A Alemanha está a aumentar a pressão sobre a Bélgica para que apoie um plano controverso de utilização de ativos estatais russos congelados para o esforço de guerra da Ucrânia, transformando um diferendo técnico-financeiro num dos debates politicamente mais carregados da União Europeia este ano.
Berlim defende um uso mais duro dos fundos russos
O chanceler alemão, Friedrich Merz, disse na sexta-feira que está a instar ativamente a Bélgica a chegar a um acordo com a UE para recorrer a ativos imobilizados do banco central russo, a fim de apoiar Kyiv. Falando numa conferência de imprensa conjunta com o primeiro‑ministro esloveno, Robert Golob, Merz enquadrou o tema como parte de um esforço mais amplo para apertar o estrangulamento financeiro sobre Moscovo.
Merz argumentou que a utilização de ativos russos congelados é “um instrumento apropriado” para ajudar a pôr fim à guerra, aumentando a pressão sobre o Kremlin.
A Alemanha alinhou-se com os planos da Comissão Europeia para canalizar as receitas provenientes das reservas do banco central russo para um grande pacote de empréstimos à Ucrânia. A proposta visa angariar cerca de 140 mil milhões de euros (119 mil milhões de libras) para cobrir lacunas iminentes no orçamento de Kyiv, à medida que a guerra se prolonga por mais um ano.
No entanto, transformar esse plano em realidade exige o consentimento dos Estados‑Membros - e a hesitação da Bélgica está agora no centro do debate.
Porque é que a Bélgica está a recuar
O governo belga não está a contestar a ideia de apoiar a Ucrânia. A sua preocupação é onde se encontra fisicamente a maior parte do dinheiro congelado: na Euroclear, gigante de títulos sediado em Bruxelas e um nó crítico do sistema financeiro global.
De um total de cerca de 235 mil milhões de euros em ativos imobilizados do banco central russo na UE, aproximadamente 210 mil milhões de euros estão detidos apenas na Euroclear. Essa concentração faz com que a Bélgica se sinta exposta caso Moscovo retalie.
Bruxelas teme que passar de simplesmente congelar ativos russos para usar ativamente as suas receitas possa desencadear desafios jurídicos severos e potenciais contramedidas por parte da Rússia.
As autoridades belgas receiam vários cenários:
- Ações judiciais russas em tribunais internacionais contra a Euroclear e o Estado belga
- Apreensões retaliatórias de ativos europeus ainda localizados na Rússia
- Danos na reputação da Euroclear enquanto intermediário financeiro neutro
- Incerteza de longo prazo para investidores globais que dependem da segurança das câmaras de compensação sediadas na UE
A Euroclear já tem estado na mira da Rússia. Moscovo fez ameaças repetidas dirigidas a instituições ocidentais que detêm fundos russos, avisando de “consequências” caso esses ativos sejam desviados para a Ucrânia.
Merz: os receios jurídicos não devem bloquear a determinação política
Merz reconheceu que considera legítima a preocupação do primeiro‑ministro belga, Bart De Wever, mas insistiu que a responsabilidade política deve prevalecer sobre a hesitação. Disse estar em contacto direto com De Wever para encontrar um compromisso.
“Estamos a procurar uma solução conjunta com o Estado belga e também com a Euroclear”, disse Merz, apelando ao “consenso mais amplo possível” entre os países da UE.
O chanceler alemão desvalorizou as ameaças russas como, em grande medida, performativas, descrevendo-as como um “ritual repetido” que não deveria descarrilar a tomada de decisão europeia. A sua mensagem sugere que Berlim está preparada para aceitar um risco jurídico mais elevado se isso significar que Moscovo suportará uma maior parte do peso financeiro da sua invasão.
Para a Alemanha, o debate sobre os ativos congelados encaixa numa estratégia mais ampla: combinar a continuação da ajuda militar a Kyiv com pressão financeira e económica sobre a Rússia, em vez de depender apenas de sanções que já estão em vigor há quase dois anos.
O plano da UE de 140 mil milhões de euros para a Ucrânia
O plano da Comissão Europeia assenta numa abordagem jurídica relativamente cautelosa. Em vez de confiscar diretamente o principal dos depósitos russos, o plano utilizaria os juros e os lucros gerados por esses ativos como garantia ou fonte de rendimento para um grande empréstimo à Ucrânia.
| Item | Valor aproximado |
|---|---|
| Total de ativos do banco central russo congelados na UE | 235 mil milhões de euros |
| Ativos detidos na Euroclear, na Bélgica | 210 mil milhões de euros |
| Pacote de empréstimos planeado pela UE para a Ucrânia | 140 mil milhões de euros |
As autoridades da UE argumentam que usar os lucros - e não o capital subjacente - se mantém mais próximo do direito internacional, ao mesmo tempo que proporciona um apoio significativo à Ucrânia. Ainda assim, mesmo este passo mais restrito arrisca ser retratado por Moscovo como roubo e pode estabelecer um precedente contestado nas finanças globais.
