A primeira vez que vi alguém deitar uma colherada de bicarbonato de sódio no creme de olhos, achei que tinha perdido o juízo. Era uma noite de quinta-feira, o espelho da casa de banho embaciado, a minha amiga Léa inclinada demasiado perto do lavatório com um ar de cientista louca. Tinha olheiras inchadas depois de mais uma semana de e-mails até tarde e resmungava que se recusava a pagar 60 euros por “três gotas de sérum anti-olheiras”.
Cinco minutos depois, a pele dela parecia… inesperadamente mais lisa. Não ao estilo Photoshop. Mas as linhas finas pareciam mais suaves, as meias-luas arroxeadas sob os olhos ligeiramente esbatidas, quase como um filtro suave na vida real.
Fui para casa com as minhas dúvidas do costume, mas também com uma pequena pergunta presa na cabeça.
Será que aquele pó branco aborrecido, esquecido no fundo do armário, podia mesmo ser uma revolução silenciosa de beleza?
Porque é que o bicarbonato de sódio está, de repente, a aparecer nas rotinas de beleza
Basta fazer scroll no TikTok ou no Instagram durante mais de cinco minutos para tropeçar nisso: pessoas a misturar uma pitada de bicarbonato no gel de limpeza, a aplicar por baixo de olhos cansados, a juntá-lo ao mel como se fosse ouro líquido. A tendência parece um pouco caótica, mas a curiosidade é real.
Sempre mantivemos o bicarbonato de sódio ao lado do vinagre e dos produtos de limpeza. Agora está a migrar, com uma naturalidade desconcertante, para a prateleira da casa de banho, ao lado de séruns caros e rolos de jade. Essa mudança diz muito sobre o cansaço de pagar preços de luxo só para parecer menos exausto às segundas-feiras de manhã.
Uma dermatologista de Paris com quem falei disse-me que os pacientes agora levam capturas de ecrã de “receitas” caseiras de bicarbonato às consultas. Alguns contam-lhe que já tentaram de tudo para as olheiras: colheres frias, rodelas de pepino, pensos de cafeína, cremes para os olhos que custam quase uma renda.
Depois reparam que um ingrediente barato - o mesmo que usam para desodorizar o frigorífico - ilumina a zona sob os olhos após apenas algumas utilizações. Não é milagre, nem uma transformação de “menos dez anos”. Mas é uma mudança suficientemente visível para os fazer olhar duas vezes para o espelho enquanto lavam os dentes.
Por detrás do caos das redes sociais, há uma lógica simples. O bicarbonato de sódio é alcalino e ligeiramente abrasivo. Usado em quantidades minúsculas e por pouco tempo, pode esfoliar suavemente as células mortas que fazem com que as linhas finas e as olheiras pareçam mais duras e mais “gravadas” na pele.
Ao alisar a superfície e atenuar essa película baça e acinzentada, a luz reflete-se de forma diferente. As rugas parecem mais suaves, as sombras menos profundas e toda a zona abaixo dos olhos mais desperta. Não é pó mágico. É apenas química básica a encontrar a vaidade humana de uma forma muito acessível.
Como é que os especialistas de beleza usam, de facto, bicarbonato de sódio no rosto
Os profissionais que se atrevem a usar bicarbonato de sódio no rosto repetem todos o mesmo mantra: microdose e enxaguar rapidamente. O conselho mais comum é misturar uma pitada minúscula - estamos a falar da ponta de uma colher de chá, não de uma colher cheia - no seu gel de limpeza habitual, uma vez por semana. Massaje suavemente durante 20–30 segundos, mantendo-se bem longe da linha das pestanas, e depois enxague com bastante água morna.
Para rugas na testa ou à volta da boca, alguns terapeutas faciais fazem uma pasta com algumas gotas de água e aplicam-na como uma máscara durante um minuto, removendo depois com um disco de algodão húmido. A chave é sempre o tempo de contacto curto, não deixar atuar durante muito tempo.
No caso das olheiras, o método torna-se ainda mais delicado. Alguns especialistas sugerem misturar uma micro-pitada de bicarbonato num creme de olhos espesso, apenas uma vez a cada 10–15 dias, aplicando com a polpa macia do dedo anelar. Sem esfregar. Apenas leves toques, que estimulam a circulação enquanto a esfoliação suave ilumina a superfície.
Insistem em fazer primeiro um teste de sensibilidade numa pequena zona, no lado do pescoço ou atrás da orelha. É o passo que toda a gente adora saltar porque parece “exagero”, mas é a diferença entre um olhar mais fresco e um desastre vermelho e ardente.
O erro número um? Pensar “se um pouco funciona, muito vai funcionar melhor”. É assim que as pessoas acabam com a pele repuxada, a arder, e uma visita muito constrangedora ao dermatologista na segunda-feira de manhã. O bicarbonato não é um doce de skincare; é um pó alcalino forte que pode desregular a barreira cutânea se se entusiasmar demasiado.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Até os especialistas mais ousados limitam o uso do bicarbonato a um reforço ocasional e breve, não a uma rotina.
