A chegada dos primeiros caças furtivos F‑35A belgas à base aérea de Florennes encerra a longa era dos F‑16 e fixa Bruxelas no ecossistema de aeronaves de combate liderado pelos EUA por décadas. Por detrás da foto oficial, França lambe as feridas após uma tentativa falhada de vender o Rafale, recheada de promessas de emprego, compensações industriais e pressão política.
A grande aposta da Bélgica no caça americano
Em 2018, o governo belga tomou uma decisão que ainda dói em Paris: encomendou 34 F‑35A ao fabricante norte‑americano Lockheed Martin, num acordo então avaliado em cerca de 4,3 mil milhões de euros.
Em 2025, Bruxelas foi mais longe e sinalizou a intenção de comprar mais 11 aeronaves, elevando o total para 45. Esse passo é apresentado nos discursos oficiais como alinhamento com os padrões da NATO, e não apenas como um reforço da frota.
A Bélgica está a ancorar‑se no que oficiais superiores já chamam uma “muralha europeia de F‑35”, que se estende dos Países Baixos até à Escandinávia.
A França promoveu o Rafale com força. Responsáveis franceses prometeram trabalho industrial partilhado, linhas de montagem, empregos qualificados e uma parceria política mais profunda. Ainda assim, os decisores belgas acabaram por colocar a furtividade, a interoperabilidade e o apoio de longo prazo dos EUA à frente da coesão industrial europeia.
Rafale e Eurofighter deixados na pista
No concurso, o Rafale F4 e o Eurofighter Typhoon chegaram a ser pré‑selecionados, mas acabaram sem qualquer encomenda. Os avaliadores belgas apontaram a baixa observabilidade do F‑35, a fusão de sensores e o seu papel central em campanhas aéreas lideradas pelos EUA.
A comparação, de forma simplificada, ficou assim:
| Programa | Origem | Encomenda belga | Valor estimado | Entregas previstas |
|---|---|---|---|---|
| F‑35A | Estados Unidos | 45 aeronaves | Cerca de 5,6 mil milhões € | 2025–2030 |
| Rafale F4 | França | 0 | – | – |
| Eurofighter Typhoon | UE multinacional | 0 | – | – |
Para Paris, a decisão sabe a déjà vu. O Rafale conseguiu entrar na Grécia, Croácia, Índia e no Golfo, mas continua a perder concursos de grande visibilidade no próprio continente, alimentando a frustração francesa com a dependência europeia de Washington em matéria de defesa.
Toque simbólico em Florennes
A chegada a Florennes é mais do que um marco logístico. Líderes da Força Aérea belga saudaram o momento como a modernização mais profunda da sua frota desde a Guerra Fria.
O F‑35A pode atingir cerca de 1.930 km/h, transportar munições avançadas de precisão e aproximar‑se de espaço aéreo defendido com uma assinatura radar muito inferior à de caças de gerações anteriores. Tão importante quanto isso, foi concebido de raiz para comunicar digitalmente com meios dos EUA e aliados, de AWACS a drones e sistemas de defesa antiaérea.
Para os planeadores da NATO, os F‑35 belgas não são apenas ativos nacionais; são nós adicionais numa rede digital de ataque partilhada.
Este aspeto de rede é precisamente o que os defensores da compra sublinham. Com vários países vizinhos já a operar ou a preparar‑se para operar o F‑35, a Bélgica quer integrar‑se diretamente em missões conjuntas sem necessidade de integrações à medida ou soluções de recurso.
Bugs, atrasos e uma aceitação nervosa
Ainda assim, o caminho para este futuro de “quinta geração” tem sido acidentado. Em 2023, as autoridades belgas recusaram temporariamente aceitar as aeronaves iniciais devido a problemas técnicos e à imaturidade do software. Em todo o programa global, auditorias e relatórios militares listaram centenas de deficiências em aberto, desde falhas menores até preocupações mais sérias que afetam a disponibilidade.
