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Novo UGV europeu reduz a diferença entre controlo humano e autónomo.

Soldado em uniforme camuflado operando robô militar com tablet, numa base ao ar livre com outros soldados ao fundo.

Soldados observam a partir de um abrigo de comando próximo, com tablets na mão, enquanto a máquina chamada Hector alterna entre controlo humano e autonomia a bordo com alguns toques no ecrã.

Um novo tipo de companheiro de equipa no terreno

O Hector é a mais recente tentativa da Europa para reinventar a forma como os exércitos combatem em terra. É um veículo terrestre não tripulado, ou UGV, concebido pela ARX Robotics como uma plataforma média com rodas, que pode ser conduzida por humanos, teleoperada à distância ou operada em modos autónomos supervisionados.

Em vez de substituir de forma direta as guarnições, o sistema pretende atuar como um “companheiro de equipa no terreno”, capaz de acompanhar as tropas, transportar equipamento e assumir missões perigosas sem colocar condutores na linha de fogo.

A característica definidora do Hector é a sua arquitetura com tripulação opcional: os soldados podem viajar nele quando necessário e, depois, passar para controlo remoto ou autónomo nas partes mais arriscadas da missão.

Esta abordagem híbrida contrasta com UGVs anteriores, que eram plataformas simples controladas por rádio ou robots totalmente não tripulados com flexibilidade limitada.

Como funciona o conceito de tripulação opcional

O veículo é construído de modo a que uma guarnição o possa conduzir fisicamente até à orla de uma área contestada, usando-o como um camião blindado compacto. Já perto da ação, a equipa desembarca, fecha o veículo e muda o modo de controlo.

A partir daí, o Hector pode operar de três formas principais:

  • Teleoperação - um operador humano conduz o veículo remotamente através de câmaras e sensores.
  • Autonomia supervisionada - o operador define pontos de passagem (waypoints) e regras; o veículo trata da navegação.
  • Modos de seguimento e apoio - o Hector segue automaticamente uma esquadra ou uma coluna de veículos a uma distância segura.

Em autonomia supervisionada, os humanos continuam a aprovar decisões-chave, sobretudo quando o veículo está armado ou opera perto de civis. O sistema foi concebido para que o controlo possa ser devolvido rapidamente a um condutor se as comunicações se degradarem ou se a situação tática mudar.

A linha esbatida entre controlo humano e controlo da máquina permite aos comandantes fazer avançar o veículo de forma agressiva, mantendo as pessoas um passo atrás das ameaças diretas.

Concebido para alcance, velocidade e flexibilidade

A ARX Robotics posiciona o Hector como um sistema “médio com rodas”, situado entre pequenos robots terrestres usados para desativação de explosivos e camiões logísticos maiores e pesados. Esta categoria intermédia procura equilibrar mobilidade, autonomia e carga útil.

Embora os valores detalhados de desempenho sejam mantidos em sigilo, as prioridades de conceção são claras:

Foco de conceção Efeito operacional
Alcance alargado Apoia patrulhas longas e operações dispersas sem reabastecimento constante
Alta velocidade Acompanha infantaria de rápido movimento e unidades mecanizadas
Estrutura modular Permite trocar rapidamente kits de missão no terreno
Mobilidade com rodas Mais rápido e mais silencioso em estradas e terreno firme do que robots de lagartas

A modularidade significa que o mesmo veículo base pode ser reconfigurado como transportador de carga num dia e como plataforma de reconhecimento no dia seguinte, reduzindo o número de viaturas especializadas que um exército precisa de comprar e manter.

Um chassis, muitas missões

O Hector é construído em torno de uma arquitetura tipo plataforma plana (flatbed), com pontos de fixação para diferentes módulos de missão. Essa abordagem espelha tendências noutros domínios, em que marinhas e forças aéreas compram mais plataformas multiuso e as equipam com pods específicos de missão.

Kits de missão típicos para um UGV nesta classe podem incluir:

  • Mastros de vigilância com câmaras diurnas/noturnas e sensores térmicos
  • Equipamento de guerra eletrónica ou de retransmissão de comunicações
  • Módulos de carga para munições, combustível ou suprimentos médicos
  • Estações de armas remotas para autodefesa ou apoio de fogo
  • Ferramentas de engenharia como lâminas de bulldozer ou rolos antiminas

Ao transformar o veículo numa “tomada” móvel para sensores, armas e ferramentas de apoio, a ARX Robotics pretende dar aos comandantes um canivete suíço sobre rodas.

Para forças terrestres europeias, que frequentemente operam em agrupamentos conjuntos ou multinacionais, essa modularidade oferece outra vantagem: os pacotes de missão podem ser adaptados às regras nacionais de empenhamento e a necessidades operacionais específicas.

Porque é que os exércitos europeus se interessam agora por UGVs

Os planificadores de defesa europeus estão a acompanhar de perto as tendências da guerra terrestre, da Ucrânia ao Médio Oriente. Drones baratos, artilharia de precisão e munições vagantes tornaram os movimentos expostos no terreno muito mais perigosos.

UGVs como o Hector estão a ser considerados por várias razões urgentes:

  • Proteção da força - enviar primeiro um veículo não tripulado para zonas suspeitas de emboscada.
  • Logística sob fogo - levar munições e suprimentos para posições da linha da frente sem arriscar condutores de camiões.
  • Vigilância persistente - estacionar UGVs equipados com sensores em posições ocultas para observação prolongada.
  • Operações urbanas - reconhecer ruas e pátios antes de a infantaria avançar.

