Kyiv está a aproveitar a vantagem nos céus, visando bases aéreas russas e bombardeiros que têm castigado cidades ucranianas há meses. Num único dia, foram perdidos dois caças-bombardeiros russos Su-34, sublinhando quão dispendiosa esta fase da guerra se tornou para Moscovo.
Dois Su-34 perdidos num só dia
A Ucrânia e a Rússia reconheceram na quarta-feira que um bombardeiro tático russo Su-34 foi abatido sobre o Mar Negro. As autoridades ucranianas afirmam que a aeronave foi atingida por um sistema de defesa aérea fornecido pelo Ocidente, muito provavelmente um míssil superfície-ar Patriot de fabrico norte-americano.
A destruição de um Su-34 sobre o Mar Negro marca mais um golpe raro, mas simbólico, contra as aeronaves de ataque de primeira linha da Rússia.
O incidente terá ocorrido enquanto as forças russas conduziam operações aéreas contra alvos ucranianos. O Su-34, concebido para voar baixo e depressa enquanto lança bombas guiadas e mísseis, tem sido amplamente utilizado por Moscovo desde o início da invasão em grande escala, em 2022.
Poucas horas depois, surgiram relatos de uma segunda perda. Segundo órgãos de comunicação ucranianos como o The Kyiv Post e a agência UNN, outro Su-34 despenhou-se durante a noite em território russo. Acredita-se que a aeronave tenha caído longe da linha da frente, embora a localização exata não tenha sido tornada pública.
Dmytro Zhmailo, diretor executivo do Centro Ucraniano para a Segurança e Cooperação, foi citado a confirmar o acidente. A causa exata permanece pouco clara: falha técnica, fogo amigo ou o resultado tardio de danos de combate anteriores são hipóteses discutidas por analistas.
Campanha de drones inflige danos de mil milhões
A perda dupla de Su-34 ocorreu num contexto em que a Ucrânia alegou sucessos substanciais contra o poder aéreo russo ao longo de 2025. A unidade de elite ucraniana Alpha disse ter utilizado drones de longo alcance para atingir bases aéreas russas, causando um prejuízo estimado em mil milhões de dólares só no ano passado.
De acordo com números divulgados por esta unidade, 15 aeronaves foram destruídas nestes ataques:
- 11 caças e bombardeiros (Su-30SM, Su-34, Su-27, Su-24, MiG-31)
- 3 helicópteros (Mi-28, Mi-26, Mi-8)
- 1 aeronave de transporte (An-26)
Drones de longo alcance transformaram bases aéreas russas, antes consideradas relativamente seguras, em alvos vulneráveis e dispendiosos.
Estes ataques, que não podem ser verificados de forma independente na totalidade, encaixam num padrão mais amplo: a Ucrânia está a tentar empurrar a guerra para dentro do território controlado pela Rússia, esticando as defesas aéreas de Moscovo e obrigando-a a dispersar aeronaves valiosas.
Porque é que o Su-34 é importante para a Rússia
O Su-34 está no centro da campanha aérea russa na Ucrânia. Trata-se de um caça-bombardeiro bimotor, de dois lugares, construído para transportar uma grande carga de armamento de precisão. Na prática, tem sido frequentemente usado para lançar as chamadas “bombas planadoras” a partir de fora do alcance de muitas defesas aéreas ucranianas.
Desde outubro, Moscovo aumentou acentuadamente o uso destas munições guiadas nos seus ataques, segundo o meio militar ucraniano Militarnyi. Essa tendência transformou o Su-34 num verdadeiro “cavalo de batalha” das operações russas - mas também num alvo prioritário.
Cada aeronave terá um custo estimado de cerca de 40 milhões de euros, excluindo treino, munições e manutenção. Sob pesadas sanções ocidentais, a Rússia enfrenta crescente pressão para manter estes jatos sofisticados operacionais. Componentes importados essenciais para aviónica, navegação e sistemas de guiamento de precisão são mais difíceis de obter, obrigando a indústria a improvisar ou a degradar sistemas.
Cada Su-34 perdido não é apenas uma aeronave abatida; são anos de treino, componentes escassos e armas guiadas dispendiosas retiradas do campo de batalha.
Sanções, peças sobressalentes e uma indústria sob pressão
As sanções não param as fábricas russas de forma imediata, mas complicam todas as etapas de produção e reparação. As empresas de defesa russas têm de obter microeletrónica através de intermediários, reutilizar componentes antigos ou alterar projetos. Isto levanta dúvidas sobre qualidade e fiabilidade, incluindo em jatos complexos como o Su-34.
Analistas observam que, se o acidente dentro da Rússia tiver sido causado por falha técnica, isso poderá indicar problemas mais profundos de manutenção e abastecimento a acumularem-se ao longo do tempo. Elevadas taxas de missões, desgaste em combate e reparações apressadas aumentam todos o risco.