A muito apregoada atualização de software Block 4, supostamente destinada a desbloquear novas armas e ferramentas melhoradas de guerra eletrónica, tem sofrido atrasos repetidos e ultrapassou estimativas de custo. Operadores como o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA e a Coreia do Sul assinalaram publicamente frustrações com o peso da manutenção e as taxas de prontidão.
A Bélgica manteve o plano apesar disso. Os responsáveis argumentam que aderir a uma comunidade enorme de utilizadores lhes dá influência e garante atualizações constantes. Na prática, também estão presos ao calendário: cancelar significaria operar F‑16 envelhecidos por muito mais tempo, enquanto projetos europeus alternativos de próxima geração ainda estão a anos de distância.
O hub de dados voador
Onde o F‑35 se destaca é menos na velocidade bruta e mais no “cérebro”. O avião funde dados do radar, sensores infravermelhos, sistemas de apoio eletrónico e fontes externas numa única imagem tática no cockpit.
Essa imagem pode ser partilhada quase em tempo real com outras aeronaves e unidades no terreno. Em alguns cenários, um F‑35 pode localizar e identificar um alvo e depois transmitir coordenadas precisas a outra plataforma - como uma bateria de mísseis ou outra aeronave - para executar o ataque.
Para os comandantes, o F‑35 é tanto um nó sensor itinerante quanto um caça clássico, tornando o combate um exercício de gestão de dados e não apenas de manobras.
Este papel de “servidor voador” é exatamente o que preocupa os defensores da autonomia estratégica europeia: grande parte desses dados sensíveis passa por sistemas e arquiteturas de software controlados pelos EUA.
O preço do poder americano
Os contribuintes belgas não estão apenas a comprar aviões; estão a entrar num ecossistema dispendioso. Um F‑35A totalmente equipado é frequentemente avaliado acima de 100 milhões de euros por unidade quando se contam apoio e extras. Os custos por hora de voo são estimados em cerca de 30.000 euros, aproximadamente três vezes os de um F‑16 belga.
A isto soma‑se a dependência de infraestruturas de manutenção sediadas nos EUA. O sistema de apoio original ALIS, agora a ser substituído pelo seu sucessor ODIN, encaminha dados de desempenho e informação logística através de servidores geridos sob supervisão americana.
Isso significa: sem atualizações “faça‑você‑mesmo”, sem ajustes nacionais de software e regras apertadas sobre o que pode ser integrado sem aprovação dos EUA. Para um país pequeno como a Bélgica, isto pode parecer uma troca razoável: acesso a tecnologia de ponta em troca de alguma soberania.
A França, pelo contrário, vê a questão de outra forma. O Rafale e programas futuros como o Sistema de Combate Aéreo do Futuro (FCAS) franco‑germano‑espanhol são promovidos precisamente como instrumentos para manter o controlo de tecnologias e dados críticos em solo europeu.
Coesão na NATO, fratura europeia
Do ponto de vista da NATO, a decisão belga encaixa num padrão mais amplo. Países Baixos, Itália, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Polónia e outros também escolheram o F‑35, criando um anel de caças furtivos ao longo da periferia russa e das abordagens do Atlântico Norte.
Isto dá à aliança uma estandardização mais rápida de treino, armamento e táticas. Centros logísticos partilhados, simuladores comuns e exercícios conjuntos tornam o planeamento mais simples e reduzem fricções numa emergência.
- Operações conjuntas mais fluídas sob estruturas de comando lideradas pelos EUA
- Menor risco político para Estados menores que dependem do “guarda‑chuva” de segurança de Washington
- Menor margem para projetos industriais exclusivamente europeus garantirem encomendas em casa
Por outro lado, cada venda de F‑35 corrói o argumento económico para o FCAS e para o programa rival britânico Tempest. Quanto mais forças aéreas europeias se comprometem com o caça americano até à década de 2070, mais difícil se torna justificar um investimento enorme num caça europeu separado de sexta geração.
