Numa quinta‑feira chuvosa ao fim da tarde, num salão de uma cidade pequena, uma mulher na casa dos trinta e muitos desliza para a cadeira e suspira para o espelho. As raízes escuras já se notam; o loiro do mês passado começa a ficar amarelado. A colorista ri, calça as luvas e diz o que tantos profissionais repetem sem pestanejar: “Não se preocupe, hoje em dia a coloração é totalmente segura. Vamos só dar um refresh.” Colocam‑se as folhas de alumínio, o temporizador começa a contar, e o cheiro a amoníaco fica no ar. À volta, outras três mulheres também estão a pintar o cabelo, a fazer scroll no telemóvel, a falar de fins de semana, filhos e promoções no trabalho. Ninguém menciona cutículas, córtex ou quebra irreversível. Ninguém menciona sequer risco a longo prazo.
Ela só quer sair dali a sentir‑se bonita.
A ciência, em silêncio, conta outra história.
“É seguro, fazemos isto todos os dias”: a mensagem do salão vs. o que a ciência vê
Entre em quase qualquer salão “da moda” e a mensagem é sempre a mesma: pintar o cabelo é rotina. O/a cabeleireiro/a toca no seu cabelo, inclina a cabeça e propõe um “balayage suave de seis em seis semanas” ou um “retoque de raiz todos os meses” como se fosse o mesmo que fazer as unhas. Ouvem‑se palavras como “nutritivo”, “com queratina”, “tecnologia de proteção das ligações”. As cadeiras estão cheias, a iluminação favorece, e há uma promessa difusa de que as fórmulas modernas resolveram tudo.
Por detrás desse brilho, a haste capilar está a ser forçada a abrir, a ser despojada, oxidada, e manchada de dentro para fora. Esse é o processo real.
Pergunte a dermatologistas ou a químicos de cosmética e o tom muda depressa. Falam de camadas de cutícula que não voltam a fechar totalmente, de stress oxidativo, de microfraturas que se acumulam ano após ano. Um dermatologista francês com quem falei descreveu a coloração permanente frequente como “danos de sol vezes dez, concentrados numa hora, repetidos durante anos”. Uma revisão de 2020 numa revista de ciência cosmética resumiu de forma mais seca: a coloração oxidativa repetida “enfraquece progressivamente a integridade da fibra capilar”. É uma maneira polida de dizer que os danos se acumulam.
Sejamos honestos: ninguém faz isto literalmente todos os dias.
Mas se pinta o cabelo a cada quatro a seis semanas, ainda assim acumula dezenas de agressões químicas ao longo de alguns anos.
A química é brutal na sua simplicidade. A maioria das tintas permanentes usa uma mistura de amoníaco (ou agentes semelhantes) para dilatar a cutícula, peróxido de hidrogénio para retirar pigmento natural e criar espaço, e pequenos precursores de cor que entram no cabelo e oxidam até se transformarem em grandes moléculas de cor. O seu cabelo não “volta ao normal” depois. Uma vez levantada e lascada, a cutícula nunca recupera por completo a sobreposição apertada das escamas. Com o tempo, mais cor significa mais porosidade, mais frizz, mais quebra, menos brilho.
Os cientistas não discutem se a coloração permanente danifica o cabelo. Discutem apenas quão depressa o dano se torna visível a olho nu.
Como pintar sem arruinar completamente o cabelo
Se não está pronta/o para cortar a coloração “a frio”, o primeiro passo inteligente é abrandar o ritmo. Quando possível, espaçe as marcações de tinta permanente para oito, dez, até doze semanas. Entre elas, peça retoques de raiz com métodos mais suaves: coloração demi‑permanente, gloss/banhos de brilho, ou amaciadores pigmentados. Continuam a alterar a fibra, mas muito menos do que uma coloração oxidativa no cabelo todo.
Escolha tons próximos da sua cor natural ou ligeiramente mais escuros, e não vários tons mais claros. Clarear exige mais peróxido, mais remoção de pigmento, mais trauma.
Há outra alavanca simples: a área de contacto. Quanto mais cabelo é exposto a tinta “forte”, maior o dano acumulado. Técnicas como balayage, lowlights ou madeixas à volta do rosto concentram a cor onde mais se vê e deixam muita fibra intocada. Pode não satisfazer quem quer um platinado total, mas dá ritmo e alívio ao cabelo.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que o/a cabeleireiro/a mostra a foto de uma influencer com um gelo perfeito e diz: “Conseguimos aproximar‑nos se fizermos algumas sessões.” Esse “algumas” muitas vezes significa meses a descolorar e a repintar.
