A Dinamarca detonou discretamente uma onda de choque geopolítica, rasgando expectativas em Washington e optando por um sistema franco-italiano de defesa aérea em detrimento de um enorme acordo norte-americano para o Patriot, avaliado em quase 8 mil milhões de euros.
Uma decisão dinamarquesa que dói em Washington
A 12 de setembro de 2025, Copenhaga confirmou que irá equipar as suas forças armadas com o sistema terra-ar SAMP/T, desenvolvido em conjunto por França e Itália. A escolha afasta de imediato uma proposta dos EUA para mísseis, radares e sistemas de comando Patriot PAC‑3 MSE, anteriormente aprovada pelo Departamento de Estado por cerca de 8,5 mil milhões de dólares (aproximadamente 7,9 mil milhões de euros).
A decisão faz muito mais do que escolher um equipamento em vez de outro. Sinaliza uma mudança deliberada por parte de um membro da NATO geralmente visto como firmemente alinhado com o pensamento de defesa dos EUA.
A Dinamarca está a afastar-se de um pacote norte-americano Patriot de 7,9 mil milhões de euros e a abraçar, em alternativa, um escudo de fabrico europeu.
O ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, enquadrou a decisão através da lente da Ucrânia, onde ataques densos com mísseis e drones se tornaram rotina. A lição retirada em Copenhaga: sistemas rápidos e flexíveis, capazes de proteger cidades e locais críticos, superam no terreno a “força balística” pura no papel.
Porque é que a Dinamarca se virou para o SAMP/T
As autoridades em Copenhaga apontam três argumentos principais a favor do SAMP/T: cobertura radar, cooperação industrial dentro da Europa e prazos de entrega mais rápidos.
O SAMP/T, um escudo europeu conjunto
O SAMP/T é produzido pela Eurosam, um consórcio que liga a fabricante de mísseis MBDA e a especialista em eletrónica Thales. No seu núcleo está o interceptor Aster 30 Block 1. Pode atingir aeronaves e mísseis de cruzeiro a cerca de 120 quilómetros e envolver certas ameaças balísticas até aproximadamente 25 quilómetros.
Várias características técnicas agradaram fortemente aos planeadores dinamarqueses:
- Radar a 360 graus graças ao sensor Arabel rotativo, que varre em todas as direções à volta da bateria.
- Controlo PIF-PAF, um sistema de propulsores laterais que permite ao míssil realizar manobras bruscas imediatamente antes do impacto.
- Capacidade multi-alvo, concebida para lidar com ataques de “saturação”, quando muitos mísseis ou drones chegam ao mesmo tempo.
- Interoperabilidade com a NATO, uma vez que o sistema já está em serviço em França e Itália e foi encomendado pela Polónia.
Do ponto de vista estritamente da defesa balística, o Patriot PAC‑3 MSE norte-americano continua a ter vantagem: pode intercetar a maior altitude e usa uma abordagem hit-to-kill, esmagando fisicamente as ogivas que se aproximam. Ainda assim, a Dinamarca parece ter priorizado a cobertura de área ampla, a resiliência contra vagas massivas e uma configuração industrial que a ancora firmemente na Europa.
O SAMP/T não supera o Patriot em todas as métricas, mas responde ao perfil de ameaça específico que a Dinamarca mais receia.
A proposta Patriot: poderosa, mas não convincente
O pacote norte-americano estava longe de ser modesto. Incluía 36 mísseis GEM‑T para defesa contra aeronaves e mísseis de cruzeiro, 20 interceptores PAC‑3 MSE para ameaças balísticas de topo, e uma rede IBCS (Integrated Battle Command System) capaz de fundir dados de múltiplos radares e lançadores.
Isto encaixaria de forma natural num “clube Patriot” em crescimento na Europa, ao lado da Polónia, Alemanha e Roménia. Em teoria, poderia criar uma malha de defesa aérea muito coesa, com elevada interoperabilidade ao longo do flanco oriental da NATO.
Mas, para a Dinamarca, essa lógica revelou-se menos convincente do que o esperado. A cobertura radar setorial do Patriot significa que cada bateria varre uma fatia de 120 graus do céu. Para cobrir o mesmo território que um radar rotativo do SAMP/T consegue observar, podem ser necessários mais radares, mais lançadores e mais equipas.
Para Washington, a rejeição dói. A venda proposta foi uma das maiores alguma vez oferecidas à Dinamarca. Serviu também como teste de até onde os aliados europeus estão dispostos a ir na sua ambição declarada de maior autonomia estratégica na defesa.
Uma vitória industrial e política para a Europa
Ao escolher o SAMP/T, a Dinamarca alinha-se com um eixo emergente franco‑italiano‑polaco na defesa aérea terrestre. Paris e Roma veem isto como prova de que sistemas europeus de topo podem competir diretamente com produtos norte-americanos, mesmo dentro da NATO.
Copenhaga planeia adquirir cerca de oito sistemas SAMP/T ao longo do tempo. A ideia é criar uma defesa em camadas que proteja bases, grandes centros urbanos e infraestruturas críticas como centrais elétricas, portos e nós de comando.