Para exércitos europeus mais pequenos, sujeitos a orçamentos apertados e desafios de recrutamento, uma frota de UGVs multiuso também promete aumentar o poder de combate sem expandir drasticamente o número de efetivos.

Controlo humano, velocidade de máquina

A expressão “autonomia supervisionada” está a tornar-se central nos debates sobre IA militar, e o Hector é um exemplo de manual do que isso pode significar na prática.

O sistema não toma sozinho decisões de vida ou morte; em vez disso, executa tarefas de condução e navegação à velocidade da máquina, enquanto os humanos mantêm poder de veto.

Em termos práticos, um operador pode ordenar ao veículo que se desloque até um edifício, evite determinadas áreas e pare se detetar obstáculos ou sinais inesperados. O UGV planeia então a rota, ajusta a velocidade ao terreno e mantém-se estável, evitando valas ou escombros.

Esta combinação de julgamento humano e capacidade de resposta da máquina destina-se a reduzir a carga de trabalho do operador. Em vez de “conduzir com um joystick” durante horas, os soldados podem gerir vários veículos em simultâneo, intervindo apenas quando o software assinala um problema.

Novos riscos, novas regras

A transição para sistemas terrestres autónomos traz novos desafios. As ligações de comunicação podem ser interferidas, pirateadas ou simplesmente bloqueadas por colinas e edifícios. O GPS nem sempre é fiável. Algoritmos treinados em campos de teste limpos podem interpretar mal campos de batalha desordenados.

Por isso, os ministérios da defesa europeus estão a dar tanta atenção a medidas de segurança como à capacidade bruta. Salvaguardas típicas para um sistema como o Hector podem incluir:

  • Ligações de controlo encriptadas com múltiplas redundâncias e modos de failover
  • Geocercas (geofencing) para impedir que o veículo saia de áreas aprovadas
  • Regras de “homem morto” (dead man) que param ou fazem regressar o UGV se o controlo for perdido
  • Separação rigorosa entre autonomia de navegação e quaisquer efeitos letais

Questões éticas e legais também pairam em segundo plano. Embora o Hector possa provavelmente alojar armas, os governos europeus mantêm-se cautelosos em relação a qualquer sistema percecionado como um robot assassino autónomo. A ênfase, pelo menos publicamente, continua em logística, reconhecimento e funções de apoio.

Como são realmente as “missões de alto ritmo”

Os planificadores militares falam frequentemente de operações de “alto ritmo”, mas no terreno isso traduz-se em dias longos, deslocações rápidas e pouco tempo para manutenção. A ARX Robotics apresenta o Hector como um cavalo de batalha para estas condições exigentes.

Imagine um agrupamento tático encarregado de garantir a segurança de várias aldeias em terreno difícil. Em vez de exaurir a infantaria obrigando-a a transportar cargas pesadas, unidades Hector fazem vaivém com munições, água e baterias para a frente. À noite, alguns UGVs reposicionam-se para vigiar cruzamentos-chave, enviando vídeo e dados de sensores para um posto de comando.

Ao partilhar o esforço físico e recolher informação continuamente, os UGVs permitem que as unidades humanas se mantenham mais frescas, se movam mais depressa e mudem de direção com menos aviso.

Essa é, pelo menos, a promessa. O verdadeiro teste virá quando sistemas como o Hector forem colocados nas mãos de unidades de linha regulares, e não apenas de equipas especializadas de ensaio.

Termos-chave que vale a pena esclarecer

O jargão em torno de sistemas como o Hector pode ser pouco convidativo, pelo que algumas definições rápidas ajudam:

  • UGV (unmanned ground vehicle) - veículo que opera em terra sem um condutor fisicamente a bordo.
  • Teleoperação - controlo remoto em que um humano conduz e comanda diretamente o veículo usando câmaras e sensores.
  • Autonomia supervisionada - a máquina trata de tarefas rotineiras como condução, enquanto um humano monitoriza e intervém em decisões complexas.
  • Tripulação opcional - o veículo pode ser conduzido por uma pessoa no interior ou operar sem tripulação, conforme a missão.

Estes conceitos estão agora a espalhar-se para além do meio militar. Empresas mineiras, serviços de emergência e agências de fronteira acompanham com interesse as mesmas tecnologias, desde camiões de transporte remoto a veículos bombeiros robóticos capazes de operar perto de derrames químicos.

Do campo de batalha ao uso civil

Muitas das capacidades integradas no Hector têm paralelos civis óbvios. Um veículo modular, robusto e semi-autónomo, que pode ser teleoperado ou conduzido por um motorista, poderia ser usado na resposta a catástrofes, apoio a incêndios florestais ou operações em áreas contaminadas por acidentes industriais.

Ao mesmo tempo, os riscos não são exclusivamente militares. Qualquer sistema que dependa fortemente de conectividade e software é vulnerável a ciberataques, spoofing ou simples bugs de software. É provável que isso mantenha reguladores e engenheiros ocupados durante anos, à medida que os robots terrestres se tornam mais comuns tanto nos campos de batalha como nas ruas das cidades.

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