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A U2 pediu ações da Apple como pagamento, mas Steve Jobs não só os fez trabalhar de graça como ainda pediu que promovessem um iPod de edição especial.

Dois homens numa mesa com dispositivos eletrónicos e documentos numa sala bem iluminada.

A história começa numa sala de reuniões silenciosa em Cupertino, no início dos anos 2000, muito antes de a Apple ser a empresa mais valiosa do planeta. Bono está sentado em frente a Steve Jobs, óculos de sol postos, sapatos atirados para o lado com descontração, a falar não de acordes ou refrões, mas de participação no capital. Em cima da mesa: uma parceria entre os U2 e um estranho tijolo branco chamado iPod. Bono tem um pedido principal: “Não nos paguem em dinheiro. Paguem-nos em ações da Apple.” Jobs ouve, impassível. Depois faz aquilo que só Jobs faria. Diz a uma das maiores bandas do mundo que não só não vão receber ações… como não vão receber nada. E, para além disso, quer que promovam uma edição especial do iPod com o nome deles.

Ninguém naquela sala sabia o quão insana essa decisão pareceria vinte anos depois.

Quando os U2 tentaram trocar riffs por ações da Apple

Imagine o negócio da música no início dos anos 2000. Os CDs estão a colapsar, o Napster abriu a indústria de alto a baixo, e os U2, provavelmente a maior banda do planeta, procuram uma nova forma de se manterem relevantes. Bono, que sempre teve um olho na cultura e outro no poder, vê a Apple como mais do que uma empresa tecnológica. Vê uma plataforma. Por isso, quando Steve Jobs fala em usar “Vertigo” numa campanha do iPod, Bono não pensa numa taxa de licenciamento. Pensa em propriedade. Pede para ser pago em ações da Apple. Pele em jogo, a sério.

Jobs ouve, mas a história que surgiu de pessoas próximas de ambos os lados é brutal na sua simplicidade. Basicamente, ele diz que não. Não só não às ações, mas não ao dinheiro. Jobs diz aos U2 que a exposição é o pagamento. Que a campanha de marketing, os icónicos anúncios a preto e branco com silhuetas a dançar, vai vender mais discos e aprofundar a lenda. Depois vai mais longe. Sugere que se comprometam totalmente e lancem um iPod com marca U2, um dispositivo preto e vermelho carregado com todo o catálogo e com os autógrafos gravados a laser na parte de trás. O argumento inverte a dinâmica de poder. O fundador bilionário trata a banda superstar como uma startup em início de vida.

No papel, os U2 tinham alavancagem. Isto foi antes do Spotify, antes da Apple Music, num momento em que o “sync deal” certo podia definir uma música para uma geração. Ainda assim, Jobs tinha as cartas porque percebeu uma coisa antes de quase toda a gente: o capital cultural iria orbitar à volta de dispositivos, não de discos. Ao enquadrar o iPod como um palco cultural, e não como um gadget, fez os U2 sentirem que estavam a entrar no futuro, e não a assinar a sua parte nele. Transformou pagamento em prestígio. E os U2, como muitos artistas a enfrentar pela primeira vez a onda tecnológica, escolheram legado em vez de liquidez.

O iPod, a reação negativa e o arrependimento silencioso

Assim, os U2 dizem que sim. Chega o iPod U2 Special Edition de 2004: frente preta brilhante, click wheel vermelho e aquele famoso conjunto de assinaturas no verso espelhado. Os anúncios estão por todo o lado: a silhueta do Bono, o braço a rodar, “Hello, hello…” a ecoar por salas de estar e quartos de residência universitária pelo mundo inteiro. Durante algum tempo, os U2 parecem quase ligados por cabo à identidade da Apple. A banda passa a fazer parte da narrativa tecnológica, não apenas da rock. Funciona, no curto prazo. “How to Dismantle an Atomic Bomb” vende milhões. Os iPods voam das prateleiras. Toda a gente ganha - ou assim parece.

Depois, anos mais tarde, a Apple torna-se o gigante do mundo. A ação não sobe apenas: dispara. Uma única ação da Apple em 2004 valia alguns dólares. Depois de “splits” e crescimento composto, esses “alguns dólares” tornam-se uma fortuna. Pessoas que mantiveram opções modestas tornaram-se multimilionárias. É nessa altura que a anedota reaparece: os U2 pediram ações da Apple e foram recusados. Pior: alegadamente acabaram por fazer grande parte da parceria de graça. Quase se sente a riqueza fantasma nesse detalhe. Dezenas ou centenas de milhões de upside perdidos, apagados numa única reunião.

