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Brigitte Bardot morreu: a história secreta do seu icónico penteado colmeia, “aquele visual que chegava a ter 15 centímetros.”

Mulher sentada em frente a um espelho iluminado, com penteado elegante sendo ajustado por outra pessoa.

A notícia rebentou numa manhã cinzenta em Paris, daquelas em que a cidade parece mais pequena e estranhamente silenciosa. Brigitte Bardot morreu. Na televisão, passavam clips antigos em repetição: o sol de Saint-Tropez, pés descalços num barco, o sorriso de um gato sob uma torre de cabelo louro que parecia desafiar a gravidade, a lógica e o tempo. No caos de homenagens a desfilar, um detalhe regressava, vez após vez. Aquele famoso beehive. “Aquela coisa que tinha pelo menos 15 centímetros”, como disse em tempos um cabeleireiro ainda atónito, olhos arregalados com a memória, cinco décadas depois.

As pessoas escreveram sobre os filmes, os escândalos, as posições políticas. E, no entanto, a imagem que ficava era sempre a mesma: franja desalinhada, eyeliner preto e aquele ninho impossível de cabelo. Não era apenas um penteado.

Era armadura, sedução e escândalo, tudo ao mesmo tempo.

O dia em que nasceu o beehive da Bardot

No set, lembram-se do momento como de um pequeno acidente que mudou a cultura. Era 1963, numa rodagem perto de Saint-Tropez, e a Bardot chegou atrasada, com o cabelo ainda húmido, cigarro entre os lábios, maquilhagem quase por fazer. O cabeleireiro entrou em pânico. Não havia tempo para caracóis elaborados nem ondas impecáveis. Por isso, empurrou o cabelo para cima, cardou-o sem piedade, prendeu-o, e depois puxou algumas madeixas rebeldes para suavizar o rosto. Quinze minutos, no máximo. Achou que era um remendo temporário, nada mais.

Quando Bardot voltou a entrar no set, toda a gente se calou. Parecia subitamente mais alta, mais livre, um pouco selvagem. O realizador sorriu e disse, em voz baixa: “Fica assim.”

Poucos meses depois, os salões franceses começaram a receber pedidos estranhamente precisos. “Quero a coisa da Bardot. Lá em cima. Muito alta. Sabe… tipo… pelo menos 15 centímetros.” As mulheres chegavam com recortes de revistas dobrados nas malas, quase sempre a mesma fotografia: Bardot de perfil, nuca a descoberto, o beehive como uma coroa loira. Em certos bairros, as tardes de sábado transformavam-se em workshops improvisados de Bardot.

Alguns cabeleireiros resmungavam que era “impossível com o seu cabelo, minha senhora”, e tentavam na mesma. Viravam as cadeiras para o espelho. Pentes metálicos atacavam as raízes. A laca ficava suspensa no ar como nevoeiro. E, quando a cliente se levantava, tonta do cheiro e do volume, muitas vezes sussurrava a mesma frase: “Não me reconheço… e adoro.”

O beehive foi muito além da moda. Surgiu numa altura em que as mulheres começavam a mover-se, a trabalhar, a viajar sem acompanhante, a dizer “não” mais vezes e, por vezes, a dizer “sim” nos seus próprios termos. O cabelo seguiu o estado de espírito. Os cortes curtos pareciam demasiado disciplinados. Os coques clássicos pareciam demasiado comportados. O beehive da Bardot era outra coisa: uma mistura de controlo e caos.

Havia estrutura, ganchos, secções, uma arquitectura invisível por baixo. Mas por cima tudo parecia suave, desalinhado, quase como se tivesse sido dormido. Essa contradição hipnotizou o público. Este beehive dizia: fiz isto por mim, mas se estás a olhar, eu sei.

