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“Todos ficam felizes ao vê-la”: como uma Labrador mudou a vida numa escola secundária francesa

Grupo de estudantes sentados num corredor escolar a interagir com um cão-guia amarelo.

Numas fria manhã de segunda-feira na Normandia rural, os adolescentes arrastaram-se em direção aos portões da escola à espera da rotina habitual - e encontraram algo completamente diferente.

À entrada, esperava-os uma Labrador Retriever preta, a abanar calmamente a cauda enquanto os alunos iam chegando, oferecendo focinhos húmidos e uma tranquilidade discreta, em vez dos habituais torniquetes metálicos e rostos severos. Em poucos minutos, o ambiente de todo o dia escolar tinha mudado.

Uma manhã escolar que, de repente, parecia diferente

A cena aconteceu no Collège Geneviève De Gaulle Anthonioz, uma escola de ensino básico (2.º e 3.º ciclos) em Le Neubourg, na região francesa de Eure. A 1 de dezembro de 2025, os alunos chegaram e encontraram Valda, uma Labrador preta, colocada na entrada principal com a sua responsável, a diretora Céline Gressus.

Valda não é uma mascote nem um animal de estimação “casual”. É aquilo a que a escola chama um chien d’assistance à la réussite scolaire - um cão de assistência ao sucesso escolar, treinado pela instituição francesa Hand’Chiens para apoiar o bem-estar e a aprendizagem dos alunos. A sua primeira tarefa é simples: estar lá quando os estudantes chegam.

Todos os dias de escola, Valda fica junto ao portão, recebendo os alunos com uma presença calma, pelo macio e um olhar firme.

Adolescentes que normalmente evitariam contacto visual com adultos abrandam para lhe fazer uma festa na cabeça. Alguns dão-lhe uma guloseima. Outros agacham-se para um abraço a sério antes de seguirem para o registo de entrada. Professores da escola dizem que a diferença no ambiente é imediata e visível.

“Toda a gente fica contente por a ver”

A diretora Céline Gressus, que é também a pessoa de referência oficial de Valda, admite que não esperava uma reação tão forte quando o projeto começou.

Rapidamente percebeu que até os alunos que raramente interagem com o pessoal se aproximam do cão. Muitos dão-lhe uma palmadinha nas costas, uma festinha por baixo do queixo, ou simplesmente passam com um sorriso rápido.

Segundo a equipa, é agora raro ver um aluno passar por Valda sem algum pequeno gesto de carinho.

Uma aluna de 14 anos, Miya, diz que a Labrador se tornou uma espécie de âncora emocional na escola. “Todas as manhãs, toda a gente fica contente por a ver”, confidencia. E já viu Valda atuar em momentos difíceis. Quando um estudante desatou a chorar, a cadela aproximou-se, deitou-se com a cabeça encostada à perna do aluno e ficou ali, a “ancorá-lo” em silêncio até ele acalmar.

Este tipo de resposta não é acidental. Cães de assistência como Valda são treinados para detetar sinais emocionais - uma voz trémula, movimentos inquietos, soluços - e responder oferecendo contacto físico e imobilidade. Para muitos adolescentes, especialmente os que têm dificuldade em falar sobre emoções, fazer festas a um cão é muito mais fácil do que falar com um adulto.

Mais do que uma mascote: um papel estruturado na vida escolar

O dia de Valda é organizado quase com o mesmo rigor do horário de um professor. Depois das boas-vindas da manhã, volta a aparecer no final do dia, facilitando a transição entre a intensidade das aulas e o caos dos autocarros e dos carros de recolha.

Entre esses momentos, trabalha em espaços mais tranquilos. Os alunos podem marcar tempo com ela no gabinete da diretora. Participa em algumas sessões com a unidade Ulis - uma secção dedicada a alunos com necessidades educativas especiais e deficiência. Também aparece na biblioteca (CDI), onde a sua presença calma alivia a atmosfera frequentemente tensa das revisões para testes e dos clubes de trabalhos de casa.

Nas turmas de inclusão e na biblioteca, Valda atua como uma parceira silenciosa: reduz a ansiedade, apoia a concentração e incentiva a comunicação.

Os seus cuidados são partilhados por uma pequena equipa. Além da diretora, a enfermeira escolar, Christelle Duteurtre, também recebeu formação para a acompanhar. A enfermeira acolhe Valda em casa noite sim, noite não, garantindo que a cadela descansa e tem tempo de pausa longe dos corredores e das salas de aula.

Espera-se que três professores concluam em breve a sua formação, o que lhes permitirá integrar o cão em trabalhos de grupo, sessões de leitura ou aulas de apoio direcionado. Essa formação abrange condução e manejo do cão, comportamento básico, regras de higiene, gestão de risco e a definição de limites claros para que o animal não fique sobrecarregado.

Como um cão de assistência muda as dinâmicas da escola

A equipa de Le Neubourg relata mudanças em várias áreas da vida escolar desde a chegada de Valda. Embora ainda estejam a ser recolhidos dados detalhados, já apontam algumas tendências claras:

  • Manhãs mais descontraídas, com menos tensão à porta da escola.
  • Desanuviamento mais rápido de pequenos conflitos e crises emocionais.
  • Maior envolvimento de alunos que normalmente se isolam.
  • Aumento das visitas à enfermeira e à diretora, enquadradas como “vir ver o cão”.