Os juristas por toda a Europa estão divididos. Alguns dizem que as ações do Estado russo na Ucrânia justificam medidas excecionais. Outros alertam que, se as reservas de bancos centrais puderem ser reaproveitadas politicamente, futuros regimes autoritários poderão hesitar em manter os seus fundos em jurisdições ocidentais.
O equilíbrio belga entre solidariedade e risco
A Bélgica enfrenta um cálculo delicado: demonstrar solidariedade com a Ucrânia e com os parceiros da UE, protegendo ao mesmo tempo um ativo nacional estratégico - a Euroclear. A câmara de compensação não é apenas mais um banco; é parte da “canalização” dos mercados globais, liquidando transações para governos, grandes bancos e investidores de grande dimensão em todo o mundo.
Se a Euroclear fosse arrastada para uma vaga de litígios ou para batalhas de sanções, a confiança na infraestrutura de mercado baseada na UE poderia sofrer. Os decisores belgas receiam consequências não intencionais, desde custos operacionais mais elevados a potenciais saídas de capital para centros financeiros não europeus.
Para a Bélgica, a questão não é se deve apoiar a Ucrânia, mas como fazê-lo sem transformar um polo financeiro num campo de batalha jurídico.
Os diplomatas belgas estão, por isso, a insistir em garantias jurídicas inatacáveis por parte da UE, responsabilidade partilhada entre os Estados‑Membros e limites claros sobre o que pode ser feito com os ativos russos.
Pressão crescente dentro da UE
O diferendo surge numa altura politicamente tensa. As finanças de Kyiv estão sob pressão à medida que a ajuda dos EUA fica enredada em disputas internas em Washington e cresce a fadiga entre alguns eleitores europeus. Os líderes da UE veem os ativos russos como uma das últimas grandes ferramentas ainda não exploradas para manter a Ucrânia à tona sem voltarem a recorrer aos seus próprios contribuintes.
A recente mudança da Alemanha para uma linha mais dura sob Merz elevou as expectativas de que outros grandes Estados da UE, como França e Itália, se alinhem com o plano da Comissão e isolem os reticentes. Estados mais pequenos da Europa Central e de Leste, que se sentem mais ameaçados pela Rússia, já apelaram a uma utilização agressiva dos fundos congelados.
Ainda assim, é necessária unanimidade em medidas financeiras-chave, o que significa que a Bélgica não pode simplesmente ser ultrapassada. A procura de um compromisso deverá centrar-se em quanto risco a UE, enquanto bloco, está disposta a garantir em nome da Bélgica.
Conceitos-chave por trás do confronto sobre ativos congelados
Dois termos jurídicos estão no centro do argumento: “congelamento” e “confisco”. Congelar significa que um governo bloqueia o acesso a ativos, mas a titularidade mantém-se inalterada. Confisco significa transferir a titularidade, normalmente para um Estado ou para um fundo designado.
Até agora, a UE limitou-se sobretudo a congelar ativos do Estado russo e de oligarcas. Avançar para o uso das receitas - ou mesmo do principal - aproxima a linha do confisco. É aí que as questões sobre direito internacional, direitos de propriedade e imunidade do Estado começam a intensificar-se.
Outro fator é o conceito de imunidade soberana, que tradicionalmente protege ativos estatais de serem apreendidos em tribunais estrangeiros. Alguns académicos do direito argumentam que a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia corrói essa proteção; outros dizem que a imunidade não deve ser redefinida sob pressão política.
Possíveis cenários se a UE avançar
Se a UE chegar a um acordo com a Bélgica e ativar o plano, é provável que se verifiquem vários resultados práticos:
- A Ucrânia ganha uma fonte de financiamento previsível, plurianual, para o seu orçamento e para planos de reconstrução.
- A Rússia intensifica a sua campanha jurídica e diplomática, talvez visando empresas europeias ainda ativas no seu mercado.
- Outros países observam de perto e reavaliam onde estacionam as reservas dos seus bancos centrais.
- Conflitos futuros poderão ver apelos para repetir a mesma ferramenta, tornando as reservas congeladas num instrumento de pressão mais rotineiro.
Se a Bélgica continuar a resistir, o bloco terá de recorrer a opções de contingência. Estas poderão incluir uma coligação menor e voluntária de Estados dispostos a agir usando apenas os ativos localizados nas suas jurisdições, ou um esquema mais modesto limitado a tributar lucros extraordinários obtidos por instituições financeiras sobre fundos russos congelados.
Para investidores e cidadãos comuns, o debate pode parecer distante, mas cruza-se com questões mais amplas: até que ponto as democracias ocidentais estão preparadas para esticar normas jurídicas e financeiras em resposta à guerra e quanto estão dispostas a arriscar a estabilidade do sistema financeiro global para constranger um agressor.
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