A dermatologista Dra. Émilie R. disse-me: “O bicarbonato de sódio pode ser uma ferramenta útil, mas apenas em doses muito pequenas e em pele saudável. Pense nele como um esfoliante que se trata com grande respeito. Se a pele picar, aquecer ou ficar muito vermelha, pare imediatamente. A beleza nunca deve doer.”
- Use quantidades mínimas - uma pitada, não uma colherada.
- Mantenha o tempo de contacto curto - menos de um minuto em zonas sensíveis.
- Aplique apenas em pele limpa e não irritada.
- Enxague muito bem e aplique depois um creme calmante.
- Pare ao primeiro sinal de ardor, vermelhidão intensa ou repuxamento prolongado.
A razão mais profunda pela qual este pó humilde está a ganhar fãs
Por detrás desta febre do bicarbonato esconde-se uma rebelião silenciosa. As pessoas estão cansadas de se sentirem encurraladas entre filtros, injetáveis e cremes caríssimos que prometem apagar o tempo. Um ingrediente humilde, de prateleira de cozinha, parece quase um pequeno ato de liberdade.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que o espelho da casa de banho parece implacável e o primeiro reflexo é abrir uma app de compras. Optar por uma caixa de pó de um euro em vez de um sérum de 90 euros muda um pouco a história. Diz: eu continuo a preocupar-me com o meu rosto, mas recuso-me a ser enganado.
Isto não significa que o bicarbonato seja a nova cura universal. Para alguns, será demasiado forte, demasiado secante, demasiado arriscado para a zona delicada dos olhos. Para outros, usado com sensatez e raramente, será apenas mais uma pequena ferramenta num arsenal que também inclui sono, hidratação, SPF e gentileza consigo próprio.
A verdadeira mudança talvez não esteja nas nossas rugas, mas na forma como falamos delas. Quando um produto tão banal como o bicarbonato entra na conversa sobre beleza, lembra-nos que o glamour nem sempre está escondido em frascos pesados de vidro. Às vezes está na maneira como experimentamos, partilhamos o que funciona, admitimos o que não funciona e aceitamos que parecer “menos cansado” pode ser suficiente.
Talvez seja por isso que este pó branco está, de repente, a ser protagonista nas histórias da casa de banho. É barato, um pouco imprevisível, ligeiramente imperfeito - tal como o resto das nossas vidas. Usado com cautela, pode suavizar uma linha fina aqui, iluminar uma sombra ali e oferecer uma pequena sensação de controlo sobre o rosto que o mundo vê numa videochamada às 8:30 da manhã.
A verdadeira questão não é se o bicarbonato apaga as suas rugas, mas que tipo de relação quer ter com o seu reflexo. Uma relação construída sobre medo e compras intermináveis, ou uma onde uma simples caixa da despensa às vezes se junta ao ritual e o lembra de que a sua pele tem o direito de ser real.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Bicarbonato de sódio como esfoliante suave | Usado com moderação, remove células mortas que acentuam rugas e olheiras | Ajuda a compreender porque este produto barato pode “suavizar” visivelmente traços cansados |
| Regras rigorosas de utilização | Quantidades mínimas, pouco tempo de contacto, enxaguar bem, não usar em pele irritada ou muito sensível | Reduz o risco de queimaduras ou danos na barreira cutânea, mantendo algum benefício da tendência |
| Mudança de mentalidade | De promessas caras para rituais de cuidado simples, experimentais e realistas | Incentiva uma relação mais saudável e menos pressionada com a beleza e o envelhecimento |
FAQ:
- O bicarbonato de sódio é seguro para a zona sob os olhos? Só em quantidades muito pequenas, muito ocasionalmente, e nunca em pele sensível ou já irritada. Muitos dermatologistas preferem evitar a aplicação direta sob os olhos.
- Com que frequência posso usar bicarbonato de sódio no rosto? A maioria dos especialistas que o aceita recomenda, no máximo, uma vez por semana - e menos frequentemente no contorno dos olhos, por exemplo a cada 10–15 dias.
- O bicarbonato de sódio pode remover completamente rugas ou olheiras? Não. Pode suavizar e iluminar ligeiramente, mas não altera a estrutura da pele nem a genética.
- O que devo fazer se a pele arder depois de usar bicarbonato de sódio? Enxague com muita água, interrompa o uso e aplique um creme calmante, sem perfume. Se a vermelhidão ou o ardor persistirem, consulte um dermatologista.
- Existem alternativas mais suaves ao bicarbonato para o mesmo efeito? Sim. Procure esfoliantes químicos suaves com baixa concentração de ácido láctico ou mandélico e cremes de olhos iluminadores com niacinamida ou cafeína.
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