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Passei a gostar mais deste prato quando deixei de pensar demasiado nele.

Pessoa segura um garfo de esparguete com salsa num prato branco, com azeite e limões ao fundo numa cozinha.

A primeira vez que vi alguém comer este prato sem hesitar, fiquei genuinamente confuso. Ele pegou simplesmente numa garfada meio desleixada, não perguntou o que havia no molho, não rearrumou nada e, simplesmente… comeu. Estávamos num restaurante pequeno e barulhento, daqueles em que as cadeiras abanam e as ementas são plastificadas de outra década. O meu prato era idêntico ao dele. O mesmo vapor. O mesmo cheiro. Os mesmos ingredientes. E, no entanto, eu estava ocupado a cortar tudo em pedaços perfeitos, a tentar identificar cada especiaria como um detetive numa cena de crime.

A meio, percebi que ele estava a sorrir e eu estava a pensar.

Nessa noite fui para casa de barriga cheia e com uma pergunta estranha presa na garganta.

Quando é que comer passou a ser um teste que eu tinha de passar?

Quando um prato simples se transforma num percurso de obstáculos mental

Há um prato que eu costumava complicar todas as vezes, sem falhar: massa com tomate cremosa. Daquelas que toda a gente pede sem pestanejar, a opção segura em qualquer ementa. Para mim, nunca era só massa. Eu desmontava-a mentalmente. O molho era demasiado pesado? O queijo era “de boa qualidade”? A dose “valia a pena”? Quando dava a primeira dentada, já tinha escrito cinco críticas internas e um ensaio sobre ética alimentar.

Entretanto, o prato arrefecia.

Eu não estava realmente a saborear nada; estava apenas a avaliá-lo na cabeça, como um júri de uma pessoa só.

O ponto de viragem veio numa terça-feira à noite, quando cheguei a casa exausto e cansado demais para cozinhar algo “à altura”. Deitei massa seca em água a ferver, abri um frasco de molho de tomate comprado, juntei um pouco de natas e sal, e disse para mim mesmo que “servia”. Quando me sentei para comer, o meu cérebro recomeçou: não é suficientemente saudável, não é suficientemente caseiro, não é suficientemente entusiasmante.

Depois reparei no absurdo. Tinha passado o dia inteiro a resolver problemas reais, a falar com pessoas reais, a lidar com prazos reais. E ali estava eu, a interrogar uma taça de massa como se me devesse uma explicação.

Então dei uma dentada distraída. Era… bom. Quente, macio, salgado na medida certa. Continuei a comer. O pensamento abrandou. Por um momento, deixei de ser um crítico e passei a ser apenas uma pessoa com um garfo.

Foi aí que fez clique: este prato tinha-se tornado um espelho da forma como eu abordo quase tudo. Se havia espaço para duvidar, eu preenchia-o. Se havia margem para julgamento, eu mudava-me para lá com caixas. Convenci-me de que analisar cada detalhe era sinal de padrões elevados. A verdade é que isso drenava a alegria dos prazeres mais banais.

Quando sobrecarregamos um ato simples com expectativas - saúde, significado, identidade, desempenho - o ato deixa de ser simples. Torna-se um teste de quem somos. E, quando a comida vira um questionário de personalidade, boa sorte a desfrutar do almoço.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Como deixei de pensar demais e comecei mesmo a saborear a comida

A primeira mudança prática foi embaraçosamente pequena: decidi que as primeiras três garfadas eram proibidas para o meu crítico interior. Sem análise nutricional. Sem adivinhar ingredientes. Sem “devia ter pedido outra coisa”. Apenas garfo, dentada, mastigar, engolir. Três vezes.

Parecia quase infantil. No entanto, essas primeiras garfadas tornaram-se um pequeno ritual. Uma pausa no comentário. Um momento para reparar no calor na língua, na textura da massa, na forma como o molho se agarrava a ela.

Depois dessas três garfadas, a urgência de julgar tudo já tinha amolecido. Eu já tinha sentido um pouco de prazer simples. E o cérebro, quando encontra prazer real, tende a acalmar um pouco.

