Morocco, há muito focado no seu exército e na sua força aérea, está agora a ponderar uma oferta francesa que pode transformar Casablanca num polo de submarinos e alterar o equilíbrio de poder no Mediterrâneo ocidental.
Uma oferta francesa discreta com grandes consequências
A França terá apresentado uma proposta que vai muito além da venda de alguns submarinos a Rabat. O pacote centra-se em submarinos da classe Scorpène personalizados e, tão importante quanto isso, na construção, em Casablanca, de um estaleiro naval chave na mão dedicado à sua montagem e ao apoio a longo prazo.
Esta oferta surge numa altura em que Marrocos procura entrar no restrito clube de marinhas africanas com capacidades submarinas. Atualmente, apenas a Argélia opera uma força de submarinos no Norte de África, com uma frota de embarcações de origem russa que patrulham regularmente perto de águas marroquinas.
A França estará a promover um programa de submarinos “feito em Marrocos”: Scorpènes adaptados, construídos e mantidos num estaleiro dedicado em Casablanca.
Para Paris, as apostas são diplomáticas e industriais. A Naval Group, principal construtor naval militar francês, enfrentou forte concorrência nos últimos anos, incluindo a perda de contratos de grande visibilidade para os EUA e outros. Um acordo com Marrocos abriria uma implantação estratégica no Atlântico e reforçaria os laços de defesa com um aliado regional-chave.
A dor de cabeça marítima de Marrocos
Marrocos tem mais de 3.500 km de costa tanto no Atlântico como no Mediterrâneo, além de uma zona económica exclusiva que ultrapassa os 278.000 km². A sua marinha dispõe de fragatas modernas, navios patrulha oceânicos e novos helicópteros marítimos, mas não tem uma frota de submarinos.
Essa ausência pesa no pensamento estratégico de Rabat. A Argélia opera cerca de oito submarinos, maioritariamente embarcações Kilo melhoradas adquiridas à Rússia. Alguns estão estacionados a cerca de 150 km de águas marroquinas, dando a Argel uma vantagem submarina clara em qualquer crise.
Os submarinos continuam a ser os meios navais mais difíceis de detetar e acompanhar, especialmente em águas costeiras, onde as correntes e o ruído complicam as operações de sonar. Sem uma força submarina própria, Marrocos tem de assumir que partes do fundo do mar junto à sua costa estão, na prática, fora do seu controlo.
Força existente, lacuna evidente
A Marinha Real Marroquina está longe de ser fraca. Conta com cerca de 121 navios, incluindo seis fragatas, uma corveta e 18 navios patrulha de alto-mar. Investiu em novos radares de superfície, vigilância costeira e meios de patrulha marítima.
Ainda assim, os analistas de defesa concordam num número: Rabat precisaria de, pelo menos, dois a três submarinos para manter uma presença quase contínua no mar, alternando embarcações entre patrulha, treino e manutenção. Esse é o limiar mínimo para uma dissuasão credível debaixo de água.
Com 2–3 submarinos modernos em rotação de patrulha, Marrocos poderia manter uma vigilância submarina quase permanente nos seus acessos mais movimentados.
Submarinos Scorpène adaptados para Rabat
O elemento central da proposta francesa é a classe Scorpène, já testada na exportação. Trata-se de submarinos diesel-elétricos, de propulsão convencional, conhecidos pela sua baixa assinatura acústica e por um perfil de missão flexível. França e Espanha desenvolveram o projeto, e versões já estão ao serviço do Chile, do Brasil e da Índia.
Para Marrocos, acredita-se que a Naval Group esteja a oferecer uma configuração adaptada. Isso pode incluir capacidades reforçadas de defesa costeira, suites de sonar melhoradas e ajustadas às águas rasas e ruidosas do Atlântico, e sistemas de armas alinhados com a doutrina marroquina.
