França intervém enquanto o plano norte-americano Constellation se desfaz
A proposta francesa aparece num momento sensível para Atenas. A Grécia está a reavaliar a sua modernização naval porque o programa norte-americano de fragatas classe Constellation (durante algum tempo apontado como opção futura) acumula atrasos e derrapagens que, na prática, o tornam pouco viável no curto/médio prazo para a Marinha Helénica.
Em paralelo, Atenas avaliou fragatas italianas classe FREMM Bergamini, mas com uma limitação evidente: a Grécia já estruturou a renovação da sua frota de superfície em torno da classe Kimon - a FDI (Frégate de Défense et d’Intervention) - designada no país como FDI HN.
A primeira unidade, HS Kimon, foi referida como integrada em janeiro de 2026, a primeira nova fragata grega em cerca de 28 anos. Mais do que um símbolo, este passo marca a transição para uma frota de referência assente numa arquitetura comum.
O que a proposta francesa realmente oferece
A oferta (avançada pela Naval Group em abril de 2025 e agora em negociação) resume-se, essencialmente, a “mais três Kimon”, mas com construção local e um pacote industrial associado - não uma aquisição “chave na mão”.
- Três fragatas Kimon/FDI HN construídas na Grécia
- Participação industrial >30%, com objetivo até 40%
- Transferência de tecnologia e formação (engenharia, produção e manutenção)
- Empresas gregas integradas na construção e no suporte ao longo do ciclo de vida
O ponto decisivo está no conteúdo “de alto valor”: integração de sistemas, eletrónica, testes/aceitação, documentação técnica e capacidade de sustentação. É aqui que a transferência de tecnologia conta - e onde tendem a surgir atritos contratuais (acesso a propriedade intelectual, ferramentas, certificações e repartição de responsabilidades).
Se Atenas avançar, a Marinha Helénica poderá operar sete ou mesmo oito fragatas da classe Kimon assentes numa arquitetura comum.
Uma frota homogénea costuma reduzir custos e complexidade (formação, simuladores, sobresselentes, rotinas de manutenção, atualizações de software). Em contrapartida, aumenta a dependência de um único ecossistema industrial: se houver atrasos num fornecedor ou num sistema, a “fila” pode afetar vários navios.
Regra prática útil: em navios de combate, a compra é apenas parte da fatura - operar e manter durante décadas costuma representar a maior fatia do custo total. Por isso, “suporte de longo prazo” e capacidade local de manutenção pesam tanto quanto o preço do casco.
Estaleiros gregos no centro do plano
A base industrial assenta numa parceria entre os Estaleiros de Salamina e os Estaleiros de Skaramangas, dois ativos com um histórico irregular, agora reposicionados como pilares do programa.
Desde 2023, Salamina já produz blocos de casco pré-equipados para fragatas FDI destinadas à Grécia e a França, com entregas descritas como adiantadas em alguns casos (incluindo secções para a Formion e para unidades francesas). O salto de “blocos” para “navio completo” é grande: exige mais controlo de qualidade, capacidade de integração, testes de compatibilidade e uma cadeia de fornecimento consistente.
Mantêm-se dúvidas que podem ditar o resultado real:
- quem financia melhorias de infraestruturas e equipamentos;
- quem assume o risco de integração (contratante principal);
- quanta autonomia técnica fica na Grécia (dados, ferramentas, certificações).
| Aspeto | Situação atual | Potencial mudança com o novo acordo |
|---|---|---|
| Local de construção | França com blocos construídos na Grécia | Construção completa do casco em estaleiros gregos |
| Participação industrial | Blocos e componentes subcontratados | 30–40% incluindo sistemas e suporte |
| Transferência de tecnologia | Limitada ao trabalho atual de blocos | “Know-how” mais amplo em integração e sustentação |
| Papel estratégico | Fornecedor num programa liderado por França | Polo regional num ecossistema baseado na FDI |
Um alinhamento franco-grego de defesa mais amplo
O pacote das fragatas enquadra-se numa aproximação mais vasta, com Paris a procurar afirmar-se como parceiro de defesa “high-end” de Atenas.
