstrações ou avanços de design, em vez de apenas propostas em papel.

A indústria vai competir por contratos de protótipos de evolução rápida, com elementos de prémio provavelmente usados para recompensar os designs e demonstrações mais promissores.

As empresas interessadas têm até 4 de dezembro para pedir acesso aos documentos detalhados de concurso. Apenas as empresas que passem nas verificações do governo dos EUA receberão o pacote técnico completo. O SSC “antecipa” adjudicar contratos em fevereiro de 2026, deixando mais de um ano para desenvolvimento de ideias, formação de parcerias e trabalho preliminar de conceção.

Porque é que os intercetores de meio curso no espaço importam

A nível estratégico, a Força Espacial está a lançar as bases para uma defesa em camadas, na qual diferentes sistemas visam um míssil hostil em diferentes pontos do seu voo. Intercetores de meio curso baseados no espaço ficariam acima dos sistemas terrestres existentes, acrescentando mais uma oportunidade de destruir uma ogiva em aproximação.

Em princípio, uma constelação desses intercetores poderia tentar abater mísseis balísticos intercontinentais que escapem às defesas da fase de impulso, ou que sejam lançados a partir de locais que tornam a interceção precoce difícil.

Vantagem da física: distância de ataque mais curta, ambiente mais “limpo”

Atingir um míssil no espaço tem algumas vantagens físicas claras. No vácuo para lá da atmosfera, não há resistência do ar, turbulência nem meteorologia. Isso facilita modelar trajetórias e seguir objetos com precisão.

Intercetores de meio curso podem operar a distâncias relativas mais curtas do que sistemas da fase de impulso, que têm de cobrir grandes áreas em prazos muito curtos enquanto o míssil ainda está a acelerar. No espaço, o míssil segue um caminho mais previsível, e intercetores colocados nas órbitas certas podem manobrar para o encontrar.

  • Sem resistência atmosférica, nuvens ou meteorologia a distorcer sensores.
  • Mais tempo para seguir o míssil quando este entra num arco previsível.
  • Potencial para múltiplas tentativas de interceção a partir de diferentes satélites.

Estes fatores favorecem designs cinéticos do tipo “hit-to-kill”, em que o intercetor colide fisicamente com o alvo, transferindo enorme energia sem necessidade de uma ogiva explosiva.

O problema dos engodos e outras limitações

A fase de meio curso também apresenta os seus próprios e sérios problemas. Quando o propulsor de um ICBM se esgota e a carga útil segue em voo balístico no espaço, desaparece a assinatura infravermelha brilhante do jato do foguetão. Nesse momento, um adversário pode libertar engodos e contramedidas.

Engodos libertados no espaço podem parecer muito semelhantes a uma ogiva real, tornando difícil identificar o alvo verdadeiro no meio de uma nuvem de falsos.

Estes engodos podem ser balões leves ou objetos cuidadosamente moldados para imitar as características de radar e térmicas da ogiva real. Derivam ao longo do mesmo caminho, a velocidades semelhantes, transformando o problema de interceção num problema de discriminação: que objeto deve o intercetor atingir?

Os planeadores modernos de defesa antimíssil sabem isto e concebem ogivas para usar essas táticas. Isso aumenta o custo e a complexidade de qualquer sistema de meio curso e é uma das razões pelas quais críticos questionam a viabilidade de uma defesa antimíssil espacial plenamente fiável.

Hit-to-kill, não lasers em órbita

O aviso da Força Espacial deixa claro que o apelo atual se centra em intercetores cinéticos, e não em sistemas de energia dirigida como lasers ou micro-ondas de alta potência. Armas de energia dirigida no espaço são frequentemente discutidas em estudos conceptuais, mas as restrições do mundo real continuam severas: geração de energia, arrefecimento, focagem do feixe e preocupações legais e políticas.

Em contraste, os intercetores cinéticos baseiam-se em décadas de trabalho em defesa antimíssil. Programas como o sistema Ground-based Midcourse Defense e o mais recente Next Generation Interceptor dependem ambos de tecnologia hit-to-kill. As empresas que concorrerem aos novos SBIs podem aproveitar esse legado, adaptando os designs para plataformas orbitais.

