A primeira vez que a vi, achei-a bonita. Alta, elegante, com pequenas bagas roxas a brilhar ao sol do fim da tarde. Um vizinho tinha-me dado uma estaca, jurando que “ia preencher aquele canto do fundo num instante”. Nisso tinha razão. Em apenas uma estação, a planta explodiu, cobrindo um longo troço da vedação com um verde selvagem.
Depois vieram as cobras.
Ao início era só uma, a deslizar lentamente ao longo do rebordo de pedra. Depois outra, enrolada debaixo das folhas onde a terra se mantinha fresca e húmida. A meio do verão, deixei de permitir que as crianças brincassem perto daquele lado do quintal. Havia qualquer coisa naquela cena que não batia certo. Demasiado silenciosa. Demasiado viva.
Foi então que aprendi que há uma planta que muitos jardineiros adoram… e que muita gente do meio rural arranca às escondidas por uma razão.
A planta ornamental que se transforma num íman para cobras
A planta com má fama tem um nome bonito: pokeweed, também conhecida como pokeberry americana. Reconhece-se pelos caules verde-vivos que ficam avermelhados, pelas folhas grandes e por aqueles cachos pendentes de bagas brilhantes, entre o preto e o roxo. No Pinterest parece incrivelmente fotogénica. Num jardim real, pode transformar-se numa pequena selva em poucas semanas.
E essa selva viçosa, desarrumada, sempre húmida é exatamente o que as cobras adoram. Sombra, abrigo, insetos escondidos na cobertura do solo, pequenos roedores a roer bagas caídas: é um buffet completo. Não está a “chamar” cobras com algum cheiro mágico; está simplesmente a construir o bairro de sonho delas.
Pergunte a quem vive no campo e ouvirá a mesma história. Uma mulher na Geórgia plantou pokeweed “para os pássaros”, porque tinha lido que era ótima para a vida selvagem. Em agosto, começou a encontrar cobras-rato enroladas nas raízes e uma víbora-cabeça-de-cobre ao sol perto do matagal. No início, não fez a ligação. Afinal, a planta parecia inofensiva.
Até que um vizinho lhe disse, meio a rir, meio a sério: “Ah, isso? Nós arrancávamos isso em miúdos. O meu avô dizia sempre: ‘Se cultivas poke, cultivas cobras.’” Ela acabou por passar um fim de semana a cortar aquilo tudo, enchendo três sacos do lixo e encontrando peles de cobra recém-trocadas enredadas nos caules.
Do ponto de vista biológico, faz sentido. As cobras não se importam com a planta em si. Importam-se com o que a planta traz: esconderijos, solo mais fresco e um terreno de caça cheio de roedores e rãs que se alimentam de bagas caídas e insetos. A pokeweed cresce alta e densa, muitas vezes junto a vedações e muros - precisamente por onde as cobras gostam de circular.
As bagas atraem pássaros, as sementes germinam por todo o lado e a mancha engrossa ano após ano. Cada nova camada de crescimento acrescenta mais sombra e mais humidade na base. Isso é perfeito para répteis que tentam regular a temperatura enquanto se mantêm invisíveis. Um único tufo de pokeweed pode tornar-se um microecossistema completo onde as cobras se movem, se alimentam e descansam em silêncio.
Como manter o seu jardim bonito sem estender a passadeira vermelha às cobras
Se já detetou pokeweed no seu quintal, o primeiro passo é simples: retire-a, com raízes e tudo. Não se limite a cortá-la à superfície. Esta planta tem uma raiz principal forte que volta a rebrotar se ficar algum pedaço para trás. Use luvas - a seiva pode irritar a pele - e arranque quando o solo estiver ligeiramente húmido, para soltar mais facilmente.
Trabalhe devagar à volta da base, usando uma pá ou um garfo para levantar o núcleo da raiz em vez de cortar ao acaso. Depois de a retirar, ensaque-a em vez de a deitar no compostor. Essas bagas espalham-se a uma velocidade impressionante. Remover a planta não garante que as cobras desapareçam de um dia para o outro, mas elimina um dos esconderijos preferidos delas.
O segundo passo tem mais a ver com hábitos do que com heroísmos. Limpe vegetação espessa e rasteira onde nunca passa, pode a vegetação junto a muros e vedações e evite que um canto do jardim se transforme num amontoado verde esquecido. Todos já passámos por isso: promete-se a si mesmo que vai arrumar “aquele lado” no próximo fim de semana… e seis meses depois parece uma floresta.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Por isso, aponte para limpezas sazonais. O início da primavera e o fim do verão são boas alturas para percorrer o jardim com um saco do lixo, cortando e removendo plantas densas e baixas e montes de ramos onde roedores e cobras gostam de se esconder.