A segunda coisa que fiz foi mudar a forma como servia. Antes, eu tratava este prato como algo que precisava de melhorias. Amontoava toppings extra, rearrumava tudo na taça, transformava o jantar num pequeno estaleiro. Por isso, experimentei o contrário: taça mais pequena, porção normal, sem “embelezar” o prato, sem instintos de “criação de conteúdo”. Só comida, não um projeto.

Sentei-me sem o telemóvel. Sem fotografias, sem notas, sem receitas para “melhorar da próxima vez”. Deixei o prato ser básico, até um pouco aborrecido.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que um jantar de semana, de repente, tem de preencher todas as caixas do bem-estar, desempenho e estética. Largar essa pressão soube estranhamente a… respeito. Pela comida e por mim.

Depois ataquei uma das partes mais difíceis: o ruído de fundo do julgamento moral. Isto é “bom” ou “mau”? Demasiados hidratos? Proteína suficiente? Comer tarde? Todo esse debate interno. Não o silenciei à força, porque isso nunca funciona muito bem. Apenas lhe dei um novo papel.

Sempre que a crítica aparecia, eu respondia mentalmente com uma frase simples: Neste momento, o meu único trabalho é desfrutar deste prato à minha frente.

Não é consertar a minha vida, nem redimir as minhas escolhas, nem otimizar o meu corpo. É só comer. Essa frase cortou muita desordem mental. Lembrou-me que este prato não era uma tese. Era o jantar.

A pequena mudança de mentalidade que muda a refeição inteira

Um método que mais me ajudou foi dar nome ao que eu estava a fazer. Antes de pegar no garfo, pensava baixinho: “Hoje isto é comida de conforto” ou “Hoje isto é combustível” ou “Isto é curiosidade, estou só a experimentar.” Dar ao prato um papel significava que eu não precisava que ele fosse tudo ao mesmo tempo.

Se a massa com tomate cremosa era “conforto”, eu podia parar de perguntar se era a escolha mais saudável. Se era “combustível”, focava-me no facto de me dar energia, não em saber se parecia uma taça do Instagram. Essa etiqueta minúscula suavizava a vontade de fazer um interrogatório a cada garfada.

Uma vez definido o papel, o meu cérebro relaxava. O prato não tinha de carregar a minha autoestima às costas.

Outra mudança foi permitir a imperfeição sem drama. Às vezes o molho ficava salgado demais, às vezes a massa passava do ponto, às vezes eu punha natas a mais. Nessas noites, o “eu” antigo entrava em espiral: “Como é que nem comida simples consigo fazer bem?” O “eu” novo encolhia os ombros e pensava: “Não foi o meu melhor, mas continua a ser jantar.”

Esse pequeno espaço entre “isto não está perfeito” e “isto é um fracasso” é onde vive o prazer. Muitas vezes achamos que o prazer precisa de condições ideais: o humor certo, o prato certo, a companhia certa, os macros certos. A maioria das noites é mais confusa do que isso.

Quanto mais eu deixava o prato ser “mais ou menos”, mais vezes ele acabava por saber mesmo bem.

Também mudou outra coisa: as conversas à mesa. Em vez de falar do prato como um projeto - “da próxima vez uso manjericão fresco, talvez umas natas diferentes, viste aquela receita?” - comecei a fazer perguntas simples e diretas. “Gostas?” “Qual é a tua parte preferida?” “Isto sabe-te mais a casa ou a restaurante?”

Essas perguntas puxavam o foco de volta para a experiência, não para o desempenho. Um amigo disse-me uma vez, com a boca meio cheia:

“É engraçado, a massa sabe melhor quando deixamos de tentar torná-la significativa e simplesmente comemos.”

Essa frase ficou comigo.

Com o tempo, fui juntando alguns lembretes silenciosos:

  • A comida não é um teste de personalidade.
  • O prazer conta como um resultado válido.
  • Nem todos os pratos têm de ser a melhor versão de si mesmos.
  • As competências na cozinha crescem mais depressa quando não estás tenso.
  • Algumas refeições são para serem fáceis, não impressionantes.

Cada um ajudou-me a sentar à mesa com menos armadura e mais apetite.