Para fãs e pessoas de dentro da indústria, a história toca num nervo. Os artistas já sentem que são os últimos a lucrar com as plataformas que mais precisam deles. Este acordo vira uma espécie de parábola. A tecnologia encontrou uma forma de aproveitar o star power sem entregar propriedade. Jobs não só protegeu a sua cap table; ensinou fundadores futuros com um manual. Envolva artistas em design, estatuto e narrativa. Ofereça-lhes um lugar na história em vez de um lugar na cap table. A verdade dura é que os U2 ajudaram a Apple a ser mais cool, enquanto a Apple ajudou os U2 a vender alguns discos. Só uma dessas coisas amadureceu até se tornar um ativo de biliões (trilhões, na escala curta americana) de dólares.

O que este acordo ensina, em silêncio, sobre negociar com poder

Há uma lição simples - quase dolorosa - escondida nesta anedota rock‑e‑tech: não subestime o valor do capital (equity) quando está a levar calor cultural para um momento de negócio. Os U2 perceberam isso instintivamente. Foi por isso que Bono pediu ações logo à partida. O passo em falso veio depois, quando a resposta foi não e, mesmo assim, avançaram. A banda acabou por confirmar a perceção de alavancagem da Apple. A mensagem para Jobs foi clara: a associação à Apple valia tanto para os U2 que fariam o acordo nos termos da Apple. Sem ações, sem fee, promoção total. Isto não é parceria. É mecenato com melhor iluminação.

Se recuarmos, vemos o padrão em quase todo o lado. Criadores perseguem visibilidade; plataformas acumulam propriedade. Startups pedem a celebridades para entrarem em “famílias” ou “movimentos” e, depois, guardam a equity para investidores e primeiros colaboradores. Quando se ouve que os U2 não só trabalharam com a Apple, como o fizeram sem dinheiro e sem ações, sente-se a assimetria. E sejamos honestos: ninguém faz as contas de longo prazo quando se sente lisonjeado pela empresa mais cool da sala. É assim que a tecnologia vence o jogo longo. Paga em estatuto e conta em juros compostos.

O movimento de verdade aqui não é recusar acordos com gigantes. É ancorar o seu valor antes de ser seduzido. Isso pode parecer fazer três perguntas diretas: Quanto cobraria em dinheiro se isto fosse um anúncio normal? Qual é a fatia mínima de equity que me deixaria confortável em abdicar do dinheiro? E qual é o meu risco real se eu simplesmente disser que não? Pode continuar a escolher exposição. Pode continuar a dizer sim à parceria brilhante. Mas escolhe com lucidez, não deslumbrado. Essa matemática silenciosa muda todas as salas em que entra com alguém mais poderoso do que você.

Como evitar o seu próprio momento “U2 com a Apple”

Há um pequeno gesto repetível que qualquer pessoa pode copiar desta história: antes de entrar numa negociação com um jogador maior, escreva os seus “termos sem arrependimento”. Literalmente, em papel ou no telemóvel, liste o mínimo que aceita em dinheiro, equity, crédito ou controlo. Depois trate isso como uma linha que não ultrapassa quando a reunião começar. Porque, quando está na sala, a energia muda. Títulos, logótipos, reputações fazem coisas estranhas ao nosso valor próprio. Se já decidiu o que é um acordo justo, é menos provável convencer-se a aceitar ar.

A segunda parte é emocional: não confunda admiração com obrigação. Os U2 adoravam a Apple. Bono admirava Jobs. Muitos de nós sentimos o mesmo com a nossa própria “Apple” - uma marca, um fundador, um órgão de comunicação social, um gatekeeper. Sentimo-nos lisonjeados só por lá estar. Essa é a armadilha. Começa a racionalizar que estar perto deles vale mais do que ser devidamente pago por eles. Diz a si mesmo que é uma oportunidade única na vida, ou que “recupera mais tarde”. É precisamente essa mentalidade que transforma a equity num fantasma que se persegue em retrospetiva. É humano, mas sai caro.

Consta que Jobs pressionou os U2 não só a licenciar a música, mas a mergulhar por completo no ecossistema da Apple: lançamentos exclusivos, a edição especial do iPod, até deixar o catálogo servir de espécie de caso de teste para marketing de música digital. Anos depois, Bono brincaria sobre não ter ficado com as ações, mas o riso trazia sempre um travo de “sabemos quanto essa ação valeria agora”.

