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Salvo pela enfermeira da escola e outrora abandonado, este gato siamês tornou-se um apoio essencial para alunos ansiosos.

Menino com gato siames em mesa de veterinário, médica sorrindo ao fundo.

Numa movimentada escola básica francesa, o “adulto” mais calmo do edifício não avalia trabalhos de casa nem aplica castigos.

Ele apenas ronrona.

No Collège Alphonse Daudet, em Alès, no sul de França, um gato siamês resgatado chamado Vegas tornou-se, discretamente, uma tábua de salvação diária para alunos stressados e ansiosos, transformando a enfermaria da escola num inesperado refúgio emocional.

Um pequeno gatinho em perigo, uma enfermeira que disse sim

Há anos, a enfermeira escolar Sylvie Nouza encontrou um frágil gatinho siamês em evidente aflição. Estava abaixo do peso, assustado e completamente sozinho. Nouza acolheu-o, alimentou-o, tratou dos seus problemas de saúde e deu-lhe um nome: Vegas.

À medida que recuperava, o Vegas começou a segui-la para todo o lado. Deixá-lo em casa o dia inteiro parecia impossível, por isso Nouza fez algo pouco habitual. Pediu à direcção da escola autorização para que o gato pudesse ficar com ela na enfermaria.

O Vegas passou de gatinho abandonado a membro permanente da equipa, graças a uma enfermeira que se recusou a desviar o olhar.

A directora, Christine Lecoeuche, concordou com uma condição: tudo teria de estar devidamente organizado, sobretudo no que diz respeito a alergias e segurança. Com esse aval, o Vegas passou, na prática, a fazer parte da equipa da escola.

A enfermaria que trata mais do que dores de cabeça

Hoje, os alunos do Collège Alphonse Daudet conhecem a enfermaria tanto pelo seu residente felino de olhos azuis como pelos pensos rápidos e sacos de gelo. O Vegas passa a maior parte do tempo estendido perto da secretária da Sylvie, movendo-se com uma confiança lenta e sem pressas que muda instantaneamente o ambiente da sala.

Muitos alunos chegam a queixar-se de dores de barriga, dores de cabeça fortes ou dificuldade em respirar. Alguns têm, de facto, problemas físicos reais. Outros carregam, em silêncio, ansiedade, bullying, problemas familiares ou pressão dos exames.

Para muitos adolescentes, é mais fácil falar de dor quando soa a um problema médico e não a uma crise emocional.

O Vegas funciona como uma ponte. Aproxima-se a passos suaves, enrosca-se junto a uma perna a tremer ou limita-se a piscar calmamente a partir de uma cadeira. Essa pequena interacção abre muitas vezes a porta a conversas maiores. Quando as mãos começam a afagar pêlo macio, as palavras acabam por surgir.

O que o Vegas realmente faz durante um dia de escola

Não é um animal de terapia treinado no sentido clínico rigoroso, mas a sua rotina tornou-se quase terapêutica. Num dia qualquer, o Vegas pode:

  • Deitar-se ao lado de um aluno com um ataque de pânico durante um teste de Matemática
  • Acomodar-se na maca da enfermaria enquanto um adolescente fala da separação dos pais
  • Distrair uma criança que acabou de ser humilhada em frente à turma
  • Oferecer um motivo para voltar à escola a alunos tentados a ficar em casa

Alguns alunos quase não falam. Limitam-se a sentar-se no chão, com o Vegas a ronronar baixinho no colo. Outros falam sem parar, enquanto a enfermeira ouve e o gato absorve lágrimas.

Porque é que um gato pode acalmar adolescentes ansiosos

O efeito dos animais em contextos escolares está cada vez mais documentado por investigadores. Interagir com um animal de estimação amigável pode reduzir os níveis de cortisol, a hormona associada ao stress. Ao mesmo tempo, pode aumentar a oxitocina, ligada ao vínculo e à sensação de segurança.

Respiração lenta, ronronar regular e pêlo macio enviam ao cérebro uma mensagem simples: estás seguro agora.

Na adolescência, as emoções podem parecer ruidosas e incontroláveis. Uma presença neutra como a do Vegas ajuda de várias formas:

Efeito do Vegas Benefício para os alunos
Contacto físico (acariciar, pegar ao colo) Reduz a tensão muscular e abranda a respiração
Presença sem julgamento Torna mais fácil falar de vergonha, medo ou raiva
Rotina previsível (ele está sempre lá) Proporciona uma sensação de estabilidade num período instável da vida
Atenção partilhada no animal Quebra a intensidade do contacto visual durante conversas difíceis

Ao contrário dos adultos, o Vegas nunca interrompe nem apressa ninguém. Não mostra impaciência quando uma história se repete pela terceira vez. Para alguns alunos que não confiam em professores ou pais, o gato torna-se o primeiro confidente seguro, enquanto a enfermeira constrói, com delicadeza, uma ligação humana em paralelo.