Deixar o prato ser “apenas jantar” muda mais do que o que está no prato

Quando parei de pensar demais naquela taça de massa com tomate cremosa, algo subtil mudou no resto da minha vida. Reparei com que frequência eu transformava pequenos momentos em maratonas mentais. Um café tinha de ser a escolha “certa”. Um passeio tinha de ser produtivo. Uma noite tranquila tinha de ser maximizada.

Deixar um prato ser “apenas jantar” tornou-se prática para deixar outras coisas serem “apenas aquilo que são”. Uma refeição, não um veredito. Uma noite de terça-feira, não um teste.

O prato não mudou. Os mesmos ingredientes, o mesmo frasco preguiçoso de molho, a mesma frigideira. O que mudou foi a história que eu embrulhava à volta dele.

A verdadeira surpresa é esta: quando a pressão caiu, eu até comecei a cozinhá-lo melhor. Com menos tensão, eu conseguia reparar no que o prato precisava - um toque mais de sal, mais um minuto a apurar, um punhado de ervas quando as tinha por perto. Não por obsessão, mas por familiaridade.

O prazer tornou-me mais atento, não menos.

Agora, sempre que enrolo o garfo naquele molho laranja-avermelhado familiar, lembro-me de que o meu cérebro está convidado, mas não manda. O prato não pede uma crítica. Apenas um lugar à mesa, um pouco de fome e uma decisão simples.

Comer, sem transformar o momento numa performance.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Largar o comentário mental nas primeiras garfadas Dá a ti próprio três garfadas silenciosas focadas apenas no sabor e na textura Ajuda a reconectar com o prazer básico antes de o julgamento entrar
Dar ao prato um “papel” simples Decide se é conforto, combustível, curiosidade ou celebração antes de comer Reduz a pressão para uma refeição cumprir todas as expectativas ao mesmo tempo
Aceitar refeições “mais ou menos” Aceita resultados imperfeitos sem os transformar em falha pessoal Cria espaço para desfrutar com calma e para o crescimento natural de competências

FAQ:

  • Pergunta 1: Como é que “pensar demais num prato” se manifesta no dia a dia?
  • Resposta 1: É quando passas mais tempo a analisar o prato do que a comê-lo: julgar os ingredientes, compará-lo com versões “melhores”, preocupar-te se foi a escolha certa, ou ligá-lo à tua identidade ou força de vontade. A refeição vira uma performance mental em vez de uma experiência simples.
  • Pergunta 2: Posso desfrutar da comida sem ignorar completamente a saúde?
  • Resposta 2: Sim. Pensa em equilíbrio ao longo do tempo, não em perfeição em cada refeição. Deixa alguns pratos ser sobretudo sobre nutrição e deixa outros ser sobre conforto ou prazer. Quando um prato não tem de fazer tudo, é mais fácil desfrutá-lo e ainda assim cuidar dos teus hábitos gerais.
  • Pergunta 3: E se o meu pensar demais vem de ansiedade em relação à comida?
  • Resposta 3: Se a comida é uma fonte constante de stress ou culpa, pequenas mudanças de mentalidade podem ajudar, mas não substituem apoio real. Falar com um terapeuta ou com um nutricionista (dietista) credenciado que compreenda comportamentos alimentares pode dar-te ferramentas ajustadas à tua história, não apenas dicas genéricas.
  • Pergunta 4: Como lido com comentários de outras pessoas sobre o que estou a comer?
  • Resposta 4: Experimenta respostas curtas e neutras: “Hoje isto funciona para mim”, “Apeteceu-me isto”, ou “Estou só a desfrutar do meu prato.” Redireciona a conversa para o sabor ou para memórias partilhadas, em vez de justificações. Não deves a ninguém uma explicação completa sobre o teu jantar.
  • Pergunta 5: E se eu genuinamente não gostar do prato quando paro de pensar demais?
  • Resposta 5: Então isso é informação útil, não uma falha. Tens o direito de dizer “Isto não é o meu favorito” sem drama. O objetivo não é forçar-te a adorar todas as refeições, mas sim vivê-las com honestidade - sem o peso extra do julgamento por cima.

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