Visitas recentes a Atenas do CEO da Naval Group, Pierre Éric Pommellet, e da Ministra das Forças Armadas francesa, Catherine Vautrin, apontam nessa direção. Para lá das fragatas, há sinais de interesse em cooperação em submarinos classe Barracuda e em sistemas marítimos (incluindo não tripulados).
O pano de fundo político é a renovação prevista do Acordo de Parceria Estratégica França–Grécia de 2021, que inclui assistência mútua. Uma atualização do texto pode abrir caminho a projetos de I&D e a compromissos industriais de maior duração - ou, se falhar, limitar o alcance do “pacote” às fragatas.
Para Paris, ganhar este acordo consolidaria um papel de longo prazo na modernização de defesa de €25 mil milhões da Grécia. Para Atenas, reforçaria um fornecedor europeu fiável com um compromisso político claro.
Como as fragatas da classe Kimon mudam a marinha grega
A classe Kimon foi concebida para ser a espinha dorsal da frota de superfície helénica na década de 2030 e além. As versões gregas, mais pesadas e mais armadas do que as francesas, são referidas com cerca de 4.500 toneladas e ~122 m.
Com propulsão CODAD (combined diesel and diesel) de ~32 MW, atingem ~27 nós e ~5.000 milhas náuticas a 15 nós, com autonomia até 45 dias. O CODAD tende a ser mais simples e eficiente em consumo do que soluções com turbina a gás, mas o desempenho máximo e a assinatura acústica dependem muito da integração e do perfil de missão (o que pesa em guerra antissubmarina).
Armamento e sensores: um pacote compacto mas denso
A FDI HN é um navio multifunções com foco em defesa aérea e guerra antissubmarina:
- Radar AESA Sea Fire (360°)
- Sonar de casco KingKlip + sonar rebocado CAPTAS-4
- 32 células VLS Sylver A50 com Aster 30
- RAM Block 2B (21 mísseis) para defesa de ponto
- 8 Exocet MM40 Block 3C
- Torpedos MU90
- Canhão 76 mm + duas estações remotas de 20 mm
- Iscos antitorpedo CANTO (lançadores SYLENA Mk1)
Detalhe operacional importante: as células VLS são “profundidade de carregador”. Em combate, 32 mísseis podem ser muito - ou pouco - consoante a ameaça e o ritmo de disparo; e, na maioria dos cenários, não existe recarga rápida em alto-mar, pelo que doutrina e gestão de munições contam tanto quanto o número de células.
A aviação embarcada inclui um MH-60R Seahawk e um UAS Schiebel Camcopter S-100. Os drones aumentam a persistência de vigilância e reconhecimento, mas exigem equipas, manutenção e integração no ciclo de comando e controlo para não se tornarem uma “capacidade de nicho”.
Standard 2++: um passo futuro de mudança de patamar
O quarto navio, Themistoklis, está previsto em configuração “Standard II”, com preço descrito como confortavelmente abaixo de €1 mil milhão para o casco, excluindo armamento. A Marinha Grega aponta para um “Standard 2++” que poderá, mais tarde, elevar o nível da frota.
Melhorias referidas:
- 8 células Sylver A70 para míssil ELSA (>1.000 km)
- Apoio eletrónico alargado (0,5–2 GHz)
- Consola adicional para operar o S-100
- Optrónica PASEO XLR para controlo de tiro mais preciso
- Apoio por IA para deteção/classificação de ameaças assimétricas
- Ferramentas automatizadas de avaliação/atribuição de armamento
- Atualizações do SETIS para RAM Block 2B e munições guiadas de 76 mm
- Melhor integração do 76 mm no “envelope” de defesa aérea
- Sistema antidrones EAB KENTAUROS
Aqui surge um trade-off típico: quanto mais “aberto” e atualizável for o software do sistema de combate, mais fácil é evoluir; mas isso eleva exigências de cibersegurança, testes e certificação - e tende a alongar calendários.
