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Más notícias para um reformado que alugou o sótão a um mineiro de criptomoedas: enfrenta agora uma pesada multa fiscal, apesar de não ter ganho nada. O caso divide o país.

Homem idoso analisa equipamento no sótão, segurando envelope. Mesa com dispositivos eletrónicos e janela de sótão ao fundo.

A carta chegou numa manhã de terça-feira, num envelope branco fino que parecia inofensivo. Gérard*, 68 anos, eletricista reformado de um subúrbio tranquilo perto de Lyon, abriu-a ao lado do café, à espera do habitual extrato da pensão. Em vez disso, as mãos começaram-lhe a tremer. Uma correção fiscal de cinco dígitos. Uma “atividade comercial oculta” ligada a… mineração de criptomoedas. Na sua própria casa. No seu sótão.

Leu as linhas três vezes. As Finanças reclamavam anos de IRS em falta e contribuições sociais sobre uma operação de mineração que ele não tinha explorado, não tinha compreendido e da qual, garante, “não ganhei um cêntimo”.

Em baixo, a chaleira apitava. Em cima, o sótão arrendado zumbia suavemente com o ruído de máquinas a que ele nunca prestara grande atenção.

Foi nesse dia que este reformado discreto se tornou o centro de uma discussão nacional.

Como um sótão tranquilo se transformou num pesadelo fiscal

A história de Gérard começou como tantas outras: uma pensão pequena, contas a subir e um grande sótão inutilizado sob o telhado de telhas. O sobrinho de um vizinho, um trintão educado de sapatilhas, tinha uma ideia. “Eu alugo o espaço, instalo uns computadores, pago-lhe um pouco todos os meses. Sem complicações, sem problema de ruído, tudo legal.” Ao reformado pareceu-lhe bem. Uma renda modesta, um jovem simpático, um contrato rabiscado em papel.

Ele não fez muitas perguntas. Cripto, blockchain, mineração - tudo isso soava a ficção científica. Só viu ali uma forma de pagar o aquecimento e, talvez, mais algumas refeições fora.

Durante meses, o acordo pareceu quase invisível. O jovem inquilino entrava e saía discretamente, verificava cabos, trazia novas máquinas que pareciam mais caixas metálicas gordas do que computadores. O sótão ficou mais quente, o contador de eletricidade girava um pouco mais depressa, mas a renda chegava por transferência bancária: algumas centenas de euros por mês, declaradas como “arrendamento mobilado”.

Depois, um dia, uma carta da empresa de eletricidade mencionava “consumo invulgarmente elevado”. Noutro mês, um técnico de passagem resmungou qualquer coisa sobre “rigs de mineração” e “hash rates”. Gérard encolheu os ombros. Não ligou muito. Todos já passámos por isso: o momento em que acenamos com a cabeça a palavras tecnológicas que não entendemos, esperando que não voltem para nos morder.

Voltaram. Um ano depois, as Finanças cruzaram dados de eletricidade, fluxos bancários e um pico suspeito de atividade digital associado àquela morada. Para a Administração, o sótão não era apenas uma divisão. Era o núcleo de um negócio. A lógica, do lado deles, é simples: máquinas a minerar cripto geram rendimento potencial; rendimento equivale a atividade tributável; e presume-se que o proprietário do local beneficia.

O problema é que os enquadramentos legais e fiscais da mineração de criptomoedas ainda são incompletos e aplicados de forma desigual. Entre estatuto profissional, trabalho independente, consumo energético e mais-valias, as fronteiras tornam-se rapidamente difusas. A desgraça de Gérard está precisamente nessa névoa. E é aí que a história começa a dividir opiniões em todo o país.

A zona cinzenta legal: quem “detém” realmente os lucros da mineração?

O primeiro passo, e o mais concreto, para quem se sente tentado por este tipo de acordo de arrendamento é brutalmente simples: pôr tudo por escrito, de forma específica e aborrecidamente precisa. Não apenas “alugo-lhe o meu sótão”. Um contrato verdadeiro que diga que atividade é exercida, quem a opera, quem é dono das máquinas, quem paga a eletricidade e quem declara o quê às Finanças.

Também convém ter contadores separados, faturas separadas e prova clara de que a atividade cripto pertence ao inquilino, não ao proprietário. Isso implica transferências bancárias detalhadas com descrições explícitas e, idealmente, que o inquilino registe algum tipo de estatuto legal ou de trabalhador independente. Parece pesado para “apenas” um sótão, mas é exatamente isso que pode salvar um reformado de uma cobrança de cinco dígitos.