A técnica secreta por trás da “coisa dela que tinha pelo menos 15 centímetros”

Por trás da lenda, o método era surpreendentemente bruto. Primeiro, o cabelo tinha de estar completamente seco, quase áspero. Nada de brushing sedoso. O cabeleireiro separava o topo da cabeça em secções grossas, erguia-as na vertical e cardava-as com força do comprimento até à raiz. Depois vinham as armas escondidas: pente estreito, ganchos finos, quantidades insanas de laca que hoje provavelmente seriam ilegais.

A bola cardada era então dobrada sobre si mesma, como uma nuvem a ser comprimida. Presa junto ao crânio, formava uma almofada secreta. Por cima, a camada exterior do cabelo era alisada de forma leve, nunca demasiado cuidadosa, para que o volume ficasse mas o caos parecesse intencional. Por fim, algumas madeixas eram puxadas de propósito à volta do rosto. Era esse o toque mágico: a imperfeição que tornava tudo humano.

Muitas mulheres tentaram copiar esse beehive em casa, normalmente uma hora antes de uma festa, a chorar em frente ao espelho com a escova presa no cabelo. O erro habitual é querer que fique demasiado “limpo”. Escovam demais, achatam tudo, ou borrifam a laca tão perto que as raízes viram um capacete pegajoso. Algumas desistem ao fim de dez minutos e fazem um rabo de cavalo triste. Todos conhecemos esse momento em que a fotografia glamorosa na nossa cabeça se transforma num pequeno desastre doméstico.

A própria Bardot queixava-se muitas vezes de que demorava uma eternidade, de que a laca a sufocava, de que os ganchos lhe magoavam o couro cabeludo. Ainda assim, manteve o beehive durante anos, quase como se soubesse que as pessoas sintonizavam só para ver quão alto ia o cabelo desta vez. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Nem sequer um mito.

Nos bastidores, quem tocou naquele cabelo lembra-se de detalhes muito reais, nada lendários. O calor dos projectores a derreter a laca. As horas a desembaraçar com cuidado depois da rodagem. A forma como o pescoço da Bardot por vezes doía após um dia inteiro a equilibrar uma estrutura de 15 centímetros no topo da cabeça. Um cabeleireiro de longa data resumiu-o de forma perfeita.

“Ela deu ao mundo esta fantasia sem esforço”, suspirou anos mais tarde, “mas nós sabíamos quantos nós viviam dentro dessa fantasia.”

À volta da Bardot, havia regras não escritas que qualquer assistente aprendia depressa:

  • Nunca puxar demasiado junto às têmporas - a Bardot detestava o “ar de dor de cabeça”.
  • Deixar sempre pelo menos duas madeixas soltas perto dos lábios - “para suavidade”, dizia ela.
  • Parar de cardar exactamente quando o cabelo começa a chiar - a partir daí, parte-se.

O que fica do beehive da Bardot agora que ela se foi

Hoje, enquanto as homenagens se acumulam, as imagens daquele beehive viajam mais depressa do que qualquer obituário. Adolescentes que nunca viram um único filme da Bardot guardam as suas fotos no Pinterest como “inspiração de cabelo retro”. No TikTok, criadores tentam “cabelo Bardot anos 60” com mousse moderna e laca vegan, queixando-se de que “esta mulher devia ter braços de aço”. Editores de moda chamam-lhe o penteado mais copiado da história da cultura pop, rivalizando apenas com os caracóis da Marilyn e a versão igualmente monumental da Amy Winehouse.

O beehive sobreviveu a mudanças na televisão, a vagas feministas, a tendências que foram e vieram. Nas passadeiras vermelhas, ainda se vê o seu fantasma. Versões mais suaves, meio apanhadas, desfeitas, orgulhosamente nostálgicas. Cada vez, a mesma silhueta aparece: nuca exposta, volume no topo, um olhar um pouco mais seguro.

No fim, o que tornava a “coisa da Bardot que tinha pelo menos 15 centímetros” tão poderosa não era só a técnica, o cardado, os ganchos escondidos como pequenos segredos. Era a atitude por baixo. Esta forma de entrar num set ou numa sala com um cabelo que dizia: sim, estou a ocupar espaço. Fisicamente. Visualmente. Culturalmente. O beehive transformou-a num farol; via-se a Bardot antes de qualquer outra coisa.