Como isto se encaixa nos planos navais mais amplos da Grécia
As três fragatas adicionais entram numa carteira já bastante exigente:
- Novas corvetas com elevado conteúdo de construção doméstica
- Modernização das quatro MEKO 200HN, prolongando a vida útil por pelo menos +15 anos
- Substituição de lanchas de ataque rápido por até nove navios modernos
- Reabilitação de navios de patrulha (sensores/armamento)
- Desenvolvimento de embarcações para operações especiais (Agenor SOC)
Em paralelo, decorrem projetos com os EUA, incluindo reativação e modernização de quatro patrulhas costeiras classe Island (entregues em janeiro de 2025). A indústria grega também trabalha numa plataforma marítima não tripulada de vigilância semi-fixa, com cerca de 70 empresas envolvidas e 23 contratos industriais já assinados.
Um investimento de €15 milhões em cinco anos pretende reforçar a capacidade local. Na prática, este montante é mais “semente” do que transformação: para absorver integração de sistemas e testes, o gargalo tende a ser mão de obra especializada, processos e certificação - não apenas máquinas.
Apostas estratégicas no Mediterrâneo Oriental
Por trás do pacote industrial está um cálculo estratégico no Egeu e no Mediterrâneo Oriental: disputas de espaço aéreo, zonas marítimas, energia e um padrão de atividade naval intenso por parte da Türkiye (Turquia) e de outros atores.
As Kimon, apoiadas por 24 Rafale e por uma arquitetura de defesa aérea e antimíssil (“Escudo de Aquiles”), são apresentadas como núcleo de uma modernização até 2036 avaliada em €25 mil milhões. A Grécia tem mantido despesa de defesa em 2% do PIB ou acima, entre as mais elevadas da NATO.
Um núcleo de frota com sete ou oito navios da classe Kimon daria à Grécia uma força de superfície “high-end” e em rede, capaz de operar em mares contestados, longe das suas próprias costas.
Esse “valor de aliança” é concreto: escoltas, defesa aérea de área, guerra antissubmarina e presença sustentada são capacidades que a NATO e a UE tendem a solicitar com regularidade.
Termos-chave e o que significam para não especialistas
Vários termos técnicos aqui têm impacto direto na eficácia e na sobrevivência.
Radar AESA: O Sea Fire usa AESA (Active Electronically Scanned Array). Em vez de uma antena rotativa, o feixe é orientado eletronicamente, permitindo seguir muitos alvos, reagir mais depressa e manter melhor desempenho sob interferência, enquanto apoia vigilância e guiamento.
Células de lançamento vertical: Sylver A50/A70 são “poços” no convés para mísseis (Aster 30, ELSA). Permitem lançamentos rápidos em 360° sem manobrar o navio - crucial contra salvas e ataques simultâneos. O tamanho (A50 vs A70) limita que mísseis cabem e quanto crescimento futuro é possível.
Frota homogénea: Ter mais navios da mesma classe simplifica treino, peças, manutenção e atualizações. Também diminui o risco de “ilhas tecnológicas” incompatíveis, mas aumenta o impacto de um problema sistémico (uma falha de software ou um componente crítico afeta vários navios).
Cenários potenciais se a Grécia disser sim - ou não
Se Atenas avançar, os estaleiros gregos podem ganhar peso como nó regional para trabalho associado à FDI (produção, modernizações e sustentação), sobretudo se surgirem novas exportações. Isto tende a criar emprego qualificado - mas só se o contrato definir claramente tarefas, acesso técnico e responsabilidades (caso contrário, a percentagem industrial muitas vezes fica “no papel”).
Se a proposta ficar pelo caminho ou for reduzida, a Grécia pode procurar soluções intermédias: navios usados, classes adicionais ou plataformas menores. Ganha “cascos” mais depressa, mas arrisca um inventário fragmentado e custos operacionais superiores ao longo da vida (mais linhas logísticas, mais formações, mais contratos).
O calendário é determinante: recapitalizar frotas mede-se em décadas, e alguns anos de atraso podem abrir lacunas difíceis de fechar quando os vizinhos já fixaram os seus próprios ciclos de modernização.
Neste momento, a decisão sobre três Kimon adicionais é tanto sobre navios como sobre indústria, soberania de manutenção e confiança estratégica - quem constrói, quem integra, quem sustenta e quem responde quando o ambiente fica mais duro.
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