Organização rigorosa por trás da suavidade

Ter um animal no local durante todo o dia não foi uma decisão tomada de ânimo leve. A directora Christine Lecoeuche e a sua equipa definiram regras claras desde o momento em que o Vegas foi autorizado a ficar.

As alergias foram a primeira preocupação. As famílias foram informadas da presença do gato, e os alunos com alergias conhecidas ou fobias têm o direito de evitar a enfermaria quando ele lá está. O Vegas é mantido sobretudo no gabinete da enfermeira, sem andar pelos corredores ou salas de aula.

A presença do gato parece natural e delicada, mas assenta em planeamento cuidadoso, consentimento dos pais e verificações diárias de higiene.

As rotinas de limpeza também foram ajustadas. As superfícies são limpas com mais frequência. A roupa de cama é trocada frequentemente. A caixa de areia fica longe de onde os alunos se sentam ou se deitam. A enfermeira acompanha as vacinas do Vegas e as visitas regulares ao veterinário com o mesmo rigor com que acompanharia o ficheiro clínico de um aluno.

Onde o apoio assistido por animais se enquadra nos cuidados de saúde mental

O Vegas não substitui psicólogos nem médicos. Quando um aluno apresenta sinais de depressão, auto-mutilação ou trauma grave, a enfermeira encaminha-o para serviços profissionais. Ainda assim, o gato muitas vezes torna esse passo mais fácil.

Um adolescente que conseguiu sussurrar os seus medos enquanto segurava o Vegas pode estar mais disposto a aceitar uma consulta de seguimento com um psicólogo ou orientador. O gato suaviza o primeiro contacto, ajudando os alunos a passar do silêncio às palavras.

Outras escolas estão a prestar atenção

As histórias vindas de Alès começam a circular entre educadores. Algumas escolas experimentam cães de leitura nas bibliotecas, onde os alunos praticam a leitura em voz alta para um animal calmo em vez de para um professor. Outras consideram sessões curtas com animais durante semanas de exames.

O exemplo francês encaixa numa tendência internacional mais ampla: escolas à procura de formas humanas e de baixo custo para apoiar adolescentes que enfrentam ansiedade, pressão das redes sociais e competição académica.

Para instituições que ponderam um projecto semelhante, os especialistas costumam sugerir:

  • Verificar regulamentos locais sobre animais em edifícios públicos
  • Trabalhar com veterinários e especialistas em comportamento animal para escolher animais adequados e tranquilos
  • Começar com horários limitados ou dias-piloto antes de uma presença a tempo inteiro
  • Criar opções de não participação (opt-out) para famílias e funcionários que discordem

O que “apoio emocional” realmente significa numa escola

O termo “animal de apoio emocional” surge frequentemente em debates sobre saúde mental, mas cobre realidades diferentes. Em muitos países, estes animais não são o mesmo que cães de assistência para pessoas com deficiência. Normalmente são animais de estimação que oferecem conforto pela sua presença, sem estatuto legal específico.

O Vegas aproxima-se mais desta categoria: é um animal da escola com um papel claro no bem-estar, não um dispositivo médico. A sua presença mostra que o apoio emocional pode ser simples, físico e silencioso, longe de contextos de terapia formal. Um corpo quente e um ronronar regular conseguem, por vezes, baixar defesas mais depressa do que um longo questionário.

Os pais também podem retirar ideias daqui. Em casa, rotinas suaves com animais de estimação ajudam muitas vezes as crianças a regular emoções: dar comida a um gato depois de um dia stressante, escovar um cão antes de dormir, ou simplesmente deitar-se no tapete enquanto um coelho salta por perto. Estes pequenos rituais criam pausas em agendas sobrecarregadas e dão aos jovens uma saída sem palavras para a tensão.

Há limites, claro. Os animais também sentem stress e precisam de descanso, espaços seguros e respeito. As escolas que considerem ter o seu próprio “Vegas” têm de olhar para os dois lados: o potencial benefício para os alunos e a responsabilidade pelo bem-estar do animal. Quando esse equilíbrio é respeitado, um antigo vadinho numa enfermaria pode, discretamente, tornar-se uma das figuras mais confiáveis do campus.

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