Estás sentado no sofá depois de um dia longo, a olhar para a televisão. O programa é dramático, alguém está a chorar no ecrã, e dás por ti a pensar, quase de forma clínica: “Uau, estão mesmo perturbados.”
Depois reparas nisso. Na verdade, não estás a sentir grande coisa. Apenas uma pressão vaga atrás dos olhos, um cansaço distante, como se a tua vida estivesse a acontecer a alguns centímetros do teu corpo.
Dizes a um amigo: “Não sei, estou só… bem?”
Ele pergunta-te o que estás a sentir. Ficas paralisado. As palavras não vêm.
Isto não é preguiça nem frieza.
Algo muito fundo em ti pode estar a tentar proteger-te das tuas próprias emoções.
A armadura silenciosa: quando a tua mente fica “anestesiada” de propósito
Os psicólogos têm um nome para esta estranha distância emocional: desapego emocional, muitas vezes associado à dissociação.
Nem sempre é tão dramático como nos filmes. Às vezes é apenas uma redução do volume das tuas emoções. Continuas a ir trabalhar, respondes a e-mails, sorris quando é preciso.
Por dentro, porém, tudo parece ligeiramente fora do lugar. Como se as tuas reações estivessem atrasadas, ou emprestadas de outra pessoa.
Sabes que “deverias” estar zangado, triste ou entusiasmado, mas isso chega como um pensamento, não como uma sensação no corpo.
Essa ausência de emoção pode assustar.
Mas, por baixo dela, existe algo muito antigo em ti que está simplesmente a tentar manter-te em segurança.
Imagina isto: um adolescente cresce numa casa onde chorar dá direito a gozo. Onde a raiva traz castigo. Onde a alegria é chamada de “demasiado”.
Aos dezasseis, aprendeu uma regra silenciosa: sentimentos são perigosos.
Então adapta-se. Começa a observar-se de fora, a editar as suas reações antes de elas aparecerem. Fala da própria vida como se fosse um relatório: “Foi normal, depois aconteceu isto, depois aquilo.”
Anos mais tarde, aos 32, senta-se em terapia e diz: “Eu literalmente não sei o que sinto.”
Isto não é raro. Alguns estudos sugerem que uma parte considerável dos adultos se identifica com entorpecimento emocional ou desconexão, especialmente após stress crónico ou trauma.
Nem sempre parece sofrimento. Às vezes parece ser “a pessoa forte” que nunca quebra.
A psicologia vê isto como um padrão protetor chamado supressão emocional ou desapego.
Quando o teu sistema nervoso fica sobrecarregado durante demasiado tempo, procura atalhos para sobreviver.
Um desses atalhos é desligar o que dói. O medo fica abafado. A tristeza é empurrada para fora da consciência. Até a alegria é cortada, porque se sentires demasiado, também podes magoar-te demasiado.
Com o tempo, o teu cérebro fica muito bom nisto.
O problema é que o filtro não apanha só as coisas más.
Esbate tudo. O teu “não me importa” pode, na verdade, significar “importa-me tanto que o meu sistema não sabe lidar com isto”.
Aumentar, com suavidade, o volume das tuas próprias emoções
Se te reconheces nisto, começa por algo pequeno e quase embaraçosamente simples.
Uma vez por dia, pára e pergunta: “Agora, o que é que está a acontecer no meu corpo?” Não “O que é que eu devia sentir?” Apenas: quente, apertado, pesado, inquieto.
Dá nome a uma sensação corporal. Depois faz uma suposição tranquila: “Isto parece um pouco… frustração?” ou “Isto pode ser alívio.”
Sem pressão para acertar. O objetivo não é a precisão, é o contacto.
Podes até criar um pequeno sinal: sempre que desbloqueias o telemóvel, perguntas em silêncio: “Check-in do corpo: o que se passa aí dentro?”
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar.
Mas fazê-lo às vezes já é uma fissura na armadura.
Muitas pessoas julgam-se com dureza quando notam esta distância emocional.
Dizem coisas como: “Estou emocionalmente avariado” ou “Devo ser um mau parceiro/pai/mãe/amigo porque não sinto o suficiente.”