  • Escreva primeiro a sua linha mínima: decida limites de dinheiro, equity ou crédito antes da reunião, não durante.
  • Peça upside, não apenas um fee: partilha de receitas, bónus por desempenho ou uma pequena fatia de ações é melhor do que um cheque único.
  • Separe hype de valor: um logótipo no portefólio é bom, mas não paga a renda por si só.
  • Obtenha algo que dure: direitos, royalties ou equity sobrevivem muito para além do fim de uma campanha.
  • Lembre-se da sua alavancagem: se o convidaram, é porque está a trazer algo que eles não substituem facilmente.

Do que realmente falamos quando falamos de U2 e Steve Jobs

Por baixo das anedotas e dos memes sobre “os U2 podiam ter comprado metade da Irlanda em ações da Apple” existe uma pergunta mais silenciosa: como nos valorizamos quando o poder está do outro lado da mesa? A história U2–Apple fica porque não é só sobre dólares deixados em cima da mesa, mas porque parece uma versão amplificada de escolhas que muitos de nós fazemos em salas mais pequenas. Trocamos tempo por “exposição”, ideias por “oportunidades”, lealdade por “acesso”. E só calculamos o custo real anos depois, quando o gráfico de ações de outra pessoa diz a verdade.

A reviravolta é que os U2 não perderam exatamente. As músicas deles tornaram-se parte da memória coletiva da era do iPod. Prenderam a sua música à nostalgia tecnológica de uma geração. Isso conta. Só não aparece num ecrã de bolsa. A Apple, por outro lado, capturou tanto o cool como o crescimento composto. A banda foi convidada para a festa. A Apple era dona do edifício. Talvez seja essa a reflexão a guardar quando uma plataforma moderna lhe oferece um lugar na primeira fila em troca do seu trabalho.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que dizer sim parece ser “ser escolhido”. A história dos U2 sugere um movimento diferente: e se ser escolhido significar que o seu valor é maior, não menor? E se o verdadeiro “flex” for pedir, com calma e sem drama, uma pequena parte do upside que está a ajudar a criar? Pode ser equity numa startup, uma royalty num projeto, ou apenas uma cláusula que o paga se as coisas correrem melhor do que o esperado. Não precisa dos óculos do Bono nem da gola alta do Steve Jobs para o fazer. Só precisa de se lembrar de que a marca mais cool da sala continua a precisar daquilo que só você consegue trazer.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Peça upside, não apenas fees Os U2 pediram ações da Apple, mas aceitaram um acordo sem equity nem dinheiro Incentiva a procurar participação de longo prazo no sucesso, e não só pagamentos pontuais
Defina “termos sem arrependimento” antes das conversas Defina mínimos para dinheiro, equity e crédito antecipadamente Ajuda a evitar ser influenciado por prestígio ou pressão durante a negociação
Separe admiração de valor Respeitar uma marca ou um fundador não deve apagar os seus limites Protege o seu valor próprio e evita acordos exploratórios baseados em “exposição”

FAQ:

  • Os U2 trabalharam mesmo com a Apple de graça? Relatos de pessoas próximas da banda e da Apple sugerem que, na campanha-chave do iPod de 2004, os U2 aceitaram pouco ou nenhum pagamento direto, focando-se antes na exposição e na promoção do álbum.
  • Porque é que Bono pediu ações da Apple em primeiro lugar? Bono já começara a pensar como investidor e percebeu que o potencial upside da Apple era muito maior do que qualquer taxa fixa de licenciamento para um anúncio.
  • Quanto poderiam valer hoje essas ações da Apple? Ninguém fora da sala sabe os números exatos, mas mesmo uma fatia modesta de equity em 2004, mantida através de splits e crescimento, poderia valer dezenas ou centenas de milhões de dólares.
  • Os U2 arrependeram-se do acordo com a Apple? Publicamente, Bono tem falado sobretudo de forma positiva sobre Jobs e a Apple, brincando ocasionalmente com a ação perdida como uma espécie de “lição” sobre o poder da equity.
  • O que podem aprender criadores mais pequenos com esta história? Nem sempre se consegue equity de grandes marcas, mas ainda assim é possível negociar pagamento justo, crédito, royalties ou bónus ligados a desempenho em vez de depender apenas de exposição.

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