Para a indústria europeia, a decisão reforça o argumento a favor do investimento de longo prazo em projetos partilhados, desde radares melhorados até à próxima vaga de interceptores destinada a enfrentar veículos planadores hipersónicos e mísseis de cruzeiro avançados.
Como os sistemas se comparam no papel
| Característica | SAMP/T (Aster 30) | Patriot PAC‑3 MSE |
|---|---|---|
| Alcance contra aeronaves | ≈ 120 km | ≈ 60 km |
| Alcance contra mísseis balísticos | ≈ 25 km | > 30 km |
| Altitude de interceção | Média | Muito elevada (30+ km) |
| Cobertura radar | 360° (rotativo) | 120° por radar (phased array) |
| Capacidade multi-alvo | Sim | Sim (menos otimizado para saturação) |
| Tecnologias-chave | PIF‑PAF, radar Arabel | Hit-to-kill, rede IBCS |
A tabela sublinha um compromisso. O Patriot destaca-se contra ameaças balísticas a grande altitude, sobretudo quando surgem em pequeno número. O SAMP/T inclina-se para uma defesa flexível a 360 graus contra ameaças variadas que chegam de muitos ângulos ao mesmo tempo.
Linhas de tensão dentro da NATO
A decisão da Dinamarca alimenta um debate em curso dentro da NATO. Um campo defende a máxima padronização em torno de sistemas norte-americanos, argumentando que isso simplifica logística e operações conjuntas. Outro defende uma indústria europeia de defesa robusta, menos dependente de autorizações de exportação dos EUA e da política do Congresso.
Já há vozes no Congresso norte-americano a sugerir o endurecimento das regras de Foreign Military Sales se os aliados continuarem a afastar-se do equipamento americano. Do lado europeu, os planeadores de defesa veem o sucesso do SAMP/T como um trampolim para programas conjuntos maiores, incluindo projetos direcionados a ameaças hipersónicas.
A escolha do SAMP/T é tanto um sinal político como um cálculo militar sobre radares e alcances de mísseis.
O que isto significa na prática para a Dinamarca
No terreno, a mudança irá reformular a forma como a Dinamarca pensa a defesa do seu espaço aéreo e o seu papel na arquitetura de segurança do norte da Europa.
Cenários estudados por analistas de defesa incluem frequentemente:
- Vagas massivas de drones e mísseis de cruzeiro contra portos, terminais energéticos e centros de comando.
- Ataques combinados de mísseis e aeronaves destinados a esmagar um pequeno número de baterias.
- Ataques a cabos submarinos e infraestruturas próximas, apoiados por pressão aérea e por mísseis.
Um sistema otimizado para cobertura a 360 graus e reatribuição rápida de missões pode responder mais facilmente a este tipo de ataques complexos. Também permite à Dinamarca integrar-se com vizinhos que usem equipamento europeu compatível, abrindo a porta a manutenção e treino partilhados.
Termos-chave que vale a pena destrinçar
Para não especialistas, o jargão pode ser intimidante, mas alguns conceitos ajudam a enquadrar o que está em jogo:
Hit-to-kill: em vez de explodir perto do alvo, o interceptor embate diretamente nele a alta velocidade. Isto reduz detritos, mas exige orientação extremamente precisa.
Ataque de saturação: um atacante lança muitos mísseis ou drones de uma só vez, a partir de várias direções, tentando sobrecarregar os radares e interceptores do defensor. Sistemas como o SAMP/T são concebidos para gerir numerosos alvos rastreados em simultâneo.
Defesa em camadas: nenhum sistema faz tudo. Os países combinam canhões e mísseis de curto alcance para drones, sistemas de alcance médio para aeronaves e mísseis de cruzeiro, e interceptores de grande altitude para ameaças balísticas. A compra do SAMP/T pela Dinamarca enquadra-se nesta mistura mais ampla, em vez de substituir todos os outros meios.
Riscos e benefícios potenciais para a Europa
Há vantagens claras para a Europa em ganhar grandes contratos contra gigantes norte-americanos: mais empregos, bases industriais mais fortes e a capacidade de definir as suas próprias prioridades em vez de seguir o calendário de Washington. Sistemas europeus partilhados também facilitam a cooperação em crises sem esperar por decisões de destacamento dos EUA.
Existem também riscos. Se a NATO se fragmentar em blocos tecnológicos distintos - com alguns aliados centrados em equipamento norte-americano e outros em soluções europeias - a integração durante um conflito de alta intensidade pode tornar-se mais complexa. Garantir que SAMP/T, Patriot e outros sistemas comunicam de forma totalmente integrada será um desafio técnico e político constante.
Por agora, a escolha dinamarquesa do SAMP/T destaca-se como um caso raro em que esses riscos foram considerados aceitáveis, e uma proposta norte-americana de 7,9 mil milhões de euros ficou em cima da mesa em favor de um escudo de fabrico europeu.
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