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Drone transforma-se em radar: MQ-9B prepara-se para atualização AEW&C

Homem com fones e tablet aponta ao lado de um drone no solo, ao pôr do sol.

Nos bastidores, grandes empresas da defesa estão a preparar o MQ-9B SkyGuardian para se tornar um nó de radar aéreo, ampliando os “olhos e ouvidos” das forças aéreas sem colocar pilotos em risco. O objetivo é reforçar a vigilância e a defesa do espaço aéreo - sobretudo em zonas de maior ameaça e onde a cobertura tem de ser contínua.

MQ-9B passa de caçador a guardião

A família MQ-9 é conhecida por missões de informações, vigilância e reconhecimento e, em certos casos, ataque: longas permanências em órbita, sensores a recolher informação e decisões tomadas por operadores em terra. Esse papel está a mudar.

A General Atomics (fabricante do MQ-9B) está a colaborar com a Saab para integrar uma capacidade de Airborne Early Warning and Control (AEW&C) (Alerta Aéreo Antecipado e Controlo). Na prática, o drone deixa de ser “apenas” uma plataforma de sensores e aproxima-se do conceito de um AWACS - embora com limitações naturais de dimensão, energia e comunicações.

A ambição é transformar o MQ-9B num sentinela com radar, capaz de detetar ameaças e injetar dados em redes mais vastas de defesa aérea.

Plataformas AEW&C tripuladas (como o E-3 ou aeronaves equipadas com Erieye) são dispendiosas, requerem equipas e manutenção significativas e existem em quantidades reduzidas. Um drone com grande autonomia pode assumir parte da vigilância e libertar aeronaves tripuladas para missões em que a presença humana a bordo (gestão tática e decisão imediata) tem mais peso.

Como funciona, na prática, o alerta aéreo antecipado num drone

AEW&C é, essencialmente, radar + processamento + distribuição rápida da “imagem aérea”. No caso do MQ-9B, prevê-se adaptar a experiência da Saab em radares, incluindo a família Erieye com radar AESA (active electronically scanned array), às limitações do drone.

A ideia é direta: o MQ-9B transporta um radar para vigiar grandes volumes de espaço aéreo, detetar cedo e seguir vários alvos em simultâneo. Uma parte do processamento pode ocorrer a bordo para reduzir o tráfego de dados; o núcleo da informação segue por ligações seguras para centros de comando.

Dois aspetos práticos são determinantes:

  • O alcance “útil” varia muito com a altitude: devido à curvatura da Terra, a linha de vista a partir de ~12 km de altitude dá, regra geral, um horizonte na ordem dos ~400 km para alvos baixos - e menos para mísseis/aviões a muito baixa altitude.
  • Existem compromissos de carga útil e energia: um radar AEW&C exige potência elétrica, arrefecimento e espaço; isso tende a penalizar a autonomia, a altitude de operação ou a integração de outros sensores.

De jatos rápidos a drones hostis e mísseis de cruzeiro, a promessa é detetar mais cedo e partilhar a situação aérea antes de a ameaça alcançar forças amigas.

Interligação em rede: a arma secreta por detrás da modernização

O radar só tem verdadeiro valor quando a informação chega a tempo a quem pode agir. O MQ-9B já opera com comunicações em linha de vista e por satélite; com AEW&C, essas ligações passam a sustentar cadeias “sensor-para-atirador”.

Na prática, o ciclo é o seguinte:

  • O MQ-9B deteta e acompanha alvos (por exemplo, um míssil em aproximação).
  • A classificação e a trilha são distribuídas em rede para centros de comando e plataformas próximas (via gateways e padrões usados por aliados).
  • O sistema melhor colocado (caças, defesa antiaérea, navios) reage com base nessa imagem.

Isto encaixa na lógica NATO de defesa aérea distribuída: em vez de poucos nós extremamente valiosos, vários nós ajudam a manter a cobertura mesmo sob pressão.

Que ameaças consegue ver o MQ-9B AEW&C?

O pacote AEW&C aponta ao “céu congestionado”: drones baratos, mísseis de cruzeiro e aeronaves tripuladas podem coexistir na mesma área e saturar sensores tradicionais.