As defesas aéreas da Ucrânia tornam-se mais eficazes
O alegado uso de um sistema Patriot contra o Su-34 sobre o Mar Negro realça como as defesas aéreas fornecidas pelo Ocidente estão a remodelar a guerra no ar. Sistemas como Patriot, NASAMS, IRIS-T e SAMP/T dão à Ucrânia uma proteção em camadas contra aeronaves, mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos.
Na mesma noite dos dois incidentes com Su-34, as forças ucranianas afirmaram ter abatido 955 drones russos. O número refere-se sobretudo aos chamados drones “kamikaze” usados em enxames contra infraestruturas energéticas e cidades, mas ilustra a escala da batalha aérea noturna.
| Ferramenta | Utilizado por | Função principal |
|---|---|---|
| Sistema de mísseis Patriot | Ucrânia | Defesa aérea de longo alcance contra jatos e mísseis |
| Drones do tipo Shahed | Rússia | Drones de ataque baratos visando infraestruturas |
| Drones ucranianos de longo alcance | Ucrânia | Ataques a bases aéreas e logística russas |
A Rússia continua a lançar centenas de drones de ataque ao estilo Shahed, fornecidos por ou modelados a partir de projetos iranianos. A Ucrânia responde com uma combinação de sistemas ocidentais e intercetores produzidos internamente. O resultado é um desgaste noite após noite nos céus.
Conversações de paz em Abu Dhabi em meio a ataques contínuos
As perdas dos Su-34 ocorreram poucos dias depois de mais uma ronda de conversações em Abu Dhabi. Delegações da Ucrânia e da Rússia, juntamente com mediadores internacionais, mantiveram discussões destinadas a encontrar um caminho para um cessar-fogo ou, pelo menos, acordos limitados.
Apesar dessas conversações, os combates continuam praticamente inalterados no terreno e no ar. As autoridades ucranianas dizem que os ataques russos a redes energéticas, cidades e nós logísticos não abrandaram. Kyiv, por seu lado, continua a visar depósitos de combustível russos, centros de comando e aeródromos longe da linha da frente.
São esperadas novas reuniões diplomáticas nos próximos dias, mas nenhum dos lados dá sinais de recuar nas operações aéreas, consideradas centrais para moldar o campo de batalha em 2026.
O que significa perder Su-34 para a guerra em geral
A perda de dois Su-34 num só dia não paralisa a força aérea russa, que ainda dispõe de um inventário considerável de caças e bombardeiros. Ainda assim, cada incidente corrói a capacidade de Moscovo de sustentar ataques de alta intensidade.
Sempre que a Rússia desloca as suas aeronaves para mais longe das defesas aéreas ucranianas, reduz a sua eficácia e aumenta tempos de voo e custos de combustível. Se as bases aéreas mais próximas da Ucrânia forem vistas como inseguras devido a ataques de drones, os jatos terão de operar a partir de zonas mais profundas dentro da Rússia, limitando o ritmo de missões.
A estratégia da Ucrânia é essencialmente cumulativa: abater ou danificar aeronaves, destruir hangares e reservas de combustível, forçar a Rússia a dispersar a sua frota e investir mais na sua proteção. Essa abordagem não quebra o poder aéreo russo de um dia para o outro, mas pode desgastá-lo ao longo de meses e anos.
Termos e conceitos-chave por trás das manchetes
Vários termos militares associados a estes incidentes são frequentemente mencionados sem contexto.
- Munições guiadas: bombas ou mísseis equipados com sistemas de guiamento, como GPS ou laser, que podem dirigir-se a um alvo. São mais precisos do que bombas não guiadas, mas dependem de eletrónica avançada e são dispendiosos.
- Bombas planadoras: bombas aéreas modificadas com asas ou kits que lhes permitem planar longas distâncias após a largada. Aeronaves como o Su-34 podem lançá-las a partir de fora do alcance de muitas defesas aéreas.
- Drones de longo alcance: aeronaves não tripuladas capazes de voar centenas de quilómetros para atingir aeródromos, depósitos de petróleo ou bases militares. Podem ser mais baratas e menos arriscadas do que enviar caças tripulados para áreas fortemente defendidas.
Compreender estas ferramentas ajuda a explicar por que razão ambos os lados estão a investir fortemente em drones e em defesas aéreas avançadas. Para a Rússia, bombas guiadas e jatos como o Su-34 oferecem uma forma de atingir a Ucrânia a partir de distâncias de segurança. Para a Ucrânia, drones e baterias Patriot fornecem um método relativamente de baixo custo para obrigar Moscovo a pagar caro por cada missão de ataque.
Olhando para o futuro, uma das grandes questões para os planeadores militares é a sustentabilidade. Se a Rússia continuar a perder aeronaves dispendiosas e tiver dificuldades em substituí-las sob sanções, poderá depender ainda mais de drones e mísseis. A Ucrânia, por sua vez, pressionará por mais sistemas ocidentais de defesa aérea e armas de longo alcance para manter as aeronaves russas em risco mesmo sobre o Mar Negro ou dentro das fronteiras russas.
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