O último ponto é importante. Para alguns alunos, pedir ajuda parece admitir derrota. Dizer “vou ver a Valda” é mais fácil do que dizer “preciso de falar sobre o que se passa em casa” ou “estou em pânico com as minhas notas”. Uma vez na sala, as conversas podem começar naturalmente.

Os professores notam outro efeito: os alunos tendem a baixar a voz e a mover-se com mais cuidado quando o cão está presente. Essa mudança incentiva um trabalho mais silencioso e focado, sobretudo na biblioteca e em pequenos grupos de apoio.

Porque é que os Labradores se adaptam tão bem às escolas

Os Labrador Retrievers são frequentemente escolhidos para funções de assistência em hospitais, lares e escolas. O seu temperamento é, em geral, dócil e previsível. Normalmente são motivados por comida, gostam de agradar e toleram carícias desajeitadas ou gargalhadas repentinas.

Os Labradores combinam paciência com uma constituição robusta, o que os ajuda a manterem-se calmos em corredores movimentados e recreios cheios.

O pelo preto e a estrutura forte de Valda dão-lhe uma presença reconfortante. É suficientemente grande para não se assustar facilmente, mas continua macia e acessível. A sua formação com a Hand’Chiens incluiu exposição a ruídos altos, grupos de crianças e mudanças frequentes de ambiente, para que possa trabalhar em segurança num contexto escolar.

Nos bastidores: formação e salvaguardas

Cães de assistência não “aparecem” simplesmente numa escola. Programas como o de Le Neubourg assentam em regras claras e preparação cuidadosa. Medidas típicas incluem:

Aspeto Como é gerido
Saúde e higiene Consultas veterinárias regulares, vacinas, cuidados de higiene e regras de lavagem das mãos após o contacto.
Acesso dos alunos Horários e locais definidos em que o cão está disponível, com limites para evitar sobrecarga.
Alergias e medos Informação às famílias, possibilidade de exclusão (opt-out) e percursos alternativos para alunos desconfortáveis com cães.
Bem-estar do cão Períodos de descanso programados, dias de folga e um ambiente doméstico estável.

A escola também tem de comunicar previamente com os encarregados de educação, explicar o projeto e responder a questões sobre segurança, religião ou atitudes culturais em relação aos cães. Em França, tal como no Reino Unido ou nos EUA, as direções escolares sabem que nem todas as famílias têm a mesma relação com os animais.

O que outras escolas podem aprender com Valda

A história de sucesso da Labrador francesa encaixa num movimento mais amplo. Por toda a Europa e América do Norte, as escolas estão a testar cães de terapia e de assistência como uma ferramenta entre muitas para apoiar alunos que enfrentam ansiedade, bullying, problemas familiares ou neurodivergência.

Para um diretor ou agrupamento a considerar um passo semelhante, surgem várias questões práticas:

  • Existe uma instituição de confiança ou organização de treino por perto?
  • Quem, na equipa, assumirá a responsabilidade principal pelo cão?
  • Como é que o horário protegerá tanto os alunos como o animal da exaustão?
  • Que políticas cobrirão alergias, mordeduras ou acidentes?
  • Como medirá a escola o impacto na assiduidade, no comportamento e no bem-estar?

O exemplo francês mostra que o sucesso depende menos do fator novidade do que da consistência. O cão precisa de estar presente vezes suficientes para que os alunos confiem na sua presença. A equipa precisa de estar alinhada quanto ao que o cão pode e não pode fazer. E todos têm de se lembrar de que, por muito querida que seja, ela não é um brinquedo.

Apoio emocional, explicado de forma simples

Muitas pessoas sentem instintivamente que fazer festas a um cão acalma, mas vale a pena explicar o mecanismo. Quando alguém acaricia um animal, o corpo liberta frequentemente oxitocina, por vezes chamada “a hormona da ligação”. A frequência cardíaca pode baixar ligeiramente e a respiração torna-se mais regular. Para um adolescente que entra num teste de matemática ou lida com dramas de amizades, essa pequena mudança fisiológica pode fazer uma grande diferença.

Num ambiente stressante como uma escola, alguns segundos de contacto com um animal calmo podem “repor” o sistema nervoso.

Cães de assistência usados na educação não substituem orientadores, psicólogos ou equipas especializadas de apoio socioemocional. Funcionam mais como uma ponte. Um momento tranquilo com o cão pode criar espaço suficiente para um aluno dizer: “Na verdade, não estou bem”, e é aí que entram os profissionais humanos.

Riscos potenciais e como são geridos

Nem todas as escolas estão preparadas para um programa deste tipo. Os riscos vão desde reações alérgicas a objeções culturais e problemas práticos simples como ruído ou excitação excessiva. Os cães também podem ficar stressados se estiverem constantemente rodeados de pessoas a pedir atenção.

Por isso, escolas como a de Le Neubourg definem limites. Os alunos aprendem que o animal tem tempos de trabalho e tempos de descanso. Ninguém pode acordá-la quando está na cama, puxar-lhe o rabo, ou dar-lhe comida sem autorização. A equipa observa a linguagem corporal à procura de sinais de cansaço: bocejar, lamber os lábios, virar a cara. Quando esses sinais aparecem, ela é retirada da situação.

Ainda assim, quando bem gerido, o benefício pode superar os riscos. Os alunos aprendem empatia e respeito por um ser vivo. Alguns superam o medo de cães num contexto seguro e estruturado. Outros simplesmente encontram coragem para enfrentar mais um longo dia de escola porque sabem que, ao portão, estará uma Labrador preta à espera.

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