O que “trabalhar o core” realmente quer dizer (e porque facilita tudo)
Quando o core não faz o seu papel, o corpo arranja maneiras de compensar: a lombar acentua a curva, as costelas “abrem”, os ombros sobem e a respiração fica mais curta. Treinar o core não é fazer centenas de repetições; é desenvolver estabilidade + coordenação para correr, carregar sacos, subir escadas, empurrar e rodar sem despejar tudo na lombar.
E “core” não é apenas o “six-pack”. Inclui músculos mais profundos do tronco e da bacia que estabilizam a coluna e tornam a força mais eficaz. Na prática, vale a pena dar prioridade a:
- Anti-extensão: impedir que a lombar arqueie.
- Anti-rotação: impedir que o tronco rode.
Sem máquinas. Com consistência, boa técnica e progressões simples.
Antes de começar: duas regras para evitar dores
- Respiração primeiro, força depois. Inspire pelo nariz; na parte mais difícil, expire lentamente e sinta as costelas a descer. Pense em “ligar” o abdómen a 20–30% (tensão moderada). Evite prender a respiração (Valsalva), sobretudo se tem hipertensão, enxaquecas frequentes, ou tendência para ficar tonto.
- Dor aguda = parar. Procure o esforço no abdómen/oblíquos/glúteos, não pontadas na lombar ou no pescoço. Se houver formigueiro, dor a irradiar (perna/braço), perda de força, ou dor que piora nas 24–48 h seguintes, procure avaliação (médico/fisioterapeuta).
Frequência prática: 2–3x/semana para começar. Se já treina, encaixe isto como um bloco de 8–12 minutos no fim. Regra simples: termine a série quando a posição “se desfaz”. Trabalhe a 6–8/10 de esforço: desafiante, mas sempre com controlo.
10 exercícios abdominais que quase toda a gente consegue fazer
1) Respiração 360º (com brace suave)
Deite-se com joelhos fletidos e mãos nas costelas. Inspire “para os lados e para trás” (como se um cinto estivesse a expandir). Ao expirar, feche ligeiramente o abdómen baixo e deixe as costelas descerem em direção à bacia. Se os ombros sobem, reduza a intensidade e alongue a expiração.
2) Inclinação pélvica (posterior) no chão
Na mesma posição, encontre a coluna neutra e depois encoste a lombar ao chão sem forçar. É um movimento pequeno, como “enrolar” a bacia. Se sentir cãibra nos flexores da anca, reduza a amplitude e deixe a expiração guiar o gesto (costelas a “fechar”).
3) Dead bug (versão fácil)
Braços ao teto, joelhos a 90º. Toque com um calcanhar no chão alternadamente, mantendo as costelas para baixo e a lombar estável. Se a lombar descolar, encurte o alcance e abrande: 2–3 s a descer, 2–3 s a subir.
4) Ponte glútea com expiração
Eleve a bacia, segure 2–3 s e expire para controlar as costelas. Empurre o chão com os calcanhares e mantenha a bacia nivelada. Não suba tanto que a lombar volte a arquear: uma ponte bem executada sente-se mais nos glúteos do que na lombar.
5) Bird-dog (quadrúpede)
Em quatro apoios, estenda braço e perna opostos sem rodar a anca. Pense em ganhar comprimento, não em levantar muito. Pausa de 1–2 s no fim. Se está a abanar, reduza o alcance e distribua bem o peso por mãos e joelhos.
6) Prancha inclinada (mãos num banco/mesa)
Corpo alinhado, glúteos ativos, queixo neutro. Comece mais alto (mesa) e vá descendo (banco/sofá firme) quando conseguir manter as costelas “fechadas”. Regra prática: 10–30 s bem feitos valem mais do que 60 s com compensações. Se sente demasiado os ombros, empurre o chão e afaste as orelhas dos ombros.
7) Prancha lateral com joelhos no chão
Cotovelo por baixo do ombro, joelhos fletidos, ancas sobem. Deve sentir oblíquos e glúteo lateral, sem “esmagar” a lombar. Ombro ativo (não colapse). Se dói no ombro, aproxime os joelhos para encurtar a alavanca.