- Deslocamento aproximado: 1.600–2.000 toneladas (submerso, dependendo da variante)
- Propulsão: diesel-elétrica, com baterias avançadas para maior autonomia submersa
- Capacidade de armamento: até 18 armas (torpedos, mísseis antinavio, minas navais)
- Missões: defesa costeira, negação do mar, recolha de informações, inserção de forças especiais
As autoridades francesas apresentam estas embarcações como ferramentas multifunções. Em tempo de paz, podem monitorizar rotas de navegação, seguir navios estrangeiros e recolher informações. Em conflito, podem ameaçar navios de guerra inimigos, tráfego comercial ou infraestruturas críticas, obrigando qualquer adversário a dispersar as suas defesas.
Um estaleiro chave na mão em Casablanca
A parte mais transformadora do argumento francês não são os submarinos em si, mas o local onde seriam construídos e mantidos. A Naval Group estará pronta para instalar um complexo industrial naval de grande escala em Casablanca, dando a Marrocos a infraestrutura para montar, reparar e modernizar a sua frota no país.
O pacote proposto não é apenas uma venda: é uma parceria industrial concebida para transformar Casablanca num polo regional de submarinos.
Este estaleiro incluiria provavelmente docas secas, oficinas especializadas, centros de formação e instalações de testes. Engenheiros franceses formariam técnicos e engenheiros marroquinos, transferindo competências em soldadura, integração de eletrónica, manutenção de sonares e apoio a sistemas de combate.
Uma instalação destas poderia, com o tempo, servir mais do que apenas os Scorpène. Poderia apoiar navios de superfície marroquinos, dar suporte a futuros meios não tripulados, ou até acolher trabalhos em frotas de parceiros regionais. Para Rabat, isto traduz-se em empregos, transferência de tecnologia e menor dependência de estaleiros estrangeiros.
| Elemento | O que a França oferece | Benefício estratégico para Marrocos |
|---|---|---|
| Submarinos | Embarcações da classe Scorpène personalizadas | Dissuasão submarina, capacidades de recolha de informações |
| Estaleiro | Instalação chave na mão em Casablanca | Montagem local, manutenção e modernizações |
| Know-how | Formação e transferência de tecnologia | Crescimento da indústria nacional de defesa |
| Apoio a longo prazo | Peças sobresselentes, caminhos de modernização | Custos de ciclo de vida previsíveis, disponibilidade operacional |
Alternativas alemãs, russas e em segunda mão
A França não está sozinha a cortejar Rabat. A alemã TKMS tem promovido dois projetos bem conhecidos: o Dolphin AIP e o HDW 209/1400mod. A variante Dolphin utiliza propulsão independente do ar (AIP) baseada em células de combustível, permitindo ao submarino permanecer submerso durante semanas sem vir à superfície ou usar snorkel, uma vantagem útil em patrulhas furtivas.
O HDW 209/1400mod é uma versão modernizada de uma classe amplamente exportada. É menos avançado do que projetos mais recentes, mas tem um longo historial e goza de reputação de fiabilidade e custos razoáveis - um fator importante, dado o orçamento apertado de Marrocos.
A Rússia também tentou reavivar o interesse no Amur 1650, um projeto que tem tido dificuldades em avançar além de construções parciais desde meados dos anos 2000. Fontes brasileiras e gregas levantaram a hipótese de vender submarinos alemães em segunda mão, a um preço muito inferior ao de embarcações novas.
No entanto, essas aparentes oportunidades trazem problemas: cascos mais antigos, históricos de manutenção incertos, sistemas de combate legados e possíveis incompatibilidades com equipamento moderno de padrão NATO, que Marrocos tem vindo a privilegiar. Integrar tais submarinos numa marinha maioritariamente abastecida por fornecedores ocidentais pode ser caro e lento.
Novos helicópteros para uma mudança naval mais ampla
Os submarinos são apenas parte da modernização marítima de Rabat. Em 1 de setembro de 2025, Marrocos assinou a compra de dez helicópteros Airbus H225M Caracal. Estas aeronaves de longo alcance e multirole podem cobrir cerca de 1.200 km, reabastecer em voo e operar de dia e de noite em operações especiais, busca e salvamento e missões de segurança marítima.
