O que “trabalhar o core” realmente quer dizer (e porque facilita tudo)
Pense no core como o “cinto de segurança” do corpo: quando não segura, o resto do sistema compensa. É aí que surgem lombar demasiado arqueada, costelas “abertas”, ombros a subir e respiração curta. Treinar o core não é andar a contar repetições - é desenvolver estabilidade e coordenação para correr, carregar sacos, subir escadas, empurrar e rodar sem descarregar tudo na lombar.
E core não é só “six-pack”. Envolve músculos profundos do tronco e da bacia que estabilizam a coluna e fazem a ponte de força entre pernas e braços. Neste artigo, o foco é sobretudo:
- Anti-extensão: não deixar a lombar arquear (costelas “fechadas”).
- Anti-rotação: não permitir que o tronco rode (bacia estável).
Regra prática: se a respiração prende, o pescoço fica rijo ou a lombar começa a “mandar” no movimento, já saiu do core e entrou em compensação. Prefira menos amplitude/tempo, mas com controlo.
Antes de começar: duas regras para evitar dores
- Respire e use a expiração para “travar” o tronco. Inspire pelo nariz; na parte mais difícil, expire devagar e sinta as costelas a descer. Pense em “ligar” o abdómen a 20–30% (tensão moderada). Evite prender a respiração (manobra de Valsalva), sobretudo se tem hipertensão, glaucoma, hérnias, ou se fica tonto com facilidade.
- Dor aguda é sinal para parar. Procure esforço no abdómen/oblíquos/glúteos, não pontadas na lombar, virilhas ou pescoço. Se houver formigueiro, dor a irradiar (perna/braço), perda de força, ou dor que piora após o treino, procure avaliação (médico/fisioterapeuta).
Frequência prática: 2–3x/semana para começar. Se já treina, encaixe isto como um bloco de 8–12 minutos no fim. Regra simples: acabe cada série com controlo (se a posição “se desfaz”, pare). Trabalhe a ~6–8/10 de esforço: desafiante, mas ainda limpo. Entre séries, descanse o suficiente para voltar a fazer “bem” (normalmente 20–60 s).
10 exercícios abdominais que quase toda a gente consegue fazer
1) Respiração 360º (com brace suave)
Deite-se com os joelhos fletidos e as mãos nas costelas. Inspire “para os lados e para trás” (como um cinto a expandir). Ao expirar, feche ligeiramente o abdómen baixo (como um fecho éclair) e deixe as costelas descerem em direção à bacia. Se os ombros sobem, baixe a intensidade e prolongue a expiração. Objetivo: sentir a caixa torácica a “assentar”, não a barriga a saltar.
2) Inclinação pélvica (posterior) no chão
Na mesma posição, encontre a coluna neutra e depois encoste a lombar ao chão sem forçar. É um movimento pequeno e controlado. Se der cãibra nos flexores da anca, reduza a amplitude e volte a liderar com a expiração (costelas a “fechar”). Dica: imagine “aproximar o púbis do umbigo” sem apertar os glúteos ao máximo.
3) Dead bug (versão fácil)
Braços ao teto, joelhos a 90º. Toque um calcanhar no chão alternando, mantendo costelas para baixo e lombar estável. Se a lombar descolar, encurte o alcance e abrande (muitas vezes resolve): 2–3 s a descer, 2–3 s a subir. Se mesmo assim “abre” as costelas, comece com apenas um braço a mexer ou com o calcanhar a tocar num ponto mais perto do corpo.
4) Ponte glútea com expiração
Eleve a bacia, mantenha 2–3 s e expire para controlar as costelas. Empurre o chão com os calcanhares e mantenha a bacia nivelada. Evite subir tanto que a lombar volte a arquear; uma ponte bem feita sente-se mais nos glúteos do que na lombar. Se sente os isquiotibiais (parte de trás da coxa) a dominar, traga os pés ligeiramente mais perto.
5) Bird-dog (quadrúpede)
Em quatro apoios, estenda braço e perna opostos sem deixar a anca rodar. Pense em alcançar (comprimento), não em levantar demasiado alto. Pausa curta (1–2 s) no fim. Se estiver a abanar, reduza o alcance e distribua melhor o peso por mãos e joelhos; “empurre” o chão com a mão de apoio para estabilizar a omoplata.
6) Prancha inclinada (mãos num banco/mesa)
Corpo em linha, glúteos ativos, queixo neutro. Comece mais alto (mesa) e vá descendo (banco/sofá firme) quando conseguir manter costelas “fechadas” e lombar neutra. Regra útil: prefira 10–30 s bem feitos a 60 s com compensações. Se sente demasiado os ombros, “empurre o chão” e afaste as orelhas dos ombros; se o pulso incomoda, use punhos fechados ou apoie as mãos numa superfície ligeiramente mais alta.
