As fotografias parecem perfeitas.
Toda a gente sorri à volta do bolo de aniversário, os telemóveis estão no ar, alguém está a filmar “para mais tarde recordar”.
Mas, enquanto a sala rebenta em gargalhadas, tu sentes-te estranhamente… vazio.
Como se estivesses a ver um filme da tua própria vida a partir da última fila.
Mais tarde, a deslizar pelas fotografias, vês-te a ti: perto da tua família, do/a companheiro/a ou dos amigos. E, no entanto, lembraste de estar ali a pensar: “Porque é que não estou a sentir nada agora?”
Não és frio/a. Não és ingrato/a. Simplesmente não estás totalmente presente.
E esse fosso entre aquilo que “deverias” sentir e aquilo que realmente sentes pode magoar, em silêncio.
Perguntas-te: o que é que isto diz sobre mim - eu sentir-me emocionalmente distante precisamente nos momentos que supostamente mais importam?
Quando os grandes momentos parecem estranhamente distantes
Os psicólogos veem isto muitas vezes: pessoas com vidas perfeitamente normais que se sentem estranhamente desligadas precisamente quando a vida está a tentar ser bonita.
O brinde do casamento em que estás em piloto automático. A cerimónia de graduação em que estás a fazer contas ao tempo de estacionamento. O reencontro tão aguardado que parece assistir a estranhos a abraçarem-se.
Por dentro, há esta mistura estranha de culpa e confusão. Sabes que isto é “importante”. Queres deixar-te levar.
Mas as emoções ficam em silêncio - como se alguém tivesse baixado o volume sem te pedir autorização.
Esse fosso pode sussurrar, discretamente: talvez haja algo de errado contigo.
Pensa na Emma, 32 anos.
Durante anos sonhou ser mãe. Quando finalmente pegou no bebé no hospital, toda a gente à sua volta chorou. Ela sorriu para as fotografias, disse as palavras certas, mas por dentro sentiu-se… plana.
Uma semana depois, a percorrer as redes sociais, viu outras mães a escrever sobre um “amor avassalador”.
O primeiro pensamento não foi alegria. Foi medo: “Porque é que eu não sinto isso? Estarei avariada?”
Muitas pessoas relatam algo semelhante em casamentos, novos empregos, aniversários de relação ou até viagens muito esperadas.
O momento chega, mas o sentimento não acompanha o guião.
E esse desencontro pode doer mais do que a própria distância.
A psicologia tem um nome para uma parte disto: distanciamento emocional ou afeto embotado.
Às vezes é um sintoma de ansiedade ou depressão. Outras vezes é uma defesa que a tua mente construiu há anos, quando sentir profundamente não era seguro.
Quando se esperam emoções fortes, o teu sistema nervoso pode travar, discretamente.
Os grandes momentos trazem pressão: “Isto tem de ser perfeito, tenho de me sentir feliz, isto tem de ficar para sempre.” Sob essa pressão, a mente pode passar de sentir para gerir.
Assim, em vez de absorveres o momento, passas a monitorizá-lo.
Verificas se toda a gente está bem, se o plano está a correr, se pareces suficientemente convincente.
E quanto mais monitorizas, mais longe te sentes da tua própria vida.
Como te aproximares, com gentileza, da tua própria vida
Uma prática simples ajuda muitas pessoas: dar nome a um detalhe pequeno e concreto, em tempo real.
Não “Este é o dia do meu casamento”, mas “As minhas mãos estão a tremer neste copo.”
Não “Este é o aniversário do meu pai”, mas “A gargalhada dele soa um pouco mais cansada este ano.”
Isto não é gratidão forçada. É ancoragem sensorial.
Ao descreveres um pedaço minúsculo do momento, convidas o cérebro a regressar ao corpo.
Podes até sussurrar por dentro:
“A luz na toalha da mesa está suave.”
“O café cheira a queimado, mas é reconfortante.”
Só um detalhe de cada vez. Basta.
Um erro comum é tentar “resolver” a distância emocional fazendo mais força.
Dizes a ti próprio/a: “Vá lá, sente alguma coisa, isto é importante, o que se passa contigo?” Essa pressão interior raramente resulta. Normalmente aumenta o entorpecimento e acrescenta vergonha por cima.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que estás meio a representar para os outros e meio a julgar-te por dentro.
Em vez disso, tenta aproximar-te dessa distância com curiosidade, não com acusação.
Pergunta: “Quando é que comecei a sentir-me distante em momentos grandes?”
“Será que me sinto mais presente no dia a dia, nos momentos calmos?”
Às vezes, a tua vida emocional mais verdadeira aparece em cenas pequenas, não no palco grande.