As promessas XXL de França, ignoradas
A oferta francesa à Bélgica não foi uma simples venda de aeronaves. Veio acompanhada de compromissos de trabalho de montagem, centros de manutenção e integração em operações lideradas por França. Paris sugeriu cooperação para além da aviação, incluindo espaço, mísseis e ligações de inteligência.
Responsáveis belgas reconheceram o peso da proposta. Ainda assim, o cálculo político inclinou‑se para os EUA. Washington traz uma garantia NATO mais abrangente e o F‑35 oferece integração imediata no mesmo ecossistema que muitos vizinhos já preferem.
França não perdeu apenas um contrato; perdeu a oportunidade de ancorar uma parte central da sua indústria de defesa dentro de um parceiro próximo da UE.
Dentro do setor da defesa francês, o revés belga é lido como mais um aviso de que nenhuma quantidade de promessas industriais “XXL” consegue competir com a combinação de garantias de segurança dos EUA e um programa‑bandeira como o F‑35, fortemente subsidiado e comercializado globalmente.
O que isto significa para os belgas comuns
Para quem vive longe das bases aéreas, as implicações podem parecer abstratas. No entanto, a decisão afeta orçamentos, empregos e política externa durante décadas.
No plano financeiro, custos operacionais mais elevados significam mais despesa de defesa “presa” a uma capacidade. Isso pode limitar fundos para outras prioridades, como drones, ciberdefesa ou forças terrestres. Ao mesmo tempo, empresas belgas deverão ganhar trabalho de subcontratação em componentes, software e apoio do F‑35.
Na política externa, a Bélgica colocou‑se firmemente no campo dos EUA em qualquer debate sobre “autonomia estratégica” europeia. Governos futuros terão mais dificuldade em apoiar iniciativas que diverjam fortemente da linha de Washington, sobretudo se a Bélgica quiser acesso a futuras atualizações e munições para a sua frota.
Termos‑chave e o que realmente significam
A discussão sobre o F‑35 está saturada de jargão. Alguns termos são importantes para perceber no que a Bélgica se está a envolver:
- Caça de quinta geração: Normalmente refere‑se a aeronaves com baixa assinatura radar, sensores avançados e fusão de dados e conectividade integradas. O rótulo é tanto marketing quanto engenharia, mas marca um salto face a caças clássicos de quarta geração como o F‑16.
- Software Block 4: O próximo grande pacote de software do F‑35, concebido para adicionar armas, melhorar a aquisição de alvos e reforçar ferramentas de guerra eletrónica. Atrasos aqui significam que algumas capacidades prometidas não estarão disponíveis durante anos.
- Autonomia estratégica: Objetivo político, impulsionado sobretudo por França, de a Europa poder agir militarmente sem depender totalmente de meios, tecnologia ou aprovação política dos EUA.
Cenários que podem pôr à prova a escolha belga
Vários cenários realistas mostram como a decisão do F‑35 pode desenrolar‑se:
Numa crise no Báltico ou no Mar Negro, F‑35 belgas poderiam ser destacados rapidamente para reforçar aliados. A sua furtividade e alcance sensorial seriam valiosos para suprimir defesas antiaéreas inimigas e coordenar ataques. Isto reforçaria o perfil da Bélgica dentro da NATO e justificaria politicamente o investimento.
Num caso mais controverso - por exemplo, uma operação liderada pelos EUA fora da área central da NATO que alguns Estados da UE contestem - a participação belga com F‑35 seria politicamente delicada. A forte dependência do avião em software e logística dos EUA pode limitar a liberdade de Bruxelas para se manter neutra, ao mesmo tempo que mantém a frota plenamente apoiada.
Existe ainda um ângulo industrial de longo prazo. Se o FCAS ou o Tempest um dia atingirem estatuto operacional, uma Bélgica comprometida com o F‑35 durante décadas poderá ficar de fora das cadeias de fornecimento e do trabalho de conceção desses programas, reduzindo o seu papel em futuros projetos europeus.
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