Espera-se apoio em:

  • Mísseis guiados: deteção mais precoce de mísseis de cruzeiro (incluindo perfis a baixa altitude), embora o voo rente ao mar/terreno continue a ser o cenário mais exigente.
  • Drones hostis: seguimento de alvos pequenos e numerosos, com vantagem na persistência (manter vigilância durante horas).
  • Caças e bombardeiros: alerta de intrusões, voos de sondagem e alterações de padrão junto de fronteiras e rotas sensíveis.
  • Alvos marítimos: consoante os modos do radar, vigilância de área sobre o mar - útil em aproximações costeiras e rotas de tráfego.

O principal ganho é sustentar uma imagem coerente de muitos alvos em simultâneo, em vez de “ir atrás” de um de cada vez.

Porque colocar AEW&C num drone?

Para forças aéreas com orçamentos mais apertados, AEW&C tripulado representa um investimento pesado: tripulações especializadas, aeronaves grandes, treino, manutenção e disponibilidade limitada. O resultado tende a ser poucas plataformas para demasiada área.

Um conceito assente em drones traz vantagens claras, com alguns “poréns”:

Aspeto Aeronave AEW&C tripulada Conceito MQ-9B AEW&C
Risco para o pessoal Elevado perto de espaço aéreo contestado Sem tripulação a bordo, menor risco humano e político
Custo de operação Elevado (combustível, tripulação, manutenção) Em muitos casos mais baixo, mas o radar e a integração continuam caros
Autonomia Tipicamente 8–12 horas em estação 24+ horas em condições favoráveis (pode baixar com cargas pesadas)
Dimensão da frota Limitada, normalmente de um dígito Potencial para mais unidades e maior rotatividade

Na Europa (incluindo Portugal), existe ainda uma realidade operacional: integrar drones de grande porte em espaço aéreo civil implica regras, certificação e coordenação (rotas, separação, contingências). Isso pode restringir onde e como se opera em tempo de paz - mesmo que a tecnologia esteja disponível.

Implicações para o combate aéreo futuro

Colocar radar AEW&C em plataformas não tripuladas reforça a tendência para operações distribuídas: menor dependência de poucos “alvos grandes” e mais sensores dispersos por várias plataformas.

Isto liga-se aos conceitos de equipas tripulado-não tripulado: um caça pode permanecer mais discreto (menos emissões), enquanto um nó externo fornece deteção e trilhas. Em teoria, melhora a sobrevivência e complica o planeamento do adversário, que deixa de poder “cegar” a força abatendo uma única aeronave AEW&C.

Com sensores externos, caças podem reduzir emissões e gerir melhor quando “aparecem” no espectro eletromagnético.

Termos-chave que vale a pena clarificar

AEW&C (airborne early warning and control): aeronaves com radar e sistemas de comando que detetam alvos a grande distância e ajudam a coordenar a resposta (interceções, alertas, prioridades). Num drone, parte do “control” pode ser mais limitada e depender mais de centros de comando em terra.

Radar AESA (active electronically scanned array): radar com múltiplos módulos que direcionam feixes eletronicamente (sem movimento mecânico principal). Vantagens típicas: alternância rápida entre alvos, maior flexibilidade de modos e melhor resistência a algumas formas de interferência - embora não seja imune à guerra eletrónica.

Cenários possíveis e riscos

No contexto europeu e atlântico, um MQ-9B AEW&C poderia reforçar a vigilância em corredores aéreos e marítimos, apoiar a proteção de infraestruturas críticas e melhorar a consciência situacional em operações conjuntas - particularmente relevante para espaços amplos como as abordagens ao Atlântico e áreas insulares.

As vulnerabilidades mantêm-se:

  • Não é furtivo: num conflito de alta intensidade, precisa de distância, altitude, escoltas e gestão rigorosa do risco.
  • Dependência de comunicações: jamming, degradação de satélite, interferência e ciberataques podem reduzir a utilidade do sistema.
  • Limites físicos do radar: alvos muito baixos continuam difíceis; não há “milagres” contra a curvatura da Terra e o clutter.

Ainda assim, a proposta é nítida: mais persistência, mais nós de sensor e melhor cobertura por hora de voo - sem multiplicar tripulações - num contexto em que orçamentos e a saturação do espaço aéreo empurram as forças para fazer mais com menos.

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