“As cobras não aparecem por magia por causa de uma planta amaldiçoada”, explica um paisagista rural com quem falei. “Elas deslocam-se para onde a comida e o abrigo são mais fáceis. Quando remove a pokeweed e a tralha densa ao nível do solo, não ‘mata’ cobras. Só lhes diz: ‘Este sítio não compensa, sigam caminho.’”
- Identifique a pokeweed cedo
Procure caules avermelhados, folhas grandes e cachos pendentes de bagas verdes que ficam roxo-escuro no fim do verão. - Ataque as “selvas” de sombra ao longo das vedações
As cobras usam esses corredores lineares como passagens seguras. Quebrar essa cobertura torna o seu jardim menos apelativo. - Limite fruta e sementes caídas
Bagas a apodrecer atraem roedores e insetos, que por sua vez atraem predadores, incluindo cobras. - Substitua por perenes mais “arrumadas”
Escolha plantas que cresçam mais verticais, sem formar tapetes densos, baixos e emaranhados ao nível do chão. - Percorra o jardim com regularidade
Uma caminhada de cinco minutos a cada poucos dias ajuda a detetar plantas indesejadas e esconderijos suspeitos antes de virarem hotéis para cobras.
Viver com a natureza… sem sentir que está a pisar ovos
Quando começa a prestar atenção, percebe como uma planta decorativa “inofensiva” pode mudar rapidamente a sensação de um jardim. Passa de manhãs descalço na relva para analisar cada sombra perto daquele canto coberto de mato. O ambiente muda. O jardim que queria para ter paz passa a deixá-lo tenso ao mínimo ruído.
Nem todas as cobras são perigosas e, em muitas regiões, até ajudam a controlar pragas. Ainda assim, ninguém gosta de surpreender uma a poucos passos da porta da cozinha. Remover a pokeweed e outros esconderijos densos e sombrios é uma forma de traçar uma linha. Está a dizer sim a pássaros, flores e borboletas - e não a transformar o seu quintal num resort para répteis.
Pode optar por manter uma zona mais “selvagem” no fundo do terreno, longe de caminhos e áreas de brincadeira, e manter o resto mais aberto e limpo. Ou pode decidir que tudo o que atrai cobras, mesmo indiretamente, não tem lugar perto de casa. De uma forma ou de outra, a pergunta é a mesma: que tipo de vida quer no seu jardim - e quão perto está disposto a partilhá-la com criaturas que se movem em silêncio, sob as folhas?
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Reconhecer a pokeweed | Planta alta com caules avermelhados e cachos de bagas roxo-escuras | Evitar plantar ou manter uma espécie que cria habitat ideal para cobras |
| Remover raiz e bagas | Arrancar a raiz principal e ensacar todo o material vegetal, sobretudo os frutos | Reduz o rebrote e limita a propagação que cria cobertura densa |
| Gerir a cobertura do jardim | Limpar vegetação espessa e sombria ao longo de vedações, muros e cantos | Diminui a probabilidade de cobras se instalarem perto de zonas de circulação e de brincadeira |
Perguntas frequentes (FAQ)
- A pokeweed atrai mesmo cobras diretamente?
Não de forma “mágica”. A planta cria sombra, humidade e alimento para roedores e insetos, que depois atraem cobras à procura de abrigo e presas.- A pokeweed é venenosa para humanos ou animais de estimação?
Sim, todas as partes da planta são tóxicas se ingeridas, especialmente as raízes e as bagas. Animais de estimação e crianças correm um risco particular, por isso é mais seguro removê-la perto de casas.- Remover a pokeweed elimina todas as cobras do meu jardim?
Não. As cobras podem continuar a passar, mas estará a reduzir um dos locais mais atrativos para se instalarem e caçarem - o que normalmente significa menos permanência a longo prazo.- Que plantas posso usar em alternativa que não atraiam tanto cobras?
Opte por perenes verticais, ervas aromáticas e flores que não criem cobertura densa ao nível do solo, como lavanda, alecrim, equinácea ou roseiras com o solo limpo na base.- Com que frequência devo limpar vegetação densa para evitar esconderijos de cobras?
Uma limpeza profunda duas vezes por ano, mais verificações mensais rápidas nos meses quentes, costuma ser suficiente para evitar que os cantos se transformem em refúgios densos e escondidos.
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