Fase do voo do míssil Característica principal Interesse da Força Espacial
Fase de impulso (boost) Motores do míssil a disparar, brilhante e quente, ainda na atmosfera ou perto dela Programa existente de protótipos de SBI lançado em setembro
Fase de meio curso (midcourse) Em voo balístico no espaço, ogiva e engodos a separar-se Novos protótipos cinéticos de intercetor baseado no espaço agora a ser solicitados
Fase terminal Reentrada na atmosfera em direção à área-alvo Tratada sobretudo por sistemas de defesa terrestres e navais

Como isto se encaixa no panorama mais amplo da defesa antimíssil dos EUA

O impulso aos SBIs de meio curso surge numa altura em que Washington reavalia a sua postura de defesa antimíssil à luz dos avanços chineses e russos, incluindo veículos planadores hipersónicos e designs de ICBM mais sofisticados. Embora o aviso atual não nomeie adversários potenciais, responsáveis dos EUA citam rotineiramente essas duas potências, juntamente com a Coreia do Norte, ao discutir ameaças de mísseis estratégicos.

Ativos espaciais já desempenham um papel central no alerta e seguimento de mísseis, através de satélites que detetam lançamentos e acompanham trajetórias. O novo esforço dá um passo além: não apenas observar mísseis a partir do espaço, mas tentar abatê-los lá.

Qualquer futura constelação de intercetores teria de trabalhar em estreita coordenação com esses satélites de seguimento, radares terrestres e sistemas de comando. Comunicação contínua e temporização extremamente precisa seriam críticas, porque as janelas de interceção continuam a ser medidas em minutos, mesmo em meio curso.

Conceitos e cenários-chave

Para leitores menos familiarizados com o jargão, três termos ajudam a enquadrar o debate:

  • Intercetor baseado no espaço (SBI): uma arma instalada num satélite ou plataforma semelhante em órbita, capaz de manobrar e tentar atingir um míssil ou uma ogiva no espaço.
  • Destruição por energia cinética: destruição de um alvo apenas pela força do impacto a alta velocidade, em vez de uma explosão ou de um feixe laser.
  • Fase de meio curso (midcourse): o segmento mais longo do voo de um ICBM, que ocorre após o propulsor se esgotar e antes de a ogiva iniciar a reentrada.

Analistas descrevem frequentemente cenários em que um Estado hostil lança uma pequena salva de ICBMs. Satélites de alerta precoce detetam os clarões dos motores. Radares terrestres e satélites de seguimento refinam então a trajetória. Numa arquitetura futura, SBIs em órbita poderiam receber uma ordem de disparo, manobrar para uma trajetória de colisão e tentar uma ou mais interceções em meio curso antes de quaisquer ogivas sobreviventes enfrentarem defesas terminais mais perto do alvo.

Esses cenários também evidenciam riscos. Qualquer intercetor que fragmente um míssil no espaço cria detritos. Se as interceções ocorrerem em ou perto de bandas orbitais muito utilizadas, poderão existir perigos de longo prazo para satélites civis e militares. Os projetistas terão de pensar onde e como as interceções são tentadas, e não apenas se são bem-sucedidas.

O controlo de armamentos e a escalada são preocupações adicionais. Alguns países já veem a defesa antimíssil - sobretudo os elementos baseados no espaço - como desestabilizadora, temendo que possa incentivar estratégias mais arriscadas ou estimular reforços ofensivos para saturar as defesas. A decisão dos EUA de prototipar SBIs de meio curso alimentará esses debates, mesmo nesta fase inicial em que os contratos ainda estão no papel.

Por agora, o pedido previsto para 7 de dezembro é apenas sobre protótipos e conceitos. Ainda assim, sinaliza que a Força Espacial está a avançar de forma constante da teoria para a defesa antimíssil operacional baseada no espaço, com a indústria preparada para desempenhar um papel central no que poderá tornar-se uma das tecnologias militares mais controversas da década.

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