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Estes são os dois períodos em que é mais difícil encontrar o amor.

Pessoa a usar telemóvel com calendário aberto numa mesa, ao lado de caderno, mala, anel e outra pessoa a dobrar tecido.

From prazos de fertilidade a ninhos vazios, a nossa relação com o amor muda a cada década. Ainda assim, os psicólogos apontam para duas idades muito específicas em que procurar um/a parceiro/a tende a parecer especialmente difícil: por volta dos 30 e depois dos 50.

Porque é que, por volta dos 30, o amor de repente parece urgente

Para muitas pessoas, o início dos 30 chega com uma estranha sensação dupla. No papel, a vida parece estável. Por dentro, cresce um pânico de “estar atrasado/a”.

A psiquiatra Marine Colombel, que trabalha temas de vinculação e autoestima, observa que fazer 30 anos muitas vezes desencadeia um aumento acentuado da pressão, tanto da família como da sociedade. Perguntas como “Então, quando é a tua vez?” ou “Bebés à vista?” deixam de ser brincadeiras e começam a soar como sentenças.

Aos 30, a procura do amor já não parece um jogo; pode parecer uma corrida que já estás a perder.

A lista de verificação invisível dos teus primeiros 30

As expectativas sociais desempenham um papel fundamental na razão pela qual esta idade pesa tanto. Mesmo que ninguém o diga em voz alta, existe uma lista mental contra a qual muitas pessoas sentem que estão a ser avaliadas:

  • Estar numa relação “séria”
  • Viver junto ou, pelo menos, falar disso
  • Pensar em ter filhos “antes que seja tarde”
  • Mostrar que estás “assentado/a” como os teus pares

Fazer scroll nas redes sociais ainda alimenta mais o fogo. Fotografias de noivado, álbuns de casamento e festas de revelação de género podem criar a impressão de que toda a gente está a avançar enquanto tu ficas preso/a na linha de partida.

Colombel nota que este efeito de comparação pode ser brutal. Quando os amigos se juntam em casal, a vida social reorganiza-se silenciosamente em torno de casais e famílias jovens. Os fins de semana fora transformam-se em encontros para as crianças. As saídas à noite encolhem. Pessoas solteiras nos 30 falam muitas vezes de se sentirem a “cadeira a mais” nos jantares, ou aquela pessoa que fica no sofá-cama numa casa cheia de casais.

A contagem decrescente da fertilidade e a carga mental

Para muitas mulheres, a biologia intensifica a pressão. A conversa sobre fertilidade após os 35 tornou-se mais visível, mas essa visibilidade traz a sua própria ansiedade. Mesmo quem não tem a certeza sobre a maternidade pode sentir-se perseguida pelo tempo, o que pode distorcer a forma como namora.

Quanto mais urgente é o desejo de ter um filho ou um/a parceiro/a de longo prazo, mais fácil se torna duvidar de cada escolha e de cada separação.

Algumas pessoas mantêm-se em relações que já não lhes servem, simplesmente por medo de recomeçar aos 33 ou 34. Outras fazem swipe freneticamente nas apps de encontros, exaustas pela avaliação constante: “Esta pessoa daria um bom pai/uma boa mãe? Estamos a perder o tempo um do outro?”

Esta carga mental faz a procura do amor parecer gestão de projecto, em vez de ligação. O risco é claro: namorar deixa de ser um espaço de curiosidade e passa a ser um exame que continuas a reprovar.

Depois dos 50: quando a reconstrução encontra o romance

Se os primeiros 30 são marcados por antecipação e prazos, os anos depois dos 50 trazem muitas vezes um arco narrativo diferente: perda, mudança e reinvenção.

Colombel aponta três gatilhos frequentes nesta fase da vida: divórcio, luto e a saída dos filhos já adultos. Cada um deles remodela rotinas diárias, finanças, identidade e redes sociais.

Depois dos 50, a pergunta é menos “Alguma vez vou encontrar amor?” e mais “Consigo recomeçar depois de tudo o que aconteceu?”

Luto, culpa e o medo de “substituir” alguém

Para quem perdeu um/a companheiro/a de longa data, o trabalho emocional necessário antes de voltar a namorar é complexo. Há luto pela pessoa, mas também luto pela vida partilhada, pelas memórias conjuntas e pelos planos futuros que nunca existirão.

Colombel sublinha um tipo específico de culpa: a sensação de traição que pode surgir ao pensar numa nova relação. Até a ideia de flirtar pode parecer um acto de deslealdade. Amigos e família, tentando ser gentis, por vezes pioram isto com comentários desajeitados como “Nunca vais encontrar alguém como ele/ela”, o que sugere silenciosamente que qualquer novo/a parceiro/a ficará sempre em segundo plano.

Além disso, viúvas e viúvos preocupam-se muitas vezes com o julgamento por seguirem em frente “demasiado cedo” ou “demasiado tarde”. Este dilema pode deixar as pessoas paralisadas.