A armadilha é sempre a mesma: o acordo “amigável”. Um sobrinho, o filho do vizinho, um amigo do clube de petanca que “percebe de computadores”. Confia-se, deixam-se coisas passar, e ninguém lê mais do que duas linhas de um contrato. Depois, um dia, as autoridades aparecem com folhas de cálculo, não com sorrisos.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ninguém acorda a pensar: “Antecipei bem as consequências fiscais do meu sótão?” Ainda assim, a lei não se importa com ingenuidade. Do ponto de vista da Administração, se algo potencialmente lucrativo acontece na sua propriedade e as suas faturas estão envolvidas, você faz parte - a menos que prove claramente o contrário. É assim que muitos proprietários mais velhos são apanhados de surpresa.

A divisão nacional em torno do caso de Gérard ouve-se nas conversas de café e nas caixas de comentários. Algumas pessoas apoiam firmemente as Finanças. Dizem que regras são regras, que não se pode acolher uma quinta de cripto e fingir que não se reparou. Outros veem um reformado apanhado por um sistema demasiado rápido a esmagar o “pequeno”.

Aceitei a renda porque a minha pensão não chega,” repetiu Gérard a um jornalista local. “Achei que estava a fazer tudo bem. Declarei o rendimento do arrendamento. Nem sequer entendia o que aquelas máquinas faziam. Agora dizem que lhes devo mais do que ganhei em cinco anos.

  • Esclareça a atividade no contrato de arrendamento - Inclua as palavras “mineração de criptomoedas” e especifique que o inquilino é o único responsável.
  • Contratos separados para renda e eletricidade - Para que as Finanças não possam dizer que o proprietário está a suportar parte dos custos comerciais.
  • Guarde registos escritos de todas as explicações - E-mails, SMS, trocas de mensagens sobre a atividade podem tornar-se a sua melhor defesa mais tarde.
  • Consulte cedo um fiscalista - Uma consulta pode custar muito menos do que uma liquidação adicional retroativa.

Uma história maior do que um reformado: privacidade, risco e febre do ouro digital

A desventura de Gérard toca numa inquietação mais ampla. As criptomoedas entraram nas nossas vidas como um mundo paralelo, e muitas pessoas aceitaram pedaços desse mundo dentro de casas reais sem verem bem as implicações. Pode ser um filho a minerar na garagem, um colega de casa a correr servidores na sala, ou um desconhecido a alugar a cave para “alojar hardware”.

Por detrás destes cabos e ventoinhas a zumbir, há um choque entre duas eras. De um lado, os pioneiros digitais a falarem em tokens, blocos e recompensas. Do outro, pessoas como este reformado, ancoradas em cartas em papel, balcões bancários e contas do gás. As Finanças estão no meio, a tentar tapar uma fuga invisível de valor que tem dificuldade em quantificar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Clarificar papéis e responsabilidades Contrato escrito que especifica quem faz a mineração, quem detém as máquinas e quem paga as faturas Reduz o risco de ser tratado como o proprietário oculto do negócio
Separar fluxos financeiros Transferências bancárias distintas, eventual subcontador para eletricidade, pagamentos com descrição Facilita provar o seu papel exclusivamente de “senhorio” em caso de inspeção
Pedir aconselhamento antes de dizer sim Reunião curta com um fiscalista ou contabilista certificado Ajuda a evitar surpresas de cinco dígitos e permite negociar condições mais seguras

FAQ:

  • Pergunta 1 Pode um senhorio ser mesmo tributado por mineração de cripto feita por um inquilino?
  • Resposta 1 Sim, as Finanças podem considerar que existe uma atividade comercial a funcionar a partir do imóvel e presumir que o proprietário beneficia, sobretudo se não houver um contrato claro e as faturas de serviços estiverem em nome do proprietário.
  • Pergunta 2 Que documentos protegem um reformado na situação de Gérard?
  • Resposta 2 Um contrato de arrendamento detalhado que mencione a atividade de mineração, prova de que o inquilino é dono do hardware, faturação energética separada ou subcontagem, e evidência escrita de que o inquilino declara isto como a sua atividade.
  • Pergunta 3 A mineração de cripto é sempre tributada como rendimento profissional?
  • Resposta 3 Nem sempre. Pode enquadrar-se em regimes diferentes consoante a dimensão, regularidade e lucros. Um pequeno mineiro ocasional pode ser tratado de forma diferente de uma operação grande a funcionar 24/7.
  • Pergunta 4 As Finanças podem mesmo basear-se em dados de eletricidade?
  • Resposta 4 Sim, consumos invulgarmente elevados podem desencadear verificações. Combinados com outros dados, podem sugerir um negócio não declarado, como uma quinta de mineração.
  • Pergunta 5 O que deve fazer alguém que já arrenda a um mineiro?
  • Resposta 5 Falar com o inquilino, formalizar a atividade por escrito, reunir prova de papéis e responsabilidades e consultar um profissional para rever a situação antes de chegar uma inspeção.

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