Substituirão uma frota mista envelhecida de helicópteros Puma, Huey, Bell 212 e Chinook, alguns com mais de quatro décadas de serviço. Com esta aquisição, Marrocos torna-se o primeiro operador africano do H225M, sinalizando a intenção de projetar poder no mar, coordenar com navios de superfície e apoiar futuras operações submarinas com sensores aéreos e equipas de resposta rápida.
Uma visão de longo prazo de autonomia estratégica
Para além do equipamento, Marrocos está a reescrever a sua doutrina de defesa. O governo fala cada vez mais de uma força integrada que liga unidades terrestres, aéreas, navais e cibernéticas numa única rede. O orçamento de defesa de 2025 será de cerca de 13 mil milhões de euros, grande parte financiada através dos mercados internacionais.
Rabat também quer expandir a sua indústria nacional de armamento. Os projetos vão desde munições e viaturas blindadas a drones navais e potencialmente armas guiadas. Um estaleiro de submarinos enquadrar-se-ia bem neste impulso para a autonomia, transformando Marrocos de comprador puro em co-produtor.
A proposta do estaleiro de Casablanca alinha-se com o objetivo mais amplo de Rabat: comprar menos “pronto a usar” e construir mais em casa, com parceiros estrangeiros como fornecedores de tecnologia, não como proprietários.
Riscos, benefícios e como poderá ser uma força de submarinos marroquina
Construir uma arma submarina é um enorme empreendimento. As tripulações precisam de anos de treino especializado. Os ciclos de manutenção são exigentes. Qualquer acidente no mar, sobretudo durante as operações iniciais, teria custos políticos elevados.
Ainda assim, as vantagens são claras. Os submarinos complicam o planeamento de qualquer rival. Um único submarino moderno em patrulha obriga um adversário a empregar aeronaves, navios de superfície e sensores em guerra antissubmarina, aumentando custos e limitando a sua liberdade de ação.
Os analistas desenham um modelo marroquino provável baseado em dois ou três Scorpène. Uma embarcação no mar, outra a preparar-se para largar e outra em manutenção é uma rotação realista. Helicópteros como o H225M poderiam ampliar o alcance, procurando alvos de superfície, retransmitindo dados e resgatando tripulações em perigo, se necessário.
Num cenário de crise com a Argélia, Rabat ganharia uma moeda de troca: a capacidade de ameaçar o tráfego marítimo, infraestruturas energéticas ou até unidades militares no mar, mantendo ao mesmo tempo uma plausível negação sobre onde os seus submarinos realmente se encontram.
Termos-chave e como moldam o acordo
Duas noções técnicas importam aqui. Primeiro, submarinos diesel-elétricos dependem de baterias quando submersos. Precisam de recarregar periodicamente a profundidade de periscópio usando motores diesel, o que os torna momentaneamente mais fáceis de detetar. Projetos como o Scorpène mitigam isso com baterias avançadas e maquinaria silenciosa, prolongando a autonomia submersa e reduzindo assinaturas acústicas.
Segundo, a “propulsão independente do ar” (AIP), usada em alguns submarinos alemães e outros, permite permanecer debaixo de água durante mais tempo sem vir à superfície. É atrativa, mas acrescenta custo e complexidade. A França tem opções AIP, mas poderá privilegiar baterias de alta capacidade para Marrocos - uma escolha que pode simplificar a logística e alinhar melhor com uma nova base industrial em Casablanca.
Para Rabat, a decisão não é apenas sobre especificações no papel. É uma aposta estratégica sobre qual país será o seu parceiro naval mais próximo durante décadas. Se a França conseguir ancorar essa relação com uma frota personalizada e um estaleiro operacional em solo marroquino, a silenciosa corrida naval ao longo das costas do Norte de África poderá entrar numa fase muito diferente.
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