Outro passo gentil é falar sobre isto com alguém em quem confies - ou com um/a terapeuta, se puderes.
Pôr palavras na experiência tira-a da zona do “segredo estranho” e leva-a para a zona do “coisa humana partilhada”.
“A distância emocional é muitas vezes um sinal de proteção, não de falha”, dizem muitos terapeutas informados sobre trauma, de diferentes formas.
A tua mente aprendeu, há muito tempo, que sentir demais te podia esmagar.
Não esqueceu essa lição só porque o calendário disse “Dia feliz”.
- Repara: identifica o momento em que percebes que estás longe.
- Pára: faz uma respiração lenta, pés no chão, sem autojulgamento.
- Descreve: nomeia um pequeno detalhe da cena ou do teu corpo.
- Partilha: mais tarde, diz a alguém de confiança como foi esse momento.
- Explora: se isto for frequente ou doloroso, considera apoio profissional.
A mensagem escondida por trás da tua distância emocional
Sentires-te emocionalmente distante durante momentos significativos não significa automaticamente algo terrível.
Às vezes aponta para exaustão: tens andado a segurar tanta coisa que, quando chega um momento “grande”, já não te sobra nada com que o sentir.
Às vezes revela que o momento é mais para os outros do que para ti.
A festa perfeita para a fotografia, a meta de carreira que “deverias” querer, o aniversário de relação que fica bem online mas, de perto, parece raso.
Sejamos honestos: ninguém vive dentro de um carrossel constante de melhores momentos, por mais que o feed sugira.
A distância emocional pode ser o teu eu interior a dizer, baixinho: “Isto não está tão alinhado comigo quanto parece.”
Há também uma camada mais profunda.
Se cresceste num ambiente onde sentimentos intensos eram gozado, castigado ou ignorado, podes ter aprendido a desligá-los para sobreviver.
Então, quando a vida te traz agora um grande momento, as definições antigas continuam a correr em segundo plano.
O teu sistema diz: “Isto é demais, vamos manter-nos seguros e distantes.”
Não estás defeituoso/a.
Estás a funcionar com uma cablagem de proteção que, em tempos, te ajudou. Parte da vida adulta é atualizar essa cablagem com gentileza - para poderes sentir mais sem te afogares nisso.
Numa perspetiva psicológica, essa distância é menos uma sentença e mais um sinal.
Diz: há algo neste momento - ou na tua história - que precisa de atenção.
Talvez precises de descanso, não de mais uma atuação.
Talvez anseies por ligação honesta em vez de eventos perfeitos.
Talvez as tuas defesas antigas precisem de ferramentas novas: exercícios de grounding, terapia, ou simplesmente mais espaço para sentimentos calmos, sem fotografia.
Não tens de te obrigar a chorar, a rir alto, ou a sentir exatamente aquilo que o guião exige.
Só tens de manter a curiosidade sobre o que a tua distância está a tentar proteger.
E, lentamente, à medida que a segurança cresce, a presença tende a vir atrás.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o/a leitor/a |
|---|---|---|
| A distância emocional é uma proteção | Muitas vezes enraizada em sobrecarga passada, ansiedade ou desligamento aprendido | Reduz a vergonha e abre a porta à autocompaixão em vez da autoculpa |
| Um pequeno foco sensorial pode ajudar | Reparar num detalhe concreto traz-te de volta ao momento presente | Dá uma ferramenta fácil e prática para te sentires um pouco mais ligado/a durante grandes eventos |
| Falar sobre isto muda a narrativa | Partilhar com pessoas de confiança ou com um/a terapeuta normaliza a experiência | Transforma um sentimento solitário de “o que se passa comigo?” num tema partilhado e trabalhável |
FAQ:
- Porque é que me sinto entorpecido/a em eventos felizes? Muitas vezes porque o teu sistema nervoso está sobrecarregado, cansado ou habituado a proteger-te de emoções fortes - até das positivas.
- Isto significa que tenho depressão? Nem sempre, mas o entorpecimento emocional recorrente pode ser um sinal de depressão ou ansiedade, por isso vale a pena procurar uma opinião profissional.
- A distância emocional pode ser uma resposta a trauma? Sim; pessoas que viveram stress crónico ou trauma muitas vezes aprendem a desligar-se dos sentimentos para conseguir lidar.
- Como posso sentir-me mais presente em momentos importantes? Pratica grounding: respiração lenta, reparar num detalhe sensorial e largar o autojulgamento no momento.
- Há algo de errado comigo se eu não chorar em grandes eventos da vida? Não. A expressão emocional varia muito; a distância é um sinal para explorar, não uma sentença sobre a tua capacidade de amar ou de te importares.
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