O cuidado diário após pintar é onde a maioria das pessoas perde a batalha, em silêncio. Não pode tratar o cabelo como seda no salão e como uma T‑shirt velha em casa. Champôs agressivos com sulfatos, secagem a esfregar com toalha e alisadores a 220°C empurram fibras já fragilizadas para lá do limite. Água fria ou morna, toalhas de microfibra e ferramentas térmicas na temperatura eficaz mais baixa fazem uma diferença visível ao longo de um ano.
“Pense no cabelo pintado como tecido já lesionado”, diz um químico de cosmética que entrevistei. “O objetivo não é curá‑lo, porque não conseguimos. O objetivo é abrandar ao máximo o seu declínio.”
- Mude para champôs sem sulfatos ou muito suaves para evitar retirar a pouca proteção natural que ainda resta.
- Use um condicionador rico ou máscara em todas as lavagens, focando comprimentos e pontas, não a raiz.
- Limite o uso de alisadores e modeladores a ocasiões especiais e use sempre um protetor térmico.
- Durma numa fronha de seda ou cetim para reduzir fricção e quebra durante a noite.
- Faça cortes de manutenção a cada 8–10 semanas para remover pontas espigadas e “ocas” antes de subirem.
Viver com a troca: beleza, dano e o que consegue aceitar
Por baixo do ruído do marketing, a verdade é simples: a tinta permanente é uma troca. Ganha‑se uma cor que resiste a lavagens e ao sol, mas paga‑se um pouco de dano estrutural a cada aplicação. Quanto mais tempo e mais frequentemente pinta, mais esse dano se torna visível. Secura que nenhuma máscara resolve de verdade. Pontas que se desfiam por mais séruns que aplique. Quebra que aparece misteriosamente na escova.
Os cientistas não estão a dizer “nunca pinte o cabelo”. Estão a dizer que o custo cumulativo é real, quer os salões o reconheçam ou não.
Algumas pessoas aceitam esse custo sem arrependimento. Planeiam cortes mais curtos, cores divertidas, e uma relação quase “fast fashion” com o cabelo. Outras chegam a um ponto - muitas vezes no fim dos trinta ou nos quarenta - em que olham para a aura quebradiça à volta do rosto e sentem algo parecido com luto. O cabelo é território emocional. Carrega identidade, idade, rebeldia, conformidade, tudo ao mesmo tempo. Quando a ciência diz “o dano permanente é inevitável ao longo do tempo”, não está a moralizar. Está a descrever o que o microscópio vê.
O que faz com esse conhecimento é mais pessoal do que qualquer tendência.
Pode decidir espaçar as marcações, suavizar o tom, ou trocar a descoloração total por madeixas mais dispersas. Pode deixar a sua cor natural voltar devagar e descobrir que não é assim tão “aborrecida” como pensava. Ou pode dizer: eu percebo o risco e, ainda assim, escolho o frasco. A mudança‑chave é sair da tranquilização cega - “hoje a tinta é inofensiva” - para o consentimento informado.
A indústria vai continuar a vender sonhos em tubos. Os cientistas vão continuar a publicar gráficos de fibras enfraquecidas e cutículas partidas. Algures entre esses dois mundos, está você na cadeira, com a capa pelos ombros, a tentar decidir com que futuro capilar consegue viver.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para a leitora/o leitor |
|---|---|---|
| A tinta permanente causa danos cumulativos | A coloração oxidativa levanta as cutículas e enfraquece um pouco mais a haste capilar em cada sessão | Ajuda a perceber porque é que a textura do cabelo muda após anos de coloração frequente |
| A frequência e o nível de clareamento são cruciais | Tons mais próximos do natural e intervalos maiores entre sessões reduzem o dano estrutural | Dá “alavancas” concretas para manter a cor limitando a quebra a longo prazo |
| O cuidado diário pode abrandar o declínio | Lavagem suave, menos calor e cortes regulares não “reparam”, mas protegem fibras danificadas | Mostra que hábitos realmente prolongam a vida e o aspeto do cabelo pintado |
FAQ:
- Pergunta 1 A tinta permanente é mesmo pior do que a coloração semi‑permanente ou temporária?
- Pergunta 2 Com que frequência posso pintar o cabelo “em segurança” sem o estragar?
- Pergunta 3 Tratamentos “bond‑building” ou “plex” evitam mesmo os danos?
- Pergunta 4 Há alguma forma de reverter danos de anos de coloração?
- Pergunta 5 As tintas naturais ou “orgânicas” são realmente mais seguras para o meu cabelo e para a minha saúde?
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