O corpo, o envelhecimento e a coragem de voltar a ser visto/a

Aos 50, quase toda a gente carrega algumas cicatrizes físicas ou psicológicas: rugas, problemas de saúde, mudanças de peso, marcas cirúrgicas, sintomas da menopausa, diminuição da libido, historial de depressão ou burnout.

Numa cultura que idolatra a juventude, aparecer num encontro com esta realidade pode parecer uma exposição. Colombel observa que as mudanças na autoimagem tendem a intensificar-se nesta idade. As pessoas dizem sentir-se “invisíveis” ou “fora do prazo de validade”, uma linguagem que corrói discretamente a confiança.

Voltar ao mundo dos encontros aos 50 não significa apenas conhecer alguém novo; significa aceitar o teu próprio reflexo, a tua história e os teus limites de uma forma renovada.

Há também um elemento prático: menos oportunidades sociais espontâneas. Sair à noite para discotecas já não atrai da mesma forma, os colegas são frequentemente casados, os círculos de amizade podem ser mais pequenos e as responsabilidades de cuidar de pais envelhecidos podem reduzir o tempo livre.

A lacuna nos media: histórias de amor que param aos 40

Filmes românticos e séries de televisão focam-se muitas vezes em pessoas nos 20 e nos 30. Paixão, primeiras casas, primeiras grandes separações: são cenas que vemos repetidamente. Narrativas de amor a florescer depois dos 50 continuam raras.

Colombel sublinha que esta falta de representação não é neutra. Se raramente vemos histórias de amor frescas e felizes com personagens mais velhas, torna-se mais fácil acreditar que o desejo e a vinculação se esbatem naturalmente com a idade, quando a investigação mostra que a intimidade emocional pode, na verdade, aprofundar-se.

Fase da vida Desafio típico Pergunta emocional-chave
Por volta dos 30 Pressão social, medos sobre fertilidade, comparação com pares “Será que cheguei tarde demais para construir a vida que quero?”
Depois dos 50 Luto, divórcio, mudanças no corpo, menos oportunidades sociais “Ouso recomeçar, sabendo tudo o que já vivi?”

Formas práticas de namorar com mais calma aos 30 e aos 50+

Embora os obstáculos nestas idades sejam reais, Colombel enfatiza que não são sentenças definitivas. Algumas atitudes tendem a fazer diferença.

Para quem está por volta dos 30

  • Separar a tua linha temporal da dos outros: notar inveja ou vergonha quando amigos “assentam” é um sinal para perguntares o que tu realmente queres, e não o que “deverias” querer.
  • Reduzir o ciclo de pânico sobre fertilidade: falar com um/a médico/a sobre dados reais de fertilidade ou opções como a congelação de óvulos pode substituir o medo vago por informação clara.
  • Namorar por compatibilidade, não apenas por rapidez: escolher alguém sobretudo para “acompanhar o ritmo” pode levar a separações que mais tarde se sentem ainda mais devastadoras.

Para quem tem mais de 50

  • Permitir que luto e desejo coexistam: sentir falta de um/a companheiro/a falecido/a não anula o direito de procurar afecto e ligação.
  • Aceitar novas formas de intimidade: relações nesta idade podem focar-se menos em construir família e mais em companhia, interesses partilhados ou viagens.
  • Usar espaços direccionados: clubes, voluntariado, grupos de interesse e plataformas de encontros específicas por idade aumentam a probabilidade de conhecer pessoas com ritmos de vida semelhantes.

Ideias-chave por trás da dificuldade em encontrar amor

Dois conceitos aparecem frequentemente em sessões de terapia nestas idades: comparação social e guiões de vida. A comparação social é o hábito de medir o próprio valor em relação aos pares. Os guiões de vida são histórias internas sobre como a vida “deveria” desenrolar-se: formar-se, juntar-se em casal, comprar casa, ter filhos, reformar-se como avô/avó, e por aí fora.

Quando a vida real se desvia desse guião - estar solteiro/a aos 32, divorciado/a aos 53, sem filhos por escolha ou por circunstância - as pessoas podem sentir como se tivessem falhado um exame que ninguém explicou claramente. Questionar o guião não muda os factos, mas suaviza a vergonha associada a eles.

Imagina duas cenas. Uma pessoa de 31 anos, a última solteira do grupo, a aguentar um baby shower com um sorriso educado. Um viúvo de 57 anos, a registar-se numa app de encontros pela primeira vez e a apagar o perfil duas vezes antes de enviar uma única mensagem. Ambos carregam o mesmo medo silencioso: “Talvez o amor já não seja para mim.”

A visão de Colombel contraria esse medo. Ela destaca que maturidade emocional, limites mais claros e melhor autoconhecimento - que muitas vezes chegam com a idade - podem tornar as relações formadas aos 30 ou depois dos 50 mais profundas e estáveis do que as do início da vida adulta, desde que as pessoas se deem permissão para tentar novamente.

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