8) Marcha de glúteo (ponte com alternância)
Em ponte, levante um pé de cada vez, devagar. Objetivo: bacia estável, sem oscilar. Se a lombar “aparece”, baixe um pouco a altura da ponte, abrande e faça uma pausa de 1 s com o pé no ar.
9) Elevação de joelho sentado (controlo, não balanço)
Na beira de uma cadeira, segure ao lado do assento. Eleve um joelho de cada vez com expiração, sem se atirar para trás nem encolher o pescoço. Para progredir: dois joelhos juntos 1–2 s. Se sente mais a anca do que o abdómen, faça menos amplitude e mais devagar.
10) Pallof press (com elástico)
Elástico preso de lado num ponto fixo muito sólido (ideal: âncora de porta própria ou estrutura fixa; evite maçanetas, cadeiras leves e varões instáveis). Traga as mãos ao peito e empurre à frente resistindo à rotação. Afaste-se para aumentar a tensão, sem torcer nem “fugir” com as costelas. Segurança: verifique fissuras/ressequimento do elástico e posicione-se para que, se escorregar, não vá em direção à cara.
Um bloco rápido (8 minutos) para fazer em casa
Escolha 4 exercícios e faça 40 s trabalho + 20 s descanso, por 2 voltas. Pare a série assim que perder a posição das costelas/lombar (qualidade > tempo).
Uma combinação equilibrada: dead bug + prancha inclinada + bird-dog + prancha lateral (joelhos). Num dia mais “pesado” (muita carga/pressão na lombar), troque a prancha por respiração 360º e inclinação pélvica.
| Objetivo | Exercícios que ajudam | Sinal de que está no caminho certo |
|---|---|---|
| Estabilidade lombar | Dead bug, bird-dog, Pallof press | Lombar quieta, movimento controlado |
| Postura e controlo das costelas | Respiração 360º, prancha inclinada | Pescoço relaxado, costelas descem |
| Força lateral (oblíquos) | Prancha lateral, Pallof press | Menos “abanar” da bacia |
Pequenos erros comuns (e como corrigir sem drama)
Se sente o pescoço na prancha, quase sempre é por cabeça projetada e ombros “desligados”. Olhe ligeiramente à frente, mantenha o queixo neutro e empurre o chão (ombros longe das orelhas). Se ainda incomodar, aumente a inclinação e reduza o tempo.
Se sente a lombar no dead bug, a correção mais rápida costuma ser reduzir amplitude e abrandar: calcanhar toca mais perto do corpo, expiração mais longa, costelas para baixo. Menos movimento com controlo vale mais do que “mais reps” com compensação.
Erro discreto mas frequente: tentar “ganhar tempo” a prender a respiração. Se a técnica piora quando expira, diminua a dificuldade (alavanca menor, prancha mais alta) até conseguir manter controlo enquanto respira.
FAQ:
- Qual é o melhor exercício abdominal para iniciantes? Respiração 360º e dead bug (versão fácil). Ensinam controlo do tronco e, em muitos casos, são amigos da lombar.
- Quantas repetições devo fazer? Use tempo: 20–40 s por série com técnica limpa. Comece com 2 séries; progrida com +5–10 s ou +1 série antes de complicar (ou aumentar a alavanca).
- Posso fazer abdominais todos os dias? Trabalho leve de controlo (respiração, inclinação pélvica) pode ser quase diário. Pranchas, marchas e Pallof press costumam render melhor com 2–4x/semana (deixe 24–48 h entre sessões mais exigentes).
- E se eu tiver dor lombar? Evite o que agrava e privilegie estabilidade (dead bug curto, bird-dog, Pallof press). Se a dor for aguda, persistente ou irradiar, procure um fisioterapeuta.
- Isto ajuda a “perder barriga”? Ajuda na força, postura e controlo, mas a gordura abdominal depende do conjunto (alimentação, sono, atividade diária e treino global). Um core mais forte costuma melhorar conforto e “forma” ao mover-se.
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