7) Prancha lateral com joelhos no chão
Cotovelo por baixo do ombro, joelhos fletidos, ancas sobem. Deve sentir oblíquos e glúteo lateral, sem “esmagar” a lombar. Mantenha o tronco comprido e o ombro ativo (não colapse). Se dói no ombro, aproxime os joelhos para encurtar a alavanca e reduza o tempo.
8) Marcha de glúteo (ponte com alternância)
Em ponte, levante um pé de cada vez, devagar. Objetivo: bacia estável, sem balançar. Se a lombar “aparece”, baixe um pouco a altura da ponte, abrande e faça uma pausa de 1 s com o pé no ar. Um bom sinal é conseguir dizer uma frase curta sem prender a respiração.
9) Elevação de joelho sentado (controlo, não balanço)
Na beira de uma cadeira, segure ao lado do assento. Eleve um joelho de cada vez com expiração, sem se atirar para trás nem encolher o pescoço. Para progredir: dois joelhos juntos 1–2 s. Se sente mais a anca do que o abdómen, use menos amplitude, vá mais devagar e mantenha as costelas a descer na expiração.
10) Pallof press (com elástico)
Elástico preso de lado num ponto fixo muito sólido (evite maçanetas, cadeiras leves e varões instáveis). Traga as mãos ao peito e empurre à frente resistindo à rotação. Afaste-se para aumentar a tensão, mas sem torcer nem “fugir” com as costelas. Segurança: confirme se o elástico não está ressequido/cortado, não o estique ao limite e posicione-se de forma que, se escorregar, não atinja a cara.
Um bloco rápido (8 minutos) para fazer em casa
Escolha 4 exercícios e faça 40 s trabalho + 20 s descanso, por 2 voltas. Corte a série assim que perder a posição das costelas/lombar (qualidade > tempo). Se estiver a começar, use 30 s + 30 s na primeira semana para garantir técnica.
Uma combinação equilibrada: dead bug + prancha inclinada + bird-dog + prancha lateral (joelhos). Num dia mais “pesado” (muita carga/pressão na lombar), troque a prancha por respiração 360º e inclinação pélvica.
| Objetivo | Exercícios que ajudam | Sinal de que está no caminho certo |
|---|---|---|
| Estabilidade lombar | Dead bug, bird-dog, Pallof press | Lombar quieta, movimento controlado |
| Postura e controlo das costelas | Respiração 360º, prancha inclinada | Pescoço relaxado, costelas descem |
| Força lateral (oblíquos) | Prancha lateral, Pallof press | Menos “abanar” da bacia |
Pequenos erros comuns (e como corrigir sem drama)
Se sente o pescoço na prancha, quase sempre é por cabeça projetada e ombros “desligados”. Olhe ligeiramente à frente, mantenha o queixo neutro e empurre o chão (ombros longe das orelhas). Se continuar a incomodar, aumente a inclinação e reduza o tempo.
Se sente a lombar no dead bug, a correção mais rápida costuma ser baixar amplitude e velocidade: calcanhar toca mais perto do corpo, expiração mais longa, costelas para baixo. Menos movimento com controlo vale mais do que “mais reps” com compensação.
Erro muito comum (em qualquer exercício): tentar “ganhar tempo” e acelerar. Se a técnica se degrada nos últimos 5–10 segundos, pare aí e, na próxima sessão, repita esse tempo com qualidade antes de aumentar.
FAQ:
- Qual é o melhor exercício abdominal para iniciantes? Respiração 360º e dead bug (versão fácil). Ensinam controlo do tronco e, em muitos casos, são amigos da lombar.
- Quantas repetições devo fazer? Use tempo: 20–40 s por série com técnica limpa. Comece com 2 séries; progrida com +5–10 s ou +1 série antes de complicar (ou aumentar a alavanca).
- Posso fazer abdominais todos os dias? Trabalho leve de controlo (respiração, inclinação pélvica) pode ser quase diário. Pranchas, marchas e Pallof press costumam render melhor com 2–4x/semana (deixe 24–48 h entre sessões mais exigentes).
- E se eu tiver dor lombar? Evite o que agrava e privilegie estabilidade (dead bug curto, bird-dog, Pallof press). Se a dor for aguda, persistente ou irradiar, procure um fisioterapeuta.
- Isto ajuda a “perder barriga”? Ajuda na força, postura e controlo, mas a gordura abdominal depende do conjunto (alimentação, sono, atividade diária e treino global). Um core mais forte costuma melhorar conforto e “forma” ao mover-se.
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