Alguns criticaram-no como objecto fetichista; outros reclamaram-no como bandeira de auto-estilização, de reivindicar a própria imagem. As duas leituras existem, lado a lado. Uma mulher pode sentir-se presa pela sua própria lenda e, ainda assim, escolher a altura do seu cabelo todas as manhãs. Essa tensão acompanhou a Bardot até ao fim.

Agora que ela se foi, o que fica é um paradoxo e uma pergunta que levamos connosco. Como pode algo tão leve, tão frágil como o cabelo deixar uma marca tão pesada no imaginário colectivo? A resposta provavelmente não está na laca, nem nos centímetros, nem no ângulo perfeito daquela coroa levantada. Está na forma como milhões de mulheres, por uma noite ou por uma década inteira, se sentiram um pouco mais ousadas, um pouco mais elas mesmas, apenas por elevarem as raízes e saírem pela porta.

O seu beehive continuará a viver em casas de banho, camarins, playlists de preparação para casamentos e experiências nocturnas, quando alguém, algures, decidir ver o que acontece se empurrar o cabelo “só um bocadinho mais para cima”. Não para se tornar Bardot.

Para se tornar a versão de si própria que vislumbra, por instantes, no espelho.

Ponto-chave Detalhe Valor para a leitora / o leitor
Origem do beehive Nasceu de um penteado feito à pressa numa rodagem dos anos 60 perto de Saint-Tropez Mostra como visuais icónicos muitas vezes surgem de acidentes, não da perfeição
Segredo técnico Cardado extremo no topo, “almofada” escondida, camada exterior suave e madeixas soltas visíveis Ajuda a perceber como o volume e a suavidade da Bardot eram ambos possíveis
Impacto cultural Símbolo de liberdade feminina, sensualidade e auto-estilização ao longo de gerações Convida a ver o cabelo não só como moda, mas como expressão pessoal e social

FAQ:

  • Pergunta 1 A Brigitte Bardot usava mesmo um beehive com 15 centímetros de altura?
  • Resposta 1 Sim. Vários cabeleireiros que trabalharam com ela nos anos 60 confirmam que, em algumas rodagens, a estrutura podia chegar facilmente aos 15 centímetros, especialmente quando o topo era muito cardado e apoiado com enchimento interno.
  • Pergunta 2 A Bardot conseguia fazer o próprio beehive ou precisava sempre de um cabeleireiro?
  • Resposta 2 Em grandes rodagens e sessões fotográficas, recorria a profissionais, mas em casa aprendeu uma versão simplificada: menos cardado, menos ganchos e mais dedos do que pentes. Por isso, as fotos fora das câmaras mostram versões mais suaves e descontraídas do beehive.
  • Pergunta 3 O beehive estragou-lhe o cabelo?
  • Resposta 3 O cardado repetido e a laca forte enfraqueceram algumas zonas ao longo dos anos, sobretudo no topo. Os cabeleireiros muitas vezes marcavam “dias de descanso” com tratamentos e penteados de baixa manipulação entre rodagens intensas, para deixar o cabelo recuperar.
  • Pergunta 4 Em que é que o beehive da Bardot é diferente do da Amy Winehouse?
  • Resposta 4 O beehive da Bardot era mais suave e mais “desfeito”, com madeixas soltas e uma textura de praia; a versão da Amy Winehouse era mais alta, mais escura e mais gráfica, por vezes quase caricatural. Ambas carregavam uma forte carga emocional e cultural, mas com energias muito diferentes.
  • Pergunta 5 Alguém com cabelo fino ou curto pode recriar um beehive ao estilo Bardot?
  • Resposta 5 Sim, mas com ajustes: usar enchimento ou um pequeno “rat” de cabelo sob o topo, produtos texturizantes para dar aderência e uma altura mais modesta. O espírito do beehive da Bardot não está só no tamanho, mas na mistura de volume, suavidade e imperfeição propositada.

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