Essa vergonha aperta o entorpecimento. Quanto mais te empurras para “sentir corretamente”, mais o teu sistema pensa: “Perigo, expectativas, pressão”, e desliga ainda mais.
Por isso, vai devagar. Tu não és um robô com uma avaria. És um humano cuja mente, em tempos, te protegeu de forma brilhante.
Uma armadilha comum é forçar experiências emocionais grandes demasiado depressa. Inscrever-te em retiros intensos, mergulhar em memórias dolorosas sozinho, esperar por um colapso catártico.
O teu sistema de proteção ouve isso como uma sirene e tranca as portas com ainda mais força.
Contacto pequeno e consistente funciona melhor do que fogo-de-artifício emocional.
Às vezes, a desconexão emocional não é ausência de sentimento. São sentimentos guardados numa sala trancada, à espera que alguém bata à porta com suavidade em vez de a arrombar.
- Começa em miniatura: 2–3 minutos por dia a notar o teu corpo e a dar nome a uma sensação.
- Usa momentos neutros: lavar a loiça, esperar pela chaleira, estar no duche.
- Fala em voz alta: “Uma parte de mim sente-se lisa, outra parte tem medo de sentir demasiado.”
- Escreve mal de propósito: uma página desarrumada de “O que é que eu poderia estar a sentir agora?”
- Procura apoio: um amigo, um terapeuta, ou um grupo de suporte onde o entorpecimento é compreendido, não julgado.
Viver com o teu “protetor” em vez de lutar contra ele
Há aqui um paradoxo complicado.
O mesmo padrão que te desliga das emoções provavelmente já te salvou uma vez. Talvez muitas.
Por isso, em vez de declarares guerra, podes começar a relacionar-te com ele. Quase como um cão de guarda demasiado protetor que ladra a cada barulho.
Não tens de o expulsar de casa. Podes sentar-te ao lado dele e dizer: “Eu percebo porque estás aqui. Ajudaste-me quando as coisas eram difíceis. Mas agora quero tentar outra forma.”
Essa mudança - de “O que é que há de errado comigo?” para “O meu sistema tem-me protegido” - muda tudo.
Passas de quebrado para adaptativo. Da vergonha para o contexto.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O desapego emocional é protetor | Muitas vezes enraizado em sobrecarga passada, crítica ou stress crónico | Reduz a auto-culpa e substitui-a por compreensão |
| Pequenos check-ins com base no corpo | Notar sensações e nomear suavemente possíveis emoções | Oferece uma forma prática de reconexão sem te inundares |
| Mudança gentil, não heroica | Trabalhar com o “protetor” em vez de forçar grandes avanços | Torna o processo mais seguro, sustentável e menos intimidante |
FAQ:
- Pergunta 1 Como sei se estou emocionalmente entorpecido ou apenas cansado?
O cansaço passa com descanso; o entorpecimento parece um padrão mais prolongado de “não sei o que sinto” em diferentes situações, mesmo quando a vida está relativamente estável.
Pergunta 2 A desconexão emocional é uma perturbação de saúde mental?
Não por si só. Pode aparecer com ansiedade, depressão, PTSD/perturbação de stress pós-traumático, ou stress crónico, mas muitas vezes é um estilo de coping, não um diagnóstico por si só.
Pergunta 3 Este padrão protetor pode ser totalmente revertido?
Muitas pessoas recuperam uma vida emocional rica, embora o “protetor” possa ainda aparecer em períodos de stress. O objetivo é flexibilidade, não perfeição.
Pergunta 4 Devo mexer em trauma passado para corrigir isto?
Só com apoio em que confies. Ir diretamente a feridas antigas sozinho pode aprofundar o desligamento. Um trabalho lento, no momento presente, costuma ser mais seguro para começar.
Pergunta 5 E se eu não sentir nada mesmo quando tento estes exercícios?
Esse “nada” já é informação. Fica com ele, descreve a ausência, e considera procurar ajuda profissional para explorar o que o teu sistema está a proteger.
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